Ano 5 - nº 17 - setembro/dezembro de 2013

OS ABSURDOS DE GROUCHO E CHICO MARX CHEGAM AO RÁDIO
Marco Aurélio Lucchetti



Em 24 de abril de 1932, estreava ao vivo Fire Chief, um programa de rádio estrelado pelo cômico Ed Wynn (1886-1966) e patrocinado pela Texaco, uma das maiores empresas petrolíferas dos Estados Unidos.
Devido aos seus mais de dois milhões de ouvintes, Fire Chief não demorou a chamar a atenção da companhia Standard Oil, de Nova Jersey, que pediu à agência de publicidade McCann Erickson a criação de um programa de rádio destinado a promover sua gasolina e óleo para motores.
Atendendo ao pedido da Standard Oil, os publicitários da McCann Erickson imaginaram Five-Star Theater, um programa diário de meia hora de duração e cuja estréia ocorreu em novembro de 1932.
Trasmitido pela National Broadcasting Company (NBC), de Nova York, para treze estações afiliadas de nove estados do Leste e do Sul dos Estados Unidos, Five-Star Theater ia ao ar de segunda a sexta-feira, das sete e meia às oito da noite e apresentava a cada dia da semana um show diferente. Um desses shows era Flywheel, Shyster, and Flywheel (1), um humorístico estrelado por dois dos Irmãos Marx, Groucho e Chico (2).
Escrito por Nat Perrin e Arthur Sheekman – nessa tarefa, eles contavam com o auxílio de George Oppenheimer e Tom McKnight – e apresentado nas noites de segunda-feira, Flywheel, Shyster, and Flywheel foi, como disse o jornalista e marxólogo Ruy Castro, “o veículo ideal para a saraivada de gags mal-humoradas de Groucho e o falso sotaque italiano de Chico” (3): nele, Groucho interpretava Waldorf T. Flywheel (4), um advogado falastrão de pouca ética, fama duvidosa e sem um único níquel no bolso; e Chico, seu assistente, o inepto Emmanuel Ravelli (5). E, a fim de contrabalançar os absurdos ditos por Flywheel e seu assistente, havia a presença da sensata secretária do advogado, srta. Dimple, interpretada pela atriz Mary McCoy.
Apesar de conseguir razoáveis índices de audiência, Flywheel, Shyster, and Flywheel não teve uma existência muito longa (6). Foram produzidos apenas vinte e seis episódios (7), levados ao ar ao vivo de 28 de novembro de 1932 a 22 de maio de 1933.
Com o fim de Flywheel, Shyster, and Flywheel, ganharam os fãs dos Irmãos Marx. Digo isso porque, se o programa continuasse a ser produzido, Groucho e Chico certamente não teriam tempo de participar de filmes e, possivelmente, duas obras-primas da Comédia, O Diabo a Quatro (Duck Soup, 1933) e Uma Noite na Ópera (A Night at the Opera, 1935), não teriam sido realizadas.



ROTEIROS REUNIDOS EM LIVRO

Em 1988, Michael Barson, que trabalhava no Copyright Office (Escritório de Direitos Autorais), na Biblioteca do Congresso americano, descobriu que os roteiros de vinte e cinco dos vinte e seis episódios de Flywheel, Shyster, and Flywheel haviam sido remetidos para aquele escritório, onde tinham ficado guardados. Ninguém sabia que esses roteiros ainda existiam; e seus copyrights não haviam sido renovados, o que significava que eles tinham caído em domínio público. No mesmo ano, os roteiros foram publicados pela Pantheon Books, uma divisão da Random House, no livro Flywheel, Shyster, and Flywheel: The Marx Brothers’ Lost Radio Show, organizado pelo próprio Barson. Então, pôde-se comprovar que os diálogos criados por Nat Perrin e Arthur Sheekman continuavam tão engraçados quanto na época em que foram escritos.

NOTAS:

(1) Inicialmente, o nome do programa era Beagle, Shyster, and Beagle.

(2) Os outros dois irmãos Marx, Harpo e Zeppo, não participavam do programa.

(3) Ruy Castro, “Os Absurdos Inéditos de Chico e Groucho”,  O Estado de S. Paulo, São Paulo, 31 de julho de 1988, Caderno 2, p. 1.

(4) Nos três primeiros episódios do programa, o personagem de Groucho se chamava Waldorf T. Beagle. A partir do quarto episóodio, ele passou a chamar-se Waldorf T. Flywheel (no episódio, foi explicado que a mudança do sobrenome ocorreu porque o sr. Waldorf havia se divorciado e voltara a usar seu “nome de solteiro”), pois um advogado de Nova York, Morris Beagle, contatou a NBC e informou que iria processar os responsáveis pelo programa, se não trocassem o sobrenome do personagem.

“(…) um advogado não concordou com o uso do seu nome no programa e informou a nossos patrocinadores que, se eles não quisessem se envolver em grande e rumoroso processo, era melhor esquecer rapidamente o nome Beagle. Ele afirmou que pessoas estranhas lhe telefonavam constantemente e perguntavam: ‘É o sr. Beagle quem está falando?’ Quando ele respondia ‘sim’, a pessoa do outro lado da linha dizia: ‘Como vai seu sócio, Shyster?’ Neste momento, o esperto trocista desligava. A queixa de Beagle era que isso não estava arruinando apenas sua saúde... mas também o exercício de sua profissão. Por isso, o nome da firma foi mudado para Flywheel, Shyster e Flywheel; e conseqüentemente, o programa passou a chamar-se Flywheel, Shyster, and Flywheel.”
Groucho Marx,
no livro Groucho e Eu

(5) No filme Os Galhofeiros (Animal Crackers, 1930), o personagem interpretado por Chico se chama Emanuel (com um “m” só) Ravelli.

(6) O que contribuiu para a curta existência do programa foi talvez ele não ter contribuído para aumentar as vendas da gasolina e do óleo para motores fabricados pela Standard Oil.

“A única obrigação dos Marxes para com o patrocinador de Flywheel, Shyster, and Flywheel era a de dizer, ao fim de cada episódio do programa, algumas palavras amáveis sobre a gasolina Esso e o óleo Essolube. Como os comerciais ainda não eram gravados, os Marxes tinham de improvisá-los no ar; mas sua má vontade para fazer isso era tanta que as piadas a respeito dos dois produtos não deviam contribuir muito para aumentar suas vendas.”
Ruy Castro

(7) Alguns desses episódios foram inspirados nos três primeiros filmes dos Irmãos Marx: No Hotel da Fuzarca (The Cocoanuts, 1929), Os Galhofeiros (Animal Crackers, 1930) e Os Quatro Batutas (Monkey Business, 1931).