Ano 5 - nº 17 - setembro/dezembro de 2013

O DIABO A QUATRO, UMA COMÉDIA ESTONTEANTE
Georges Sadoul



A mais estonteante obra dos Irmãos Marx é uma sátira dirigida contra o facismo e a guerra. Como o cineasta Leo McCarey não se opõe a estes dois males, pode-se pensar que os Marxes sejam os autores de O Diabo a Quatro.
Piadas famosas: um Parlamento unânime dançando e cantando, ao som de árias de óperas e blues: “Queremos a guerra”; Groucho, no papel de um general bigodudo, disparando uma metralhadora e, depois, ouvindo dizerem: “Você atirou em suas próprias tropas”, e replicando: “Tome aqui cinco dólares e guarde isso em segredo”; Harpo tirando do bolso um maçarico aceso e uma tesoura, com a qual corta charutos, paletós, chapéus etc.; Harpo, cavaleiro da época de George Washington, seduzindo uma bela moça, após o que vemos, lado a lado, um par de sapatos de saltos altos, um par de botas e as quatro ferraduras do cavalo; a luta com o obus que atravessa periodicamente um cômodo, até que Groucho baixa uma cortina; o side-car que serve de carro ao Presidente Groucho: ora o side-car parte sozinho, ora a motocicleta; apelo ao mundo, que faz acorrerem (montagem de cinejornais) atletas, mergulhadores, canoeiros, elefantes, girafas, gorilas, golfinhos etc.; a bilionária em vestido de noite, constantemente confundida por Groucho; a cena diante do espelho falso, na qual Groucho descobre não apenas um, mas dois sósias de camisolão e touca de algodão; a entrada do ditador anunciada pelas trombetas, moças atirando flores, espadas erguidas, e Groucho que, chegando descomposto pelos fundos, pergunta: “Quem é que estão esperando?”
As primeiras cenas têm alguns pontos fracos; porém, o ritmo do filme vai num crescendo, e a grande luta final pode ser qualificada de “genial”.



Este texto foi transcrito do livro Dicionário de Filmes (Dictionnaire des Films, tradução de Marcos Santarrita & Alda Porto, Porto Alegre, L&PM, inverno de 1993, pp. 119-120), de Georges Sadoul