Ano 5 - nº 17 - setembro/dezembro de 2013

O DIABO A QUATRO, O FILME MAIS INSPIRADO DOS IRMÂOS MARX
Salvyano Cavalcanti de Paiva



O veterano crítico Georges Charensol chamou os Irmãos Marx de “demiurgos da comédia”. E O Diabo a Quatro (Duck Soup, 1933), que é tido por muita gente como o filme mais inspirado e mais arrasador dos Irmãos Marx, comprova isso.
O historiador Francesco Pasinetti considerava as extravagâncias de Groucho, Chico, Harpo e Zeppo sem paralelo entre os comediantes de sua época, incluindo-se, na relação, Buster Keaton, Laurel & Hardy (O Gordo & O Magro), Harold Lloyd e Eddie Cantor. Comediantes de “acentos” surrealistas. Tinha razão Pasinetti: mais que surrealistas, os Marxes possuíam aquele sabor duradouro, extemporâneo. Eis aqui a prova: produzido há quarenta anos, exatamente, O Diabo a Quatro tem mais atualidade social do que a mais recente notícia política internacional, é mais espontâneo e coerente do que qualquer encenação da realidade. Isso somente demonstra a genialidade e o caráter fabuloso desses reis do nonsense.
O mundo irreal dos Irmãos Marx se interpenetra e integra no mundo real, neste como em alguns filmes, inclusive o mais genial de todos, o inesquecível Uma Noite na Ópera (A Night at the Opera, 1935). Daí, podermos falar de sátira, de comédia, de crítica social, ao fazer referência ao quarteto. O inverossímil se torna veraz, manipulado pelos Marxes. E O Diabo a Quatro chega às raias do irresistível. A crítica aos regimes políticos ridículos das pequenas repúblicas subdesenvolvidas... e à espionagem internacional é séria e virulenta, mas nunca se fez um filme em que a guerra se transformasse de flagelo em palhaçada. (...)
As piadas orais, “piadas semânticas”, por assim dizer, se multiplicam e extrapolam do contexto do filme para uma realidade universal. Os diálogos incríveis entre Groucho e Margaret Dumont, Groucho e Chico ou os monólogos de Chico com o silêncio atroz de Harpo são impagáveis. Para quem sabe Inglês, ainda melhor: veja-se e escute-se, por exemplo, quando os dois últimos vão penetrar numa casa e há um jogo de palavras entre toque a campainha e aperte o botão. (...) E há um momento frenético, quando Chico e Harpo se disfarçam de Groucho e o trio se posta diante de um espelho quebrado... A cena só tem paralelo no qüiproquó do roubo do colar de No Hotel da Fuzarca (The Cocoanuts, 1929) e do camarote superlotado de Uma Noite na Ópera.
O cineasta Leo McCarey pouco teve a dirigir neste cinedrama de Bert Kalmar e Harry Ruby. As situações, interpretadas pelos Marxes, resultaram naquele tipo de cinema para o qual a definição mais feliz sempre foi a de screwball.



Este texto foi transcrito do jornal O Globo (Rio de Janeiro, 12 de setembro de 1973)