Ano 5 - nº 17 - setembro/dezembro de 2013

O CANTO DE CISNE DOS IRMÃOS MARX
Sérgio Augusto



Em sua autobiografia (Groucho and Me, Nova York, Dell, 1959), Groucho Marx define Uma Noite em Casablanca (A Night in Casablanca, 1946) como “seu canto de cisne no Cinema”. Tinha boas razões para desconsiderar sua última e fugaz aparição ao lado de Harpo e Chico – Loucos de Amor (Love Happy, 1950) –, fiasco que a posteridade preferiu guardar como uma relíquia de Marilyn Monroe, que nele fazia uma ponta (...). O pior é que a comédia anterior, Casa Maluca (The Big Store, 1941), era ainda mais chinfrim que Uma Noite em Casablanca, se é que isso pode servir de consolo.
Quase sempre “esquecido”, como se dele se envergonhassem não apenas os seus autores mas também os marxólogos em geral, Uma Noite em Casablanca só parece ter encontrado, na época, um defensor de peso: James Agee, crítico do semanário The Nation. Mas até ele reconheceu estar diante de um filme menor de Groucho & Cia. Menor, inclusive, em bilheteria. (...)
Não é lá grande coisa o repertório de piadas do filme. A mais engraçada foi, dizem, escrita por Frank Tashlin (que mais tarde dirigiria as melhores comédias da dupla Jerry Lewis-Dean Martin). Groucho informa que irá trocar os números das portas de todos os quartos do hotel. Alguém pondera: “Pense na confusão que isso vai dar.” Groucho replica: “Eu sei, eu sei. Mas pense na diversão que isso vai dar.”
Um dos solos mais notáveis de Groucho é quase que integralmente visual, exibindo-o como um Casanova às voltas com as tralhas de sua ação sedutora. Para cada novo quarto em que se mete, ele arrasta uma vitrola portátil, uma garrafa de champanhe (no balde com gelo), uma bandeja e um ramo de flores. Tudo isso de uma vez só. Com as próprias mãos.

 

Este texto foi transcrito do jornal Folha de S. Paulo (São Paulo, 7 de fevereiro de 1990, Ilustrada)