Ano 5 - nº 17 - setembro/dezembro de 2013

OS IRMÃOS MARX, GARANTIA DE HUMOR
Roberto Rios



Na década de 1930, o cinema americano chegou bem perto de uma anarquia total, devido aos Irmãos Marx. Se nunca foi completa, é porque o público da época ainda não estava preparado para algo tão revolucionário como o conceito de humor que esses comediantes davam sinais de serem capazes de realizar. Basta dizer que o Cinema em si já passava por uma violenta reforma com a chegada dos filmes falados. E os Irmãos Marx marcaram o primeiro sinal de genialidade cômica desse “novo” Cinema. Pois, se com Chaplin o humor era “pathos” e com Buster Keaton a graça estava na invenção visual, com os Marxes o Cinema conhecia a “palavra”: os trocadilhos, os diálogos rápidos e infames, a troca brilhante de insultos.
O longo silêncio da Comédia fora quebrado pelo ridículo sotaque italiano de Chico e as tiradas sarcásticas de Groucho. Nesse sentido, a mudez de Harpo (que falava na vida real) ficava mais engraçada ainda. (...)
Os Marxes chegaram ao Cinema via Broadway, depois de uma bem-sucedida carreira no vaudeville. Eram cinco (o quinto irmão Marx era o pouco conhecido Gummo); mas chegaram quatro ao Cinema, em 1929, no filme No Hotel da Fuzarca (The Cocoanuts). Entretanto, o quarto Marx, Zeppo, que era sério, ficaria muito pouco. Em 1933, com O Diabo a Quatro (Duck Soup), eles já ameaçavam virar a comédia americana de cabeça para baixo. Não fosse um pequeno problema... O público, meio desnorteado, começava a debandar. Já em  Os Quatro Batutas (Monkey Business, 1931), os Marxes tinham fracassado nas bilheterias. As pessoas “exigiam”  as subtramas sérias, o romance e os números musicais chegados na opereta. A Paramount, que já havia ameaçado antes, finalmente cumpriu sua promessa de romper o seu contrato com os Irmãos Marx.
Foi então na Metro que os Irmãos Marx viriam a realizar seu maior sucesso de público: Uma Noite na Ópera (A Night at the Opera, 1935). Apesar de ser um dos mais engraçados filmes de todos os tempos, é fácil notar que Hollywood estava disposta a agradar o espectador “normal” e policiar – senão o estilo de humor que o trio fazia – o formato dos filmes em que os Marxes apareciam. No entanto, os fãs do “marxismo” preferem esquecer o boboca romance entre o tenor Allan Jones e a soprano Kitty Carlisle e se lembrar da impagável seqüência no navio, em que pessoas não param de entrar numa minúscula cabine.

 

Este texto foi transcrito do Jornal da Tarde (São Paulo, 7 de julho de 1989, p. A–7)