Ano 5 - nº 17 - setembro/dezembro de 2013

EM FOCO: OS IRMÃOS MARX
Ruy Castro



Mesmo quem nunca viu um filme dos Irmãos Marx (os melhores são O Diabo a Quatro e Uma Noite na Ópera) é capaz de descrevê-los: Groucho é o do charuto, do bigode de tinta e das tiradas rápidas; Chico é aquele com o sotaque italiano, que se fingia de sério para tapear os outros e que tocava piano (às vezes, com um dedo só); e Harpo era o mudinho que se comunicava através de uma buzina, tocava harpa e perseguia todas as louras em cena. Juntos, eles produziram, entre 1929 e 1949, as comédias mais engraçadas e devastadoras da História do Cinema.
Diante da insanidade de muitas seqüências dos filmes dos Irmãos Marx, em que cenários inteiros eram destruídos e em que os coadjuvantes saíam completamente desmoralizados de cena (principalmente Margaret Dumont, uma espécie de quarta irmã Marx), há quem se pergunte se Harpo, Chico e Groucho eram daquele jeito na vida real. Eram. De muitas maneiras, os tipos que eles criaram no Cinema eram apenas extensões de suas personalidades. Nada de espantar, considerando-se que eram filhos de um alfaiate chamado Samuel Marx, famoso em Nova York no começo do século por nunca ter usado fita métrica (sabem quantos dos seus ternos saíam com uma perna da calça mais curta do que a outra ou uma manga do paletó mais longa do que a outra? Todos).
Longe das câmeras, Groucho era o mesmo sujeito brilhante, rápido e intelectualizado que parodia nos filmes. Era amigo de Bernard Shaw e T. S. Eliot (...). Casou-se várias vezes, principalmente com suas secretárias; e morreu em 1977, aos 86 anos.
Chico, que morreu em 11 de outubro de 1961, aos 74 anos, deixou as várias fortunas que ganhou em todas as mesas de cartas, dados, sinucas e roletas dos Estados Unidos. Exatamente como nos filmes. Chico jogava bem, trapaceava melhor e tinha uma cabeça incrível para números e cálculos complicados. (...)
De todos, foi Harpo quem levou a vida mais divertida. Ele (...) freqüentou o círculo cultural mais sofisticado de Nova York: o que compunha a famosa “mesa-redonda” do Hotel Algonquin, formada por brilhantes jornalistas, poetas e teatrólogos como Dorothy Parker, Franklin P. Adams, Robert Benchley, Alexander Woollcott, George S. Kaufman, Heywood Broun, Harold Ross e outros que não perdiam a oportunidade de trocar um amigo por uma piada. (..) Quando lhe perguntavam o que tinha  feito para ser adotado por aqueles intelectuais, Harpo respondia: “Eles precisavam de alguém que se contentasse em ouvir.”
(...)
Harpo morreu em 28 de setembro de 1964, aos 75 anos, a tempo de ver o renascimento do interesse pelos filmes dos Irmãos Marx. O que, na época de seu lançamento, não passava de simples comédias absurdas, interpretadas por um grupo de atores de vaudeville, entrou finalmente para a História do Cinema como “uma antologia de cinismo e nonsensee “hilariante apologia do anarquismo”.

 

Este texto foi transcrito, com algumas correções, do jornal Folha de S. Paulo (São Paulo, 20 de novembro de 1983, Ilustrada, p. 63)