Ano 5 - nº 17 - setembro/dezembro de 2013

DE ARTISTAS DE VAUDEVILLE A CÔMICOS DE CINEMA
Eduardo Souza Lima



Groucho, Harpo, Chico e Zeppo embarcam como clandestinos num transatlântico. Passam a viagem inteira fugindo do capitão, com quem se comunicam por meio de bilhetes desaforados. Zeppo se apaixona pela filha de um ricaço, Groucho se mete com a namorada de um gângster. Ao chegarem ao porto, roubam o passaporte de Maurice Chevalier – que não aparece no filme –, para tentar desembarcar. A história continua na mansão do já citado ricaço e termina de forma alucinada.
Esta é a “trama” de Os Quatro Batutas (Monkey Business, 1931), filme que recebeu o título de Batutas Burlercos, quando foi exibido nos cinemas brasileiras nos anos 1930 (em 1952, foi relançado no Brasil, com o título de Turistas de Meia-Cara).
(...) No início, os Irmãos Marx eram cinco: Groucho, Chico, Harpo, Zeppo e Gummo. Nascidos em Nova York, (...) os cinco percorreram os Estados Unidos apresentando números de vaudeville, até chegarem à Broadway em 1924. I’ll Say She Is, seu primeiro espetáculo, uma revista musical, foi um tremendo sucesso de público e crítica. Em 1926, os Marxes realizaram seu primeiro e único filme mudo, o curta-metragem Humorisk. O resultado não agradou aos irmãos, e a fita sequer foi exibida.
Em 1929, já sem Gummo, os Marxes filmaram No Hotel da Fuzarca (The Cocoanuts), dirigido por Robert Florey e Joseph Santley. O filme, assim como o seguinte, Os Galhofeiros (Animal Crackers, 1930; direção de Victor Heerman), é uma transposição direta para as telas de um espetáculo dos Irmãos Marx na Broadway.
Os Quatro Batutas, dirigido por Norman McLeod, é o primeiro filme dos comediantes escrito diretamente para o Cinema. O roteiro é de S. J. Perelman, Will B. Johnstone e Arthur Sheekman (diálogos adicionais). A ele se seguiram: Os Gênios da Pelota (Horse Feathers, 1932); e O Diabo a Quatro (Duck Soup, 1933), o último produzido pela Paramount e, segundo muitos, seu melhor filme.
Em 1935, sem Zeppo, Groucho, Chico e Harpo estréiam na Metro, com Uma Noite na Ópera (A Night at the Opera). Apesar de ser outra obra-prima e catapultar de vez os Marxes ao estrelato – pelas mãos do jovem produtor Irving Thalberg –, o filme representou o início da decadência do humor do trio.
É claro que isso não aconteceu por causa da ausência de Zeppo. É que, a partir daí, os Irmãos Marx tomaram modos. O humor anárquico, demolidor e agressivo do grupo – que, diga-se de passagem, desagradava a muita gente – foi aos poucos se diluindo; e seus filmes foram ganhando mais números musicais, cenas de amor... E o pior: os irmãos abandonaram quase por completo as improvisações e passaram a seguir os roteiros à risca.
Ainda assim, Um Dia nas Corridas (A Day at the Races, 1937), Os Irmãos Marx no Circo (At the Circus, 1939), No Tempo do Onça (Go West, 1940), Casa Maluca (The Big Store, 1941) e Uma Noite em Casablanca (A Night in Casablanca, 1946) têm momentos de brilho.

 

Este texto foi transcrito do jornal O Globo (Rio de Janeiro, 20 de novembro de 1992)