Ano 5 - nº 17 - setembro/dezembro de 2013

A REVISTA O ESTRANHO MUNDO DE ZÉ DO CAIXÃO, UM FENÔMENO EDITORIAL
Rubens Francisco Lucchetti



Além de ser articulista, desenhista, cineclubista, roteirista de Cinema e de Quadrinhos, editor e autor de mais de mil e quinhentos livros, Rubens Francisco Lucchetti criou diversas revistas. Nesse artigo, ele relembra, a nosso convite, a criação e publicação de uma de suas revistas de maior sucesso.



Foi em 1966, após minha mudança para a cidade de São Paulo, que o desenhista Nico Rosso e eu iniciamos uma parceria que durou até fevereiro de 1972.
No início de nossa parceria, realizamos algumas histórias em quadrinhos avulsas, que, feitas por encomenda e com o propósito único de preencherem as páginas de diversas revistas de quadrinhos de Horror/Terror da Editora Taika, não nos agradaram nem um pouco. Essas histórias em quadrinhos, cujos enredos eram por demais comuns, estavam muito aquém do que pretendíamos realizar. Nossa intenção era renovar o Horror nos quadrinhos brasileiros, uma vez que achávamos que o gênero estava bastante desgastado. Além disso, o Nico sempre me dizia que devíamos criar uma revista só nossa. Uma revista em que fôssemos autores e editores. Mas, devo confessar, que não foi nada fácil concentrarmos nosso pensamento e nossos esforços nesse empreendimento, em razão de trabalharmos muito e não dispormos de tempo livre. Assim, foi somente depois de uma longa gestação que nasceu A Cripta.
Primeiramente, imaginamos o conteúdo dessa revista, que seria para nós uma publicação experimental. Nela, colocaríamos tudo aquilo que imaginávamos em matéria de horror em quadrinhos. Logo de início, pensamos que ela deveria ter um personagem fixo, protagonista de uma narrativa longa, seriada e realizada de modo a contar um episódio completo, com começo, meio e fim, em cada número. Já que sempre fui fascinado pelo tema do vampirismo, imaginei, de imediato, que esse personagem deveria ser um vampiro e batizei-o com o nome de Nosferatu.
Além da série Nosferatu, a revista teria histórias em quadrinhos curtas e uma novidade: frases de autores célebres abordando o fantástico. Essas frases seriam selecionadas por mim e viriam acompanhadas de uma ilustração do Nico.
Uma vez esquematizada a revista, faltava-nos o principal: o título para ela. E esse título não surgiu com facilidade. Demorou. Os dois primeiros números já estavam inteiramente desenhados, quando, num sábado de 1968, apareceu em minha casa, na Rua Catumbi, no Brás, um amigo do Rio de janeiro, o Cosme Alves Netto, que era membro de um cineclube que só exibia filmes de Horror e cujo nome era sui generis: A Cripta. Durante nossa conversa, pedi ao Cosme a autorização para usar esse nome como título da nossa publicação. Ele autorizou; e, na manhã da segunda-feira seguinte, levei a novidade ao Nico. Ele gostou do título e fez um esboço do logotipo da revista: um retângulo de cerca de 23 x 6,5 cm e com as palavras A Cripta escritas como se fossem esculpidas nas pedras de um mausoléu adornado com teias de aranha. A partir daí, o Nico concentrou-se na criação das duas primeiras capas.
Com os dois primeiros números prontos, fomos conversar com Manoel Cesar Cassoli, diretor responsável da Taika, para lhe propor a publicação de A Cripta.
O Manoel nos recebeu em sua sala. Então, o Nico, com toda a calma, retirou um pacote enorme de dentro da pasta que havia trazido e entregou-o ao Manoel, que, intrigado, olhou para nós. Em seguida, enquanto o Manoel desembrulhava o pacote, fiquei encarando-o, para saber sua reação. Primeiro, apareceu a capa. Percebi que as pupilas do Manoel se dilataram. Dali em diante, o Manoel foi vendo página por página, como se estivesse abrindo a arca de um tesouro incalculável.
Entretanto, como acontece em todas as histórias, havia um “porém”. E o “porém”, no nosso caso, era o formato de A Cripta, que era totalmente diferente do formato das demais revistas de quadrinhos publicadas na época. Dessa maneira, as máquinas impressoras não estavam adaptadas para o formato da nossa revista. Isso era um grave problema. No entanto, fomos taxativos: “Ou A Cripta é publicada da forma que planejamos, ou iremos oferecê-la para outra editora.” O Manoel pediu algum tempo para pensar e dar-nos uma resposta. Em razão de sermos praticamente colaboradores fixos da Taika, concordamos. E uns seis meses depois dessa nossa visita, vimos, enfim, a concretização do nosso sonho: o lançamento do primeiro número de A Cripta.

A Cripta (...) veio trazer uma nova dimensão ao gênero, com o propósito principal de atender a um público exigente e amante do Horror (...). Até o lançamento de A Cripta, as revistas eram pequenos gibizinhos de 32 páginas, com desenhos a traço e sem nenhum background, que não chegavam a criar a atmosfera exigida por esse gênero (...), e argumentos pobres e surrados, decalcados, na sua maioria, nas histórias de Poe ou nas banalíssimas histórias de vampiros, desgastadas pelas repetições constantes. A Cripta saiu em formato grande, capa plastificada, cinquenta páginas, desenhos em meio-tom (pela primeira vez empregados no gênero), argumentos cuidadosamente escolhidos e elaborados com planificações cinematográficas.”
Trecho do artigo “Os Quadrinhos de Terror no Brasil”, escrito pelo editor e crítico Jaime Rodrigues

Quando vi o primeiro número de A Cripta nas bancas de jornal, senti um misto de revolta e decepção. Tinham-no impresso num papel de péssima qualidade, incluído dois anúncios em seu miolo e publicado a frase do autor célebre sem o título da seção, “Antologia”. São detalhes que podem parecer insignificantes, mas eles me irritaram. Porque sempre gostei de ter minhas ideias respeitadas na íntegra. Além do mais, A Cripta fora imaginada com todo o carinho, quadrinho por quadrinho, página por página. Portanto, era inadmissível que um produtorzinho qualquer de gráfica se transformasse, de repente, em “nosso colaborador”. O Nico procurou acalmar-me – o que não foi fácil – e explicou ao Manoel o acontecido. Isso pouco adiantou, pois o segundo número, apesar de publicar a seção “Antologia” com seu título, ainda tinha um anúncio em suas páginas internas e foi impresso no mesmo papel de péssima qualidade. Em seus cinco números, A Cripta apresentou inúmeros erros. Assim, só poderíamos deixá-la de lado e criamos outra revista, O Estranho Mundo de Zé do Caixão, cuja publicação, semelhante à de A Cripta, foi uma verdadeira odisseia.
A ideia de ser publicada uma revista com o Zé do Caixão foi inteiramente minha. E essa ideia surgiu quando eu estava escrevendo um dos scripts para o programa de televisão O Estranho Mundo de Zé do Caixão, que era apresentado pelo sr. José Mojica Marins e exibido aos sábados, das 23 horas à meia-noite, pela TV Tupi de São Paulo.
Abre um parêntese.
Nessa época, segundo semestre de 1968, eu era funcionário do sr. Mojica: trabalhava como seu assessor de imprensa e escrevia os roteiros de seus filmes e os scripts do programa de tevê.
Fecha o parêntese.
Levei a ideia ao sr. Mojica e expliquei-lhe que a revista teria o mesmo formato de A Cripta e que as histórias em quadrinhos publicadas nela seguiriam o mesmo esquema do programa de tevê, ou seja, o Zé do Caixão seria o apresentador das histórias (ele não seria personagem delas). O sr. Mojica aprovou a ideia. A seguir, fui falar com o Nico, a fim de propor-lhe que desenhasse as histórias em quadrinhos de O Estranho Mundo de Zé Caixão. O Nico aceitou, de imediato, a proposta. Nem perguntou quanto iria ganhar por cada página desenhada. Para ser sincero, ele ficou entusiasmado com esse novo projeto, já que, pela primeira vez, realizaríamos histórias em quadrinhos de Horror/Terror genuinamente brasileiras, isto é, iríamos tropicalizar o gênero.
Em seguida, voltei para casa e, baseando-me num dos scripts do programa de televisão, comecei a escrever o roteiro da história do primeiro número da revista. E, em menos de dois dias, entreguei ao Nico o roteiro.
Depois, enquanto o Nico se ocupava em desenhar a história, eu esquematizei a revista, que teria 52 páginas, de capa a capa. Como o nome escolhido para a revista fora O Estranho Mundo de Zé do Caixão, cheguei à conclusão de que ela deveria trazer uma adaptação – em forma de fotonovela em capítulos – do filme de mesmo nome (o lançamento desse filme ocorreria em 25 de novembro de 1968). Então, reservei 34 páginas para a história em quadrinho; treze para a fotonovela; uma para o índice e o expediente; a segunda capa para “A Filosofia do Zé do Caixão”; a terceira capa para dois episódios fantásticos; e a quarta capa para uma breve biografia do médico e astrólogo francês Nostradamus.

“Você não viu nada e quer ver tudo. Você viu tudo, mas não viu nada. Teme o que desconhece e enfrenta o que conhece. Por que teme o que conhece e enfrenta o que desconhece? Sua mente confusa não sabe o que procura. Porque o que procura confunde a sua mente. E nasce o terror. O terror da morte. O terror da dor. O terror do fantasma. O terror do outro mundo. Agora, vê no terror que nada é terror; não existe o terror. No entanto, o terror o aprisiona. Que é o terror? Ah! Não aceita o terror porque o terror é você.”
Trecho de “A Filosofia do Zé do Caixão – Quem Sou Eu” (O Estranho Mundo de Zé do Caixão número 1)

Devo confessar que não foi nada fácil para o Nico e eu chegarmos a uma conclusão de como o Zé do Caixão deveria aparecer narrando a história. O Nico fez uma infinidade de esboços do personagem; mas não nos agradou, porque nos pareceu uma demonstração de falta de criatividade, já que era lugar-comum nas revistas de quadrinhos de Horror/Terror um monstro, uma caveira ou uma bruxa narrar as histórias.
Resolvemos, então, deixar para resolver mais tarde esse problema. Nesse meio tempo, ocupei-me da fotonovela.
E foi justamente quando eu fazia a montagem da fotonovela que me ocorreu a ideia de usar fotos do Zé do Caixão no início, no final e nos momentos de maior emoção da história. Com a ideia aprovada pelo Nico, pedi ao sr. Mojica que, vestido e maquiado como Zé do Caixão, fosse ao estúdio do fotógrafo de cena de suas fitas, o Luiz Fidélis Barreira, para uma seção de fotos que seria dirigida por mim, porque eu sabia das várias expressões que o personagem deveria ter, a fim de combinar as fotografias com as cenas que estavam sendo mostradas.



NEM TUDO É O QUE PARECE E CONVERSAS NO CEMITÉRIO

O que pensei que seria simples – a seleção dos fotogramas do negativo do filme O Estranho Mundo de Zé do Caixão para a montagem da fotonovela – mostrou-se extremamente difícil, pois, embora eu seja filho de fotógrafo, não tinha e ainda não tenho familiaridade alguma com negativos. Entretanto, nesse trabalho de seleção, contei com o auxílio imprescindível do Jean Silva (alguns anos mais tarde, com o nome de Jean Garrett, ele dirigiria diversas fitas, dentre as quais posso citar Noite em Chamas, Mulher, Mulher, A Força dos Sentidos, O Fotógrafo e Karina, Objeto de Prazer), um dos poucos amigos que fiz entre os colaboradores do sr. Mojica. Durante uns dois dias, o Jean ficou, de manhã até a noite, na minha casa, selecionando fotogramas do negativo. Em seguida, levei os fotogramas selecionados para o Fidélis e pedi que os copiasse em papel. Enquanto eu explicava o que desejava que fosse feito, percebi que o Fidélis ficava me encarando. Quando terminei de explicar, ele indagou: “Você quer só isso?”
Em virtude de dispor de pouquíssimo material para montar a fotonovela, tive de recorrer a alguns artifícios: às vezes, recortava um personagem de uma cena e colocava-o em outra; outras vezes, invertia a posição de um personagem; às vezes, pedia ao Fidélis que ampliasse ou diminuísse uma foto... E o Fidélis nunca deixou de atender meus pedidos, mas me encarava com um olhar ambíguo.
Fui inúmeras vezes, sempre nas primeiras horas da manhã, ao estúdio do Fidélis, que ficava em Pinheiros, nas imediações do Cemitério São Paulo; e acabei me tornando amigo dele.
Geralmente, íamos ao cemitério, um oásis no meio do asfalto da metrópole. E ali, tendo os mortos por companhia e desfrutando da sombra das árvores, sentávamos nos túmulos, para conversar. Os assuntos de nossas conversas eram os mais variados. O Fidélis era uma pessoa culta, serena e tinha uma personalidade marcante e absorvente; e eu, como se fosse um discípulo dele, mais ouvia do que falava. E íamos falar do assunto que me levara até ele só por volta das onze horas da manhã.
Alguns anos depois, na última vez que o vi (essa nossa conversa foi também no cemitério), o Fidélis me explicou, então, a razão daqueles olhares ambíguos que tanto me intrigavam: “É que eu o achava o maior cara-de-pau do mundo! Fazer todas aquelas exigências, pedindo-me coisas pelas quais eu nunca iria receber...!” Ao perceber minha perplexidade, concluiu: “Mas sabe o porquê de eu sempre ter atendido seus pedidos? Porque percebi que você era muito ingênuo. Entregava-se de corpo e alma a um projeto que, na verdade, eu sabia, por experiência própria, jamais iria reverter a seu favor.”



HUMILHADO E OFENDIDO

Com o primeiro número inteiramente montado, achei que o passo seguinte seria a parte mais fácil do projeto: encontrar uma editora que se interessasse em publicar a revista. Ledo engano.
A primeira editora que eu procurei foi a Prelúdio, da qual eu era coordenador de publicações e para a qual eu também fazia alguns freelances. Seus proprietários, os srs. Armando Augusto Lopes e Arlindo Pinto de Souza, gostaram da revista; entretanto, ficaram temerosos em publicá-la, por serem católicos praticantes.
Sobraçando os originais, iniciou-se, no início de dezembro de 1968, a minha peregrinação pelas demais pequenas e médias editoras de São Paulo. A segunda editora que visitei foi a Taika. O Manoel gostou do material, mas argumentou que era um projeto demasiado caro e que estava além das possibilidades financeiras da editora. Mais ou menos a mesma coisa me disse o sr. Salvador Bentivegna, da Gráfica Bentivegna, que publicava somente revistas de histórias em quadrinhos de baixo orçamento e de lançamento irregular. Fui, então, levado pelo roteirista e desenhista Gedeone Malagola à Gráfica Editora Penteado (GEP). O Gedeone era amigo pessoal de seu proprietário, o sr. Miguel Penteado. Após examinar os originais, o sr. Miguel Penteado foi curto e grosso, falando com a franqueza que o caracterizava: “Nem se você me pagasse, eu publicaria um lixo de tamanho mau gosto.” Ao deixarmos as dependências da GEP, o Gedeone se desculpou, constrangido. Aí, só me restou a última porta para bater e mendigar: a Editora Saber, do sr. Savério Fittipaldi. Embora o sr. Savério fosse um fã do Horror (inclusive, o Nico e eu já havíamos feito para a Saber o gibi A Sombra, que teve relativo sucesso), ele detestava o Zé do Caixão e informou-me logo que nunca publicaria uma revista como aquela e ainda falou: “Ah, Lucchetti, não sei como você se presta a desperdiçar seu talento com esse tipo de trabalho!”
Abre um novo parêntese.
Por volta de maio de 1969, numa de minhas visitas a Ribeirão Preto, o jornalista e radialista Wilson Roveri me disse o seguinte, quando descíamos as escadas do prédio da prefeitura: “Você está perdendo seu tempo prestando seu talento a alguém que sequer o prestigia. Tenho lido e visto muitas entrevistas do Mojica, e ele nunca cita seu nome. É como se ele fizesse tudo sozinho. Não perca seu tempo pondo azeitonas nas empadas de quem vai comê-las sozinho.”
No mesmo instante, lembrei-me das palavras do sr. Savério.
Fecha esse novo parêntese.
Voltei para casa alquebrado. Todo o meu entusiasmo havia ido por água abaixo. Sentia-me a perfeita encarnação dos personagens do romance Humilhados e Ofendidos, de Dostoievski. E, enquanto caminhava pela Avenida Celso Garcia, não me deixava contagiar pelas alegres músicas natalinas que tocavam nas lojas.
Chegando em casa, fui até meu escritório, joguei a papelada sobre a escrivaninha e caí na cadeira, que só não tombou para trás porque era de mola e seu encosto se inclinou.
Quando minha mulher, a Tereza, apareceu na porta e deparou com todas as páginas da revista esparramadas sobre a escrivaninha, olhou-me inquisitivamente.
“É isso que você está vendo”, eu lhe disse. “Perdemos nosso tempo. Ninguém quer publicar a revista, e ainda fui humilhado. Agora, como vou dizer isso ao Nico? Fui eu quem o arrastou a essa aventura maluca. Ele perdeu duas semanas de trabalho. É muita coisa!”
A Tereza não disse nada. Calmamente, organizou toda a papelada e, depois, falou:
“Vamos almoçar.”
Naquela tarde, não fiz nada, refugiei-me no sono e nos sonhos.
Na manhã seguinte, com o ânimo renovado, fiz minha derradeira tentativa. Voltei à Prelúdio, que ficava a poucos quarteirões da minha casa. Como eu tinha mais intimidade com o sr. Arlindo, falei-lhe que a publicação da revista não seria em nada uma falta de respeito a qualquer religião; ao contrário, a história nela apresentada encerrava uma moral, a moral de que nunca devemos nos aproximar das forças do Mal.
O sr. Arlindo examinou mais uma vez todo o material e disse que voltaria a falar com o sr. Armando. E eu fui para minha sala, onde tinha de escrever uma fotonovela para a revista Melodias.
Às onze e meia, quase na hora de encerrar o expediente da manhã, o sr. Arlindo me chamou e, sorrindo, informou-me que convencera o sr. Armando a publicar O Estranho Mundo de Zé do Caixão. Em seguida, perguntou-me se o número dois já estava sendo produzido, uma vez que tinha a intenção de lançar rigorosamente a cada trinta dias um novo número. “A periodicidade é a alma de qualquer publicação”, falou.
Na tarde daquele mesmo dia, o sr. Arlindo levou ao fotolito do Valtão (Fotolito Astro), que ficava na Rua Carneiro Leão, os originais da revista. E teve a infelicidade de encontrar o produtor gráfico Reinaldo de Oliveira, que havia, poucos meses antes, feito uma rápida e desastrosa passagem pela Prelúdio. Ingenuamente, o sr. Arlindo mostrou-lhe os originais, explanando detalhes de tão ambicioso projeto. Com um sorriso de mofa e sua petulância de sempre, o Reinaldo vaticinou: “Isso é uma loucura! O Mojica ‘não está com essa bola toda’. Seu público nada tem a ver com quadrinhos, porque é analfabeto. E, também, em sã consciência, nenhum editor lançaria uma publicação em janeiro. O senhor está jogando fora o seu dinheiro!”
Sem se deixar contagiar por tal profecia, o sr. Arlindo solicitou ao Valtão que preparasse os fotolitos com a máxima urgência, pois tinha a intenção de lançar a revista logo nos primeiros dias de janeiro.
Naquele final de ano, as rotativas da Prelúdio trabalharam sem descanso; e, na primeira semana de janeiro de 1969, as bancas de jornal da cidade exibiam o primeiro número de uma revista de quadrinhos totalmente diferente das demais. Seu título? O Estranho Mundo de Zé do Caixão.
A despeito de seu alto preço, NCr$ 2,00 (na época, um gibi comum custava NCr$ 0,40), a primeira impressão de vinte mil exemplares se esgotou rapidamente, sem sequer ser distribuída fora da cidade de São Paulo. Às pressas, a Prelúdio rodou mais vinte mil exemplares, para vender no resto do país.
A revista foi um sucesso, um fenômeno editorial. E aconteceu com ela talvez um fato inédito no mundo: enquanto a cada trinta dias um novo número era colocado à venda, novas impressões eram feitas de seus números anteriores.

“Nas histórias em quadrinhos de O Estranho Mundo de Zé do Caixão, Rubens Francisco Lucchetti e Nico Rosso criaram um universo terrorífico genuinamente nacional. Descortinaram, para o público, o terror do cotidiano e de conteúdo social; expuseram problemas e verdades que, naquele período, possivelmente um dos mais repressivos do governo brasileiro pós-1964, não podiam ser expostos; e revelaram que o estranho mundo de Zé do Caixão é o próprio Brasil.”
Marco Aurélio Lucchetti, na dissertação de Mestrado Lucchetti & Rosso, Dois Inovadores dos Quadrinhos de Horror

“Fui leitor assíduo da revista O Estranho Mundo de Zé do Caixão, cuja coleção ainda guardo até hoje. Naquela época, não conhecia nem o Rubens, nem o Mojica; mas já era fã de ambos...
Foi com grande surpresa que, um dia, descobri em um jornaleiro esta inesquecível revista, que misturava história em quadrinhos com fotonovela dos filmes. Para os leitores de quadrinhos, era o máximo; e, para os aficionados do Terror, nem se fala, pois a dupla Lucchetti-Rosso, famosa por várias outras revistas do gênero, era a certeza de uma boa aventura.”

Ivan Cardoso, no artigo “Um Dark Muito Antes dos Darks” (álbum O Estranho Mundo de Zé do Caixão, Porto Alegre, L&PM, verão de 1987)



O FIM DE UMA GALINHA DOS OVOS DE OURO

Lembro-me de que, quando o quarto número da revista estava indo para as bancas de jornal, cheguei, certa noite, aos estúdios do sr. Mojica e o vi conversando com o Reinaldo de Oliveira. Fiquei com a pulga atrás da orelha, dizendo para mim mesmo que “boa coisa o Reinaldo não estava fazendo ali”.
Na manhã seguinte, embora nada tivesse de fazer na Prelúdio, amanheci lá e falei aos srs. Armando e Arlindo que “havia urubu rondando o Mojica e que eles deveriam urgentemente pegá-lo num contrato.”
O sr. Armando recebeu aquela advertência com passividade e argumentou que eu estava preocupado sem motivo. Depois, ainda disse: “O Mojica é um homem íntegro e de palavra. Será incapaz de qualquer ato de traição contra nós. Ele está sabendo do monte de papel que compramos para imprimir a revista.”
Abre outro parêntese.
Recordo que, um dia, eu vi uma carreta estacionada diante do prédio da Prelúdio, na Rua Visconde de Parnaíba, no Brás. Da carreta estavam descarregando uma grande quantidade de imensas bobinas de papel. Eram bobinas de um papel especial, muito branco, que se destinava unicamente a imprimir a revista O Estranho Mundo de Zé do Caixão. Essas bobinas abarrotaram o depósito e as demais dependências da editora.
Fecha esse outro parêntese.
Mas o sr. Armando estava muito enganado...
Talvez dois ou três dias mais tarde, chegou à Prelúdio uma carta registrada em cartório, comunicando que “a partir de seu quinto número a revista O Estranho Mundo de Zé do Caixão passará a ser publicada pela Editora Dorkas, com a qual o sr. José Mojica assinou um contrato de exclusividade; e, a partir da data desta carta, a Editora Prelúdio está proibida de usar a marca ‘Zé do Caixão’. A carta vinha assinada pelo sr. Reinaldo de Oliveira, Diretor Editoral.
Naquela mesma tarde, o sr. Mojica apareceu em casa e, efusivamente, contou-me que havia assinado contrato com uma nova editora que lhe fizera “uma proposta irrecusável”. Antes de ir embora, ele informou-me que o diretor da editora, Reinaldo de Oliveira, queria falar comigo.
Eu não acreditava naquilo que ouvia. Sentia-me usurpado, miseravelmente roubado. Porque a revista era uma criação minha. Eu a idealizara e a produzira. E, para implantá-la, havia percorrido editora por editora; humilhara-me e fora humilhado. E, agora, simplesmente a tomavam de mim; e eu ainda tinha de falar com o sr. Reinaldo de Oliveira, para saber quais seriam as suas ordens em relação à revista, A MINHA REVISTA!
Se eu não fosse uma pessoa de natureza calma, teria saído distribuindo sopapos a torto e a direito. E foi por pura brincadeira, para conferir até onde ia a safadeza humana, que me dirigi aos escritórios da Dorkas, que ficavam num luxuoso edifício da Avenida Brigadeiro Luís Antônio.
Fui recepcionado por uma loura que parecia ter saído de algum Filme Noir (uma coisa eu tenho de reconhecer: o bom gosto que o Reinaldo tinha para escolher suas funcionárias). Ela conduziu-me até um conjunto de poltronas estofadas, logo na entrada de um grande salão repleto de mesas (não havia vivalma nas mesas, talvez por ser hora do almoço) e falou que o sr. Reinaldo me aguardava. Em seguida, perguntou se eu queria um café ou chá... ou um uísque. Eu respondi secamente que “não queria nada, que queria apenas saber o que o sr. Reinaldo queria comigo”. A loura desapareceu de cena, e o silêncio tomou conta do local.
O Reinaldo estava examinando alguns papéis, sentado diante de uma escrivaninha enorme, no fundo do salão.
Sentei-me numa das poltronas e pus-me a olhar em redor. Como disse o detetive particular Philip Marlowe no início do romance policial A Dama do Lago, de Raymond Chandler, “nada se podia concluir de um ambiente como aquele. Tanto podiam estar tendo um lucro fabuloso, como podiam estar falidos”.
O tempo passava lentamente; e o Reinaldo continuava lá, atrás de sua imensa escrivaninha.
Ao lado da poltrona, havia um exemplar do primeiro número da Ele Ela, uma das primeiras revistas masculinas sofisticadas a ser lançada no Brasil. Peguei o exemplar e comecei a folheá-lo.
Passaram-se mais uns quinze minutos. Foi só então que o Reinaldo se dignou a me chamar.
Ouvi dele um discurso eloquente. Disse que a Dorkas era “uma editora com um futuro promissor” e que “a transferência da revista do Mojica para a Dorkas não afetaria em nada a minha situação”. Afirmou que essa mudança “só me traria benefícios”. Porém, não me informou que benefícios seriam esses. Também não perguntei, porque sabia de antemão que todo aquele palavrório era papo furado.
Saí dali e fui me refugiar na casa do Nico Rosso. Meu parceiro e amigo estava quase apoplético. Contou-me que um tal de Reinaldo havia estado lá com um recado do Mojica dizendo para ele entregar todo o material da revista que estivesse em seu poder. Foi assim que o Reinaldo se apoderou da história em quadrinhos “Magia Negra”, que já estava pronta, e do roteiro de “A Maldição das Aranhas”.

“Quando o Lucchetti apresentou a mim e a meu irmão, o Armando, os originais da revista O Estanho Mundo de Zé do Caixão não acreditamos muito em seu sucesso. Mas, como o Zé do Caixão vinha com o apoio e a divulgação de seu programa de tevê e em virtude da confiança do Lucchetti por esse projeto, decidimos lançá-la. (...) Não posso deixar de destacar que a revista teve uma ótima vendagem: de cada um dos quatro números que publicamos foram vendidos cerca de setenta mil exemplares. Portanto, para nós, foi uma grande surpresa a transferência da revista para a Dorkas, uma editora totalmente incipiente. Na época, atribuímos essa mudança à esperteza do diretor editorial da Dorkas. Esse senhor (...) descaracterizou, por completo, a publicação: diminuiu seu formato, imprimiu-a num papel de qualidade inferior, não deu a capa para o Nico desenhar... Fez um verdade lixo! Com a agravante de acreditar que, lançando apenas um número, conseguiria formar lastro financeiro para editar os subsequentes. Para piorar ainda mais as coisas, no número seguinte, trocou de desenhista. Esse senhor ‘assassinou’ uma revista que tinha condições de ter uma existência bem longa e que poderia estar sendo publicada até hoje. ‘Assassinou’ uma revista única no gênero.”
Arlindo Pinto de Souza, numa entrevista dada a Marco Aurélio Lucchetti em 26 de dezembro de 1992

Como não poderia deixar de acontecer, nos quatro meses seguintes, a Dorkas conseguiu lançar apenas dois números da revista. Totalmente descaracterizados. E, embora o projeto, as histórias em quadrinhos, as fotonovelas e os textos adicionais fossem de minha autoria e de minha propriedade intelectual, meu nome não figurou nos créditos (ele só apareceu nos créditos de “Magia Negra”, porque a história já estava letreirada) e nem sequer constou na página do expediente. Isso me revoltou. Porque a revista era fruto de um trabalho sério e feita com amor; além do que eu muito lutara por sua publicação.
Enquanto isso, a Prelúdio se debatia, afundada numa crise financeira irreversível – crise financeira essa provocada, em grande parte, pela compra do papel para imprimir a revista do Zé do Caixão – que a levaria a pedir concordata.