Ano 5 - nº 17 - setembro/dezembro de 2013

A MELHOR FASE DOS IRMÃOS MARX
Alex Viany



Quando os Irmãos Marx chegaram à Broadway, em 1924, com I’ll Say She Is, e, cinco anos depois, ao Cinema, com No Hotel da Fuzarca (The Cocoanuts), já haviam conquistado uma platéia espalhada por todos os Estados Unidos, que vinham percorrendo palmo a palmo, palco a palco, desde 1910, data em que iniciaram sua carreira no vaudeville.
A Broadway deu-lhes, de imediato, a consagração da crítica e da intelectualidade. O primeiro marxólogo surgiu na pessoa de Alexander Woolcott, que saudou muito particularmente o falso mudo Harpo: “A meu ver, a gente devia dançar nas ruas, quando um grande palhaço chega à cidade; e pode-se dizer que esse homem é um grande palhaço.” Entre outros entusiastas do grupo estavam Ben Hecht, W. Somerset Maugham e George Bernard Shaw.
Em 1925, Harpo Marx aparecia sozinho no filme Too Many Kisses, ao lado de Richard Dix, Frances Howard e William Powell. Em 1926, um produtor chamado Al Posen reunia os Marxes em seu único filme mudo, Humorisk, que, justamente por ser mudo, só conseguiu mesmo captar a arte de Harpo – e ficou inédito.
Até Harpo, entretanto, precisava do cinema sonoro, para dar som às suas buzinas e seus desastres barulhentos. E o cinema sonoro chegou bem a tempo de registrar o segundo e o terceiro dos três estouros marxianos na Broadway: The Cocoanuts (peça de 1925 e filme de 1929) e Animal Crackers (peça de 1928 e filme de 1930).
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Para os marxólogos mais severos, a melhor fase dos Irmãos Marx no Cinema é a primeira, na Paramount, que começa em 1929 com No Hotel da Fuzarca e vai até 1933 com O Diabo a Quatro (Duck Soup). Num dos mais inteligentes artigos já escritos sobre a comédia marxiana, William Donnelly parece concordar com esse ponto de vista: “Os melhores filmes escolheram alvos em que a hipocrisia social podia ser vista de modo mais intensamente concentrado: a ópera, as ditaduras, a guerra, as universidades... Desconfio que os próprios Irmãos Marx não compreendiam plenamente a natureza de sua comédia e que seu declínio foi tão incompreensível para eles como para qualquer outra pessoa. Em seu trabalho na Broadway ou influenciado pela Broadway, estavam empenhados em provar à platéia que eram sofisticados. Tal necessidade foi desaparecendo em seu trabalho cinematográfico. Começaram a trabalhar só pelas gargalhadas. E isso não é tão fácil quanto parece.”
Generalizando, Donnelly observa que, sem os alvos condignos das hipocrisias do mundo convencional, a comédia se transforma em pura palhaçada. “Havia alvos em abundância: a religião, a política norte-americana, o patriotismo. Mas os Irmãos Marx nunca se interessaram por eles, realmente; e nós nunca vimos Groucho no papel de um bispo ou de um senador dos Estados Unidos.”
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Ainda ligado ao esquema teatral, apesar de especialmente escrito para o Cinema, O Diabo a Quatro é o único trabalho dos Irmãos Marx que se aproxima do ideal desejado por William Donnelly. Em verdade, como conta Harpo em seu livro de memórias, Harpo Speaks! (Nova York, Avon, 1961), foi uma comédia feita com raiva e muitas vezes as filmagens eram interrompidas para que todos ouvissem, pelo rádio, as arengas de Hitler, a prometer mil anos de nazismo à Alemanha e ao mundo.

 

Este texto foi transcrito, com algumas modificações e alguns acréscimos, do Jornal do Brasil (Rio de Janeiro, 13 de setembro de 1973, Caderno B, p.4)