Ano 5 - nº 16 - maio/agosto de 2013

O QUE DISSERAM SOBRE O FILME VINGANÇA DE MULHER



Roger Vadim: Tendo abarrotado de dólares os cofres do tesouro francês, enriquecendo seus produtores, lançado Brigitte ao estrelato e aberto as portas dos estúdios para os jovens diretores, E Deus Criou a Mulher deu a Raoul Lévy uma oportunidade que ele não deixaria escapar. Outro filme da dupla Bardot-Vadim era imperativo. Adquiriu os direitos de um romance francês intitulado Les Bijoutiers du Clair de Lune (escrito por Albert Vidalie, autor de As Miragens do Ocidente, entre outros livros). Era uma linda história de amor entre um salteador de estradas e uma jovem de boa família, ambientada em Alverne no século 19. Raoul, que agora fazia parte do invejado grupo de produtores de fama internacional, caiu na mesma armadilha que seus colegas, ao esquecer que não se produzem filmes da mesma forma que automóveis ou feijão enlatado. A fim de utilizar as pesetas da Columbia Pictures, retidas na Espanha, decidiu transpor a história para a Andaluzia do presente. Contratou um roteirista (...) totalmente desprovido de talento. Mas concordei com Raoul. Estava sob contrato exclusivo e não queria declarar guerra contra este homem a quem tinha como amigo leal. Estava convencido de que no curso das filmagens poderia transformar esse script banal numa boa fita. Mas isso não aconteceu. Restaram, porém, algumas tomadas magníficas do sul da Espanha. Devia ter me lembrado de que era um diretor, e não um pintor ou fotógrafo.

Luiz Carlos Merten: (Em Vingança de Mulher,) Vadim deu uma ambientação moderna à disputa de amor entre tia e sobrinha que querem o mesmo homem. Vadim, como bom comerciante da arte, sabia que tinha um atraente produto nas mãos. Ele rasga o vestido de Brigitte para mostrar suas costas, filma-a de biquíni, lança-a no lombo de um jerico e, ao desmontar, faz com que o mito se acocore de uma maneira, digamos sugestiva – na época os críticos acharam a cena obscena; mas os critérios comportamentais variam, afinal de contas.

Fernando: Os jovens críticos de Cinema e os críticos de Cinema circunspectos deitaram abaixo as barreiras que seria lógico esperar que os separassem para caírem (...) sobre Roger Vadim e lhe darem uma surra mestra. Nenhum teve coragem, a saudável coragem de deixar em casa a carga de preconceitos que, por razões diferentes, os inibe de apreciarem certos espetáculos. Por exemplo: o prodigioso espetáculo que nos oferece Vadim da Bardot ao natural, toda animalzinho impulsivo reagindo pelos sentidos; ou o espetáculo não menos prodigioso da Françoise Arnoul rolando sob o lençol com que o mesmo Vadim cinicamente envolve a sua nudez fresca e integral (Fernando refere-se a uma cena do segundo filme dirigido por Roger Vadim, Aconteceu em Veneza, realizado em 1957, logo após E Deus Criou a Mulher). Nem a Bardot, misto de mulher e de bichana, nem a Arnoul (...) abalou os jovens críticos e os circunspectos críticos de Cinema. A moral ao contrário de Aconteceu em Veneza e a moral nenhuma de Vingança de Mulher não lhes despertaram senão palavras de reprovação. No fim de contas, passaram tristemente ao lado dessas fitas, que não são muito boas mas também não são assim tão destituídas de méritos. E eu até diria que têm alguns méritos invulgares. (...) para apreciar Vingança de Mulher, teria sido necessário que uns pusessem de lado, por instantes, preconceitos morais e culturais, ou de qualquer outras espécies, e  outros tirassem os colarinhos engomados e a mascarilha de impenetrável seriedade. (...) Tomemos como exemplo a cena em que BB está sem calcinha e sem sutiã – eles estavam a secar sobre uns arbustos –, deitada sob o sol... Dizem esses críticos que há aí incipiência de idéias e simples exploração de belezas turísticas e femininas. Isto é (...) ver pouco. Que diabo! A nudez da BB faz parte do quadro! Que dizer, então, de Rubens, de Renoir, de Ticiano, de Picasso? E de Os Lusíadas (de Luís de Camões), a maior obra-prima da língua portuguesa? Fora com a passagem da Ilha dos Amores? Vadim escapou-se a certas regras. O seu jogo é descarado e sem a hipocrisia para enganar os crédulos. Aos tipos como eu, normais e sensíveis, sem complicações e sem complexos, capazes de se desintelectualizarem nos momentos próprios, Vadim oferece belas coisas que ele sabe que nós sabemos apreciar. Aos outros, que só gostam de fitas muito sérias ou de que se possam tirar muito sérias ilações, ele não oferece nada realmente... ou antes, oferece-lhes tudo... e vai fazendo certas vontades aos produtores para, no meio das suas fitas, ir fazendo as suas próprias vontades.



QUEM É QUEM

Fernando – um português fã de Cinema
Luiz Carlos Merten – crítico cinematográfico brasileiro
Roger Vadim (1928-2000) – cineasta francês