Ano 5 - nº 16 - maio/agosto de 2013

O QUE DISSERAM SOBRE O FILME VIDA PRIVADA



Brigitte Bardot: (Neste filme,) eu representava um papel que era o meu sem sê-lo de fato. Ficava muito envergonhada, às vezes, quando tinha de representar um acontecimento dramático da minha vida. Havia de mim tudo o que era superficial, tudo o que era conhecido, tudo o que já fora visto e dado como pasto para os jornais. Não havia o profundo, o porquê, o desequilíbrio e o verdadeiro desespero.

Louis Malle: Existe no filme um aspecto bem “documentário”, um documentário sobre Brigitte Bardot. Não a deixamos. A câmara a persegue.

Pierre Marcabru: (...) apesar de interessante cinematograficamente, Vida Privada capta apenas uma atriz em seus movimentos como atriz, e não em sua tirânica verdade.

Louis Malle: Vou (...) dizer o que eu queria fazer. Eu queria mostrar, no início, esse personagem em sua infância. Era uma adolescente de boa família, que vivia num casarão bonito à margem de um lago. Havia sua mãe, uma velha empregada, uma bicicleta, uma cabra, a dança, os jogos, os banhos no lago, os amigos. Todo esse lado um pouco “anterior ao pecado original”. (Eu queria) mostrá-lo como se estivesse sendo narrado, no tempo da memória, com interrupções, saltos, uma ligeira bruma na fotografia, como nas fotos antigas, amareladas pelo tempo, uma música alegre, um pouco saltitante. Eu queria dar o sentido de que tudo aquilo era evocado. Foi o que eu fiz... Gosto muito desse início; mas também queria mostrar a garota indo para Paris, três anos mais tarde. Ela se tornara, então, um ídolo, uma espécie de monstro da atualidade, cujos mínimos fatos e gestos desencadeiam paixões. Eu suprimi a parte intermediária, o “porquê” e o como.

Claude Mauriac: É indiscutível a singular fascinação exercida sobre o grande público por Brigitte Bardot. Ela é a prova em si. Mas já não é o mesmo num filme que, em vez de sustentar essa lenda, como os seus filmes anteriores, se alimenta dela. Lenda que é transformada num tema e apresentada como postulado.

Louis Malle: Eu queria admitir como um postulado: aquela garota que eu via levando uma vida feliz iria se transformar bruscamente numa espécie de bezerro de ouro.

Claude Mauriac: O que aceitamos facilmente como verdadeiro na sociedade não o aceitamos no Cinema. (...) Daí a nossa decepção.

Louis Malle: Ora, acho que todos têm uma opinião sobre Brigitte Bardot, porque ela pertence à mitologia contemporânea; e acho também que, a respeito desse assunto, cada um elabora seu roteiro. De modo que, indo ver Vida Privada, cada um esperava ver seu próprio roteiro. Daí, a decepção...

José Augusto França: O filme (...) é alusivo e elusivo: um filme dificílimo de pensar e de fazer, que joga às escondidas com o realismo e com o expressionismo, busca situações-chave e instantâneos quotidianos, procura a tragédia, encontra a comédia, parte e reparte o seu tempo e o seu espaço numa composição sincopada (...). Encontramo-nos (...) diante dum filme-documento, duma obra sui generis muito importante, duma riqueza sociológica única (...).

Louis Malle: Vida Privada prova, definitivamente, que Brigitte Bardot é mesmo personagem de Cinema, uma incomum heroína de Cinema.



QUEM É QUEM

Brigitte Bardot – atriz francesa
Claude Mauriac – escritor francês
José Augusto França – crítico e pesquisador português de Cinema
Louis Malle (1932-1995) – cineasta francês
Pierre Marcabru – crítico cinematográfico francês