Ano 5 - nº 16 - maio/agosto de 2013

UM HOMEM E UMA MULHER
Marco Aurélio Lucchetti



Um dia qualquer... de um ano qualquer...
Lá fora, o barulho era insuportável; mas ali, naquele apartamento, havia apenas paz e silêncio, quebrado, de quando em quando, pela “conversa” de um casal de periquitos. Na sala, um homem e uma mulher ainda jovens, fitavam-se há vários minutos, sem dizer nada. Os olhos castanhos dela estavam cravados nos dele.
– Que faremos? – Perguntou ela, quebrando o silêncio.
– Nada.
– Como nada?! Amanhã poderemos não mais estar aqui...
– Não temos como fugir... Não há local para nos escondermos.
Novo silêncio.
– O que tem de ser será. O jeito é esperarmos pelo inevitável – dessa vez foi ele quem rompeu o silêncio.
– Vou tomar um banho – anunciou ela, de repente, levantando-se e saindo da sala.
O homem ficou ali, na semiobscuridade, imerso em seus pensamentos. Lembrou-se do primeiro momento em que vira Patrícia, no curso de Engenharia Civil. Ele sempre a olhava, gostava de seu jeito, de seu sorriso; mas ela parecia não notá-lo. Um dia, ela vinha saindo apressada da sala, e ele ia entrando; os dois se chocaram. Houve pedidos de desculpa, e Patrícia aceitou seu convite de tomar um refresco depois da aula. Foi o começo de tudo. A partir daí, começaram a sair juntos, a ir ao cinema, ao zoológico, à praia... Um passou a ser a sombra do outro. Então, pouco mais de três anos depois, casaram. Foi uma cerimônia simples, na qual estavam presentes somente seus pais e os amigos mais íntimos.
Os dois periquitos continuavam seu “colóquio”, agora num tom mais acalorado.
Paulo não conseguia tirar Patrícia do pensamento. Lembrava-se a todo momento de seus cabelos cor de amêndoa, de seus olhos, de seu nariz arrebitado, de seus lábios macios, de seus beijos, do perfume e tepidez de seu corpo... Patrícia parecia viver em sua mente.
Ele se levantou e caminhou pela sala; depois, foi até a copa, onde estava a gaiola com os periquitos. À sua aproximação, as aves aquietaram-se. Paulo abriu o armário, pegou uma lata e encheu de painço o recipiente de comida dos periquitos. Em seguida, retornou à sala.
Patrícia demorou ainda alguns minutos a aparecer.
– Que tal? – Indagou ela, ao entrar na sala.
Paulo levantou a cabeça, olhando-a da cabeça aos pés. Ela estava adorável, com o cabelo solto, usando um vestido longo e sapatos de salto alto.
– Para que isso? – Perguntou ele.
– Ora, devemos comemorar, meu querido. Talvez esta seja a última noite que passaremos juntos. O amanhã é algo que pode não existir, como bem sabe. – Ela deu uma volta sobre si mesma. – Não gostou?
– É claro que gostei.
– Pois, então, prove! Venha até aqui!
Paulo caminhou na direção de Patrícia.
– Vamos, dê-me um beijo! – O pedido dela mais parecia uma ordem.
Os dois se abraçaram. Seus lábios se encontraram num longo e ardente beijo. Depois, Patrícia se livrou do vestido e dos sapatos, ficando de sutiã, calcinha, cinta-liga e meias cor de carne.
Paulo soltou um assobio; Patrícia sorriu, livrando-se também da cinta-liga e das meias.
Os corpos dos dois uniram-se novamente.
– É melhor irmos para o quarto, Paulo. Quero que me ame como nunca amou em sua vida.
Ela segurou-lhe a mão e puxou-o em direção à porta que levava ao corredor.
Na copa, os periquitos prosseguiam sua “conversa”, agora em tom mais calmo, talvez devido à ração que haviam recebido. Lá fora, o barulho era cada vez mais ensurdecedor. Todos queriam fugir, esconder-se, mesmo sabendo que não havia para onde fugir ou onde esconder-se. O Hemisfério Norte já não mais existia, fora completamente devastado por uma guerra atômica. E, em breve, o Hemisfério Sul seria coberto pela radioatividade.
Na copa daquele apartamento, dois periquitos ignoravam o que estava acontecendo; no quarto, um homem e uma mulher procuravam ignorar...