Ano 5 - nº 16 - maio/agosto de 2013

O QUE DISSERAM SOBRE O FILME AS PETROLEIRAS



Jaime Rodrigues: É um Western cômico. Ele marca o retorno do veterano e prolífico Christian-Jaque à direção, depois de uma ausência de mais de três anos, primeiro longo período de inatividade em uma carreira que começou na década de 1930 e não sofreu interrupção sequer durante a Segunda Guerra Mundial. A fita ia ser dirigido por Guy Casaril, um dos roteiristas, que já havia dirigido O Astrágalo (filme que transformou Marlène Jobert em estrela) e dirigiria Brigitte Bardot em As Noviças.

Christian-Jaque: É mais uma sátira que uma paródia. (...) com todos os elementos dos filmes de Western: xerife, índios, perseguições e lutas.

Tony Crawley: O produtor do filme, Raymond Eger, estava convencido de que tinha entretenimento para a família toda. As crianças iriam adorar a comédia e a ação, os pais iriam certamente apreciar as blusas das mulheres que nunca estão completamente fechadas e as saias que se rasgam de forma inocente durante as lutas. E as mães... Entre as razões mais insensatas de Eger achar que a fita agradaria o público feminino, havia a frágil argumentação de que As Petroleiras era um filme feminista  (...).

Christian-Jaque: Eu penso que As Petroleiras é uma história alegre e agitada que faz justiça ao talento de suas estrelas. (...) Não havia no roteiro nada contra isso; então, coloquei a ênfase em duas versões da beleza natural (uma loura e uma morena). Além do que, nos grandes filmes de Western, eu nunca gostei de mocinhas parecendo recém-saídas de algum salão de beleza de algum lugar do meio do Texas. Claudia Cardinale e Brigitte são mostradas como elas são, com pouca maquilagem, cabelos sujos e freqüentemente roupas sujas também.

Claudia Cardinale: Em As Petroleiras, (...) não só montei a cavalo e convenci também Brigitte a fazê-lo, como cavalgava como um verdadeiro diabo (...). E atirava de fuzil, pistola, tudo.

Christian-Jaque: Claudia é realmente uma menina levada... Levantava-se cedinho, para cavalgar e atirar.

Brigitte Bardot: Claudia me cansa só em olhá-la. Não é uma mulher, é um vulcão, um terremoto. É indestrutível. Vocês deviam vê-la no set. Disparava, cavalgava, andava com botas de homem. (...) Trabalhar com Claudia é como estar no centro de um ciclone. Ela não dá trégua a ninguém, não há quem consiga fazer com que (...) se sente. Quando eu ousava tomar cinco minutos de repouso, ela saía ao meu encalço. Propunha-me lutar boxe na hora de descansar, a fim de que a cena de luta que tínhamos de fazer saísse perfeita. E esperava sorrindo... como se tivesse proposto irmos a um balé. Vê-la ou sofrer de dor de cabeça é a mesma coisa.

Claudia Cardinale: (...) foi só por minha causa que Brigitte terminou o filme, pois eu dava o exemplo, estimulava-a, espicaçava-a.

Brigitte Bardot: Eu chegava atrasada, reclamava dos ensaios que me enchiam, esquecia o texto ou mudava-o de acordo com o meu humor.

Claudia Cardinale: (Brigitte) tinha medo de tudo: dos animais, dos cavalos, que absolutamente a aterrorizavam. Tanto que devia cavalgar comigo, e recordo que representou montada num cavalo de pau...

Brigitte Bardot: Achei muito difícil representar as cenas a cavalo. Sempre tive pavor dessas máquinas que não têm freio de mão!

Claudia Cardinale: Brigitte é uma mulher que tem medo de tudo, é delicada, débil. No set, estava sempre com dor de cabeça, sentindo-se mal.

Brigitte Bardot: Um dia Claudia deu um soco numa dublê que lhe fez saltar longe um dente.

Claudia Cardinale: Não arranquei coisa nenhuma, mas é verdade que eu poderia ter batido com menos força. Brigitte e eu devíamos rodar uma cena em que devia bater-lhe com toda a força, mas ela estava apavorada com a idéia. Estrilava sem parar, dizendo que não faria a cena de maneira alguma. “Não vou fazer esta cena com você. Porque sei que vai acabar me matando”, dizia ela. Mas eu entendia de onde vinha aquele seu medo. Naqueles dias me distraía praticando boxe e tiro ao alvo. E ela me falava: “Eu já vi, você é louca. E não quero me arriscar com esta sua loucura.”

Tony Crawley: A luta entre Brigitte Bardot e Claudia Cardinale (BB x CC) é uma seqüência em que o filme se torna intenso, agitado.

Christian-Jaque: Muita coisa já foi dita sobre essa luta. Eu queria que ela parecesse autêntica e pedi às duas atrizes que dessem tudo de si, pedi que procurassem não se conter.

Claudia Cardinale: Na hora de levar o soco, Brigitte deveria recuar e ser substituída pela dublê. Brigitte ensaiou a cena, mas recuou fora do tempo e levou  um soco em plena cara. Começou a berrar... E, na hora da dublê receber o meu soco, gritou mais alto ainda e desapareceu do set durante um par de dias. Quando a encontramos, não queria mais fazer o filme e dizia: “Não é o meu gênero; tenho medo de cavalos, de pistolas e dos socos da Claudia.” E realmente sentia pavor. Quando via os cavalos, só faltava desmaiar... E, ao primeiro barulho de um tiro, dava um urro lancinante.

Brigitte Bardot: Claudia era (...) muito profissional. (...) Aquela briga impiedosa nos aproximou.

Claudia Cardinale: Socos à parte, Brigitte e eu simpatizamos uma com a outra.

Brigitte Bardot: Gosto muito da Claudia.

Claudia Cardinale: Nos últimos dias de trabalho, Brigitte tornou-se pontualíssima, ela que bancava a estrela, chegando sempre atrasada. (...) ficamos muito amigas. (...) à noite, terminado o trabalho, saíamos sempre juntas; ela com Christian (Kalt) e eu com o meu marido.

Jaime Rodrigues: Algo que falta ser dito é que, em As Petroleiras, Brigitte Bardot e Claudia Cardinale são duas fora-da-lei: Louise King e Maria Sarrazin, que lideram dois bandos rivais. E as duas lutam, como lobas ou leoas, tendo um único objetivo em vista: saber quem será a fêmea dominante!



QUEM É QUEM

Brigitte Bardot – atriz francesa
Christian-Jaque (1904-1994) – cineasta francês
Claudia Cardinale – atriz italiana
Jaime Rodrigues (l941-1998) – escritor, editor e jornalista brasileiro
Tony Crawley – pesquisador inglês de Cinema