Ano 5 - nº 16 - maio/agosto de 2013

O QUE DISSERAM SOBRE O FILME O DESPREZO



Brigitte Bardot: (...) no início de 1963, conheci Jean-Luc Godard (...). Ele era o oposto de todo o meu mundo, de todas as minhas idéias (...). Não trocamos três palavras, ele me deixava petrificada. E eu devia deixá-lo aterrorizado. No entanto, ele (...) quis absolutamente que eu fizesse O Desprezo. Hesitei muito. Aquele gênero de intelectual, de maluco e de esquerdista me deixava de cabelos em pé! Ele era a figura de proa da Nouvelle Vague, eu era a estrela clássica por excelência. (...) Eu tinha adorado o livro de (Alberto) Moravia...

Pedro de Moura e Sá: O livro (...) O Desprezo é, antes de mais nada, a história da despoetização de uma relação amorosa. O desprezo de uma mulher pelo homem... O desprezo de Emilia pelo marido, Ricardo Molteni, vai funcionando ao longo das páginas do romance como um ácido corrosivo do amor, do amor que dá aos beijos o valor das palavras mágicas que transfiguram o mundo e transformam cabanas em palácios. O Desprezo é um livro de extrema riqueza, um livro de maturidade, no qual confluem múltiplos temas; mas as páginas que mais profundo eco encontram em nós são aquelas em que se mostra com nitidez até que ponto o amor transcende os gestos do amor (...). Com virtuosidade de grande romancista, Moravia conseguiu dar a lenta desaparição do amor em Emilia pela corrosiva ação do desprezo, e não pela transferência do mesmo sentimento para outro homem. Emilia deixa de amar, não passa a amar outra pessoa.

Alberto Moravia: Pouco antes de morrer, (o escritor Vitaliano) Brancati veio a minha casa (...). Deitou-se no divã e disse: “Você escreveu O Desprezo. O protagonista é um escritor que sacrifica a Literatura para arrumar uma casa para sua mulher e que no dia em que compra a casa é abandonado pela mulher. É a minha história. Quem foi que lhe contou?”

Brigitte Bardot: Bem, eu tinha adorado o livro (...) e sabia que seria deformado pela direção e pelos diálogos discordantes do tom do original. E, mesmo assim, aceitei. Foi como uma aposta que fiz comigo mesma, sabendo que tinha muito a perder e mais ainda a ganhar.

Jean-Luc Godard (tirando um cubo de açúcar de um dos bolsos de seu paletó surrado e deixando-o o cair na xícara de café à sua frente): O tema de O Desprezo (o filme) refere-se às pessoas que se olham e se julgam, pois são, por seu turno, olhadas e julgadas pelo Cinema, o qual está representado por Fritz Lang, interpretando seu próprio papel: em suma, a consciência do filme, sua honestidade... Filme simples e sem mistério, filme aristotélico, desembaraçado das aparências, O Desprezo demonstra (...) que, no Cinema, assim como na vida, nada há de secreto, nada há a elucidar, nada há além que viver – e filmar.

Brigitte Bardot: Sempre me senti um pouco estranha em todo o filme. Não sei nada do meu “eu” profundo, contentando-me em interpretar – como um objeto – as ordens de Godard.

Georges Sadoul: Seco e vibrante, implacável e sensível, o filme desenrola-se com a fatalidade de uma tragédia, sobretudo no cenário transfigurado de Capri. Uma das grandes obras de Godard (...).

Pedro de Moura e Sá: A ação de O Desprezo (o livro) passa-se em Roma e em Capri, conseguindo o romancista tornar sempre presentes os ambientes (...) com admirável poder de evocação. O desfazer da existência de Ricardo vai progredindo através da atmosfera mais luminosa do mundo, em face do mar mais azul que se conhece.

Annie Goldman: O Desprezo (o filme) é um exemplo particularmente interessante para uma análise de tipo estrutural, já que a sua compreensão exige uma verdadeira descodificação da sua estrutura significativa. Uma vez conseguido isso, pode-se compreender todo o filme quase plano por plano. (...) Trata-se, na verdade, de um caso em que a análise deveria ser feita simultânea com a exibição do filme, para lhe dar o respectivo significado. Resumamos desde já a história. Paul, jovem escritor de pouco talento, entra em contato com um produtor americano que lhe pede (...) um argumento extraído da Odisséia (de Homero). De fato, o produtor, cujo nome é Jeremy Prokosch, já havia contratado um cineasta conhecido, Fritz Lang, mas não está satisfeito com o seu trabalho. (...) Paul aceita a proposta, atraído pelo montante (...) do cheque oferecido. Mas a sua mulher, Camille, encontra-se com Prokosch e manifesta alguns indícios de perturbação. Durante algum tempo, Camille resiste às investidas do produtor; mas acaba por partir com ele, abandonando o marido em Capri, local onde se efetua a rodagem do filme. Antes, porém, diz-lhe que o despreza. Paul tenta compreender as razões desse desprezo, sem obter, contudo, qualquer explicação satisfatória. Camille e Prokosch morrem num acidente (...), e Lang continua tranqüilamente a rodagem do seu filme. (...) O Desprezo é, na realidade, a constatação de um desaire: o da procura de valores autênticos no mundo moderno. Dum lado, existe ainda a cultura humanista e prestigiosa, mas que já não pode responder às expectativas do homem moderno; do outro, o poder organizado e triunfante esmagando tudo o que é cultura, mas impotente, ele também, em dar um sentido à vida. O homem só tem de escolher entre o refúgio no passado, a Grécia antiga, e a fuga deliberada para um futuro de bárbaros onde o dinheiro e o poder que ele dá é a única razão de viver. O universo deste filme é, pois, dominado por estas duas forças que se encarnam respectivamente em Fritz Lang e Prokosch. (...) Lang está perfeitamente consciente da sua impotência em fazer reviver o mundo ideal de Homero. Mais ainda, é mesmo no sentimento desta impotência que ele extrai a serenidade, a grandeza e a força. “Não é a presença dos deuses, mas a sua ausência que anima o homem.” O próprio Prokosch está cheio de decisões, dinamismo e orgulho. Está convencido de que o dinheiro, o seu dinheiro, lhe dá todos os direitos e que Paul aceitará a sua proposta, por causa deste mesmo dinheiro. Para ele, a Odisséia é uma história sentimental, anedótica, na qual os deuses não representam qualquer papel; para Lang, pelo contrário, a Odisséia é a obra duma época perfeita em que os homens se comunicavam com a natureza, o mundo era fechado, feito de harmonia e de beleza. Entre Prokosch e Lang, a incomunicabilidade é total. (...) Até o encontro destes dois personagens, Camille e Paul formavam um par, não somente feliz, mas estreitamente encerrado no seu pequeno mundo. Camille entregava-se a Paul com cumplicidade e arrebatamento. (...) Bruscamente, Camille vai encontrar-se confrontada com a brutalidade e a força de Prokosch... e com a grandeza de Fritz Lang. É um pequeno animal instintivo, intuitivo, que não põe problemas teóricos, mas que vai sempre no sentido da vida. (...) até então, Camille acreditava em Paul; para ela, ele era o homem forte. Mas vai compreendendo, pouco a pouco, que Paul, ao lado de Lang e de Prokosch, não é nada. (...) não é o humanista (...); não é o homem poderoso e dinâmico, o homem do futuro, que é Prokosch. A comunhão entre Paul e Camille encontra-se ameaçada, porque Paul é um homem medíocre que oscila entre dois gigantes, sem mesmo perceber a sua nulidade. (...) Incapaz de ter as suas próprias idéias, interpreta a  Odisséia ora como Prokosch, ora como Lang, ora em função dos seus dissabores pessoais. (...) É triunfalmente que Prokosch encanta Camille; mas (...) poderia ela saber que os limites de Prokosch estavam tão próximos? O belo automóvel vermelho do produtor esmaga-se entre dois caminhões; e Camille morre por ter vivido num mundo onde os valores do passado não têm cabimento e os do futuro não são suficientes para dar um sentido à vida. Durante este tempo, Fritz Lang continua serenamente o seu filme no terraço de Prokosch; os atores, os técnicos trabalham (...). Mais que nunca, a Odisséia parece artificial e sem qualquer ligação com o mundo moderno.



QUEM É QUEM

Alberto Moraiva (1907-1990) – escritor italiano
Annie Goldman – intelectual francesa
Brigitte Bardot – atriz francesa
Georges Sadoul (1904-1968) – crítico e historiador francês de Cinema
Jean-Luc Godard – cineasta francês
Pedro de Moura e Sá – escritor português