Ano 5 - nº 16 - maio/agosto de 2013

AS MULHERES
Paulo Perdigão



Que faria você, se tivesse Brigitte Bardot como uma secretária que fosse obrigada por contrato a satisfazer todos os seus desejos? O diretor de As Mulheres  não faz absolutamente nada. Transforma BB numa jeune fille cuja única tarefa é datilografar a jato as amenidades filosóficas sobre a guerra dos sexos que seu patrão – um escritor mulherengo interpretado por Maurice Ronet – lhe vai ditando entre beijinhos cândidos e corre-corres enfadonhos. Enquanto as mulheres de Ronet (Annie Duperey, Christina Holm) se despem com toda a generosidade diante da câmara, à medida que o escritor relembra em flashbacks seus dilemas amorosos, a Brigitte cabe apenas lançar uma ducha fria em cima das esperanças mais eróticas da platéia. No começo, ela aparece com seu namorado de verdade (um playboy vivido por Patrick Gilles) a tiracolo; e, no fim, desaparece antes que a primeira margarida seja desfolhada.
Com uma BB mais antiafrodisíaca do que nunca, compreende-se agora porque o diretor Jean Aurel foi expulso da filmagem de Torneio de Amor (La Bride Sur le Cou, 1961) por Roger Vadim. Depois de cometer alguns pecados contra Stendhal (O Amor/De l’Amour e Lamiel, A Mulher Insaciável/Lamiel) e o Abade Prévost (Manon 70), Aurel chega ao cúmulo de trazer uma Brigitte comportada. Em troca, oferece seu pensamento sobre o mistério feminino e a lógica do celibato, miudezas para uma filmoteca ideal da menina-moça. Esperava-se mais ousadia do roteirista Cecil Saint-Laurent, que já escreveu folhetins avançados para sua época, como Caroline Chérie e Lucrèce Borgia, e hoje se contenta em reproduzir quase tudo da antiga comédia sofisticada americana, menos o talento. Os lábios de BB, ocupando a tela toda no desfecho, não passam de uma promessa vã.

 

As Mulheres (Les Femmes, 1969, 88')
Direção: Jean Aurel

Roteiro: Cecil Saint-Laurent & Jean Aurel
Elenco: Brigitte Bardot (Clara), Maurice Ronet (Jérôme), Patrick Gilles (Raphaël), Jean-Pierre Marielle (O Editor), Annie Duperey (Hélène), Christina Holm (Marianne), Carole Lebel (Gertrude)
Sinopse: O escritor Jérôme, em crise de criação, ganha de seu editor uma nova secretária full time, Clara, que o acompanha numa viagem de trem de Paris a Roma. Jérôme dita a Clara o seu novo livro, relembrando seus casos amorosos com mil e uma mulheres e dando suas opiniões sobre o chamado sexo frágil e sua liberdade de celibatário. Clara, obrigada por contrato a agradar Jérôme em tudo, acaba se apaixonando por ele e procura tirar de seu caminho suas duas principais rivais, Hélène e Marianne.
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Classicline

 

Esta crítica foi transcrita do número 28 da revista Guia de Filnes (Rio de Janeiro, INC, julho/agosto de 1970, p. 136)