Ano 5 - nº 16 - maio/agosto de 2013

O QUE DISSERAM SOBRE O FILME MASCULINO-FEMININO



Jean-Luc Godard: Para mim, deveriam haver uns vinte filmes como este sobre ambientes bastante diversos (...). Filmes que a televisão deveria fazer mas não consegue, porque não realiza obras, faz horas de programa.

José Carlos Avellar: Em Masculino-Feminino, a linguagem de Godard se mostra mais uma vez de grande eficiência para retratar a sociedade moderna. Esta linguagem, parente próxima de um jornal ou de uma colagem, é o melhor espelho de um tempo em que convivem James Bond e Vietnã, de um tempo marcado por dois pólos, a luta revolucionária socialista e a americanização. “Este filme poderia chamar-se Os Filhos de Marx e Coca-Cola, diz um letreiro; e é como um produto híbrido destes dois pólos que nos apresenta não exatamente um grupo de jovens no inverno de 1965, e sim toda a Paris daquele inverno. Se o filme se passa entre jovens, é para que se torne possível indagar constantemente sobre tudo. Os jovens personagens de Masculino-Feminino estão num constante jogo da verdade, interrogando-se e interrogando sobre todas as coisas (...). No inconformismo da juventude, Godard encontra um perfeito paralelo para a sua inquietude, para as constantes negações das formas e valores estabelecidos; um perfeito paralelo para a necessidade de indagar sobre tudo, partir novamente do zero. Nas suas quinze partes, o filme não se preocupa em mostrar uma ação, mas a reflexão sobre as ações que transcorrem todas fora da tela. Os fatos preciosos são filmados de maneira a documentar todos os pequenos detalhes destas reflexões; por isso, a preocupação dominante de respeitar a sua duração real, com todas as pausas longas entre as conversações – gravadas em som direto –, o que dá ao estilo de interpretação uma agradável atmosfera de espontaneidade. E, hoje, é possível dizer (...) que a fita é sem dúvida uma antecipação dos problemas e das soluções formais levantadas nos filmes que Godard dirigiria em 1967 (Masculino-Feminino é de 1966): Duas ou Três Coisas Que Eu Sei Dela e A Chinesa (segundo Georges Sadoul, A Chinesa anunciava Maio de 1968 na França”). A crítica à sociedade dos objetos de consumo, que toma corpo nestes dois filmes, já se apresenta em Masculino-Feminino na entrevista da Miss 19 Anos, no trecho lido por Brigitte Bardot, num comentário (...) colocado sobre imagens de movimentadas ruas da cidade.

Brigitte Bardot (recitando o texto lido em Masculino-Feminino): Hoje, as pessoas preferem um carro e um aparelho de televisão em lugar de liberdade. Dentro de vinte anos, cada um terá enxertado dentro de si mesmo um pequeno aparelho elétrico para lhe dar prazer.



QUEM É QUEM

Brigitte Bardot – atriz francesa
Jean-Luc Godard – cineasta francês
José Carlos Avellar – crítico cinematográfico brasileiro