Ano 5 - nº 16 - maio/agosto de 2013

O QUE DISSERAM SOBRE LA MADRAGUE



Brigitte Bardot: Foi comprada em maio de 1958. Fica em Saint-Tropez, na Côte d’Azur. Tornou-se tão célebre quanto eu no mundo inteiro. Tornou-se um lugar mítico que atrai centenas de turistas que me obrigam a fugir, quando chega o verão.

Micky Marcy: Um paraíso. Tinha a certeza de que viveria num desses refúgios tranqüilos onde tudo é belo, bom, magnífico, sereno. (...) O clima era justamente aquele com o qual sonhara a vida inteira. O ambiente mostrava-se de acordo com todas as minhas esperanças secretas. Passar a primeira infância num orfanato, num tempo em que essas instituições frias e inóspitas mais lembravam prisões do que abrigos, predispõe a esse tipo de sonho. Aos cinco anos, frágil e trêmula, com os olhos marejados de lágrimas, comecei a cantar – sobre mesas de bar – canções que falavam de sol, de casas à beira-mar, de mimosas e dos perfumes do sul. Por isso, a Côte d’Azur era algo que eu (...) desejava visitar. Pode-se imaginar a imensa paz e a felicidade extraordinária que eu esperava encontrar ali. E, cúmulo da alegria, viveria junto daquela que para mim representava o símbolo do sucesso:  Brigitte Bardot, o grande ídolo, cuja carreira eu acompanhara desde o início, quando ela era uma jovem e bela adolescente, uma jovem maliciosa e provocante, uma jovem que nos fazia pensar que tinha “o diabo no corpo”. Pois bem! Acreditem que o melhor é afastar as ilusões, como fiz com as minhas, cruelmente desencantada... Madrague é um inferno... E a palavra não diz tudo. O que se passa ao redor de seus muros é inacreditável! Ultrapassa em muito tudo o que se poderia imaginar. No inverno, é um pouco mais calmo; e a região recupera ares de civilizada. Mas no verão... Parece que toda a França marca encontro ao redor da propriedade. E desfila, desfila, dia e noite... A campainha não pára de tocar. Inútil dizer a que ponto pode ser desagradável e enervante passar o dia todo sobressaltando-se com seus toques estridentes, como uma serra atacando os nervos. E ter de responder o dia inteiro e durante toda a noite: “Madame não está! Madame não pode receber!” Se os únicos aborrecimentos fossem esses, seria compreensível. Afinal, é o “reverso da medalha” numa vida de sucesso. Brigitte Bardot é célebre e adulada. É normal que os admiradores queiram falar-lhe e batam à porta de sua casa para pedir autógrafos ou fotografias – ou simplesmente para vê-la, um segundo ao menos, em carne e osso. Certa vez, encontramos um casal idoso muito bem vestido, de mãos ternamente dadas, aguardando pacientemente que abríssemos o portão. Perguntaram se podiam ver a casa. Respondi que não tínhamos permissão de mostrar a casa de madame Bardot a turistas. Ficaram muito tristes e insistiram timidamente. Tinham vindo dos subúrbios de Paris para ver onde vivia a atriz que tanto admiravam. Era uma pena que a viagem fosse em vão. Prometiam olhar tudo rápido, sem tocar em coisa alguma. Deixei-me comover e permiti que visitassem o jardim e as praias. Passaram encantados diante da camionete, da pequena Madrague e, finalmente, da própria residência. Ao sair da propriedade, a senhora – eles tinham 78 e 80 anos – agradeceu-me calorosamente, dizendo que eu permitira a concretização de um grande desejo, proporcionando-lhe imensa felicidade. Voltando-se para o marido murmurou: “Agora podemos morrer. Vimos a Madrague. Vimos o local que ela escolheu para ser feliz!” Infelizmente, nem todos são assim comovedores. Há multidões de curiosos e indelicados, que se aglomeram sobre os muros como lesmas, babando de inveja. Inútil contar (...) as histórias de banhistas que se instalam tranqüilamente na praia da Madrague e ali tomam ducha como se estivessem em suas casas. Lembro-me de um que chegou a forçar a porta da toalete da pequena Madrague, resmungando que não era possível que estivesse fechada! Outros fazem concurso de mergulho na piscina em plena noite (...). O mais grave, porém, é que alguns chegam a ser perigosos. Anormais enchem os muros de imundices. Nem quero falar daqueles que, como cães junto aos postes da rua, satisfazem as necessidades ao longo do muro. Mas há os que aparecem seminus, assumindo poses (...) pornográficas, chamando Brigitte, gritando: “Cadela! Não tem vergonha?!” É incrível, mas verdadeiro. E absolutamente repugnante.

Ulisses Capozoli: (...) em dezembro de 1994, (Brigitte) doou, para a fundação que criara em 1986 para a proteção de animais, (...) a La Madrague, (...) no sul da França. La Madrague (...) tem uma sede que inicialmente era uma casa rústica, sem eletricidade ou água. Brigitte contou que a tornou habitável com a ajuda da mãe...

Brigitte Bardot: La Madrague é uma segunda pele sobre meu corpo.



QUEM É QUEM

Brigitte Bardot – atriz francesa
Micky Marcy – empregada de Brigitte Bardot em La Madrague
Ulisses Capozoli – jornalista brasileiro