Ano 5 - nº 16 - maio/agosto de 2013

O QUE DISSERAM SOBRE A PERSONAGEM JULIETTE



Brigitte Bardot: Espero não ter prejudicado a vida de nenhuma moça que acreditou em mim e procurou me imitar.

Luiz Carlos Merten: Brigitte representava uma mulher-criança. Não mostrava malícia ou desejo; tudo isso ficava numa exterioridade, nos espectadores da sua libertinagem.

Ruy Castro: Juliette foi a primeira garota “moderna” do Cinema. Ela é uma órfã de dezoito anos, que mora com uma família de Saint-Tropez e não pensa duas vezes quando está a fim de tomar sol nua ou de dar umas voltinhas com Christian Marquand, um dos rapazes da cidade. A família a vê como uma vagabunda e quer puni-la com um internato. Para evitar isso, Juliette se casa com Jean-Louis Trintignant, irmão mais novo de Marquand. Mas Trintignant é um mosca-morta, que se submete a todo tipo de humilhação, inclusive a uma recaída de Juliette com Marquand. Então Juliette provoca Trintignant, obrigando-o a lutar fisicamente por ela e até a lhe dar uns tapas. Faz dele um homem, salva seu casamento e, pelo visto, sossega.

François Truffaut: Brigitte Bardot está magnífica (...); é preciso ver seus lábios tremerem violentamente, depois das quatro bofetadas desfechadas por Trintignant; ela é dirigida amorosamente, como um animalzinho, como outrora (Jean) Renoir dirigiu Catherine Hessling em Nana.

Simone de Beauvoir: Juliette teve uma infância infeliz (...). Seu transviamento deveu-se à inexistência de alguém que lhe mostrasse o caminho certo, mas um homem – o homem de verdade – é quem pode mostrar-lhe como encontrá-lo. O jovem marido de Juliette resolve agir masculamente, aplicando-lhe  uma bofetada caprichada; e imediatamente Juliette converte-se numa esposa feliz, contrita e submissa. (...) Mas os espectadores não crêem nessa vitória do homem e da ordem social tão profundamente sugerida pelo argumento (...). Juliette nunca se converterá na esposa perfeita ou na mãe modelo. (...) Nada esclarece melhor o personagem do que o jantar de casamento (...). Juliette vai imediatamente para a cama com o marido. Em meio ao banquete, irrompe na sala vestida apenas com um roupão de banho e, sem se preocupar em sorrir ou sequer olhar para os aturdidos convidados, recolhe da mesa, diante de todos, uma lagosta, um frango, frutas e garrafas de vinho. Tranqüila e desdenhosamente volta para o quarto com a bandeja atulhada. A opinião alheia não tem para ela a menor importância. (...) não procura escandalizar. Não tem exigências a fazer, não tem dos seus direitos mais consciência do que tem dos seus deveres. Curva-se às suas inclinações. Come quando tem fome e faz amor com a mesma simplicidade e sem-cerimônia. Desejo e prazer parecem-lhe mais convincentes do que preceitos e convenções. Não critica ninguém. Faz aquilo que lhe dá na cabeça, e é isso o que é mais perturbador. (...) Para ela, o futuro continua sendo uma dessas invenções adultas nas quais não pode depositar a menor confiança. “Eu vivo como se fosse morrer a qualquer momento”, diz Juliette.

Ruy Castro: O moderno em Juliette é que ela não era uma vamp, uma sedutora artificial. Estava mais para a “ingênua libertina” de Colette do que para as ingênuas-até-certo-ponto que Marilyn Monroe interpretava. Dela sairiam, aperfeiçoadas, a Jean Seberg de Acossado (1959), de Godard, e a Jeanne Moreau de Jules et Jim (Uma Mulher para Dois, 1961), de Truffaut, as duas personagens que o crítico José Lino Grünewald então entronizava como protótipos da mulher do futuro.

Roger Vadim: Não inventei Brigitte Bardot. Simplesmente eu a ajudei a desabrochar e a aprender seu ofício, permanecendo fiel a si mesma. (...) Acima de tudo, dei-lhe um papel que era o casamento perfeito entre uma personagem de ficção e a pessoa que ela era na vida real. Em algum momento da carreira de toda grande estrela, acontece o milagre de um papel que parece ter sido feito para ela. Para Brigitte, esse papel foi o de Juliette em E Deus Criou a Mulher. Ela já fizera dezesseis filmes. O décimo sétimo fez dela uma estrela.

Antonio Gonçalves Filho: O crítico J. C. Ismael observou (...) que a inocente Juliette (...) transformava-se na amoral Madame Valmont de Ligações Perigosas.

Roger Vadim: Eu quis mostrar uma jovem normal, com a única diferença de que ela se comportava como um homem, sem nenhuma culpa, seja no plano moral ou sexual.

Reg Whitley: Eu consigo lembrar-me de poucas personagens que se comparam com a magnífica e tão cheia de vida Juliette, a vadiazinha sedenta de sexo interpretada por Brigitte...



QUEM É QUEM

Antonio Gonçalves Filho – jornalista brasileiro
Brigitte Bardot – atriz francesa
François Truffaut (1932-1984) – cineasta francês
Luiz Carlos Merten – crítico cinematográfico brasileiro
Reg Whtiley – jornalista norte-americano
Roger Vadim (1928-2000) – cineasta francês
Ruy Castro – jornalista e escritor brasileiro
Simone de Beavoir (1908-1986) – escritora francesa