Ano 5 - nº 16 - maio/agosto de 2013

O QUE DISSERAM SOBRE O FILME SE DON JUAN FOSSE MULHER



Brigitte Bardot: (O filme conta a história de) uma mulher, Jeanne, que marca sua personalidade por meio de suas conquistas, sem jamais preocupar-se com as conseqüências, sem jamais preocupar-se com o que faz aos homens: dor, sofrimento, desgraça e até mesmo muito mais do que isso. Maurice Ronet (...) sacrifica sua ambição e sua família. Enquanto seduzo meu primo Paul (interpretado por Mathieu Carrière), que é padre, ridicularizo a religião. Quanto a Robert Hossein, desprezo-o de propósito; mas, para fazê-lo sofrer, tomo-lhe a mulher, Jane Birkin...

Roger Vadim: (...) meu Don Juan é uma mulher; (...) mas continua fiel à lenda de Don Juan, ao personagem que o tempo passado no quarto de dormir não conta, que só se interessa pelas dificuldades do que quer conseguir, pela ação em si de seduzir: um ser totalmente solitário, que vai até o fim de um desafio contra todos os tabus de sua época. É por isso que Don Juan, masculino ou feminino, pouco importa, é um moralista no sentido que tinha a palavra no século 18, quer dizer, uma espécie de “contestatário da moral”. Ele agride sempre que pode a moral tradicional – digamos, a moral cristã-ocidental – de sua época. Assim, é possível haver Don Juans do século 17, do século 19 ou do século 23, se a espécie humana chegar até lá. Vejamos: hoje, os que contestam, que agridem, que escandalizam são, na minha opinião, sobretudo, as mulheres. Nós, os homens, continuamos a fazer de tudo; mas, no fundo, existe um código de ética, (...) estabelecido e enraizado. Ao contrário, a atitude da mulher, há alguns anos, tem sido bastante surpreendente nesse domínio. Por isso, achei que o Don Juan de 1973 deveria ser uma mulher. Um problema (...) é o fato que algumas mulheres pensam que sua liberdade verdadeira é “brincar de ser homem”. Eu queria ultrapassar isso. Precisava, conseqüentemente, de um personagem que reunisse a coragem e a fraqueza, as qualidades e os defeitos das mulheres... mas que pudesse conduzir-se como um Don Juan, como agressor.

José Haroldo Pereira: (Em) O Mito de Sísifo, Albert Camus (...) dedica um capítulo a Don Juan e ao “donjuanismo”. O lendário sedutor espanhol (...), cuja única ocupação na vida era passar de mulher em mulher, inspirou muitas narrativas licenciosas (...); mas não se compreende (...) o que possa estar fazendo num livro tão “sério”, que discute desde o problema do suicídio até a obra de Franz Kafka. É que Camus viu na figura de Don Juan uma das melhores ilustrações de sua teoria do “homem-absurdo”.

Ernest Newman: A origem remota da história de Don Juan é uma peça intitulada El Burlador de Sevilla y Convidado de Piedra, de um monge espanhol, Gabriel Tellez, que escreveu sob o pseudônimo de Tirso de Molina. A obra foi impressa em 1630. É provável que o autor apenas caldeasse pela primeira vez, em forma literária, algumas velhas lendas, relativas (...) a um homem de sensualidade desbragada (...). Don Juan é, por certo, como Fausto, a concentração de um tipo universal numa só personalidade. O tema, logo que apareceu em livro, tornou-se imensamente popular; nós o vemos tratado, desta ou daquela forma, por dramaturgos de toda a Europa. Sobre o assunto, foi representado em Nápoles, no ano de 1652, o drama de um tal Giliberti, e outro, pela mesma época, de Andrea Cigogni. Seguiram-se outras versões italianas; e vários dramaturgos franceses também se apropriaram do tema, incluindo Molière, cujo Don Juan (...) foi representado no ano de 1665 em Paris. Na Inglaterra, (em 1676) apareceu a peça de Thomas Shadwell, The Libertine. Existem outras versões dramáticas e musicais da história na Alemanha (...) e em outros países: Gluck compôs sobre ela um bailado, em Viena, no ano de 1761 (...). E há, é claro, a ópera Don Giovanni, de Mozart...

Arthur Jacobs & Stanley Sadie: Mozart chamava essa ˇpera de um dramma giocoso, um subtipo da ˇpera c˘mica que admite a presenša de personagens sÚrios. Quanto aos problemas morais, Don Giovanni supera muito a tradicional ópera cômica; mas o humor é a tônica da obra, e toda a ação se passa num contexto de comédia. Quando o “grande sedutor” é puxado para o inferno pela estátua do homem que ele matou, os personagens restantes sobem ao palco para advertir a platéia de que o mau comportamento pode ser perigoso... Mas eles não fazem isso de maneira solene, mas sim em um tom alegre (...). Ainda assim, Don Giovanni é uma ópera situada entre a força dramática e as situações cômicas; e os personagens são tão bem-construídos que dão a impressão de terem vida própria fora do palco (...).

Roger Vadim: Brigitte era ideal para o papel.

Brigitte Bardot: Quando Vadim me falou deste filme, concordei imediatamente erm fazê-lo.

Roger Vadim: Brigitte tem esta fantástica característica de mulher e de se conduzir como um homem, mas jamais cai na farsa de uma forma de feminismo que consiste na intolerância das relações homem-mulher.

Brigitte Bardot: Bem, as relações entre Jeanne e as duas ou três mulheres com quem ela tem contato durante o desenvolvimento da história são muito ternos. (Há) grande cumplicidade e grande compreensão. No fundo, ela respeita mais as mulheres do que os homens. Com exceção, é lógico, de Clara (interpretada por Jane Birkin), que por maldade, muito mais do que por prazer, ela toma do marido...

Marco Aurélio Lucchetti: Don Juan est belle. Don Juan est cruelle. Don Juan est eternelle... (Don Juan é bela. Don Juan é cruel. Don Juan é eterna...) Por que tratar no feminino, de repente, o maior dos sedutores de todos os tempos? No filme de Vadim, não chega, propriamente, a haver um Don Juan de saias. Trata-se da nudez e de algumas outras emoções mais violentas oferecidas nas telas por Brigitte Bardot. Teria sido idéia iluminada dar à atriz um papel-símbolo? Uma audaciosa inversão das eternas conquistas masculinas? Ou apenas, e exatamente, um desesperado recurso do cinema francês para recuperar um dos seus mais caros investimentos? Na verdade, tudo é possível quando BB entra em cena, ao custo de meio milhão de dólares. Entre os críticos há quem adore, quem deteste, quem execre – só não existem mesmo os indiferentes. Para quem conhece a verdadeira história do herói, Se Don Juan Fosse Mulher satisfará como paródia. Para os demais, porém, todos os apelos eróticos e deslumbramentos plásticos do diretor acabam deixando a impressão de que as primeiras fitas da dupla representam pequenas obras-primas jamais superadas.

Roger Vadim: Sob certos aspectos, reencontrei nele (Don Juan) o irmão mais velho do homem angustiado de nossa época. Um homem condenado à tragédia permanente. Ele sabe que tudo que o cerca é falso, miragem, invenção humana. Don Juan contesta todos os tabus, os usos e costumes da sociedade na qual vive. Em suas relações com as mulheres, o que o interessa, além do ato carnal, não é o  casamento, essa bufonaria, nem a fidelidade, essa submissão bovina, e menos ainda a ternura, sentimento que, ademais, não tinha uso em seu tempo. Não, o que ele quer é reencontrar sua identidade por intermédio das dificuldades da sedução. Daí uma predileção muito acentuada pelas religiosas, que pelo menos se defendem melhor que as outras. (...) a Bardot é Don Juan em primeiro grau. (...) Tem, como o “burlador”, uma necessidade violenta de amor, essa prova única e tangível de sua existência. A Bardot desempenha constantemente na vida o psicodrama do amor, ou ainda, o que é mais difícil, sua paródia. Cada rompimento e, por conseguinte, cada conquista, dá lugar a todo tipo de mal-entendidos trágicos: tentativas de suicídio, depressão, neurastenia. Ainda como Don Juan, a Bardot só investe contra os fracos. Jamais suportou, (...) em sua cama, um homem de personalidade forte. Ela os teve. (...) Mas jamais duraram muito tempo. Ela quer ter as rédeas nas mãos. Quer sempre dirigir o jogo. Entretanto, na maioria das vezes, sempre é ela a abandonada.

Brigitte Bardot: Meu amante é o centro da minha existência. Quando estou só, fico partida. (...) Alguns atores dizem que só vivem realmente quando interpretam um papel; eu, ao contrário, só posso interpretar quando estou apaixonada.

Roger Vadim: Nenhuma outra mulher, com exceção da Bardot, poderia desempenhar o papel de Don Juan. (...) A Bardot na verdade não leu o meu roteiro. Mas adorou imediatamente a “idéia” que concebi de Don Juan. No nível da anedota, um Don Juan inteiramente inventado. Um Don Juan do qual colei pedaços tomados a torto e a direito em Molière, em Mozart e também um pouco em Tirso de Molina. Durante a rodagem do filme, a Bardot foi estranhamente cooperativa. Pessoalmente, como diretor, a atriz me surpreendeu profundamente. Bardot amadureceu. Estava mais linda do que algum dia já foi. Tinha (...) o que eu gostaria de chamar “um grande vigor interior”. (...) Quanto a mim, fiz tudo para manter a Bardot exatamente como a Bardot. Mas evitei cuidadosamente – e nisso ela muito me ajudou – o “bardotismo”. Nada de infantilidade, nada de caretas, nada de vozinha caprichosa...



QUEM É QUEM

Arthur Jacobs – crítico musical inglês
Brigitte Bardot – atriz francesa
Ernest Newman – crítico musical
José Haroldo Pereira – jornalista brasileiro
Marco Aurélio Lucchetti – professor universitário, escritor e pesquisador brasileiro de Cinema e Quadrinhos
Roger Vadim (1928-2000) – cineasta francês
Stanley Sadie – crítico musical inglês