Ano 5 - nº 16 - maio/agosto de 2013

O QUE DISSERAM SOBRE O FILME E DEUS CRIOU A MULHER



Brigitte Bardot: Na França, o filme (...) foi recebido com certa reserva. A Cahiers du Cinéma (...) fez-nos uma crítica bastante morna. Censurava a facilidade do tema e a escolha dos atores (exceto Jurgens). Julgava-me sem indulgência, achando que eu falava arrastado e articulava de forma duvidosa. Paul Reboux, escancaradamente mais direto, dizia a meu respeito que eu tinha o físico de uma empregadinha e o modo de falar dos iletrados!

Roger Vadim: O meu preferido entre os filmes que fiz, aquele em que tive mais liberdade para contar uma história que me era cara ao coração. Atribuo seu sucesso à personagem de Brigitte, primeiro fisicamente, depois ao papel, que lhe permitiu mostrar o que ela sentia de angústia, de dinamismo, de confiança, totalmente livre em seu comportamento sexual. Jamais pretendi pintar a jovem de 1956, mas aquela personagem de exceção não poderia ter existido em outra época.

François Truffaut: Paris inteira assistiu ao filme. Paris inteira fala nele. Há os que se lamentam: “Nem ao menos é sujo!”; e os que ficam chocados: “É indecente!” E Deus Criou a Mulher, do qual tínhamos tudo a temer depois da campanha de propaganda gratuita realizada pela censura, é um filme sensível e inteligente em que não se vê uma única vulgaridade; é um filme típico de nossa geração, pois é amoral, recusando a moral vigente sem propor nenhuma outra, e puritano, já que é consciente dessa amoralidade e preocupado com ela. Não é um filme licencioso, é um filme lúcido e de grande fraqueza.

Ruy Castro: (...) talvez o filme mais “amoral” já visto no cinema – e um dos menos eróticos. (...) Vadim filma de acordo, abusando da iluminação: não há uma só seqüência “sugestiva”, tipo boudoir à meia-luz ou camisola decotada (qualquer filme colorido de vampiro, da mesma época, é mais erótico).

Luiz Carlos Merten: (...) o Cinema nunca mais foi o mesmo depois de E Deus Criou a Mulher; não apenas pelo erotismo revelado de Brigitte, mas também porque o filme de Roger Vadim é considerado um dos marcos definidores do movimento chamado Nouvelle Vague.

Georges Sadoul: (...) após 1955, um pelotão de jovens cineastas, que não haviam todos atingido os trinta anos, tiveram acesso à direção. Vadim foi o mais brilhante, obtendo um imenso êxito nos Estados Unidos e impondo uma estrela, Brigitte Bardot, novo tipo de “jovem moderna”.

Roger Vadim: Antes mesmo de decidirmos o tema, anunciávamos que Brigitte Bardot faria o papel principal. O que nada adiantava ao nosso projeto. As vedetas da época eram Michèle Morgan, Martine Carol, Dany Robin e Françoise Arnoul.

Luiz Carlos Merten: E Deus Criou a Mulher projetou as iniciais BB, fez de Brigitte Bardot um mito, encarnando a mulher-criança, dotada de uma sensualidade natural que inebria e confunde os homens, provocando muitas vezes a destruição, mesmo que ela não fosse uma vamp.

Ruy Castro: (...) agora, sob a perspectiva de uma ou duas revoluções sexuais desde que o filme foi feito, pode-se perceber como E Deus Criou a Mulher estava tão à frente de seu tempo.



QUEM É QUEM

Brigitte Bardot – atriz francesa
François Truffaut (1932-1984) – cineasta francês
Georges Sadoul (1904-1968) – crítico e historiador francês de Cinema
Luiz Carlos Merten – crítico cinematográfico brasileiro
Roger Vadim (1928-2000) – cineasta francês
Ruy Castro – jornalista e escritor brasileiro