Ano 5 - nº 16 - maio/agosto de 2013

O QUE DISSERAM SOBRE BRIGITTE BARDOT



Brigitte Bardot: Todas as biografias que foram escritas sobre mim – e existe um pacote delas – são bastante fantasiosas e na maioria falsas.

Carlos Von Schmidt: O que há de notável em Bardot é que tudo o que sobre ela possamos saber, agora, não é definitivo; Brigitte é um mito vivo (...).

Marcel Achard: (Brigitte Bardot é o) coquetismo malicioso a serviço de uma perversidade ingênua; o mistério da mulher e da infância; o gesto que irrita, o sorriso que desarma; a única vamp do mundo que se parece com a priminha que um dia você amou; (...) (tem) os cabelos de Mélisande, o rosto de Colombina; muito sex appeal, outro tanto de poesia (...).

Patrícia Moreira: Ao contrário do seu comportamento irreverente, Brigitte (...) foi criada nos moldes mais tradicionais. Seus pais, sempre severos, procuraram dar a ela e à irmã, Marie Jeanne (mais conhecida como Mijanou, é três anos e meio mais nova do que Brigitte e tentou sem sucesso a carreira de atriz de Cinema), a melhor educação.

Carlos Von Schmidt: Contrariando o que muita gente possa imaginar dela, Brigitte vem de uma família burguesa – da grande burguesia francesa.

Patrícia Moreira: Os primeiros passos da atriz rumo à carreira artística começaram por intermédio da dança.

Jeffrey Robinson: Incentivadas pela mãe, as duas meninas foram matriculadas em uma escola de Dança. Mas enquanto Marie Jeanne mostrava um pequeno talento, Brigitte provava ter uma tendência natural e rapidamente progrediu para as turmas mais adiantadas.

Patrícia Moreira: Nessa mesma época, a mãe de Brigitte, Anne-Marie, decidiu abrir uma pequena butique de chapéu. E, para lançar sua coleção, teve a idéia de promover uma apresentação de balé, que não poderia, é claro, deixar de contar com a participação da filha. E essa primeira atuação de Brigitte como modelo acabou conduzindo a outras oportunidades.

Brigitte Bardot: O destino começava a caminhar contra a minha vontade (...).

Jeffrey Robinson: Anne-Marie tinha uma amiga que era editora da revista Jardin des Modes. Ela soube da realização do desfile e procurou Anne para perguntar se Brigitte poderia ser modelo do suplemento especial (dedicado à moda juvenil). A menina gostou da idéia; e, em 1949, foi publicado seu primeiro ensaio fotográfico. A beleza de Brigitte não demorou a chamar atenção; e a editora da revista Elle, assim que viu as fotos, quis saber quem era a jovem modelo.

Brigitte Bardot: Hélène Lazareff, tendo visto as fotos, requisitou-me, (...) por intermédio da amiga de mamãe, para fazer uma capa para Elle em maio de 1949.

Jeffrey Robinson: Apesar de temerosa, Anne permitiu que a filha posasse para a revista, mas com a condição de que o seu nome não aparecesse.

Brigitte Bardot: (...) um ano mais tarde, (...) fiz novas fotos para Elle, um número especial, lançado em 8 de maio de 1950 e consagrado à moda “menina-moça e sua mãe”. Fui fotografada dentro de todos os modelos da “couture”, para serem usados de dia e à noite.

Patrícia Moreira: Para uma menina de menos de quinze anos, estar na capa de uma das mais famosas publicações francesas é sem dúvida uma aventura. Mas o que Brigitte não poderia imaginar é que sua foto também fosse despertar o interesse de pessoas da área cinematográfica.

Jeffrey Robinson: O diretor Marc Allégret a convidou para fazer um teste (...).

Brigitte Bardot: Houve grandes discussões em casa. Nada de atrizes na família! (...) Seria melhor estudar Latim ou História! (...) conselho de família na sala de jantar: meu avô Boum preside, os outros estão a seu redor. Essa pequena deve ou não ir conhecer Allégret? Novas discussões, “as atrizes são todas mulheres de vida fácil”, “nossa família não quer” etc. De repente, Boum deu um grande soco na mesa e declarou: “Se essa pequena tiver de ser um dia uma puta, ela será com ou sem o Cinema. Se ela não tiver de ser, jamais será uma puta; não é o Cinema que poderá mudá-la! Vamos dar-lhe uma chance, não temos o direito de dispor de seu destino.”

T. G. Novais: Os pais, então, permitiram que Brigitte fizesse o teste.

Jeffrey Robinson: Chegando lá, Brigitte conheceu o assistente de Marc Allégret, Roger Vadim.

Brigitte Bardot: (...) e descobri o Amor...

Roger Vadim: Nós víramos na (...) Elle uma reportagem sobre uma menina moderna e sua mãe: madame Bardot e sua filha. Ora, procurávamos uma jovem para interpretar a heroína de Les Lauriers Sont Coupés. Convocamos então a sra. e a srta. Bardot para irem à casa de Allégret. Quando Brigitte entrou – no apartamento dele e na minha vida – foi soberbo, foi como num flash. Sabem como é? Quando a gente sonha, existem sonhos que não nos saem mais da cabeça. Existem outros sonhos em que a gente se esquece de tudo; só se lembra de ter sonhado, mas não se sabe com o quê. No caso de Brigitte, minha lembrança está, até hoje, extremamente viva. É como se tivesse acontecido ontem, há uma hora, talvez menos. Ela tinha um estilo, uma personalidade, uma classe, uma superioridade inesquecíveis. Foi um momento soberbo. (...) Mesmo tímida e procurando esconder sua timidez, fez uma entrada de rainha.

T. G. Novais: Les Lauriers Sont Coupés jamais chegou a ser realizado.

Patrícia Moreira: A carreira de atriz parecia ser algo inevitável; e, em 1952, Brigitte fez sua estréia na comédia Le Trou Normand.

Jeffrey Robinson: Para Bardot, foi um começo desagradável. Ela não gostou do papel e nem ficou satisfeita com a sua interpretação.

Brigitte Bardot: Meu primeiro filme... foi terrível! Eu queria tanto ter sucesso; não somente por minha causa, mas por Vadim, que depositara muita fé em mim.

Patrícia Moreira: Apesar das impressões iniciais, Brigitte participou nesse mesmo ano de mais dois filmes (A Moça Sem Véu e Les Dents Longues); e, a partir daí, sua trajetória cinematográfica não parou mais.

Carlos Von Schmidt: A história de Bardot não é a de tantas outras estrelas célebres: ela não veio de uma casa pobre para tornar-se artista famosa e mulher milionária; não empreendeu uma dramática fuga de casa para tornar-se atriz e não foi a mocinha perdida na cidade grande em busca de um lugar ao sol. Parece que, a ela, tudo aconteceu naturalmente, sem grandes lances de dramaticidade.

Luciano Ramos: Tornou-se difícil explicar cientificamente seu sucesso, feito de um complexo de fatores. Além de sua presença magnética na tela, devem ter contribuído a propaganda das empresas cinematográficas e os golpes publicitários provocados pelos inúmeros escândalos que sempre acompanharam sua vida particular – para muitos, bem mais picante do que os papéis vividos nos filmes.

Roger Vadim: Amo-a apaixonadamente no Cinema. Ela é capaz, ao representar, de assumir totalmente seu personagem, de se dar por inteiro, de não temer sua própria personalidade.

Brigitte Bardot: Sou uma espécie de camaleão, tenho várias personalidades. (...) Eu me considero importante, mas sei também que não sou o centro do mundo. No íntimo sou uma pessoa simples. Prefiro blue jeans a um vestido de baile. Gosto de comer bem, mas comida caseira, que tive na minha infância. Minha casa de campo, bastante comum, é o lugar onde me sinto mais feliz. Não gosto de coisas rebuscadas. Bem, a verdade é que formei minha personalidade criança ainda – na casa de meus pais.

T. G. Novais: Brigitte Bardot é, antes de tudo, uma pessoa contraditória...

Brigitte Bardot: Reconheço que estou cheia de contradições. Eu não segui o meu caminho por uma trilha fácil. Mas, a despeito de tudo o que aconteceu comigo, eu ainda penso como uma criança. Há uma parte de mim que ainda não chegou à idade adulta. (...) Por isso sei que qualquer pessoa poderá fazer de mim um bebê. Mas prefiro ser um bebê a ferir uma pessoa ou deixar de ajudar alguém que realmente possa ter necessidade de mim.

Roger Vadim: Não é à toa que os franceses ainda a chamam BB, bebê. E cinqüenta milhões de franceses não podem estar enganados.

Any Bourrier: A França dos anos 1960, a França do (general Charles) de Gaulle, admirou e odiou BB. Muitos se identificaram com o mito, outros ficaram chocados com a tranqüila beleza de seu corpo despido, mas todos foram unânimes em proclamá-la a maior estrela do país. Em dez anos, Brigitte foi capa de revista 713 vezes, juntou uma fortuna considerável, que investiu em lojas, cadeia de lavanderias e imóveis.

Norberto Viana: Os franceses gostam da Bardot, e ela gosta da França.

Brigitte Bardot: Quis encarnar a França... definitivamente.

Sérgio Augusto: (A personagem de histórias em quadrinhos) Barbarella, (uma criação do ilustrador Jean-Claude Forest), é, a meu ver, uma versão galáxica de Brigitte Bardot: mulher de sonhos, longos cabelos dourados, pele bronze claro, nome estranho e doce. As roupas a atrapalham; daí, a nudez constante, os strip-teases provocantes, até mesmo involuntários quando a blusa fica presa nos espinhos de uma rosa gigantesca. Mesmo sua nudez é misteriosa, terna, como misteriosa e terna é esta heroína-símbolo da vamp moderna, a mulher que se oferece nos cartazes de publicidade e nos filmes eróticos, e da mulher livre, que escolhe seu destino e não se escraviza ao homem.

Brigitte Bardot: O general de Gaulle, o homem extraordinário, o militar exemplar, o chefe de Estado insubstituível e nunca substituído (...), praticamente fazia parte da minha família. A morte dele (ocorrida em novembro de 1970), foi para mim, por mais estranho que pareça, uma provação difícil.

Luiz Zanin Oricchio: BB diz-se admiradora do general Gaulle, mas confessa simpatizar mesmo é com as idéias do conservador (Jean-Marie) Le Pen (presidente da organização de extrema direita Frente Popular), em especial no que se refere à imigração. Ela, como boa parte da população francesa, se sente incomodada com a presença de estrangeiros de pele mais escura – em geral árabes, vindos de ex-colônias do país – em solo francês.

Rubens Ewald Filho: Como (Brigitte Bardot) pode ter ficado tão (...) reacionária?

T. G. Novais: Realmente, Brigitte é uma pessoa contraditória... e altamente erótica.

Micky Marcy: Quando BB quer ser ousada, é capaz de dar aulas às atrizes dos filmes mais eróticos.

André Maurois: Ela é o mito do erotismo sem perversão, da glorificação dos instintos ao lado da nudez integral e inocente.

Edgar Morin: (Brigitte) foi logo engolida pela máquina de fazer estrelas porque apresentava uma dosagem admirável de inocência extrema e erotismo extremo; era, potencialmente, “a mais sexy das ‘vedetes-bebê’ e a mais bebê das ‘vedetes-sexy’. De fato, seu rosto de gatinha remete simultaneamente à infância e à felinidade: os cabelos compridos e caindo pelas costas são o exato símbolo do nu lascivo, da nudez oferecida; mas uma franja supostamente indisciplinada a faz lembrar uma colegial. O nariz pequeno e obstinado acentua ao mesmo tempo sua peraltice e sua animalidade; o lábio inferior particularmente carnudo lhe dá um jeitinho de bebê, mas é também um convite ao beijo. Uma covinha no queixo completa a peraltice encantadora desse rosto, que caluniam quando dizem que só tem uma expressão. Tem duas: a do erotismo e a da infantilidade.

Brigitte Bardot: Como as crianças, eu necessito de proteção.

Claudia Cardinale: Quando (Brigitte e eu) fazíamos As Petroleiras, chegou ao set a notícia do suicídio da (atriz Anna Maria) Pier Angeli. Brigitte jorrou lágrimas como um chafariz, nada conseguia fazê-la parar. Eu procurava acalmá-la. E ela, por fim, me disse: (...) para nós, é quase inevitável acabar assim... Estamos todas desesperadas.” Minha pobre e querida amiga Brigitte. Eu a conheci e trabalhamos juntas, quando ela era bem e extremamente frágil.

Roger Vadim: Ela sempre conservou aquilo que mais me encanta e que mais admiro numa mulher e numa atriz: a coragem, a agressividade e vulnerabilidade, pois ela é vulnerável. Ela tem sempre necessidade de estar preparada para resistir contra os contatos exteriores da vida. Brigitte é o tipo de pessoa que nunca aprendeu a ser cínica. (...) Selma Lagerlöf, uma grande escritora sueca e uma grande mulher, disse a respeito de um de seus personagens: “É o mais forte e o mais fraco dos homens.” Na minha opinião, esta é a característica básica de um herói. Como uma estrela, como uma espécie de herói moderno, Brigitte é “a mais fraca e a mais forte das mulheres”.

Pierre Rey: Brigitte é muito vulnerável. Ao ver que não é mais amada ou que desgosta alguém, fica inteiramente paralisada. No caso, os psicanalistas falariam de “ausência de maturidade” ou “retardamento afetivo”. Simplesmente BB resolveu permanecer criança. Quando sente vontade de brincar, brinca; quando quer ser mulher, ama como uma criança voluntariosa. (...) Em sua opinião, a vida deveria ser apenas uma sucessão de festas divertidas, das quais estariam banidos todos os acontecimentos tristes e desagradáveis. Detesta a doença e o desconforto. Odeia o frio, o barulho, os homens que roncam de noite. Ama o que vive, o que é bom e belo: enfim, tudo o que lhe agrada. Adora viver ao ar livre, (...) vaguear pelas ruas olhando vitrines. Gosta de comer nos bistrôs, onde pede coisas simples: crustáceos, bife, queijo, peixe grelhado. Prefere o vinho tinto. Em casa, passa horas ouvindo discos, dançando descalça e acompanhando a música batendo palmas. Mantém relações amigáveis com todas as coisas boas que para ela são vitais, incluindo os homens.

Brigitte Bardot: Não posso viver sem paixão; e, quando não estou apaixonada, eu me aborreço. Fico feia como... uma agonizante. Quando amo, mesmo que seja infeliz, eu me transformo. A única existência que conta, fora a minha, é a do homem. Qual homem? Uma pergunta com muitas respostas.

Simone de Beauvoir: Quando um homem a atrai, Brigitte vai diretamente a ele. Nada pode detê-la. Apesar de ter deixado atrás de si muitos “cadáveres”, permanece ilesa.

Micky Marcy: BB sente necessidade de estar sob o olhar de um homem, no qual brilha uma chama de desejo. E sabe provocar esse brilho. Conhece tantos truques (...)!

Brigitte Bardot: O espelho que prefiro são os olhos dos homens. Na verdade, não acho interessante me olhar – nua ou não –; eu prefiro ser olhada.

Jacques Brissot: (...) Brigitte Bardot vai cumprindo um destino sinuoso, admirada e cobiçada pelos homens.

Micky Marcy: BB não é fácil. Só pensa numa coisa: AMAR.

Jacques Brissot: BB é ingênua e inconseqüente em seus amores. Diz um conhecido jornalista francês: “Ela só ama a si mesma, e os homens não passam de meros bonecos em suas mãos.” O próprio Vadim, quando se separou de Brigitte, disse muitas vezes que BB é infantil e leviana, não por maldade mas por descontrole emocional.

Roger Vadim: Brigitte é sempre uma adolescente! (...) Quando se apaixona, é sempre por um moleque, jamais por um homem. Por quê? Por causa de seu coração de criança.

Pierre Rey: Não é possível julgar Brigitte como se fosse uma burocrata de quem se pode prever o que fez ontem e o que fará amanhã. Brigitte não tem lógica nem hábitos certos. Com ela sabemos como começam as coisas, mas nunca como terminarão. É perfeitamente consciente de sua fama, mas sente-a como se fosse um sonho, como algo relacionado a outra pessoa. Estranha-se que Brigitte tenha uma lógica própria, diferente das demais pessoas. Sua “verdade” varia todas as manhãs, nunca é igual à do dia anterior. Tem a vivacidade e a leviandade das crianças que passam facilmente de uma brincadeira para outra ou do riso para as lágrimas. Muda de homem e de amor sem sentir o menor remorso ou hesitação. A cada um faz declarações de amor eterno; e não mente, pois cada vez, naquele momento fugaz, (...) sente que é eterno.

Micky Marcy: No que se refere ao amor, Brigitte é única. É como uma flor que acompanha o sol na sua trajetória pelo céu. É como as plantas de folhas sensíveis que se fecham ou estremecem quando tocadas. Ela é toda sensualidade, quase animal. Não poderia viver sem sol. Pereceria, se lhe faltasse o olhar de um amante, o brilho de inveja nos olhos das outras, um dedo alisando-lhe a epiderme, o abraço que sufoca, as pernas que aprisionam, as mãos que enlaçam a cintura e fazem estremecer de desejo...

Ruy Castro: Nos anos 1950, Brigitte Bardot estrelou filmes – não necessariamente ótimos, mas todos bombásticos – que tiraram o sono de muita gente. Os que conseguiam dormir tinham sonhos eróticos com ela. As mulheres a odiavam e boicotavam seus filmes, para não verem seus namorados babando.

T. G. Novais: Muitas pessoas, sobretudo mulheres, acham que Brigitte não conhece o significado da palavra “fidelidade”...

Brigitte Bardot: Não sou propriamente infiel. É melhor ser chamada de infiel do que ser fiel contra a vontade. Tenho a minha própria moral. Quando me apaixono, sou fiel.

Pierre Rey: Realmente, (Brigitte) não é infiel. Ela pode ir embora com um homem, após ter jurado amar perdidamente um outro no dia anterior. Mas é que este amor ela já perdeu e então segue o caminho mais fácil: abandona o que não é mais amado. Mais tarde, ela fará a mesma coisa com o novo homem e sem experimentar qualquer sentimento de culpa. Se os homens que a amaram compreendessem melhor a situação, não fariam qualquer tentativa para segurá-la, ao sentirem que chegou a hora da partida.

Brigitte Bardot: (...) só procuro viver histórias de amor possíveis, normais, agradáveis.

Pierre Rey: Sempre foi indecisa. Não sabe se quer ser amada e dominada ou se prefere amar e dominar.

Brigitte Bardot: Sou uma mulher (...) como as outras.

Pierre Rey: Brigitte não tem preferência por determinado tipo de homem. Em princípio, todos têm a sua chance, desde que não sejam chatos ou mal-humorados. Mesmo assim, há regras a serem observadas pelos que desejam a intimidade de Brigitte. O desembaraço exagerado a irrita e a timidez em excesso a aborrece.

Simone de Beauvoir: Todos os homens são atraídos pela sedução de BB, mas isso não significa que todos tenham disposições bondosas em relação a ela. A maioria dos franceses alega que a mulher perde o sex appeal quando abdica de artifícios. Segundo eles, uma mulher de calças compridas anula por completo o desejo. Brigitte demonstra-lhes o contrário; e isso agrada-lhes muito pouco, visto que não se acham dispostos a resignar sua condição de amos e senhores. BB não procede a encantamentos: atua, simplesmente. Sua carne não tem aquela abundância que, em outras, simboliza passividade. Suas roupas não são fetiches; e, quando se despe, não está desvendando um mistério. Está desnudando seu corpo... nem mais nem menos; um corpo que raramente se detém no estado de imobilidade. Ela anda, dança, movimenta-se. Seu erotismo não é mágico, mas agressivo. No jogo do amor, ela é tão caçadora quanto caça. O homem é para ela um objeto, assim como ela o é para ele. E é precisamente isso que fere o orgulho masculino. Em países latinos, onde os homens apegam-se ao mito da “mulher como objeto”, a naturalidade de BB parece-lhes mais pervertida do que qualquer sofisticação possível. Desdenhar jóias, cosméticos e saltos altos é recusar-se a transformar-se num ídolo remoto. (...) Brigitte, portanto, tem muito em comum com as heroínas de Françoise Sagan, embora declare que não sente por elas nenhuma afinidade – provavelmente, pelo fato de parecerem-lhe excessivamente judiciosas. (...) Em sua condição de fêmea confusa, de boêmia sem vínculos, BB parece disponível a qualquer homem. Entretanto, paradoxalmente, ela é intimidante.

Marguerite Duras: Enquanto Ava Gardner e Rita Hayworth despertavam a tentação da paixão trágica e mortal – não desejo empregar o termo “mito”, a respeito delas, porque o considero enfadonho –, a rainha Bardot desperta o desejo do amor adúltero, da relação carnal. Leva-nos a crer que qualquer de nós pode encontrar a sua rainha Bardot. A sua beleza não é fatal, mas afável. Possui a beleza de uma mulher e a vulnerabilidade de uma criança. Olha-nos com simplicidade, direto. (...) Se eu tivesse uma mulher como esta, pensam os homens, iria moldá-la à minha maneira, até à loucura. Faria com que dependesse de mim como qualquer outra e poderia, finalmente, exercer sobre ela todo o meu desejo de escravização. Pois uma mulher perfeita desperta sempre no homem, de um modo mais ou menos claro, a nostalgia da mulher que é suscetível de ser aperfeiçoada por ele até ao infinito (...).

Brigitte Bardot: Eu não amo os homens, amo o amor.

Micky Marcy: Ela é, inteira, um templo dedicado ao amor!

Jacques Charrier: É uma mulher diabólica, que esconde, por trás da candura de seu sorriso, uma alma perversa.

García Escudero: (...) o que acontece com Bardot é ser o tipo de mulher-criança, pequeno animal sem sentido de culpa, pura natureza; tipo destinado a multiplicar-se em grande número de jovenzinhas mais ou menos ingênuas, mais ou menos perversas, como Catherine Spaak e Jane Fonda. Trata-se do tipo cunhado pelo realizador Vadim para as suas sucessivas mulheres (...).

Silveira Netto: Quando o cinema americano lançou Marilyn Monroe e Jayne Mansfield, os franceses pensaram em encontrar uma fórmula superior à de Martine Carol, até então o principal produto de exportação de seu cinema. Foi então que surgiu Brigitte Bardot, uma pequena de menos de vinte anos de idade com muita vontade de tornar-se estrela de primeira grandeza. Suas formas não se aproximavam das medidas de Vênus; apesar disso, porém, era evidente que possuía qualquer coisa capaz de atrair o interesse do público masculino. O rosto fortemente sensual e um busto bem-feito destacavam-se do todo. Mas, à medida que iam surgindo os filmes de Brigitte, notava-se na sua presença provocante qualquer coisa de arrebatador. Brigitte foi subindo. Sua ascensão acelerou-se, depois que trabalhou com Roger Vadim, (...) o homem responsável pela criação do tipo que celebrizou BB.

Brigitte Bardot: (...) fazer quarenta filmes em menos de vinte anos dá um certo medo. (...) No começo, eu estava um pouco fora de esquadro. Vadim me ajudou a me exprimir. Mas não foi ele quem me criou. Eu era como havia decidido ser, de acordo com convicções solidamente fundadas em reflexões pessoais.

M. Martínez Carril: (...) Brigitte é uma mulher natural, não é a cortesã à moda de Martine Carol; é realmente uma garota contemporânea e sem conflitos.

Simone de Beauvoir: (...) uma vasta retaguarda do espírito conservador afirma que “BB é o produto e a expressão mais perfeita da imoralidade de uma época”. Mulheres decentes ou não desejadas podiam sentir-se tranqüilas, quando confrontadas com Circes clássicas, cujo poder advinha de segredos obscuros. Estas eram criaturas levianas e calculistas, réprobas, depravadas, possuídas por forças malignas. Do píncaro de sua virtude, a noiva, a esposa, a amante paciente e a mãe despótica imediatamente esconjuravam tais bruxas. No entanto, se o Mal assume as cores da inocência, erguem-se elas em fúria. Não existem traços da “mulher má” em BB. Franqueza e bondade são visíveis em seu rosto. Ela aproxima-se mais de um pequinês do que de uma gata. Não é depravada, ou venal. Em Amar É Minha Profissão, ela levanta a saia e propõe abertamente a Gabin um entendimento. Mas... em seu cinismo há um toque de uma candura desarmante. Ela é saudável, florescente, tranqüilamente sensual. É impossível distinguir nela a marca de Satã; e, por isso mesmo, ela parece tanto mais diabólica às mulheres, que se sentem humilhadas e ameaçadas por sua beleza.

Raymond Durgnat: BB é um dos monstros sagrados. Nesta categoria estão muitos dos maiores astros e estrelas do Cinema: (Erich) Von Stroheim, (Rodolfo) Valentino, (Greta) Garbo, (Marlene) Dietrich, Bette Davis, James Dean e (Marlon) Brando. Eles são idolatrados pela metade do público, execrados pela outra metade.

Luciano Ramos: No começo dos anos 1960, BB já não era mais um ente deste mundo. Constituía-se num astro, pairando acima dos mortais. (...) Para sociólogos e psicólogos, ela se encontrava no centro daquilo que se chamava “revolução sexual” – processo marcado pela nova permissividade moral, pela carência de esperanças sócio-políticas, pelo afrouxamento dos laços familiares e pela popularização das pílulas anticoncepcionais.

Any Bourrier: Brigitte nunca foi feminista militante. A autonomia da mulher no Cinema, porém, nasceu com ela e foi compartilhada aos poucos, com descontração e liberdade, pelas mulheres de classe média que com sua imagem se identificavam. Coincidiu com seus primeiros filmes, aliás, a primeira fase da luta feminista, pois as mulheres, que tinham adquirido o direito de votar, passaram a exigir mais: anticoncepcionais, liberdade de abortar, liberalização do divórcio.

Michel Gerac: (Brigitte) pôs de lado muitos preconceitos: os da burguesia (...), os da tirania masculina e os do ciúme conjugal. Enfim, desafiou todos os tabus. Ela mostra até onde se pode ir (...) e o que isso custa. Vive todas as experiências a que ninguém ousa arriscar-se (...). Causa inveja, sem que, no entanto, ninguém queira estar no seu lugar.

Henri Agel: Ela representa o não-conformismo moral na tela e fora dela.

François Truffaut: (Brigitte é) mais que uma atriz (...). Simboliza a época em que vivemos.

Marcello Mastroianni: É uma espécie de James Dean: predestinada ao sucesso, por encarnar uma época.

Michel Gerac: Foi Brigitte Bardot quem nos impôs a sua imagem na tela... E por esse motivo nos domina? Ou nós a adotamos apenas porque reflete, quanto ao melhor e quanto ao pior, a atualidade que vivemos?

Marguerite Duras: Ela é a própria atualidade (...).

Pauline Kael: (Brigitte) é a quintessência de todos esses adolescentes irresponsáveis e atrevidos que não sabem que a experiência humana tem mais expressividade e valores do que aquilo que está por trás de seus impulsos.

Michel Foucault: Ela trocou o “penso, logo existo” do filósofo Descartes pelo “danço, logo existo”.

Guido Logger: Brigitte Bardot tornou-se (...) algo com que certos espectadores se divertem e outros se escandalizam. Estes fazem a política do avestruz, metendo a cabeça na areia e dizendo: “Não queremos ver isso!” Aqueles dão acolhimento festivo ao erotismo da BB num ambiente quase histérico de uma nova moral hedonista, “a moral da felicidade” (...), e que o verbo coucher (deitar ou pôr-se em posição horizontal) é declinado em todos os tempos e modos como lema de vida. Só assim é desfrutada a liberdade e gozada a vida. BB tornou-se expoente dessa moral numa série de filmes em que se mostra apenas como um objeto saliente, idiota ou monótono, muito hábil em vestir-se ou despir-se com muita naturalidade. Convenhamos que é dona de um corpo “eloqüente”, embora o rosto nada inteligente nem bonito e o beicinho que freqüentemente  faz não impressionam por muito tempo. Tornam-se logo monótonos. Desde, porém, que BB começou a fazer determinadas caretas, a pentear-se assim e assado, a rolar de uma cama para outra, apareceram dezenas de BBs no Cinema e dezenas de milhares nas ruas do mundo inteiro. (...) O homem que sentiu instintivamente a necessidade de uma BB num mundo de transviados que pensam não ter um amanhã foi Roger Vadim. (...) Vadim (...) dizia: “Assim se anda, assim se olha; assim devem ser o teu penteado, a tua pose, as tuas atitudes...” Ela aprendeu direitinho (...). Vadim criou um novo tipo de mulher, a ninfeta (menina adolescente de físico atraente e atitudes provocativas). (...) A época que produziu um Bom Dia, Tristeza (de Françoise Sagan) e um Lolita (de Vladimir Nabokov) na Literatura, produziu no Cinema esse tipo de mulher que parece mais uma criança, que se entrega a qualquer um com naturalidade, sem que isto lhe atinja o mais profundo do ser. O interesse dos homens deslocou-se da vamp da década de 1920 para a mulher ninfômana; e Vadim personificou esta mulher em BB, sem a tristeza de Sagan, adotando um ambiente e uma atmosfera de “Viva a Vida!”... num mundo liberto de freios e conceitos morais.

Any Bourrier: (Quando) Roger Vadim conheceu BB, ambos não imaginavam que do encontro resultaria uma revolução dos costumes na França puritana do pós-guerra. (...) BB iria se tornar a maior estrela de todos os tempos do cinema francês, um artigo de exportação que daria ao país mais divisas do que a fábrica de automóveis Renault (...).

Guido Logger: Artisticamente BB não vale nada (...).

Brigitte Bardot: Não sou uma atriz!

Roger Vadim: Brigitte não é imoral nem amoral, é realmente livre.

Brigitte Bardot: As pessoas muitas vezes vêem em mim algo que não sou. Por exemplo, elas assistem a coisas em meus filmes que nunca fiz. Condenam-me de ser imoral e de influenciar a juventude. Eu poderia viver do modo que os outros gostariam, mas penso que nós devemos viver da forma que queremos e não ficarmos preocupados em agir desta ou daquela maneira. Apenas vivo do meu jeito.

T. G. Novais: A exemplo de um dos mais famosos personagens dos quadrinhos e dos desenhos animados, o marinheiro Popeye, uma criação de Elzie Chrisler Segar, BB poderia dizer: “I yam what I am an’ tha’s all I yam!”, ou seja, “Eu sou o que eu sou, e isso é tudo o que eu sou!”

Brigitte Bardot: Gostaria de apagar tudo, fazer desaparecer tudo que sou e o que me rodeia. Mas estou habituada a isto e tenho medo de sentir falta. Esta pele que todo mundo conhece não é minha, na realidade. A minha está longe demais, e não posso recuperá-la. Por outro lado, não preciso de ninguém para aconselhar-me. Só faço o que me agrada.

Any Bourrier: BB trabalhou com alguns dos melhores cineastas de sua geração, como Godard (...) e Louis Malle (...). O último trabalho de Brigitte, intitulado Colinot, é um filme razoável, que encerra sem brilho mas com bom humor uma carreira desigual (...). E, imitando Greta Garbo, com quem se assemelha pela aversão à imprensa, BB saiu do palco em plena glória, antes de completar quarenta anos de idade. Hoje, vive (...) rodeada de animais – principalmente de cães e gatos –, dedicando sua vida e seus recursos a uma causa nobre, a defesa das espécies ameaçadas de extinção ou massacre.

Brigitte Bardot: Devo ter feito 48 filmes. Apenas cinco podem ser considerados bons. Os outros, um lixo. Sei disso melhor que ninguém. Passei minha mocidade, os melhores anos da minha vida, fazendo coisas estúpidas e sem sentido; fico triste só em pensar. Esse é o motivo de não ter feito mais filmes. Preferi encerrar minha carreira a continuar estrelando histórias tão idiotas.

Silveira Netto: A carreira de Brigitte tem duas fases distintas: antes e depois de E Deus Criou a Mulher.

Cláudio Parreiras: Foi em (...) E Deus Criou a Mulher que explode Brigitte Bardot, (...) menina de boa família, transformada em bombe sexuelle, espalhando pelo planeta uma espécie de nova filosofia de amar. Brigitte era sinônimo de independência. As cenas em que ela dança o mambo ou faz amor nas areias ou sai do mar com o vestido colado no corpo causam escândalo internacional. A censura ordena cortes, as mães se indignam. Enquanto Brigitte representa todas as fantasias masculinas, as mulheres perseguem seu carro para cuspir-lhe no rosto. Nos Estados Unidos, a polícia invade as salas proibindo a projeção (...). A imprensa declara: “Bela como um anjo, provocante como um demônio, esta mulher fará você trair a sua.” O (jornal) Daily Mirror, na Inglaterra, escreve: “BB é o maior choque que a França sofreu desde a revolução de 1789.” (...) Na Espanha: “Esta menina é um demônio de saia e mais freqüentemente... sem saia!” (...) Já na Itália, (...) che bella, magnífica. Se cada homem tivesse uma sósia sua, existiriam menos guerras.” Na Rússia, suas fotos custam um mês de salário e o tráfico clandestino é feito em malas diplomáticas.



QUEM É QUEM

André Maurois (pseudônimo de André Herzog, 1885-1967) – escritor francês
Any Bourrier – jornalista francesa
Brigitte Bardot – atriz francesa
Carlos Von Schmidt – editor brasileiro
Claudia Cardinale – atriz italiana
Cláudio Parreiras – jornalista brasileiro
Edgar Morin – sociólogo francês
François Truffaut (1932-1984) – cineasta francês
García Escudero (José María García Escudero, 1916-2002) – crítico cinematográfico espanhol
Guido Logger – sacerdote católico e crítico cinematográfico brasileiro
Henri Agel – historiador francês de Cinema
Jacques Brissot – jornalista francês
Jacques Charrier – ator francês
Jeffrey Robinson – jornalista e escritor norte-americano
Luciano Ramos – jornalista e crítico cinematográfico brasileiro
Luiz Zanin Oricchio – crítico cinematográfico brasileiro
Marcel Achard – escritor francês
Marcello Mastroianni (1924-1996) – ator italiano
Marguerite Duras (pseudônimo de Marguerite Donnadieu, 1914-1996) – escritora e cineasta francesa
Michel Foucault (1926-1984) – filósofo francês
Michel Gerac – jornalista francês
Micky Marcy – empregada de Brigitte Bardot em La Madrague
M. Martínez Carril – crítico cinematográfico uruguaio
Norberto Viana – crítico cinematográfico português
Patrícia Moreira – jornalista brasileira
Pauline Kael (1919-2001) – crítica cinematográfica norte-americana
Pierre Rey – jornalista francês
Raymond Durgnat – crítico e historiador inglês de Cinema
Roger Vadim (1928-2000) – cineasta francês
Rubens Ewald Filho – crítico cinematográfico brasileiro
Ruy Castro – jornalista e escritor brasileiro
Sérgio Augusto – jornalista brasileiro
Silveira Netto – jornalista brasileiro
Simone de Beauvoir (1908-1986) – escritora francesa
T. G. Novais (1927-2008) – jornalista, escritor e tradutor nascido no Brasil