Ano 5 - nº 16 - maio/agosto de 2013

O QUE DISSERAM SOBRE O FILME BABETTE VAI À GUERRA



Brigitte Bardot: Eis um filme de que eu sou intérprete e que pode ser visto por crianças.

Roger Vadim: No que diz respeito à minha carreira, o ano de 1958 foi notável por um aspecto: falta de sorte. Tinha acabado de voltar dos Estados Unidos, quando fiquei sabendo que Brigitte recusava-se a ir a Hollywood para filmar Paris by Night (esse filme, um musical com Brigitte Bardot e Frank Sinatra nos principais papéis, jamais chegou a ser realizado). Raoul (Lévy), a quem raramente faltavam idéias, sugeriu que substituíssemos o musical por uma história bastante divertida com base numa garota ingênua mas desembaraçada que se envolve, contra sua vontade, com a Resistência. Brigitte ficou apavorada com a idéia de ter de saltar de pára-quedas; mas acabou aceitando o papel principal de Babette Vai à Guerra, sob a condição de que uma figurante tomasse seu lugar quando necessário. Raoul colocou-me, junto com um roteirista americano, para trabalhar o tema do filme. Alguns dias Alguns dias depois, Vingança de Mulher foi lançado. Como eu temia, não teve sucesso. Já estava trabalhando há mais de um mês no roteiro de Babette, quando soube, por meio dos jornais, que Raoul contratara um outro diretor, Christian-Jaque, para dirigir a fita. Que Raoul, decepcionado com o fracasso de nosso último filme, se encontrasse temeroso e tivesse decidido substituir-me era aceitável. Até mesmo o fato de não ter tido coragem para me dizer isso pessoalmente eu compreendia. O que me surpreendeu foi a atitude de Brigitte. Poderia, ao menos, ter me telefonado e dito que achava Christian-Jaque um diretor mais adequado para esse tipo de filme. Fiquei desconcertado e triste.

Brigitte Bardot: Era realmente Vadim quem deveria dirigir Babette Vai Guerra. Mas ele não sentia o filme da mesma maneira que eu. Queria acrecentar-lhe uma história bastante complicada. Sua idéia não combinava com a minha maneira de entender Babette. Por isso, pedi a Christian-Jaque que o dirigisse (...). Christian-Jaque era um homem cheio de vitalidade e de entusiasmo. Nós dois nos demos muito bem. É horrível trabalhar no Cinema, quando as pessoas não se dão bem. Para fazer um filme, é preciso passar alguns meses juntos. É fácil de imaginar o que acontece quando cada um está com vontade de atirar-se à garganta do outro durante todo o tempo.

Georges Collar: Raoul Lévy, produtor e co-argumentista do (...) filme (...), soube escolher bem a sua equipe. Como o general que prepara uma batalha até os mais ínfimos pormenores, Lévy contou inclusive com a apresentação da sua película no Festival de Moscou, que devia abrir ao cinema francês, pelo menos teoricamente, os tentadores (...) caminhos do mercado soviético. (...) talvez por isso os argumentistas do filme tenham escolhido um episódio da Resistência, quando a guerra contra um inimigo comum mantinha as relações russo-ocidentais num ambiente de cordialidade. Babette Vai à Guerra é uma comédia (...) de sátira, de caricatura até. Babette, uma garota ingênua, chega a uma cidade prestes a ser ocupada pelos alemães, só tem o tempo de atravessar o Canal da Mancha num desses barquinhos destinados a passeios pelo mar. Na Inglaterra, entra para o serviço auxiliar do Exército, apaixona-se por um oficial e encarrega-se de criar uma série de problemas divertidíssimos. No entanto, a vida de Babette vai se tornar subitamente difícil. Os serviços secretos decidem recorrer aos seus serviços pela sua semelhança física com a antiga amante de um general alemão que em Paris prepara a invasão da Inglaterra. O seu noivo oficial a acompanhará na perigosa missão que tem de realizar em solo francês. Já na França, Babette emprega o seu método especial: cometer erros sobre erros. (...) Cai nas mãos da Gestapo e depressa se converte numa agente de contra-espionagem. O general alemão (...) está muito malvisto pela polícia alemã, que pretende provar a sua culpabilidade; nas mãos da Gestapo, Babette transforma-se também num instrumento contra o pobre general. O resto do filme, até perto do fim, é um conjunto de divertidas peripécias, ainda que pouco originais, e que conduzem ao triunfo de Babette (...). De novo em solo britânico, as tropas preparam-se para uma cerimônia. Os autores da façanha vão ser condecorados. Babette e o seu tenente enamorado estão presentes. Mas as homenagens não são para eles. Os seus chefes, que, naturalmente, tinham ficado na Inglaterra, recebem as condecorações; e o casal, um insignificante aperto de mão. (...) O desempenho de Brigitte no filme é bom, até porque o papel de Babette foi criado de propósito para ela. (...) A direção de Christian-Jaque visa sobretudo a manter o ritmo; e, por isso, o filme tem uma ação digna de uma narrativa de aventuras, mas estritamente ligada ao cômico. O humor reside mais nas situações do que no diálogo e é sempre apresentado de maneira eficaz. Em resumo: um filme não muito original, mas francamente divertido.

Brigitte Bardot: Em Babette Vai à Guerra, recusei despir-me. Precisava fazer um filme que as crianças pudessem ver. Até então, todos os meus filmes eram para adultos! Na época, todos que tomavam conhecimento desse projeto diziam: “Qual a vantagem de ter Brigitte Bardot, se ela não tirar as roupas?” Mas eu me rebelei. Queria que este filme fosse bonito e juvenil. (...) Entretanto, o roteiro que submeteram à minha aprovação fez-me uivar de horror e desespero. Como é que Babette, (..) filme que eu imaginava encantador e divertido, podia ter se transformado num roteiro tão lastimável e sem interesse? Aceitara a idéia encantadora daquela pequena combatente da Resistência e me encontrava com a história de uma Mata Hari sexy, vulgar, que se deitava com todos. Devolvi o roteiro (...). Raoul Lévy pensou então em Gérard Oury, que, antes de ser o maravilhoso diretor que se tornou e depois de ter abandonado sua carreira de ator, teve um período transitório de roteirista de talento. (...) puseram-se a trabalhar dia e noite. Remodelaram uma Babette ingênua mas eficaz, refizeram o roteiro (...). Alguns dias mais tarde, após ter lido atentamente o novo roteiro, apus minha assinatura no final, tecendo uma afinidade de elogios a Gérard Oury, sem a presença do qual o filme provavelmente não teria existido, pelo menos comigo!

Villela Neto: (No filme, o) corpo encantador de BB nos é escondido por um sóbrio uniforme.

Brigitte Bardot: Uso uniforme, um uniforme do Exército, feito para ser usado por um soldado. Eu mergulhava dentro dele... era muito grande para mim... havia lugar ali para três moças do meu tamanho. Os ombros caíam até meus cotovelos, e o capacete descia-me até as orelhas. (...) não fiquei bonita.



QUEM É QUEM

Brigitte Bardot – atriz francesa
Georges Collar – crítico cinematográfico francês
Roger Vadim (1928-2000) – cineasta francês
Villela Neto – jornalista brasileiro