Ano 5 - nº 16 - maio/agosto de 2013

O QUE DISSERAM SOBRE O FILME A VERDADE



Brigitte Bardot: Neste filme, senti-me consciente de ter sido uma verdadeira atriz.

Roger Vadim: (O diretor do filme,) Henri-Georges Clouzot, o grande mestre do Suspense e do Filme Noir, (...) ficou bastante conhecido em toda parte por As Diabólicas, estrelado por Simone Signoret e Vera Clouzot.

Luís de Pina: A Verdade, que focaliza o julgamento de uma jovem que matou o amante, acaba por mostrar que a procura da verdade é impossível, pois depende do interesse de cada elemento humano em defender a “sua” verdade, que pode estar tão escondida e ser tão ambígua que o natural e o normal se apaguem diante do anormal e do patológico. A face da verdade, para Clouzot, é absolutamente nebulosa e indecifrável. Em suma, Clouzot parece não reconhecer confiança nos homens para julgar: réus, testemunhas, advogados, jurados, juiz, toda essa gente se mostra incapaz de revelar a verdade; e, portanto, as sentenças terão sempre grande dose de arbítrio e injustiça. Gilbert (Sami Frey) amou Dominique (Brigitte Bardot). Esta é a verdade para Dominique; e, até certo ponto, o espectador identifica-se com ela. Mas teria o diretor contado a história de maneira clara para essa verdade ficar demonstrada? Dominique amou Gilbert, mas este nunca quis. Esta é a verdade do advogado de defesa. Dominique nunca amou Gilbert. Esta é a verdade para a acusação. Gilbert nunca amou Dominique, que  o seduziu, e sempre amou Annie (Marie-José Nat), a irmã desta. Eis a verdade para Annie. O problema da verdade chega ao seu auge quando o jurado tem de decidir: “culpada” ou “culpada com fortes atenuantes”? E o filme termina com a única verdade que o inicia: a paixão desregrada de uma jovem levada às últimas conseqüências – o suicídio. Não há dúvida de que poderíamos estar de acordo com Clouzot, no que se refere à dificuldade do julgamento humano, se o seu processo, se a sua sala do tribunal não fosse tão desumana, tão cínica, tão interesseira, se a sua visão da Justiça não fosse arbitrária. É evidente que têm havido erros judiciários, que a Justiça é falível etc. Mas não se pode desculpar um crime denunciando outro, atirando poeira aos olhos. (...) o filme é a visão de um mundo perturbado (...), de seres patológicos, amorais e lúbricos, vivendo a vida em promiscuidade, entregues apenas aos sentidos. Brigitte Bardot  surge-nos (...) como um animal sexual, uma doente, pois não há outro modo de explicar o seu comportamento, a sua permanente sensualidade. Alguém dizia que o traje habitual e preferido de Brigitte Bardot era o lençol e talvez tivesse razão. Pelo menos é o que a fita mostra. Se Clouzot quis com este filme traçar um quadro da juventude, de certa juventude francesa, para sobre ele apontar os erros de uma educação, parece-nos que falhou. É que não basta traçar o quadro, mas sugerir as responsabilidades e apontar os erros. (...) É necessário condenar os métodos deste diretor sem dúvida talentoso – e a prova do seu talento é a dádiva de uma Brigitte Bardot finalmente atriz e vivendo o seu mito com impressionante verdade –, deste homem para quem a câmara e a linguagem não têm segredos; mas, que seguindo caminhos tortuosos e intencionalmente labirínticos...

Jorge Luis Borges: O labirinto é o símbolo mais evidente do estar perdido.

Luís de Pina (continuando do ponto em que tinha parado): (Clouzot) pretende levar-nos ao nada, a um mundo demoníaco.

Guido Logger: Clouzot foi sempre preocupado com as possibilidades misteriosas que o homem traz em si mesmo. Essa preocupação é o estimulante de seus filmes e de seus personagens em Sombras do Pavor, Crime em Paris, Anjo Perverso, dos choferes de O Salário do Medo, das mulheres de As Diabólicas, dos homens de Os Espiões e, finalmente, de Dominique Marceau em A Verdade. A constante de todos esses filmes são as possibilidades para o mal, que enchem os personagens de dor e de aniquilamento: são atos cometidos, às vezes, contra a própria vontade; mas nunca sem a sua colaboração. Eles sentem-se obrigados a tais atos, a uma corrente de atos, cujo fim é uma consternação tal que somente  lhes resta a autodestruição. Assim é em A Verdade. Dominique Marceau responde a um processo judiciário sobre um crime passional. Filha de um oficial do Exército, (...) não quer prestar mesmo, perdendo-se social e moralmente. Não se sente pessoalmente responsável por coisa alguma. Não reconhece que a razão deve ter um papel ordenador em seus sentimentos. Não reconhece nada, deixa-se ir ao sabor dos sentimentos e dos desejos, agindo no vácuo em situações desesperadoras, em que se fala no suicídio como uma brincadeira. Ela é viva, sensual e astuta. É o tipo de moça que num ambiente propício poderia ser uma dona-de-casa sem muito miolo, mas alegre e dedicada. Os pais, porém, têm somente atenção para a outra filha, Annie, o contraste de Dominique. Annie é aplicada, inteligente, séria (...). Por  falta de carinho e de compreensão, Dominique se torna intratável; e abre-se o caminho para a perdição. O desespero já nasceu: a primeira tentativa de suicídio em casa. A família consente em que vá a Paris, à procura de trabalho e onde morará com a irmã. Os conflitos com Annie não tardam. Sem o que fazer, com a cabeça vazia, Dominique facilmente cai na vida fácil. Um dia há o encontro casual com Gilbert Tellier, rapaz complicado. Ele pressente algo de bondade no coração de Dominique; mas a sua concupiscência dirige-se antes de tudo ao que nela se manifesta mais direto, a sua sexualidade. Faz promessas, gosta dela; mas os estudos e a carreira ocupam-no tanto que não pode viver no ambiente existencialista que ela freqüenta.

Jean-Paul Sartre: Gostaria de defender aqui o Existencialismo contra um certo número de críticas que lhe têm sido feitas. Primeiramente, criticaram-no por incitar as pessoas a permanecerem num quietismo de desespero, porque, estando vedadas todas as soluções, forçoso seria considerar a ação neste mundo como totalmente impossível e ir dar por fim a uma filosofia contemplativa, o que aliás nos reconduz a uma filosofia burguesa, já que a contemplação é um luxo. Nisto consistem sobretudo as críticas comunistas. Por outro lado, criticaram-nos por acentuarmos a ignomínia humana, por mostrarmos em tudo o sórdido, o equívoco, o viscoso, e por descurarmos um certo número de belezas radiosas, o lado luminoso da vida humana (...). E do lado cristão... censuram-nos por negarmos a realidade e o lado sério dos empreendimentos humanos, visto que, se suprimirmos os mandamentos de Deus e os valores inscritos na eternidade, só nos resta a estrita gratuidade, podendo assim cada qual fazer o que lhe parecer e não podendo, pois, do seu ponto de vista, condenar os pontos de vista e os atos dos outros.

Guido Logger: Dominique se refugia em aventuras passageiras; mas, voltando a si, descobre que Gilbert é o seu verdadeiro amor. Quando o procura, encontra-o noivo da irmã. (...) Ela perde todo o controle e esvazia o revólver nele, tentando mais uma vez o suicídio. É salva e presa pela polícia. Depois, começa o processo. O filme de Clouzot é a história desse processo no tribunal, em que a câmara mostra alternadamente trechos do julgamento com todos os erros humanos e, em flashbacks, fragmentos da vida e dos acontecimentos reais, que as investigações nunca puderam reconstruir na sua totalidade e no seu conteúdo humano. Clouzot fez um filme triste e desesperado, porque descobre friamente o absurdo trágico de uma parte da sociedade contemporânea, que se aniquila por falta de um ideal de generosidade, pela supervalorização de um egoísmo sexual.

Jean-Paul Sartre: (...) sob a pena de (Albert) Camus, essa palavra (absurdo) adquire duas significações muito diferentes: o absurdo é ao mesmo tempo um estado de fato e a consciência lúcida que certas pessoas tomam desse estado. É absurdo o homem que, de um absurdo fundamental, tira incansavelmente as conclusões que se impõem. Que é, então, o absurdo como estado de fato, como dado original? Nada menos que a relação do homem com o mundo.

Guido Logger: (Clouzot) soube suscitar no espectador a compaixão por um ser humano. Não podemos pensar um minuto no personagem imaginário Dominique Marceau; excluindo o assassínio, está diante de nós Brigitte Bardot e a geração que representa, sua vida, suas falas, gestos e atitudes, vítima de um drama psicológico do nosso tempo. Conta a verdade a respeito de BB de uma maneira como só se faz uma vez sobre um ser humano. E ela também só pôde ser uma vez o que foi neste filme: uma grande tragedienne.

Roger Vadim: Clouzot pertencia àquela estirpe de diretores que via na tortura a maneira ideal de extrair o que há de melhor num ator. Sua crueldade era particularmente reservada às atrizes. Com Brigitte, no entanto, escolheu a vítima errada. No terceiro dia de filmagem, no meio de uma tomada, ele a agarrou pelos ombros e a sacudiu violentamente, berrando: “Não preciso de amadores em meus filmes! Quero uma atriz!” Brigitte não tolera nenhum tipo de agressão física. O fato de o agressor ser um gênio não a impressionou em nada. Esbofeteou Clouzot em ambas as faces, na frente da equipe petrificada, e gritou: “E eu preciso de um diretor. Não de um psicopata.” (...) As filmagens prosseguiram sem outras confrontações físicas. Mas eram difíceis e desgastantes. Brigitte, que ainda não estava acostumada à tirania do diretor, sofreu um bocado. (...) Filmar A Verdade, sob a direção de Clouzot, a exauriu.

Guido Logger: (Com A Verdade,) Clouzot derrubou o falso ídolo de uma supermulher bela, livre (...) e dona de seu destino, que, num último assomo de desespero quer provar não a sua inocência... mas a sinceridade das suas intenções, traduzida no brado final com que acaba o filme. É a expressão da verdade que nela existe e daquilo que vive no homem: o amor e nada mais. Se Clouzot descobriu isto, nunca deveria ter feito o jogo ignóbil de todos os seus predecessores, que foram incapazes de descobrir a verdade e exploraram o fenômeno BB, fazendo um jogo gratuito, um exibicionismo doentio e desnecessário em várias seqüências de A Verdade. Não teve o bom gosto de sugerir, não teve sobretudo o respeito e a piedade que a sua análise lhe impunha pela pobre pessoa humana de BB. Continuou, apesar de sua compreensão, a torpe exploração de sua figura. Não é aceitável igualmente o fatalismo demonstrado no filme. Ninguém no mundo é tão determinado para o mal. Dominique conheceu bem o outro lado da vida pela educação que teve, pelo ambiente familiar em que viveu, pelo exemplo da irmã com quem vivia. Não há lugar no mundo para o niilismo. A presença do amor e a consciência desse amor fazem o desespero completo, sim; mas muitos passaram pela mesma experiência. Foi justamente pela consciência do amor que não escolheram a morte como Dominique (...), mas a vida, dentro da qual existem o perdão e a misericórdia de Deus, a reparação do erro e a expiação do pecado.



QUEM É QUEM

Brigitte Bardot – atriz francesa
Guido Logger – sacerdote católico e crítico cinematográfico brasileiro
Jean-Paul Sartre (1905-1980) – escritor, filósofo e dramaturgo francês
Jorge Luis Borges (1899-1986) – escritor argentino
Luís de Pina – crítico cinematrográfico português
Roger Vadim (1928-2000) – cineasta francês