Ano 5 - nº 16 - maio/agosto de 2013

O QUE DISSERAM SOBRE O FILME A MULHER E O FANTOCHE



Brigitte Bardot: Para representar em A Mulher e o Fantoche, ensinaram-me os segredos dessa dança selvagem e sensual que é o flamenco. (...) Devíamos começar a filmar durante a famosa feira de Sevilha, grande festa anual que acontece na Semana Santa. Uma grande avenida da cidade é fechada para os carros; e, nas calçadas, as pessoas ricas ou os aristocratas levantam barracas magníficas (...). No meio da avenida, desfilam todos os melhores músicos de flamenco... com seus dançarinos e dançarinas.

T. G. Novais: Os espanhóis esperam impacientes, durante 360 dias, a feira anual de Sevilha – a encantadora Sevilha, cidade das flores em profusão, terra da voluptuosidade e do sol. Durante os cinco dias de feira, fabulosa quermesse, desfilam as mulheres mais belas e graciosas do mundo, os toureiros e cavaleiros mais notáveis, numa contínua explosão de alegria e festividade. Por toda parte, sons de guitarras, danças sensuais, vinho velho cor de ouro, o cheiro de flores, um céu puríssimo...

Tony Crawley: (O filme) foi quase um completo desastre, salvo apenas por algumas seqüências com BB.

Jaime Rodrigues: Uma dessas seqüências é a que mostra Brigitte, coberta apenas com um xale, dançando para um grupo de homens sentado no chão. Espelhos estrategicamente colocados refletem sua adorável imagem.

Tony Crawley: Seria essa seqüência um tributo a Orson Welles? Seria ela uma homenagem à famosa cena no Palácio dos Espelhos, na qual Welles mata Rita Hayworth, no final de A Dama de Shangai?

Marco Aurélio Lucchetti: Acho que Brigitte Bardot não está tão bem assim nessa cena de dança. Faltou-lhe algo primordial: a sensualidade mostrada, por exemplo, por Aleta, a rainha das Ilhas das Névoas, ao dançar – com os pés descalços e o vestido esvoaçando – para um grupo de tuaregues ferozes.

T. G. Novais: Mas voltando a falar de A Mulher e o Fantoche... O filme é baseado no romance La Femme et le Pantin, de Pierre Louÿs.

Jaime Rodrigues: Esse romance já havia inspirado – nos anos 1930 – um filme dirigido por Josef von Sternberg: Mulher Satânica, estrelado por Marlene Dietrich.

Mário Moreira Chaves: O livro tem como protagonista Concha (ou Conchita) Perez, uma moça que nunca teve noivo nem namorado e que ignora o que é o amor. Uma moça que, com a astúcia e a malícia da primeira mulher – Eva, a pecadora que ensinou o homem a pecar –, sabe dar o beijo de fogo que abrasa o sangue nas veias e, em seguida, desvencilha-se dos braços que a apertam, nega sua boca a uma nova carícia... Ela promete, promete favores sempre para um amanhã que nunca chega... Sorri com os olhos e nega com os lábios... Foge, desaparece; para depois, num novo encontro, mostrar-se mais terna do que nunca... Mostra-se terna e suave, mas apenas momentaneamente. Suscita ciúmes, ciúmes atrozes, para certificar-se de que seu homem a adora... Hoje, diz: “Gosto de você, amo-o, hei-de amá-lo sempre...” E, no dia seguinte, nega tudo, cinicamente; faz passar por burla o que se tomou por sentimento. Faz do amor uma arma que dia a dia se crava mais profundamente no coração do homem. E age assim até enlouquecer esse homem, até anular-lhe por completo a vontade, a dignidade, até convertê-lo num fantoche.

T. G. Novais: Conchita/Eva – Eva é o nome da personagem de BB em A Mulher e o Fantoche – lembra muito Carmen (uma criação do escritor Prosper Mérimée), a cigana que sabe fascinar os homens com suas canções, danças e artimanhas felinas, sempre cativando, excitando e sempre enigmática.

Mário Moreira Chaves: Concha Perez é pura sedução. Seu corpo longo e flexível é tão expressivo que, ainda que lhe velem o rosto, será possível ler-lhe o pensamento, já que ela parece sorrir com as pernas e falar com o torso.

Jaime Rodrigues: Julien Duviver, o diretor do filme, encontrou na Bardot a intérprete ideal para Eva. BB soube assmilar toda a malícia dessa moça travessa, donairosa, exasperadamente sedutora. (...) BB sabe, como nenhuma outra atriz, expressar-se com o corpo. Seu corpo fala, pois ela tem a dança no sangue.

Mário Moreira Chaves: Mas o Lucchetti achou que faltou sensualidade a Brigitte... justamente na cena de dança.

Marco Aurélio Lucchetti: Não me expressei claramente da outra vez. Eu devia ter dito: “Faltou em Brigitte a expressão de sensualidade que se encontra, por exemplo, no rosto de Aleta, ao dançar sob o olhar de um grupo de tuaregues ferozes.” Tal qual acontece com o corpo de BB, o corpo de Aleta fala; mas é no rosto que está grande parte da sensualidade desta mulher de papel. Na verdade, sua expressão é a mesma da mulher que está atingindo o orgasmo. É como se a dança fosse para ela um ato sexual e estivesse atingindo, naquele momento, o clímax desse ato. E não vi isso na cena da Bardot.

Mário Moreira Chaves: De qualquer forma, Concha Perez é uma das mais belas e fascinantes figuras femininas que Pierre Louÿs criou...

Alexandrian: Pierre Louÿs (...) dizia, em seus primeiros ensaios: “Minha alma tende com liberdade para uma meta inflexível: o ideal do Belo.”

Hélio Gomes: Pierre Louÿs foi um grande sensual, um pan-erótico, cuja imensa carga libidinal encontrava na atividade literária uma das maneiras de se expandir e se realizar, sublimando-se. Ele mesmo escreveu que a “sensualidade é a condição misteriosa, mas necessária e criadora do desenvolvimento intelectual: os que não sentiram, até o limite máximo, fosse para amá-las, fosse para maldizê-las, as exigências da carne, são, por isso mesmo, incapazes de compreender toda a extensão das exigências do espírito. Assim como a beleza da alma ilumina todo o rosto, a virilidade do corpo é a única coisa capaz de fecundar o espírito.” (...) Conchita é uma sadomasoquista. Há traços de seu caráter (...) que são incontestavelmente manifestações sexuais reveladoras de masoquismo e também de sadismo. É certo que a natureza e a educação milenar, que vêm recebendo, preparam as mulheres para a submissão, para o passivismo, para a dependência, no terreno sexual; e de tal jeito que nelas é fisiológico um masoquismo discreto, expressão endócrina talvez de sua tendência à sujeição e ao governo do outro sexo, destinado à atuação social e à defesa da prole. Se o verdadeiro sadismo nada mais é, como assinala (o psiquiatra alemão Richard von) Krafft-Ebing, do que a acentuação patológica da virilidade, compreende-se que seja mais comum aos homens do que às mulheres. Porém, o sadismo também existe entre as mulheres, sobretudo o sadismo moral, que se limita a martirizar as vítimas, não no corpo, mas na alma, comprazendo-se com a tortura espiritual que vê espelhar-se-lhes nos olhos. Conchita é masoquista... porque gosta de ser humilhada, de sofrer; mas também é uma sádica, porque se compraz em fazer sofrer, em humilhar. Os vexames impostos a Mateus, a quem, aliás, ama, as desilusões, a tortura das repetidas recusas ao amante solícito, assim como o capricho de não se entregar a ele, não são apenas, na minha opinião, como se afigura ao querido amigo Alcides Carlos Maciel, “requintes cruéis que traduzem um sádico”, mas (...) manifestação de uma sadomasoquista, a quem, no amor, interessa pouco a conjunção física dos corpos, e muito ver sofrer, humilhado, o ente amado.

Alcides Carlos Maciel: (...) Conchita é um estudo perfeito de amor mórbido. (...) ela sente prazer no sofrimento do amante. (...) Ao lado do tipo sexual sadomasoquista de Conchita, o autor criou um dos perfeitos títeres entre todos os homens. A figura de Don Mateus, que é um cavalheiro instruído e de caráter bem formado, chega a ser, no fim do romance, extremamente ridícula. Nesse ponto, o autor jogou, como tóxico, com a paixão amorosa. O leitor assiste, com a nitidez que o romancista idealizou, ao espetáculo da transformação gradativa de um homem num fantoche... tudo por causa de uma paixão virulenta. (...) Don Mateus vivificou o homem que perseguiu a felicidade no amor de uma mulher insana, amando-a sinceramente e desejando sempre ser amado por ela. Degradou-se na obstinação; a princípio, sem o sentir... e, no fim, com a consciência do mal, sem forças para reagir.

Pierre Louÿs: Ah! (...) Se a mulher o insultar, se ela o ultrajar – curve-se. Se ela bater, proteja-se; mas evite que ela seja machucada. Se ela o arruinar, deixe que o faça! Se ela o enganar, nada revele para não a comprometer. Se ela acabar com a sua vida, suicide-se, se quiser! Basta que nunca, por sua culpa, o mais leve sofrimento venha a magoar a pele dessas criaturas adoráveis e ferozes, para as quais a volúpia do mal sobreleva a da própria carne. Foi isso que tentei demonstrar em La Femme et le Pantin.



QUEM É QUEM

Alcides Carlos Maciel – tradutor brasileiro
Alexandrian – escritor francês
Brigitte Bardot – atriz francesa
Hélio Gomes – crítico literário brasileiro
Jaime Rodrigues (1941-1998) – escritor, editor e jornalista brasileiro
Marco Aurélio Lucchetti – professor universitário, escritor e pesquisador  brasileiro de Cinema e Quadrinhos
Mário Moreira Chaves (1910-1999) – poeta, jornalista e crítico literário brasileiro
Pierre Louÿs (Pierre-Louis, 1870-1925) – escritor francês
T. G.  Novais (1927-2008) – jornalista, escritor e tradutor nascido no Brasil
Tony Crawley – pesquisador inglês de Cinema