Ano 5 - nº 16 - maio/agosto de 2013

O QUE DISSERAM SOBRE O FILME AMAR É MINHA PROFISSÃO



Georges Sadoul: Grande sucesso de público.

François Truffaut: Um dos melhores romances de (Georges) Simenon, En Cas de Malheur (Em Caso de Desgraça, escrito em 1955), tornou-se um dos melhores filmes de Claude Autant-Lara. O tema não é o novo, é o de (...) La Chienne (fita dirigida por Jean Renoir e baseada no romance de Georges de la Fouchardière), amor de um homem maduro, estabelecido na vida, por uma moça – mais jovem e mais fútil – que representa o eterno feminino. Refiro-me a La Chienne, pensando no admirável preâmbulo por intermédio do qual Jean Renoir apresentava o filme, utilizando marionetes que se batiam com bastões. “É a eterna história: ela, ele e outro. Ela é Lulu, uma boa menina, ela é sempre sincera; ela mente o tempo todo.” Essa definição seria perfeitamente adequada ao personagem de Yvette, interpretado por Brigitte Bardot em Amar É Minha Profissão. Essa Yvette faz um assalto com a cumplicidade de uma amiga; antes de ser presa, ocorre-lhe pedir a um célebre advogado parisiense, André Gobillot, para ocupar-se de sua defesa; ela oferece-se a ele na primeira visita, erguendo a saia sob a qual não está usando nada; ele recusa, mas concorda em defendê-la, consegue uma absolvição bem pouco louvável e, tornando-se seu amante, instala-a em sua casa com o acordo tácito da esposa, que é a origem de seu êxito social. Mas Yvette, por falta do que fazer, tem várias aventuras e acaba enrabichando-se por um estranho rapaz, apaixonado, “operário durante o dia e estudante durante a noite”, que tenta inculcar-lhe alguns princípios de moral absoluta antes de matá-la, gesto que Gobillot teria feito trinta anos antes, nas mesmas circunstâncias.

Patrick Marnham: En Cas de Malheur é (...) sobre a obsessão de um homem de meia-idade por uma mulher mais jovem. Gobillot é um advogado a pegar um caso sem esperança, defendendo uma jovem nômade acusada de roubar um velho joalheiro. Ele consegue a absolvição da cliente, Yvette; mas, depois, fica obcecado por ela, a ponto de prejudicar sua carreira e pôr em risco seu casamento perfeitamente satisfatório. Juntos, ele e Yvette fazem sexo com a empregada dela. Ele também tem um jovem rival, igualmente obcecado por Yvette, e que acaba matando-a. Após a morte dela, Gobillot entrega seu dossiê sobre Yvette, contando o caso deles em toda a sua sordidez, ao colega que está defendendo o rival mais jovem na acusação de assassinato.

François Truffaut: (Em Amar É Minha Profissão, Claude Autant-Lara) não transmite nada aos personagens (...); a bondade que julguei perceber na obra de Simenon, essa espécie de serenidade que adoça as mais escabrosas situações, vocês não encontrarão no filme, que é vingativo.

Thomas Narcejac: (...) a obra de Simenon está bem acima da literatura policial, colocando-se ao lado da de Krafta, Georges Bernanos e Graham Greene, já que seu núcleo é basicamente um drama psicológico.

Jean Mambrino: Uma das razões do fascínio exercido por Simenon sobre seu público vem do extraordinário apetite de viver que têm seus personagens, de sua paixão pelas coisas e os homens em geral.

Georges Simenon: (...) busco desvendar a vida das demais pessoas, de quem quer que seja.

Brigitte Bardot: Claude Autant-Lara não era um diretor de brincadeira! Nem pensar em discutir suas idéias a respeito de figurino ou de penteado. (...) era a primeira vez em minha vida que tinha um papel tão importante em um filme sério, com um diretor intransigente e com parceiros mundialmente conhecidos como atores calejados (Jean Gabin e Edwige Feuillère). (...) e o filme começou (...). Estava  tão perturbada que, na primeira cena, na qual contracenava com Gabin em seu escritório de advocacia, eu não conseguia dizer o meu texto sem me enganar a cada tomada. Eu estava transtornada! Autant-Lara começava a irritar-se (...). Então, Gabin foi extraordinário. Sentindo minha angústia, minha timidez, meu desvario, vendo que eu estava à beira de um ataque de nervos, enganou-se de propósito na tomada seguinte. Da,í resmungou que “aquilo acontecia com todo mundo”. O clima melhorou, e finalmente pude dizer o meu texto sem me enganar. Obrigada, Gabin! (...) você teve uma sensibilidade imensa; e, graças a você, fui muito bem em Amar É Minha Profissão.



QUEM É QUEM

Brigitte Bardot – atriz francesa
François Truffaut (1932-1984) – cineasta francês
Georges Sadoul (1904-1968) – crítico e historiador francês de Cinema
Georges Simenon (1903-1989) – escritor belga de língua francesa
Jean Mambrino – crítico literário francês
Patrick Marnham – escritor inglês
Thomas Narcejac – escritor francês