Ano 5 - nº 15 - janeiro/abril de 2013

"VAI SER SEMPRE PAUL NEWMAN!"
Peter Bogdanovich



Certa vez, Hitchcock disse-me que Walt Disney, por fazer desenhos animados, tinha o melhor elenco: se não gostasse de um ator, bastava apagá-lo! Com certeza, era isso o que o “Mestre do Suspense” teria feito com Paul Newman em Cortina Rasgada (Torn Curtain, 1966). Ao visitá-lo durante as filmagens, encontrei Hitchcock sentado em sua cadeira alta de diretor, em estado de fúria silenciosa. “Que é que há?”, perguntei. “Paul Newman mandou-me um memorando”, respondeu Hitchcock com azedume, como se tivesse recebido uma carta-bomba. Um memorando sobre o quê? “O roteiro!”
Hitchcock estava indignado. A nota de quatro páginas evidentemente tratava de todos os problemas ou temores do ator, com queixas sobre numerosos pontos no roteiro e de como afetariam seu personagem. “Seu personagem!”, resmungou Hitchcock quase sem fôlego. Depois, completou: “Pensei cá comigo: ‘Que importa seu personagem?’ Vai ser sempre Paul Newman!”



Este texto foi transcrito do jornal O Estado de S. Paulo (São Paulo, 25 de abril de 1999, Caderno 2, p. D5)