Ano 5 - nº 15 - janeiro/abril de 2013

ALFRED HITCHCOCK, UM CRIADOR DE IMAGENS GENIAIS



Chamar Alfred Hitchcock de “Mestre do Suspense” não está errado. Só que vem a ser uma simplificação tão grande como considerar Édipo Rei, de Sófocles, apenas uma ótima peça policial. Como nenhum outro cineasta, Alfred Joseph Hitchcock, morto terça-feira passada (29 de abril) em Los Angeles, aos oitenta anos, era capaz de manipular as expectativas da platéia; mas sua obra representa muito mais que uma habilidosa coleção de truques. Na maioria de seus 53 filmes, esse diretor nascido em Londres em 13 de agosto de 1899 fez questão de romper com as convenções da história de Mistério.
Em filmes tão variados, como Festim Diabólico (1948), Disque M para Matar (1954) e Janela Indiscreta (1954) ou Frenesi (1972) – o penúltimo de sua carreira – Hitchcock fornece a chave do enigma logo de saída e, mesmo assim, mantém vivo o interesse da platéia até a última cena. Indo contra todas as normas hollywoodianas, em Psicose (1960), ele teve a ousadia de fazer a estrela Janet Leigh ser assassinada logo na primeira terça parte do filme.
Com sua morte – numa seqüência antológica, tomando banho no chuveiro –, o espectador perde qualquer ponto de referência e,  a partir daí, embarca numa aventura estética e emocional absolutamente inesperada.



IMITAÇÕES E HOMENAGENS

Um dos segredos do permanente fascínio dos filmes de Hitchcock está no fato de que neles, paradoxalmente, as imagens não procuram representar a vida real: elas significam por si mesmas, constituindo uma realidade alternativa a ser regida pelas próprias convenções do artista. Desprezando efeitos de pirotecnia com a câmara, Hitch – como era chamado carinhosamente tanto por colegas como pelos admiradores – cria cenas capazes de perturbar por completo o código visual do espectador. À primeira vista banais, nelas de repente se introduz um elemento imprevisível que lhes confere uma significação praticamente única no Cinema. Nesse sentido, não há exagero em aproximar os trabalhos de Hitchcock das obras de outro mestre octogenário, o espanhol Luis Buñuel.
Um de seus maiores admiradores, o cineasta francês François Truffaut, observou justamente que, se os filmes voltassem a ser mudos, a maioria dos diretores não saberia mais trabalhar; “mas, entre os sobreviventes, Hitchcock estaria em primeiro plano, e todos então compreenderiam que ele é o maior cineasta do mundo”.
Pode ser exagero, e Hitchcock talvez não seja o maior dos cineastas; mas, certamente é o mais imitado – às vezes, em forma de clara homenagem, como em A Noiva Estava de Preto, do próprio Truffaut, e O Açougueiro, de Claude Chabrol; outras vezes, caso de Charada, de Stanley Donen, como cópia mesmo. Um diretor mais ilustre, Alain Resnais, admitiu a respeito de Suspeita (1941): “Recentemente, revendo o filme, tive a impressão de vislumbrar um enquadramento que copiei em  Hiroshima, Meu Amor. Se sofri essa influência, sofri inconscientemente.”



SUPERASTROS

A capacidade de fascinar dessa maneira seus colegas de profissão não é o único privilégio de Hitchcock. Dificilmente outro cineasta conseguirá carreira tão extensa e brilhante: mais de meio século como figura de primeiro plano, desde a realização de The Pleasure Garden (1925), uma produção inglesa.
Inevitavelmente arrebatado por Hollywood em 1939, Hitch aproveitou os maiores recursos técnicos dos estúdios americanos e multiplicou o raio de suas experiências. Em Um Barco e Nove Destinos (1944), por exemplo, toda a ação transcorre no exíguo espaço de um bote salva-vidas; e, em Janela Indiscreta, herói (James Stewart, com a perna engessada), heroína (Grace Kelly) e a câmara ficam praticamente imobilizados dentro de um apartamento. Isso torna mais aterradora a aventura do protagonista, que, no final, por pouco não é arremessado da janela pelo vilão (Raymond Burr).
A maior parte dos roteiros que ele filmou não impressoina na leitura e só alcançou êxito graças a seu excepcional talento de contador de histórias, que acabou por torná-lo o primeiro cineasta a ficar tão conhecido como os superastros da tela.



REVOLUCIONÁRIO

Conhecedor de todos os detalhes da produção cinematográfica, Hitch jamais estourava o orçamento de seus filmes. Como a maioria deles, até sua morte absolutamente tranqüila, continuava sendo muito lucrativa e ele tinha participação na renda, Hitch deixou uma fortuna calculada em trinta milhões de dólares para sua mulher, Alma Reville (os dois se casaram em 1926), a filha única Patricia e três netas.
Sempre formal, usando terno escuro e gravata durante as filmagens, Hitch fazia questão de não levar muito a sério as novas gerações nem atores preocupados com sutilezas, tanto que em seu último filme, Trama Macabra (1976), o ator Roy Thinnes foi substituído por William Devane, depois que passou a fazer muitas perguntas sobre a psicologia do personagem. Igualmente, ele gostava de ironizar os críticos que ressaltavam o caráter metafísico de seus dramas: “Olho-me no espelho diariamente e jamais vi traço algum de metafísica em meu rosto.”
Artista incomparável, Hitch foi capaz de realizar filmes destinados a milhões de espectadores e que os intelectuais também adoram. Foi praticamente uma revolução, como observou o crítico Luc Mollet, da revista Cahiers du Cinéma: “Hitchcock faz filmes para os proletários e para os sábios. E esses filmes são tão geniais que realizam, a seu modo, a tão sonhada união de classes: ‘Espectadores de todo mundo, uni-vos.’



Este texto foi transcrito da revista Veja (São Paulo, Abril, 7 de maio de 1980, pp. 111-112)