Ano 5 - nº 15 - janeiro/abril de 2013

TRAMA MACABRA
A OBRA DERRADEIRA DE UM MESTRE E TUDO QUE ELA AINDA TEM A OFERECER

João Rodolfo Franzoni



Trama Macabra, uma comédia sombria em que se cruzam os caminhos de alguns casais singulares.”
Bodo Fründt, no livro Alfred Hitchcock e Seus Filmes




Embora seja um axioma definir Alfred Hitchcock (1899-1980) como um perfeccionista, é sempre curioso notar que, após ter atravessado fases de glória, frustrações e prestígio restaurado, o mestre inglês nunca desistiu de se superar. E seu derradeiro filme é, sobretudo, um atestado de sua obstinação.
Trama Macabra não foi, nem de longe, festejado como um Janela Indiscreta/Rear Window ou Psicose/Psycho. Mas, conforme François Truffaut observou ao discorrer sobre o filme em seu indispensável Hitchcock/Truffaut – Entrevistas, o cineasta já gozava de certa imunidade crítica que impediria ataques mais veementes. Porém, não deixa de ser curioso que eufemismos praticados em nome de reverência – e ao fato de que, quatro anos antes, o impecável Frenesi/Frenzy havia reconciliado Hitchcock com a crítica – acabariam por anular o reconhecimento de uma fita de suspense e mistério genial. O último filme do “mestre do Suspense” é uma verdadeira “joia” na sagacidade com que o roteiro de Ernest Lehman (para Hitchcock, ele já havia escrito o roteiro de Intriga Internacional/North by Northwest) amarra coincidências e descobertas. E, para quem sempre admirou a habilidade do diretor em sugerir taras e frustrações sexuais, é um deleite notar a liberdade que, nos transformadores anos 1970, ele possuía para tornar o tema explícito, mas jamais vulgar. Em resumo: ainda que não possa ser considerado uma obra-prima, o filme merece sim um lugar à frente na sua filmografia. 
Os desdobramentos da trama são uma verdadeira aula de como prender a atenção da plateia, tratá-la como um ser pensante e recompensá-la com surpresas das mais deliciosas e inesperadas. Começa apresentando uma senhora milionária, Julia Rainbird (Cathleen Nesbitt), perseguida pelo remorso de, décadas atrás, temendo escândalo social, ter entregado o sobrinho para adoção. E, agora, ela tenta localizá-lo, contratando os “dons” de Madame Blanche (Barbara Harris), uma médium vigarista, que, com a ajuda do namorado, George (Bruce Dern), taxista e ator frustrado, coleta informações sobre suas clientes. Movida pela recompensa oferecida por essa tia em busca de reparação, a dupla passa a investigar o paradeiro dessa criança, tendo como única pista o nome do motorista particular que o entregou a um lar adotivo. E, num atestado de como todo cineasta deve – e muito – a Hitchcock no quesito de alterar abruptamente uma linha narrativa introduzindo personagens ou rumos aparentemente inviáveis (vide o icônico assassinato no chuveiro em Psicose), Trama Macabra também oferece uma sequência simplesmente brilhante, na primeira vez que o caminho do casal interesseiro se cruza com o do objeto de sua busca. Tão logo Madame Blanche e George abandonam a casa de sua cliente rica, discutem dentro do táxi as estratégias para localizar o sobrinho daquela senhora; e o motorista distraído é obrigado a frear bruscamente para dar passagem a uma misteriosa loira aguardando poder atravessar a rua. A câmera agora passa a acompanhar os passos daquela mulher calada e disfarçada com enormes óculos escuros; e, então, descobrimos que ela é uma intermediária numa transação de sequestro. E, assim que a tal mulher recebe o resgate em diamantes e garante a liberdade do figurão raptado, ficamos sabendo que se chama Fran (Karen Black) e é amante de Arthur Adamson (William Devane), justamente o herdeiro procurado pela vidente de araque e seu parceiro.
Não convém relatar, sob pena de arruinar o impacto da descoberta, os caminhos e surpresas que o roteiro perspicaz oferece para que finalmente as duplas se colidam; apenas quero destacar algumas particularidades que tornam a experiência de conferir Trama Macabra melhor a cada revisão. Duas sequências, especialmente, dominam as atenções. A primeira delas envolve os apuros que a dupla de investigadores se vê após marcar encontro – numa lanchonete situada acima de uma serra – com o dono de um posto de gasolina, que parece saber de alguma pista. Vítimas de um carro com os freios cortados, o desespero de ambos, ao tentarem escapar ilesos daquelas curvas sinuosas de mão única, é um daqueles momentos plenos de tensão que remete ao Hitchcock de Intriga Internacional. E há também um plano geral magnífico situado num cemitério, acompanhando os passos de Bruce Dern. É uma sequência que admiradores de uma câmera habilidosa só têm a aplaudir.
E o vilão sinistro de William Devane merece um capítulo à parte: é até prudente sentenciar que Hitchcock jamais desenhou um personagem tão pérfido, frio e desprovido de indulgência como o proprietário de joalheria Arthur Adamson, que usa aquele estabelecimento discreto e luxuoso como fachada para não despertar suspeitas quanto aos sequestros em série que comete. Conforme a narrativa avança e detalhes sórdidos e macabros de seu passado são revelados pelo próprio com a tranquilidade de quem conversa sobre algo inofensivo, Hitchcock reforça aquela sua máxima de que “um crime é muito mais interessante quando os envolvidos são damas e cavalheiros”. Devane impõe a persona de um sujeito refinado, que até evoca o Jack Nicholson da época; mas, sempre que o ator desfila em cena, com sua dicção límpida, aciona um estado de alerta no espectador. O humor refinado do mestre inglês, como não poderia deixar de ser, sempre encontra um espaço; entretanto, basta que o facínora da história intervenha para que, com apenas um olhar, qualquer serenidade desapareça para reinar o pavor. Uma curiosidade: Hitchcock havia iniciado as filmagens com outro ator, Roy Thinnes; porém, o substituiu semanas depois por Devane. Se houve transtorno na produção, a recompensa no resultado final foi indiscutível. O restante do elenco também comparece com trabalhos no mínimo eficientes: embora caiba a Karen Black, estrela da época (nascida em 1942, no estado norte-americano de Illinois, Karen Black estreou no Cinema em 1966, num filme dirigido por Francis Ford Coppola, Agora Você é um Homem/You’re a Big Boy Now. Dentre as fitas estreladas por ela, destacam-se: Cada um Vive como Quer/Five Easy Pieces, Nashville/idem e O Dia do Gafanhoto/The Day of the Locust), a tarefa de adornar as situações, a atriz não deixa de atestar sua capacidade nas cenas que seu olhos largos são destacados para revelar algum choque. Enquanto Bruce Dern desempenha com sobriedade o papel de detetive improvisado, Barbara Harris marca uma presença gloriosa, alternando, com graça, a melancolia patética e a ambição ingênua de sua personagem, ainda que alguma afetação tenha ficado nítida. Todos bons atores, hoje esquecidos e com carreiras medíocres, que devem enxergar esse thriller como o maior atestado de relevância de suas carreiras.
Se há estudiosos ou entusiastas de um dos maiores (senão o maior) cineastas da História que insistem em reduzir a elogios inócuos a obra sepulcral de Hitchcock, isso é um debate inútil que em nada invalida os méritos de acompanhá-la. Trama Macabra parece fundir a maestria de um veterano com o fôlego vigoroso de um artista no auge. O gênio ainda não tinha consciência de que essa seria sua obra final, mas impregnou um pouco de cada tema que caracterizara sua carreira prolífica naquilo que presenciamos maravilhados: o quanto as aparências podem ser traiçoeiras (A Dama Oculta/The Lady Vanishes, A Sombra de uma Dúvida/Shadow of a Doubt); a tensão sexual interferindo na ação (Interlúdio/Notorious, Um Corpo Que Cai/Vertigo, Marnie, Confissões de uma Ladra/Marnie); assassinatos, ou o legado deles, dissecados com sua devida dimensão e verossimilhança (A Tortura do Silêncio/I Confess, Psicose, Cortina Rasgada/Torn Curtain). Quase quarenta anos se passaram, e o prazer de absorver suas sutilezas acerca da obscura natureza humana cada vez mais garante sua posteridade. Quando na cena final, Barbara Harris dirige seu olhar para a câmera e pisca apenas o olho direito, o efeito é irresistível: é Hitch se despedindo dos mortais que farão questão de manter seus filmes sempre vivos e interessantes, professando uma aula bem particular de Cinema. A vontade de aplaudir é imediata.



Trama Macabra (Family Plot, 1976, 120')
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Ernest Lehman, baseando-se no romance O Seqüestrador (The Rainbird Pattern, 1972), de Victor Canning
Música: John Williams
Elenco: Karen Black, Bruce Dern, Barbara Harris, William Devane, Cathleen Nesbitt, Ed Lauter, Katherine Helmond, William Prince, Nicholas Colasanto, Marge Redmond
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Universal



João Rodolfo Franzoni é jornalista