Ano 5 - nº 15 - janeiro/abril de 2013

TOPÁZIO
Geraldo Mayrink



Culpados, inocentes, traidores, vítimas e carrascos costumam misturar-se de tal forma nos filmes de Alfred Hitchcock... que estabelecer as verdadeiras identidades se torna obrigatoriamente a tarefa número um do público. Em Topázio, um dos mais longos e provavelmente o filme de Hitchcock com mais personagens, essa tarefa é prejudicada por um detalhe que parece contradizer frontalmente as regras do suspense: a ação se passa em 1962, durante a crise dos mísseis entre Cuba, Estados Unidos e União Soviética – crise essa cujo desfecho já conhecemos e que, portanto, não tem nenhum mistério. Além da novidade de ter escolhido um “grande assunto”, Hitchcock ainda se preocupou em valorizar seu enredo altamente improvável com alguns detalhes realistas (inclusive, uma reconstituição de Cuba, onde aparecem Fidel Castro e Che Guevara). Tudo isso para mostrar um espião francês (interpretado por Frederick Stafford) aparentemente também inimigo do suspense e que passa duas horas de filme sem dar um murro ou disparar um tiro.
Curiosamente, a sensação que predomina neste filme rico em tramas e acontecimentos é a mesma de um filme em que não acontece nada. O rapto sensacional de um militar soviético em Copenhague, a audácia de um espião fotografando documentos secretos no hotel dos cubanos em Nova York ou a engenhosa espionagem nos mísseis em Cuba (com pássaros treinados levando câmaras fotográficas nos bicos) são menos impressionantes que o tédio da vida do espião (já mencionado acima), joguete de franceses e americanos, em crise conjugal com a mulher e importante para denunciar as maquinações sutis de uma rede pró-soviética operando em Paris. O jornal displicentemente atirado ao chão no final – com a manchete: “SOLUCIONADA A CRISE DOS MÍSSEIS” – revela a preocupação de um Hitchcock moralista, que tenta transmitir por escrito o que antes seu filme já mostrava claramente: vidas humanas são pouco valiosas nos corredores da Guerra Fria. Esclarecidas as identidades e as intenções, a platéia pode devolver ao mestre do Suspense uma dúvida: vale a pena fazer um filme para demonstrar isso? Topázio responde que sim e não. Não, porque o mestre demonstra o óbvio que é a desumanidade de toda guerra. E sim, porque certas soluções do filme – como a longa seqüência muda (vista através de portas de vidro) em que um agente tenta subornar um cubano, ou o prodigioso plano final em que o chefe dos espiões é desmascarado durante uma conferência, sem um único corte e com meia dúzia de palavras – revelam que o mestre ainda não se cansou de inventar formas cinematográficas. O que, num caso ou no outro, não tem nada a ver com a Guerra Fria.

 

Topázio (Topaz, 1969, 126')
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Samuel Taylor, baseando-se no romance homônimo de Leon Uris
Música: Maurice Jarre
Elenco: Frederick Stafford, Dany Robin, John Vernon, Karin Dor, Michel Piccoli, Philippe Noiret, Claude Jade, Roscoe Lee Browne, Michel Subor, John Forsythe
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Universal

 

Este texto foi transcrito do número 26 da revista Guia de Filmes (Rio de Janeiro, INC, março/abril de 1970, p. 77)