Ano 5 - nº 15 - janeiro/abril de 2013

REVELANDO ALGUNS TRUQUES DE OS PÁSSAROS
T. G. Novais



Quase todos os produtores e diretores de Hollywood dão um suspiro de alívio, quando rodam a última cena de uma fita. Para Alfred Hitchcock, é nesse momento que começa o verdadeiro trabalho. Pelo menos foi o que aconteceu com Os Pássaros.
– Estou atarefado em criar ilusões  – explicou o rotundo e simpático diretor, durante uma entrevista em seu escritório nos estúdios da Universal. – Não é nada fácil, mas é muito necessário. Terminamos as filmagens há dois meses e, desde então, tenho me empenhado em que apareçam pássaros suficientes no filme. Não é nada fácil, pode acreditar.
Hitchcock considera este o mais  difícil filme que já dirigiu. E todos os que já leram a história de Daphne Du Maurier [em nosso país, essa história foi publicada no livro Beija-me Outra vez, Desconhecido (Editora Mérito, São Paulo/Rio De Janeiro, 1953, pp. 121-180) com o título de “As Aves”], no qual é baseado, podem imaginar que Os Pássaros terá situações nunca vistas antes na tela. Na fita de Hitchcock, assim como na história de Daphne Du Maurier, milhares de aves organizam ataques contra seres humanos, provocando uma guerra entre pássaros e homens. E Hitchcock acha que os pássaros são tão importantes na fita quanto os atores (Rod Taylor, “ Tippi” Hedren, Jessica Tandy, Suzanne Pleshette).
– Afinal, não haveria história e, por conseguinte, filme, se não fossem os pássaros –  disse ele. Depois de uma pausa, acrescentou: – Atualmente, minha tarefa está quase completa; e as principais dificuldades em encenar uma guerra com seres alados foram superadas. Mas não fiz tudo sozinho. Tive ajuda.
O Mestre do Suspense teve o auxílio de um perito em produzir efeitos especiais: Ub Iwerks, que lhe foi emprestado por Walt Disney, o mago da Animação.
 – Ub Iwerks é maravilhoso – confessou Hitchcock. – E muito talentoso. Conhece certos truques exclusivos.
– É claro que nenhum ator concordaria em ser morto a bicadas ou unhadas de uma ave – falou Iwerks. – Portanto, tivemos de usar alguns truques para simular essas cenas. Uso a seqüência de um pássaro com as garras prontas para o ataque e acrescento-a a outra seqüência em que aparece o ator. Parece simples, mas não é. E, freqüentemente, para conseguir o efeito desejado, preciso usar pássaros empalhados  cujas asas são móveis.
Em uma seqüência, dois mil pássaros descem por uma chaminé e invadem a sala onde estão Rod Taylor, “Tippi” Hedren Jessica Tandy e a menina Veronica Cartwright (ela interpreta a filha de Rod Taylor). Iwerks não teve nenhuma participação nessa seqüência.
Em outra cena, trezentos corvos atacam “Tippi” Hedren e cerca de trinta crianças da escola, enquanto elas correm pela rua. Iwerks também não colaborou nela.
– Os corvos são pássaros fáceis de treinar – informou Hitchcock. – Nosso treinador de pássaros, Ray Berwick, insiste em afirmar que os corvos e urubus aprendem mais depressa que os cães e são capazes de muitos truques. Colocamos, como líderes da revoada, alguns urubus do Ray; e os corvos os seguiram, voando em cima das crianças.
Provavelmente, a maior façanha do filme foi o treino das gaivotas. Até hoje, ninguém ouviu falar em gaivota amestrada, muito menos em centenas de gaivotas amestradas.
– Para nossa surpresa, descobrimos que elas também aprendem depressa. Em três dias, Ray ensinou-as a avançar sobre a cabeça de uma pessoa e, depois voltar a um ponto designado previamente. Quando filmávamos em Bodega Bay, logo descobrimos que podíamos confiar em “nossas” gaivotas. Uma delas, chamada Charlie, foi a primeira a ser experimentada. Ray soltou-a para mergulhar sobre a cabeça de uma criança. Charlie fez o que era preciso e, em seguida, juntou-se a um bando de gaivotas selvagens. Porém, meia hora depois, contrariando todos os seus instintos, Charlie reunia-se novamente à equipe do filme.
Entretanto, nem tudo transcorreu bem durante as filmagens. Houve um acidente envolvendo a estrela da fita, “Tippi” Hedren: um pássaro pulou em seu rosto e pousou perto de seu olho, arranhando-lhe a pálpebra inferior.



UM TOQUE HITCHCOCKIANO

É um típico toque de Hitchcock o fato de todos os pássaros do filme serem de espécies totalmente comuns, ou seja, corvos, gaivotas, pombas, gralhas, melros...
– Não temos nem falcões, nem gaviões, nem águias. Seria muito vulgar. Seria muito comum uma águia atacar um homem, e não haveria surpresa para a platéia nisso. Mas, quando pássaros familiares e inofensivos começam a matar gente, o potencial de terror é muito maior.
Por essas palavras de Hitchcock, tenho a certeza de que, depois de assistir a Os Pássaros, muita gente passará a olhar seu canário de forma diferente...



 Este texto foi escrito em 1997, a partir de entrevistas realizadas pelo autor em 1962