Ano 5 - nº 15 - janeiro/abril de 2013

PAUSA PARA O CAFÉ
Rubens Francisco Lucchetti


Neste número do Jornal do Cinema dedicado a Alfred Hitchcock, nada melhor do que tomarmos um café em sua companhia e ouvir o que ele tem a nos dizer.

Eu nunca disse que os atores eram gado. Disse apenas que deveriam ser tratados como gado.

Ninguém tem um elenco como Walt Disney. Quando ele não gosta de um ator, simplesmente o apaga.

Se eu filmasse Cinderela, a platéia pensaria que havia um cadáver na carruagem.

Em meus filmes, eu mostro como é difícil e como é atrapalhado matar uma pessoa.

Não filmo pedaços de vida, mas pedaços de bolo.

Meus filmes são sonhos acordados.

Quando abordo as questões de sexo na tela, não esqueço que, também aí, o suspense comanda tudo. Se o sexo é demasiado gritante e evidente, não há mais suspense.

Tenho pavor de polícia. Por isso, nunca tirei carteira de motorista.

Faço filmes porque é o que sei fazer melhor.

O riso, a lágrima e o medo são as três mais dignas reações humanas.

Para mim, fazer filmes é apenas contar uma história. E essa história pode ser comum, mas não pode ser banal.

Interessa-me menos a história do que a maneira de contá-la.

Nos Estados Unidos, somos facilmente rotulados para sempre. Preciso fazer filmes de Suspense, senão as pessoas ficarão decepcionadas.

O crime pode ser muito mais fascinante e deleitoso, mesmo para a vítima, se ocorrer num ambiente agradável e se as pessoas envolvidas forem damas e cavalheiros.

Se você quer mostrar um homem encurralado num lugar onde ele será morto, como se procede habitualmente? Mostra-se um beco escuro, à noite. A vítima espera sob uma sacada. A calçada está molhada por uma chuva recente. Grande plano de um gato preto correndo sobre um muro. (...) A aproximação lenta de um carro etc. Então, perguntei-me: “Como seria o contrário dessa seqüência? Um campo deserto, à luz do sol, sem gatos pretos (...).”

Um filme tem de ser visualmente interessante; e, acima de tudo, é a imagem que importa. Tento contar a história por meio da imagem e sempre de tal forma que, se o aparelho de som do cinema quebrar, a platéia não irá ficar alarmada nem inquieta, porque a ação pictórica continuará a imobilizá-la.

Muita gente acha que um diretor de Cinema faz todo o seu trabalho no estúdio, manobrando os atores, fazendo-os seguir as suas ordens. Isso não é absolutamente verdade, no que se refere aos meus métodos; e é só deles que posso falar. Gosto de ter o filme pronto na minha cabeça, antes de começar a filmar.

Recordar às vezes é divertido – e, às vezes, humilhante. Não é algo que, de maneira geral, eu goste de fazer. Prefiro olhar para frente. Interesso-me mais pelo futuro próximo do que pelo passado.

(...) uma atriz de filmes não deve ter altura acima da média; de fato, ser pequena é definitivamente uma virtude. Uma atriz pequena não apenas fotografa melhor do que uma que “se ergue a alturas imponentes” – especialmente em cenas de close –, como também agrada à platéia, que gosta de ver a cabeça cacheada da heroína aninhada no peito másculo do herói. Se for mais alta, pode fazê-lo parecer insignificante.

O crime, na Inglaterra, com freqüência parece ter uma aura particularmente fascinante.

Será que alguma vez o teatro adaptou, com sucesso, alguma coisa do Cinema?

No teatro, o desempenho do ator faz a platéia acompanhá-lo. Assim, o diálogo e as idéias bastam. No Cinema, não é assim. Os elementos estruturais mais amplos da história precisam, na tela, ser revestidos pela atmosfera, pela caracterização (...).

Festim Diabólico foi provavelmente o filme mais instigante que já dirigi. Alguns críticos disseram ser o filme com a “técnica mais revolucionária jamais vista em Hollywood”.

A televisão não tem nada de arte. Ela é apenas um veículo de comunicação.

(...) num bom filme, o talento do diretor vale 95% e os outros 5% cabem aos intérpretes.

Quando vi como Kim Novak era ruim como atriz, disse a ela que só queria sua beleza e procurei que falasse muito pouco em Um Corpo Que Cai.

(...) a palavra amor é cheia de suspeição.

Muitas vezes o cinema falado só serviu para introduzir o teatro nos estúdios.

Quando realizei Sob o Signo de Capricórnio, que era acima de tudo uma tragédia, os críticos escreveram: “Fomos obrigados a aguardar 104 minutos até termos suspense.”

O humor é necessário ao suspense. Ele contribui para que o público consiga respirar um pouco. Um filme de Suspense puro não é suportável por mais de 24 minutos. O humor é, ao mesmo tempo, a pílula açucarada que serve à apresentação dos personagens e o elemento cômico indispensável ao público. Se exagerarmos o efeito do suspense, sem deixar lugar para o humor, os espectadores rirão de qualquer forma. Mas na hora indevida.

O mais importante é fazer uma pausa no fim de uma seqüência de suspense, para que o público consiga respirar um pouco.

Dou apenas algumas indicações aos atores, não os dirijo.

Que é arte? Uma experiência (...).

Não existe comparação entre o suspense da vida real e o cinematográfico. Quando o público está assistindo a um filme, pode, em um determinado momento, agarrar-se ao braço da poltrona e dizer: “Não é verdade.” Se eu realizar bem a minha parte, o público vai esquecer que a poltrona tem braço.

Aposentar-me? Nem sei o que dizer. Que esperam que eu faça, depois? Que me esparrame pelo chão como um cachorro morto? A idade para mim não faz nenhuma diferença.

 
Rubens Francisco Lucchetti é ficcionista e roteirista de Cinema e Quadrinhos