Ano 5 - nº 15 - janeiro/abril de 2013

O SUSPENSE SEMPRE ESTEVE LIGADO À SUA VIDA



Mais famoso do que a maioria dos atores dos seus filmes e com sua imagem pessoal tão ligada à idéia de suspense como a de Rodolfo Valentino à de romance, a de Boris Karloff à de horror e a de Gary Cooper aos filmes de Western, Alfred Hitchcock gosta de pregar susto nos espectadores. (...)
A tradição hitchcockiana (mistura de tensão e humor) é uma verdadeira escola, cultivada por muitos diretores franceses da Nouvelle Vague. (...)
Houve tempo em que Hitchcock de divertia pregando peças nos outros. Como num coquetel que ofereceu, em Paris: os convidados, ao chegar, encontraram oito carros fúnebres na porta do hotel; e, no salão de festas, oito mulheres vestidas de negro, diante de oito caixões.
– Era engraçado ver os convidados recuarem, – contou Hitchcock, – pensando que tinham errado o endereço.
Atualmente, embora já não se dedique tanto a esse tipo de humor, sua figura gordinha, com o lábio proeminente, é a própria publicidade dos seus filmes. Por exemplo, os cartazes que anunciavam Os Pássaros mostravam o título, algumas aves e a figura de Hitchcock. Nenhum nome, só a foto. Basta seu rosto para dizer ao público o que precisa ser dito: “Se desejam uma noite de suspense, aqui está à solução.” Porque filmes como The Lodger, O Marido Era o Culpado, A Dama Oculta, Festim Diabólico, Pacto Sinistro, Disque M para Matar, Janela Indiscreta, O Homem Que Sabia Demais, Intriga Internacional e  Psicose  estabeleceram uma tradição que se tornou parte integrante da História do Cinema, da mesma forma que o vagabundo Carlitos, criado por Charles Chapilin.
A verdade é que o suspense sempre esteve ligado à sua vida. Ele mesmo conta que, em seus dias de meninice, quando aluno de um colégio católico, uma insubordinação qualquer representava, no fim do dia, uma visita ao padre, que aplicava o castigo merecido com um bastão de borracha. A punição apavorava-o, mas o gosto do drama deixava-o fascinado.
– Eu passava o dia com a sensação de ter sido condenado à morte. Do lado de fora da sala do padre, formava-se um grupo de colegas, que mais parecia a multidão que se comprime à porta das prisões, à espera do condenado à morte ser eletrocutado ou enforcado.
E o sucesso de seus filmes tem uma explicação bem simples: é que ninguém o supera, tecnicamente, como diretor cinematográfico: gosta de tudo muito bem organizado, para evitar complicações. (...)
Seu primeiro filme de Suspense, The Lodger (1926), baseado na história de Jack o Estripador, foi exibido ao gerente de uma cadeia de cinemas. Hitchcock e sua jovem esposa, Alma Reville, caminhavam pelas ruas de Londres, enquanto o gerente assistia a uma exibição particular da fita. Por fim, Hitchcock não suportou mais a tensão, tomou um táxi e foi ver o gerente, cujo veredito foi incisivo:
– Uma catástrofe. Está bom para jogar no lixo.
Alguns meses depois, entretanto, decidia distribuir o filme. Era o sucesso que começava.

 

Este texto foi transcrito do número 268 da revista Cinelândia (Rio de Janeiro, Rio Gráfica, 1ª quinzena de janeiro de 1964, pp.25-26)