Ano 5 - nº 15 - janeiro/abril de 2013

O SUSPENSE
Alfred Hitchcock



Desde sempre o crime tem despertado nos britânicos um profundo interesse, de ordem intelectual; e esse fato tem uma justificação. Já nos tempos de Jack o Estripador e, depois, na época do dr. Crippen... o primeiro homem a ser preso graças às comunicações pelo rádio, como se disse então , era habitual na Grã-Bretanha cometerem-se crimes extravagantes. Essa é uma das razões por que as histórias de Suspense e de Detetive & Mistério (a começar pelas de Conan Doyle), se tornaram naquele país autêntica ficção de primeira qualidade.
Muitos dos crimes dessa época (envenenamentos com arsênio, por exemplo) foram inspirados pelo sistema econômico então vigente. O divórcio era difícil de obter. Um homem que não conseguia divorciar-se procuraria ver-se livre da mulher do modo mais sutil que lhe fosse possível. Hoje, porém os crimes no seio da família são menos numerosos, pois o divórcio é acessível. As pensões pagas aos cônjuges e aos filhos são dedutíveis dos impostos.
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No entanto, acho que devo salientar uma grande diferença entre suspense e mistério: nas histórias de Suspense, o leitor sabe desde o início quem é o assassino; mas, numa história de Detetive & Mistério, só no fim conhecerá a identidade do criminoso. A essência do mistério reside na própria palavra – ele oculta. Trata-se de um exercício intelectual que consiste em procurar descobrir qual dos personagens envolvidos na narrativa é o culpado. Ao ler uma história de Detetive & Mistério, o leitor é, por natureza, sempre tentado a ir dar uma olhada na última página.
No caso do suspense, a palavra exprime a ansiedade no estado de espírito do público. Dando-lhe a conhecer antecipadamente o assassino, o autor mantém o leitor em suspense, deixa-o dominado por uma terrível expectativa. Por exemplo, se explode uma bomba subitamente no meio de algumas pessoas que conversam, o público que assiste à cena – refiro-me, agora, a um filme – sente um choque e experimenta uma sensação de surpresa que dura cerca de dez segundos; mas, invertendo a situação, se dermos a entender que, daí a cinco minutos, uma bomba vai explodir no meio daquele grupo de pessoas, se lhe mostrarmos a referida bomba e depois desviarmos a sua atenção durante esse espaço de tempo, o público ficará dominado por um estado de expectativa decorrente da necessidade que sente de avisar as pessoas ameaçadas pela explosão iminente. Assim, em vez de um choque-surpresa de dez segundos, proporcionaremos a esse público cinco minutos de tensão e suspense.
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Na sua maioria, os filmes e as histórias de Suspense tentam evitar os clichês comuns na ficção de Horror: a escuridão da noite, a casa em ruínas, o gato preto que cruza o caminho, o rosto que espreita pela janela. Para evitar esses clichês, eu sempre prefiro aquilo a que chamo crime em ambiente bucólico – o crime perpetrado, por exemplo, à luz radiosa do sol, sem que haja casas ou árvores nas proximidades. Do mesmo modo, tanto no filme como na história, o que não se vê pode muitas vezes ser mais aterrador do que aquilo que está à vista. Acima de tudo, porém, o leitor ou o espectador devem ser estimulados a sentir as mesmas emoções de suspeita e de terror que as experimentadas pelo herói. Foi por isso que eu sempre preferi para herói uma pessoa do tipo comum. Numa situação de terror estabelece-se maior identificação do público com um homem comum do que com um super-homem.
Desde que todos esses permenores sejam corretamente tratados, o leitor ou espectador de histórias de Suspense deverá atingir o clímax, que, para mim, se concretiza em palmas das mãos úmidas e uma sensação de ansiedade.



Este texto foi transcrito da antologia Contos de Mistério Escolhidos por Alfred Hitchcock (Lisboa, Seleções do Readers Digest, 1979, pp. 3-4)