Ano 5 - nº 15 - janeiro/abril de 2013

HITCHCOCK VOLTA À SUA MELHOR FORMA EM FRENESI



O destaque entre os lançamentos da semana é certamente Frenesi, de Alfred Hitchcock.
Depois de dois filmes inexpressivos – Cortina Rasgada e Topázio – numa carreira ilustre, Hitchcock volta à sua melhor forma em Frenesi, que marca, também, o retorno do diretor a Londres (a cidade onde alcançou seus primeiros sucessos cinematográficos), depois de 22 anos de ausência (em 1950, Hitch ali filmara Pavor nos Bastidores, com Marlene Dietrich e Jane Wyman). Londres sempre exerceu sobre o “Mestre do Suspense” uma particular atração, que ele soube explorar em filmes como o citado e mais acentuada e criativamente em títulos como Chantagem e Confissão (1929) e O Marido Era o Culpado (1936). (...)
Frenesi marca também o retorno do diretor a um dos seus temas prediletos: o do homem acusado de um crime que não cometeu e sobre o qual pairam suspeitas cada vez mais flagrantes e denunciadoras, como em Os 39 Degraus (1935), A Tortura do Silêncio (1952) e O Homem Errado (1957), sem falar de outras fitas nas quais a mesma temática aparece mais sutilmente (...). Frenesi é, ainda, uma espécie de remake, ambientado nos anos 70, de um filme famoso da carreira do diretor, The Lodger (1926) , cuja ação era também centralizada nos impulsos homicidas incontroláveis de um estrangulador. O novo assassino de Hitchcock é um psicopata que mata suas vítimas (mulheres) estrangulando-as com uma gravata.
Lançado no Festival de Cannes do ano passado, Frenesi  foi saudado com entusiasmo. A crítica francesa, sempre muito receptiva às obras do diretor, não poupou elogios. “Sobre um assunto já surrado, usado ao extremo – o desequilíbrado sexual que estrangula mulheres com gravatas –, Alfred Hitchcock construiu sua trama, mas substituiu o suspense de ocorrências, totalmente exterior, por um suspense psicológico que nos leva a interessarmo-nos pelas angústias de um inocente surpreendido numa terrível armadilha e observarmos suas ações e reações em função da fatalidade que dele se acerca e pela qual é responsável o seu melhor amigo.” A apreciação é do crítico Patrick Sery, na revista Cinéma 72, que compara ainda a exatidão do trabalho do realizador à eficiência de uma peça de relojoaria sofisticada e exemplar em sua execução.
Sight and Sound, revista editada pelo British Film Institute, saudou o filme como um retorno feliz do cineasta à  sua Londres de origem (...). E entusiasta foi também a receptividade da crítica americana. Time e Newsweek incluíram o filme entre os dez melhores do ano exibidos nos Estados Unidos.



Este texto foi transcrito do jornal O Globo (Rio de Janeiro, 14 de maio de 1973)