Ano 5 - nº 15 - janeiro/abril de 2013

COMO DEVE SER UM FILME DE SUSPENSE, SEGUNDO HITCHCOCK
T. G. Novais



– Um filme não passa de um outro modo de contar uma história – declarou Alfred Hitchcock no set de Psicose (Psycho).
Realizado em 1960, Psicose é o 24º filme (nessa contagem, não estão incluídos os curtas-metragens Bon Voyage e Aventure Malgache) da fase americana de Hitchcock, cineasta inglês que iniciou sua carreira em 1922, quando dirigiu Number Thirteen (infelizmente, a fita ficou inacabada).
– O fator mais importante – explicou Hitchcock – é manter a platéia imaginando o que virá depois, exatamente como fazemos quando contamos histórias infantis para as crianças. – Nesse ponto, ele arremessou no espaço uma linha de pescar imaginária e continuou: – As platéias devem ser tratadas exatamente como peixes, numa pescaria: um puxão aqui, um pouco de folga ali. Gostam de ser levadas numa direção e depois trazidas para uma outra. Todo o problema é manter o que se passa na tela tão interessante que ninguém se lembre de olhar para outra coisa.
Ao lhe perguntarem sua receita para fazer um filme de Suspense de sucesso, respondeu:
– É muito simples. Ponham um homem numa situação invulgar e mantenham-no assim até o fim. Não esqueçam, porém, que isso tudo deve ser feito com humor. Porque o que as platéias desejam é diversão.
Nesse instante, alguém lembrou que as histórias contadas em seus filmes são inverossímeis.
– Bem, – replicou Hitchcock, dando um sorriso, – vou lhes lembrar o seguinte fato: durante a Segunda Guerra Mundial, um dos chefes nazistas, Rudolf Hess, voou da Alemanha para a Escócia e convidou os aliados a sentarem-se com ele para discutir a situação. Se qualquer roteirista de Cinema tivesse ousado apresentar um enredo semelhante para um filme de ficção, ficaria talvez sem emprego. Aquilo era inimaginável, era algo impossível de acontecer; entretanto, aconteceu.
– E que tem a dizer a respeito das cenas de sexo num filme? – Indagou um repórter.
– Tais cenas em um filme devem existir apenas com o propósito de explicar uma situação – foi a resposta de Hitchcock. – Se apresentarmos num filme um excesso de cenas de sexo, subconscientemente as platéias se rebelarão. Reinará um certo embaraço... poderão haver risos deslocados. É necessário colocar num filme apenas o que é estritamente necessário ao atendimento do enredo.
– Ter nascido na Inglaterra, num dia 13 de agosto, explica sua inclinação pelo bizarro e o macabro? – Perguntei-lhe.
– Na Inglaterra, – respondeu ele, – o macabro é sempre tratado com certo humor. Tragédia e humor, tristeza e alegria sempre se deram as mãos nas Ilhas Britânicas. A propósito, lembro-me agora de uma anedota inglesa que exemplifica bem o que estou dizendo... Um homem, que fora condenado a morrer enforcado, olhou o alçapão do cadafalso e perguntou: “Será isso uma coisa segura?”
Quem conhece o picaresco senso de humor de Alfred Hitchcock poderá imaginar que, se fosse ele o encarregado de dirigir uma cena semelhante, faria o carrasco – e não o prisioneiro – utilizar o cadafalso, pois o humor sempre triunfa em seu espírito...