Ano 5 - nº 15 - Janeiro/Abril de 2013


O FILME DO MÊS:

A obra derradeira de um mestre e tudo que ela ainda tem a oferecer






artigo de João Rodolfo Franzoni

O QUE DISSERAM SOBRE ALFRED HITCHCOCK

Pedro Maciel Guimarães: A carreira de Hitchcock é cheia de mulheres com as quais o diretor estabelece colaborações, sobretudo as atrizes. Mas, por trás das câmeras, outras profissionais foram também essenciais para a construção do mito hitchcokiano. A roteirista e continuísta Alma Reville (1899-1982), que foi casada com o diretor por mais de quarenta anos, é uma dessas figuras (...). Alma Reville participou de filmes de outros diretores também como roteirista; mas nada se compara à sua colaboração com Hitchcock, com quem foi casada até a morte do diretor em 1980.
José Lino Grünewald: Num ensaio publicado há tempos – As Serpentes e o Caduceu –, o cineasta francês Alain Resnais procurava definir as duas vertentes básicas do Cinema, ou seja realismo e fantasia, estabelecida desde o início pelos pioneiros da assim denominada Sétima Arte: Lumière e Méliès. O primeiro abria as portas para a tendência do documento; o segundo, para aquela da ficção. Desnecessário dizer que Alfred Hitchcock incorporou-se plenamente a esta última e de maneira especial.
Jaime Rodrigues: Alfred Joseph Hitchcock nasceu em Londres, Inglaterra, a 13 de agosto de 1899, filho de um próspero comerciante de verduras, natural de Essex. (...) Dois períodos dividem sua carreira, o inglês e o americano, sem que um se desligue do outro. (...) A obra hitchcockiana é importante desde que ela foi iniciada; e, se alguns filmes se destacam na sua filmografia, em todos ele deixou a sua marca inconfundível. Suspense & Humor, estes os traços inconfundíveis de seu estilo. De raros trabalhos hitchcockianos, diga-se de passagem, estão ausentes estes dois pontos básicos de sua obra. No mais, uma inteligência e uma sensibilidade permanentes.
José Lino Grünewald: “Eu sou”, disse Hitchcock, “pode-se dizer, como um pintor que pinta flores. É o modo de tratar as coisas que me interessa. Mas, por outro lado, se eu fosse um pintor, diria: ‘Só posso pintar aquilo que contém uma mensagem.’ A manifestação óbvia, simples, encerra sutileza via metáfora e correlação de aparentes heterogeneidades. E a permanente troca de estímulos entre fundo e forma ou vice-versa.
Sérgio Augusto: Seus conterrâneos o esnobaram. Uma rara exceção: Graham Greene, crítico de Cinema do The Spectator, entre 1931 e 1939.
J.C. Ismael: Em 1983, o crítico norte-americano Donald Spoto publicou uma biografia de Hitchcock que horrorizou seus admiradores: nela, seu ídolo é descrito como uma pessoa mesquinha, maldosa, rancorosa, egoísta, alguém que ninguém gostaria de ter como amigo e muito menos como inimigo. Mas justifica esses desvios de caráter com a justificativa de que, se o seu biografado fosse uma pessoa “normal” lhe faltaria sensibilidade para criar suas inesquecíveis personagens, cujo fascínio reside precisamente nesses desvios. O assassinato o fascinava. Como Thomas De Quincey, via nele uma das belas artes: “O assassinato é meu tema predileto, já que o amor é uma palavra cheia de suspeita.”
Edmar Pereira: Sem nunca haver ganho um Oscar – a não ser aquele que a Academia concede aos injustiçados, como homenagem e pedido de desculpas –, Alfred Hitchcock tornou-se o mais conhecido e o mais bem-sucedido entre todos os diretores na História do Cinema. Gordo, gentil, um pouco baixo e um pouco avarento, dono de peculiar senso de humor, usou como matéria-prima de seus filmes tanto a mais delirante fantasia quanto os temores mais sombrios do homem.
Ely Azeredo: E atenção para o equívoco tão corrente: Hitchcock é um mestre, um inventor, um cineasta genial, e não apenas “o mestre do Suspense”. (...) Hitchcock é o mestre da sedução e da traição das aparências.
Adilson Laranjeira: Hitchcock não improvisava nada. Quando ia para o estúdio filmar, tudo estava meticulosamente planejado e ensaiado, desde a posição da câmara e seus respectivos movimentos até a colocação do menor adereço nos cenários. Isso sem falar dos ensaios exaustivos que os intérpretes de seus filmes tinham de fazer antes de começar o trabalho de interpretar propriamente dito.
Inácio Araújo: Um mestre da publicidade, sem dúvida, Hitchcock soube como poucos construir sua imagem: as aparições nos filmes, a divulgação de gostos excêntricos ou frases de efeito (“os atores são gado” é a mais célebre delas). É difícil dizer como Hitch desenvolveu seu agudo senso de autopromoção. Talvez ele tenha se formado nos escritórios da Famous Players-Lasky de Londres, onde começou a carreira como desenhista de legendas em 1920; talvez mais tarde, quando as vicissitudes de uma carreira ainda incerta lhe ensinaram que talento e aplicação não eram atributos suficientes para garantir a continuidade do trabalho. Seja como for, é preciso notar que Hitchcock, o personagem-público, é, antes de tudo, uma ficção habilmente plantada na cabeça de seus admiradores, tanto quanto os seus filmes. Ao criá-la, Hitch apenas desenvolveu um método descoberto ainda na juventude, quando, garoto tímido e fisicamente desajeitado, escolheu para si o papel de gordo bonachão, útil e simpático contador de piadas. Maneiras de compensar o terrível handicap representado pelo porte físico, a timidez que dificultava seu contato com o mundo exterior e a educação absurdamente severa recebida na infância.
Francisco Luiz de Almeida Salles: Os temas de Hitchcock hoje ficaram patentes: o do uso do espaço e do tempo como categorias dramáticas, de testes da circunstância humana, e não como mero continente formal para um jogo de peripécias episódicas; o problema do conhecimento, expresso numa apreensão perspectivista da realidade, a que a filosofia mais moderna deu a sua chancela de autoridade, e num psicologismo, que hoje é inerente à sociologia do conhecimento; o problema do destino, tratado numa escala objetiva e imanente, mas refluindo para a solução demoníaca ou sagrada; o uso da metáfora, como fórmula de conhecimento da realidade, levada por Hitchcock ao extremo de comprometer obras inteiras com paralelismos e simbolismos; o sentido ético, sempre presente mesmo nos seus thrillers mais improvisados; o sentimento da dúvida e da identidade ilustrado como casos numerosos de transfers de personalidade.
Ely Azeredo: Sobre o método, o estilo e o toque de Hitchcock ainda há muitos livros por escrever, apesar da já numerosa bibliografia. Para Antonio Moniz Vianna, o toque do Hitchcock é “essa diabólica, ultramaquiavélica capacidade de converter o inócuo em letal, em conferir a um lugar-comum um caráter subitamente sinistro. E não só isso – porque há o sense of humour que o cineasta não dispensa nunca, a despeito dos crimes que estejam sendo planejados ou executados durante a narrativa”.
Cássio Starling Carlos: O Hitchcock tal como conhecemos hoje, autor esquadrinhado em  fírulas acadêmicas e, ao mesmo tempo, capaz de fazer os ingressos para suas retrospectivas se esgotarem em minutos, é uma invenção francesa. Durante décadas, sua popularidade foi superior ao seu status de artista. Se não fosse a teimosia dos críticos parisienses, que se tornaram cineastas na Nouvelle Vague, ele poderia ter sido condenado à vala comum dos “artesãos”. Claude Chabrol (1930-2010) e Eric Rohmer (1920-2010) foram os pioneiros, autores de um minucioso estudo (Hitchcock, Paris, Éditions Universitaires, 1957, volume 6 da coleção Classiques du Cinéma), ainda inédito no Brasil. Depois, foi a vez de François Truffaut (1932-1984) conduzir a série de conversas reunidas no livro Hitchcock/Truffaut – Entrevistas (esse livro teve duas edições brasileiras: a primeira foi publicada em 1986 pela Editora Brasiliense; e a segunda, lançada em 2004 pela Companhia das Letras), uma das mais completas aulas de Cinema e bíblia para qualquer um que se interesse por construção e significação de imagens. Mas, antes desses livros, Hitchcock já era, ao lado do norte-americano Howard Hawks (1896-1977), o cavalo de batalha adotado pela revista Cahiers du Cinéma na chamada “Política dos Autores”, uma estratégia midiática-conceitual muito eficiente, por meio da qual alguns diretores (além de Hitchcock e Hawks, Vincente Minnelli, Nicholas Ray e Samuel Fuller, entre outros) foram alçados à condição de artistas.
Ismail Xavier: No cinema de Hitchcock, o ponto essencial é este: o domínio dos meios, a orquestração do olhar capaz de capturar o espectador. Não admira que o privilégio recaia sobre a questão do suspense. Medo e expectativa compõem o lastro dessa captura, qualquer que seja a opinião que se tenha sobre o valor de tal experiência e de sua filosofia.
Jaime Rodrigues: Para Hitchcock, o mistério raramente tem suspense. “Num whodunit (quem fez isso) não há suspense, mas uma espécie de quebra-cabeça intelectual. O whodunit gera o tipo de curiosidade que é vazia de emoção, e a emoção é um ingrediente essencial do suspense. Não aprovo, realmente os whodunits (...). No whodunit, você simplesmente espera descobrir quem cometeu o crime”, afirma o diretor.
Inácio Araújo: Algum tempo antes de sua morte, Hitchcock propôs o epitáfio que gostaria de ver inscrito em seu túmulo: “Veja o que pode lhe acontecer, se você não for um bom menino.”
Jaime Rodrigues: Certa vez, Hitchcock afirmou: “Meu amor pelo Cinema é mais forte do que qualquer moralidade.”
José Lino Grünewald: Hitchcock: o Cinema por excelência.

QUEM É QUEM

Adilson Laranjeira – jornalista
Cássio Starling Carlos – jornalista e crítico de Cinema
Edmar Pereira (1943-1993) – crítico de Cinema
Ely Azeredo – crítico de Cinema
Francisco Luiz de Almeida Salles (1912-1996) – crítico de Cinema
Inácio Araújo – crítico de Cinema
Ismail Xavier – professor universitário
Jaime Rodrigues (1941-1998) – escritor, editor e jornalista
J. C. Ismael (1938-2011) – jornalista, crítico e escritor
José Lino Grünewald (1931-2000) – poeta, tradutor, crítico e jornalista
Pedro Maciel Guimarães – crítico e pesquisador de Cinema
Sérgio Augusto – jornalista e escritor

FOLHETIM

 


CARMILLA
Em toda e qualquer relação de autores de histórias de vampiros não pode faltar o nome do irlandês Joseph Sheridan Le Fanu (1814-1873).
Le Fanu foi o criador da célebre vampiresa Carmilla Karnstein, cuja história continua sendo publicada na íntegra, em capítulos, no Jornal do Cinema.
AS MÁSCARAS DO PAVOR
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O FANTASMA DE GREENSTOCK
uma história (em capítulos) de R. F. Lucchetti
OS AMANTES DA SENHORA POWERS
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NÚMERO ESPECIAL SOBRE ALFRED HITCHCOCK
ALFRED HITCHCOCK, UM CRIADOR DE IMAGENS GENIAIS
A MULHER QUE HITCHCOCK NUNCA ASSUSTOU
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“VAI SER SEMPRE PAUL NEWMAN
por Peter Bogdanovich
HITCHCOCK VOLTA À SUA MELHOR FORMA EM FRENESI

UM FILME,
UMA CRÍTICA

por Geraldo Mayrink

TOPÁZIO


Culpados, inocentes, traidores, vítimas e carrascos costumam misturar-se de tal forma nos filmes de Alfred Hitchcock...
AS MUSAS DO CINEMA
A norte-americana Grace Patricia Kelly (1928-1982) vivenciou o conto de fadas mais completo do século XX: nascida no seio de uma família muito rica, foi uma das mais renomadas e elegantes atrizes da década de 1950 e tornou-se Sua Alteza Sereníssima, Princesa de Mônaco, ao casar-se, em 1956, com o príncipe Rainier.
 
SUPLEMENTO
A POLTRONA PREDILETA DE LADY RUTHERFORD
por R. F. Lucchetti
A SALA
por R. F. Lucchetti
DÉBORA
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MAMÃE TINHA RAZÃO
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