Ano 5 - nº 15 - janeiro/abril de 2013

A POLTRONA PREDILETA DE LADY RUTHERFORD
R. F. Lucchetti



Como fazia todos os dias ao longo dos anos, ao levantar-se, lady Rutherford fez a toalete e, com passos estudados, caminhou pelo longo corredor de sua austera mansão. Chegou a uma escada de mármore. Desceu os degraus limpíssimos. No andar de baixo, abriu uma janela de sacada e saiu a um pátio largo. Sentou-se a uma mesa e foi prontamente atendida por uma criada uniformizada, que lhe serviu o desjejum.
Após tomar o café da manhã, lady Rutherford foi dar um passeio pelo jardim, aspirando o perfume das flores. Parou diante do pequeno lago artificial e pôs-se a admirar os nenúfares que o ornamentavam e os cisnes que deslizavam graciosamente pela placidez de sua superfície espelhada. A anciã sorriu, sentindo-se plenamente feliz e recompensada pela vida que Deus lhe havia dado. Duas lágrimas de gratidão desceram pela face de pergaminho da veneranda senhora.
Lady Rutherford  caminhou em direção à casa e olhou-a demoradamente, como se ela fosse um ente querido. Há quantos anos aquela casa a acolhia? Não saberia dizer.
Em seguida, a boa senhora entrou pela porta lateral que o bom Hospkins deixava aberta para aquele momento e que depois vinha correndo fechar – já havia muitos anos que, todos os dias, lady Rutherford repetia tudo aquilo como num ritual sagrado, em que nada podia ser esquecido.
Então, a anciã caminhou pela ampla sala, admirou os quadros e tapetes persas que pendiam das paredes, acariciou demoradamente o veludo carmesim do sofá... E um longo suspiro brotou das profundezas de seu peito. Como tudo lhe era caro...
Agora, iria até a biblioteca, escolheria um livro e, sentando-se em sua poltrona predileta, começaria a ler. Ela passou ao grande salão repleto de estantes envidraçadas e deparou-se com algo que a fez estremecer: na sua poltrona havia o cadáver de um homem com uma faca enterrada no peito!
Com mãos trêmulas, lady Rutherford balançou a campainha. No mesmo instante, surgiu o solícito e fleumático Hospkins, perguntando:
– Que deseja, senhora?
– Que coisa horrível, Hospkins! Um cadáver na minha poltrona! Tire-o imediatamente! Não admito ninguém na minha poltrona predileta!