Ano 5 - nº 15 - janeiro/abril de 2013

A MULHER QUE HITCHCOCK NUNCA ASSUSTOU



Ela é uma mulherzinha frágil, de ar tímido, que bem poderia se imaginar subindo numa mesa, aos gritos, à simples visão de um rato.
Beliscando um pedaço de bolo de aniversário, no salão dos fundos do famoso salão de reunião das celebridades de Hollywood, o Restaurante Chasens, ela confessou, porém, algo realmente notável, algo que os espectadores de cinema de todo o mundo considerariam bastante inacreditável:
– Posso dizer, honestamente, que nem um só dos filmes de Alfred Hitchcock, até hoje, me assustou. E assisti a todos.
Para os milhões de aterrorizados fãs de Hitchcock, Alma Reville seria uma pessoa não muito normal, ao afirmar tal coisa. Mas tudo se explica: Alma é, há cinqüenta anos, a sra. Alfred Hitchcock. E tem permanecido silenciosamente em segundo plano, enquanto o seu famoso marido apavora e faz desmaiar todos que assistem a seus filmes.
Hitchcock completou 75 anos a 13 de agosto passado, um dia antes do 75º aniversário de Alma. E, enquanto os grandes nomes do mundo cinematográfico – como os atores Cary Grant e Paul Newman – bebiam champanha à sua saúde, numa gigantesca festa de aniversário, a pequenina sra. Hitchcock explicava os motivos de seu marido nunca lhe haver provocado arrepios de horror.
Ela casou-se com ele em 1926, quando era montadora e ele era apenas um inglês desconhecido e disposto a vencer.
– Desde que ele começou a fazer filmes, sempre nos sentamos, juntos, e examinamos o roteiro... cada cena, detalhe por detalhe. Por isso, quando a história é filmada, eu já sei cada uma das emocionantes reviravoltas das situações, cada um dos momentos aterrorizantes ou de impacto. E, sabendo o que vai acontecer, nunca me assusto.
Mesmo assim, ela é a maior das fãs de Hitchcock.



Este texto foi transcrito, com algumas retificações, do jornal O Globo (Rio de Janeiro, 18 de janeiro de 1975, p. 25)