Ano 4 - nº 14 - outubro/dezembro de 2012

TUDO COMEÇOU COM UM TELEFONEMA
Valter Martins de Paula



Minhas mãos tremiam. Era fazer uma ligação e, talvez, tudo estivesse arruinado. Pensei que tanto trabalho para conseguir o número poderia resultar em nada. Eu vencera minha timidez, ao me apresentar a um dos professores do curso da minha irmã na faculdade – professor esse filho daquele com o qual eu queria manter contato –; e, agora, prestes a fazer a ligação, o meu coração batia acelerado no peito. Afinal, estaria realizando um sonho antigo, o de finalmente poder conhecer uma pessoa que eu admirava à distância, por meio de seus escritos e seus roteiros em inúmeros filmes a que tinha assistido na infância e adolescência. Ser um estudante de Jornalismo apaixonado por Cinema tem suas vantagens, pois, não fosse por isso, jamais teria me aproximado de Rubens Francisco Lucchetti, responsável por inúmeros filmes de Terror e Horror.
Era o ano de 2005; e, estando no último ano da faculdade, tinha de realizar um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) que consistisse na realização de um documentário e um jornal impresso sobre algum tema específico. Conversando com alguns colegas, decidimos realizar uma pesquisa que, originalmente, consistia em apurar o impacto dos filmes de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, na mídia impressa de Ribeirão Preto. Nossas expectativas foram frustradas, quando, nas páginas antigas de cultura dos jornais diários da cidade, encontramos quase nada que, ao menos, fizesse referência ao personagem. E, quando telefonei ao Rubens dizendo que a nossa intenção era a de fazer um trabalho que dissecasse a figura mítica do personagem Zé do Caixão, ele foi enfático em afirmar que já existia um estudo sobre isso no mercado editorial (não, coincidentemente, um livro que utilizamos em nossa bibliografia final). Foi educado e simpático, embora tenha me confessado, dias depois, que desconfiava do nosso trabalho, por sermos jovens demais.
Éramos um grupo de cinco pessoas – três rapazes e duas garotas. Quando montamos o grupo, pensei que todos estivessem familiarizados com os filmes de José Mojica Marins. A minha surpresa foi constatar que conheciam a obra do cineasta apenas por outros meios, ou seja, nunca haviam visto um filme do homem. Então, depois de mostrar a eles a minha modesta coleção dos filmes de Marins (quatro fitas VHS), marcamos uma viagem a Jardinópolis, para visitar Rubens. Estávamos todos muito nervosos e ansiosos por conhecer um senhor que, à época, contava 75 anos de idade. Eu tinha receio de parecer enfadonho ou desinteressante; os outros, medo de que nosso foco fosse prejudicado e a viagem soasse descabida. Em uma viagem que durou cerca de duas horas (entre nos familiarizarmos com a estrada e encontrarmos o endereço marcado), eu ia falando aos meus amigos as impressões que tinha sobre Rubens, pois o conhecia somente por intermédio de fotografias.
Sempre fui uma pessoa tímida a princípio; e, não agi diferente, quando conhecemos Lucchetti. Como eu já disse, estávamos todos nervosos; mas alguém precisava tomar a dianteira e quebrar o gelo. Após as apresentações formais, fomos conduzidos, através dos fundos da casa, a uma sala que dava de frente para a cozinha. Mais ao lado, reparamos uma sala repleta de relógios de parede, sinos e outros objetos. Fomos apresentados à saudosa dona Teresa, mulher de Rubens, que, prontamente, nos ofereceu um café, que aceitamos de bom grado. Já acomodados em um largo sofá, começamos a travar um monólogo sobre o nosso trabalho. Lembro que o filho de Rubens, o prof. Marco Aurélio (fora por intermédio dele que eu conseguira o número de telefone de Lucchetti), acompanhava a tudo com muita atenção. Depois de demonstrarmos o que gostaríamos de fazer no nosso projeto, comecei a ficar mais calmo e a falar sobre a minha paixão, o Cinema. Aí, então, percebi que o papo fluiria, sem grandes problemas. Lembro-me de que conversamos sobre tudo um pouco: etapas inaugurais de um filme, produção, roteiro, escalação de elenco, supervisão de produção, patrocínio. Lembro-me, também, de ter demonstrado aos dois, pai e filho, que conhecia o nome do produtor Diler Trindade, que, no início dos anos 1990, produzira algumas fitas da Xuxa e que, agora, produzia Um Lobisomem na Amazônia, filme do qual Rubens escrevera o roteiro. Portanto, já podia me sentir em casa; estávamos falando a mesma língua.
Alguns colegas mal abriram a boca; restringiram-se a observar e fazer algumas anotações, enquanto o papo corria solto. Meus olhos não deixavam de observar os detalhes da casa. Passava em minha cabeça um misto de fascínio e estranheza. Quando o assunto deixou de ser “profissional” e tornou-se pessoal, senti-me à vontade para perguntar sobre a vida que levavam em Jardinópolis (por intermédio de pesquisas que ultrapassaram os muros da faculdade, tomei conhecimento de que Rubens fora, por muitos anos, morador de Ribeirão Preto). Fiquei em estado catatônico, ao constatar que este homem (que, na minha mente era um mestre inatingível, repleto de estrelismo e tiques) era um ser humano comum. E, como qualquer ser humano, mantinha uma vida simples, ao lado do filho e da mulher, em uma casa antiga de dezessete cômodos. Meus olhos passeavam pela sala, pelos aposentos, por todos os cantos da casa; observavam os adornos nas paredes (como uma espingarda de caça); os quadros que enchiam os espaços, os quartos, o escritório de trabalho. Nada escapou.
Ficamos cerca de três horas na casa de Rubens. Meu grupo de amigos era tão díspar, que, entre nós, havia até mesmo uma crente. Sem que eu soubesse desse detalhe, ela aceitou fazer parte do grupo, ao também sentir que Rubens, acima de seu trabalho profissional e de sua figura mítica, era um homem movido pela crença e pelas palavras divinas. Vencida esta primeira etapa, estávamos com um enorme problema nas mãos, pois percebemos que, se não modificássemos o foco do nosso trabalho, o esforço seria em vão. Percebemos também a riqueza do homem cuja casa havíamos visitado. Em uma única conversa, Rubens nos falou de seus inúmeros heterônimos na Literatura; do tempo que escrevera para o rádio; dos seus roteiros de Cinema (com e sem José Mojica Marins), alguns ainda inéditos; de seus projetos pessoais; de seus textos por encomenda. Concluímos, então, que, se fizéssemos um TCC a respeito de Zé do Caixão, corríamos o risco de realizar algo que já existia e que, devido à experiência (ou à falta de experiência) de cada um, poderia ser algo repetitivo e desinteressante. Decidimos, então, enfocar em nosso TCC a vida e a obra de Rubens Francisco Lucchetti.
Ao transformar a vida deste homem em algo público e inédito, nosso trabalho traria à baila a figura enigmática e pouco conhecida de Rubens Francisco Lucchetti, um homem que tem dedicado sua vida às suas paixões, o Cinema e a Literatura. Devo confessar que, enquanto fazíamos o TCC – toda a aventura (conhecer o homem, reescrever o projeto, apresentar a parte teórica, montar um documentário de oito minutos e um jornal impresso de doze páginas) durou sete meses –, tomei a liberdade de “pedir emprestado” alguns escritos inéditos e alguns roteiros engavetados, para servir de base escrita à pesquisa.
Depois de apresentarmos o trabalho, no mês de dezembro daquele ano, meus amigos seguiram caminhos diferentes do meu. Todos eles foram fazer suas vidas em outras áreas, alguns conseguindo sucesso imediato. Outros mudaram de cidade, e perdemos contato de forma natural. O que ficou de tudo isso, além de uma bem-sucedida apresentação para uma banca composta de professores universitários e jornalistas profissionais, foi a amizade, o contato e o carinho nutrido pela família Lucchetti.
Hoje, corre o ano de 2012. São sete anos de amizade, de companheirismo, respeito e admiração, mesmo que à distância. Neste tempo, muitas coisas permaneceram e tantas outras mudaram. A vida da gente vai se adaptando às perdas, às novas realidades, aos novos ritmos. Sei disso porque esta forma de vida me afastou deveras destes meus amigos queridos, que sempre estiveram (e continuam) presentes. Talvez por morarem em uma cidade diferente da minha – ainda que bastante próxima –, a comunicação fique prejudicada. Não, eu não me esqueci deles, apenas me afastei por inúmeros motivos, pessoais e profissionais. Em sete anos, foram muitas confidências e impressões trocadas; muitos desejos e votos sinceros de saúde e força; muitos filmes compartilhados e muitos textos escritos. Sete anos marcados por longos e prazerosos telefonemas, esparsas visitas e algumas promessas minhas não cumpridas.
São também sete anos de reminiscências cinematográficas, filmes descobertos com prazer (como é o caso das fitas realizadas pelo cineasta francês Jean Rollin) e algumas considerações contrárias. Lembro-me de Rubens me dizendo que não gosta do gênero Western; que só se sente à vontade em ambientar suas histórias fora do Brasil; que tem de trabalhar diariamente, para não adoecer e perder a prática (para ele, a escrita não é inspiração; é técnica) e que não acha a cidade de Ribeirão Preto tão boa quanto se alardeia por aí (em sua opinião, Ribeirão Preto “não é e nunca foi capital da cultura”). Também me recordo das críticas aos jornais locais, a algumas instituições culturais...
Rubens Francisco Lucchetti e Marco Aurélio Lucchetti, quero que aceitem este texto como um pedido de desculpas pelas inúmeras vezes que não cumpri aquilo que disse; e, acima de tudo, como um atestado de admiração e respeito incontestáveis por vocês dois. Interpretem este texto como uma ligação telefônica há muito cobrada e nunca feita.

 

Este texto foi escrito em Ribeirão Preto, em março de 2012

 

Valter Martins de Paula é jornalista e historiador