Ano 4 - nº 14 - outubro/dezembro de 2012

O ESCORPIÃO ESCARLATE – DO SCRIPT RADIOFÔNICO AO ROTEIRO CINEMATOGRÁFICO



Marco Aurélio Lucchetti: Quando foi que você escreveu o roteiro do filme O Escorpião Escarlate?
Rubens Francisco Lucchetti: Escrevi esse roteiro entre 1987 e 1988. O Escorpião Escarlate foi a terceira fita dirigida pelo Ivan Cardoso com roteiro meu. No entanto, essa terceira fita era para ter sido Naiara, A Filha de Drácula, cuja primeira versão do roteiro escrevi por volta de 1985.

Então, acho oportuno que você fale primeiro como surgiu a ideia de fazer um filme com a Naiara.
Em 1984, fui diversas vezes ao Rio de Janeiro, a fim de acompanhar as filmagens de As Sete Vampiras. Numa dessas vezes, o Ivan pediu que eu pensasse no argumento do nosso próximo filme. O pedido do Ivan não me saiu da cabeça, durante todo o trajeto de ônibus entre o Rio e Ribeirão Preto; mas não me ocorreu nenhuma ideia. Cerca de uma semana depois, quando estava em casa, vasculhando uns textos meus, encontrei os originais de seis novelas – “Eleanor Toda Sexo”, “A Devoradora de Homens”, “Sob o Domínio da Luxúria”, “A Rainha da Luxúria”, “A Bruxa do Sexo” e “O Demônio Erótico” – que havia escrito alguns anos antes para a Editora Luzeiro (ex-Prelúdio). Lembrei-me, então, da protagonista dessas novelas, Eleanor O’Kane, uma mulher que se torna vampiresa após uma visita, na lua de mel, ao castelo do Conde Drácula. Lembrei-me também de que Eleanor é um tipo diferente de vampiresa: ela não se alimenta do sangue das pessoas, e sim da energia dos homens com quem tem relações.

Essas novelas foram publicadas?
Para minha sorte, não. Quando comecei a escrever as histórias de Eleanor, eu tencionava fazer uma sátira à novela “Raquel” e à história em quadrinhos “Mulher Diabólica”, ambas de minha autoria. Entretanto, não pude fazer isso, pois tive de seguir as determinações do editor. Que aconteceu, então? Fui obrigado a  escrever as histórias numa linguagem coloquial demais e a simplificar muito seus enredos. Infelizmente, para garantir nossa sobrevivência, nós, autores, somos, na maioria das vezes, forçados a atender os pedidos de editores que visam apenas o lucro fácil e acham que o livro é apenas um produto comercial. Concordo plenamente com meu saudoso amigo Jaime Rodrigues (1), que costumava chamar editores desse tipo de “sujadores de papel”.

Qual a razão dessas novelas não terem sido publicadas ?
Não sei dizer. Elas me foram encomendadas em 1978 pelo então diretor da Luzeiro, sr. Arlindo Pinto de Souza; e eram para ter sido publicadas numa coleção intitulada Sexy-Terror, que iria publicar histórias que misturavam erotismo e terror. Nem sei se a Luzeiro ainda tem esses originais. Agora, voltando ao que eu dizia a respeito de como surgiu a ideia de fazer o filme da Naiara... Depois de dar uma lida nas histórias de Eleanor, telefonei para o Ivan e lhe falei que nossa próxima fita poderia ser sobre uma vampiresa. E, antes que ele me interrompesse, dizendo que “estávamos justamente terminando um filme em que havia sete vampiras”, descrevi-lhe, em poucas palavras, o perfil da nossa próxima mulher-vampiro. Ele gostou da minha ideia e sugeriu que a vampiresa do filme fosse a Naiara, que ele conhecia das histórias em quadrinhos desenhadas pelo Nico Rosso e publicadas na década de 1960 pela Editora Taika, de São Paulo. Aceitei a sugestão dele; e, então, ficou acertado que a nossa próxima fita seria Naiara, A Filha de Drácula. Em seguida, enquanto o Ivan conseguia do detentor dos direitos autorais da personagem, o editor Manuel César Cassoli a autorização para usar o nome Naiara, comecei a escrever o roteiro do filme. Em seis meses escrevi a primeira versão do roteiro...

Para escrever esse roteiro, você se baseou nas histórias em quadrinhos da Naiara?
Não. A minha Naiara não tem relação alguma com a Naiara das histórias em quadrinhos, a não ser o nome. Na minha opinião, a Naiara dos quadrinhos é uma personagem caricata demais – ela beira o ridículo –, uma vez que bebe o sangue das pessoas em cálices; e suas histórias são muito infantis.

Mas por que Naiara, A Filha de Drácula não foi realizado?
Por questões financeiras. E o Ivan pediu que eu pensasse num novo argumento, dizendo que queria realizar uma fita barata e com todas as características dos filmes B norte-americanos dos anos 1940. E a ideia para escrever esse argumento surgiu, como ocorrera com As Sete Vampiras, por mero acaso: certo dia, olhando meus scripts de rádio, deparei com um grosso volume intitulado O Escorpião Escarlate. Ali estava a história ideal para a fita do Ivan.

O Escorpião Escarlate foi uma novela de rádio?
Não. Foi um seriado que escrevi em 1956 para a PRA-7 Rádio Clube, uma emissora de Ribeirão Preto.

Por que você chama O Escorpião Escarlate de seriado e não de novela?
Porque havia diferenças entre seriado e novela de rádio, e O Escorpião Escarlate foi um seriado. As novelas de rádio destinavam-se ao público adulto. Ou melhor dizendo, destinavam-se principalmente às mulheres. Tinham muitas semelhanças com os folhetins (2); e eram histórias românticas, dramalhões que procuravam explorar um sentimentalismo barato. Quanto aos seriados de rádio, destinavam-se sobretudo ao público juvenil do sexo masculino; tinham grandes semelhanças com os seriados cinematográficos norte-americanos das décadas de 1930 e 1940; e eram histórias em que predominavam a aventura, a fantasia e o mistério. As novelas tinham geralmente muitos capítulos; e os seriados, poucos capítulos.

Além do seriado O Escorpião Escarlate, você escreveu mais alguma coisa para o rádio?
Sim. Escrevi esquetes para programas de auditório; diversos radioteatros para o programa Grande Teatro A-7; e alguns seriados para o Grande Teatro de Aventuras, que era um programa apresentado de segunda à sexta-feira, às cinco e quinze da tarde.

Presumo que O Escorpião Escarlate foi apresentado no Grande Teatro de Aventuras...
Foi mesmo. Não tenho certeza, mas acho que ele foi o sétimo ou o oitavo seriado que escrevi para esse programa. Os enredos dos meus seriados sempre foram bastante variados; e as histórias se passavam nas selvas, nos desertos, no mar... Nessa época, eu estava muito influenciado pelos livros das coleções Terramarear e Os Audazes. Por isso, meus seriados eram quase sempre inspirados nesses livros.

O Escorpião Escarlate foi sugerido pela leitura de algum desses livros?
Não. As coleções Terramarear e Audazes publicavam somente livros de Aventura, e O Escorpião Escarlate é uma história de Mistério.

Durante quanto tempo você escreveu para a PRA-7?
Três anos (1956-1958); e, até hoje, recordo-me com muita saudade desse período. Foram três anos de enorme felicidade para mim, pois tive a  sorte de trabalhar com excelentes profissionais, que queriam, acima de tudo, produzir programas de qualidade. Os anos em que escrevi para o rádio foram de trabalho árduo; entretanto, também foram de muita satisfação, porque eu podia ouvir meus personagens criarem vida por meio das vozes de Álvaro Neto, Geraldo Ramos, Gilberto Garcia, Luizinha Lauretti, Porto Alegre, Roberto Barreiro, Rogério Cardoso, Ruth Silva, Silvério Neto e tantos outros, cujos nomes não me recordo agora – não me lembro de seus nomes, mas suas vozes estão bem vivas em minha mente. Eu tinha ainda a felicidade de ter em meus programas excelentes profissionais na sonoplastia e na contrarregra. Gostaria de destacar que era por intermédio da sonoplastia e da contrarregra que eu procurava criar toda a atmosfera e o suspense dos meus seriados e radioteatros. O sonoplasta era Luciano Musetti, um perfeccionista, que gastava  horas de pesquisa para conseguir um efeito que no ar não durava mais do que dois ou três segundos. Ele era assessorado pelos não menos competentes José Júlio da Costa e Silva e Milton Rodrigues. O contrarregra era o inesquecível amigo Gastão Miranda, um artista completo... Ele era novelista de rádio, poeta, compositor e exímio desenhista. Mas tudo isso pertence ao passado, ou melhor dizendo, a um passado que dói lembrar, principalmente quando se vê que a querida PRA-7 se transformou numa rádio popularesca e que já não resta mais nada do belo prédio (conhecido como o Palácio do Rádio) em que ela estava instalada...

E quanto à remuneração?
O que ganhei escrevendo para o rádio foi uma ninharia. Mas eu não visava remuneração, porque era proprietário de uma loja de autopeças que me proporcionava um ganho satisfatório. Eu escrevia porque o rádio sempre me fascinou. Escrevia porque gostava, porque queria ouvir meus personagens ganharem vida por intermédio das vozes dos radioatores.

Esses seriados e radioteatros que escreveu para a PRA-7 foram suas primeiras experiências no rádio ?
Sim. Mas gostaria de recuar no tempo... até 1943, quando, ainda residindo em São Paulo, eu costumava ouvir, nos finais de tarde, um programa da Rádio Tupi. Nesse programa, que tinha trinta minutos de duração, Octávio Gabus Mendes radiofonizava histórias, em sua maioria, enviadas pelos ouvintes. Eram histórias que os ouvintes recortavam de jornais e revistas (3). Recordo também que, no final de cada programa, o sr. Octávio fazia comentários a respeito das cartas e colaborações enviadas. Um dia, tive a ousadia de mandar um texto de minha autoria – por essa época, eu já tinha escrito uma quantidade razoável de histórias curtas que enchiam uma gaveta inteira do guarda-roupa da família – para o programa. Essa minha ousadia aconteceu porque alguns meses antes um jornalzinho do bairro onde eu residia havia publicado um conto meu. Eu, então, me achava um autor. Além do mais, a história que eu estava enviando não fora recortada de nenhuma revista, fora escrita por mim!

Que aconteceu, depois que você mandou esse texto para o programa?
Fiquei esperando sua apresentação. Como isso não aconteceu, enviei mais duas ou três histórias. Talvez um mês mais tarde, uma dessas histórias foi radiofonizada. Para mim, foi uma emoção indescritível ouvir a radiofonização de um texto meu. E fiquei mais emocionado ainda, quando ouvi Octávio Gabus Mendes, no final do programa, dizer que eu tinha muita imaginação e pedir que eu fosse conversar com ele na rádio.

E você foi?
Fui. Mas como eu era uma pessoa tímida, pedi para um amigo meu, o Alcyr Rossi, ir comigo. Durante nossa conversa, ouvi o sr. Octávio dizer que em pouco tempo a televisão chegaria ao Brasil e necessitaria de autores com uma imaginação fértil igual à minha. Nessa época, era comum as pessoas que estavam começando a carreira artística serem apadrinhadas por alguém já famoso; e, hoje, entendo que ele queria ser meu padrinho. Infelizmente, pouco tempo depois, minha família se mudou para Ribeirão Preto, cortando meu vínculo com ele.

Imagino a angústia que você sentiu então. Porque, numa cidade do interior, como Ribeirão Preto, o rádio devia ser muito incipiente.
Ribeirão Preto já era uma cidade bem evoluída em diversos aspectos – tinha excelentes hotéis, muitas indústrias, um comércio próspero, quatro jornais diários, um teatro, vários cinemas, diversas faculdades, uma orquestra sinfônica... Entretanto, deixava a desejar no que se refere ao rádio. Existia apenas uma emissora, a PRA-7, que tinha um único programa, Às Suas Ordens, no qual os ouvintes, mediante uma taxa, ofereciam músicas para familiares e amigos. Diante dessa realidade, eu jamais poderia imaginar que, cerca de dez anos depois de sair de São Paulo, iria escrever seriados para uma rádio do interior.

E como foi que surgiu essa oportunidade?
Em 1955, o diretor da PRA-7, sr. José da Silva Bueno, um dos gênios da nossa radiofonia, desejava transformar a emissora numa das líderes de audiência do interior paulista. Para isso, construiu, na esquina da Rua Barão do Amazonas com a Avenida Francisco Junqueira, um prédio especialmente para abrigar a rádio e contratou Silvério Neto, que tinha muita experiência radiofônica e foi incumbido de reestruturar a programação da PRA-7. Não me recordo exatamente de como eu soube que Silvério estava contratando redatores para a emissora. Só me lembro de que fui procurá-lo, levando alguns jornais e revistas com contos, novelas e artigos meus. Ele deu uma olhada nesses meus textos e encomendou-me alguns esquetes e pequenas histórias românticas. Devo confessar que não foi nada fácil escrever aquilo que o Silvério desejava, pois quase tudo quanto eu escrevera até então e publicara em revistas pulp como Policial em Revista e X-9 era do gênero de Detetive & Mistério. Mas consegui escrever uma meia dúzia de histórias românticas. Algum tempo depois, eu soube que minhas histórias tinham sido aprovadas e seriam apresentadas no Boa Tarde à Mulher, um programa feminino que iria fazer parte da nova programação da emissora. Passados uns seis meses, Silvério me telefonou, para dizer que Aloysio Silva Araújo fora contratado para ser o diretor de broadcasting da PRA-7 e queria falar comigo. Aquilo foi um choque para mim, porque Aloysio era um radialista muito famoso. Na década de 1940, em São Paulo, ele fazia, junto com Manoel de Nóbrega, Cadeira de Barbeiro, um programa de rádio que satirizava sobretudo o mundo político. Nesse programa, Aloysio interpretava um barbeiro que expunha, com um sotaque italianado, suas opiniões a respeito de vários assuntos; e Manoel de Nóbrega, o cliente, que sofria com a navalha “cega” e só tinha direito de gemer na cadeira da barbearia. Após a mudança de Aloysio para Ribeirão, Cadeira de Barbeiro passou a ser apresentado pela PRA-7. Agora, o cliente era interpretado por Silvério Neto.

E que aconteceu, quando você foi falar com Aloysio?
Assim que entrei em sua sala, ele disse que já me conhecia de nome, uma vez que era leitor da Policial em Revista. Em seguida, explicou que estava criando dois programas, o Grande Teatro de Aventuras e o Grande Teatro A-7 – o primeiro era um seriado juvenil de quinze minutos; o segundo, um radioteatro adulto de aproximadamente sessenta minutos –, e queria que eu os escrevesse. Era muita emoção para um único dia: conhecer Aloysio Silva Araújo, um homem de grande carisma e um dos maiores nomes da radiofonia brasileira; saber que ele já havia lido alguns de meus contos; e ser contratado para escrever seriados de rádio e radioteatros. Fiquei tão emocionado que, durante uns três dias, não consegui trabalhar direito. Nessa época, muito embora detestasse o comércio, eu era proprietário de uma loja, a Monroe Autopeças, localizada numa das principais avenidas de Ribeirão, a Saudade.

Se detestava o comércio, por que foi ser comerciante?
Se fui comerciante, foi por uma imposição do meu nonno. Ele achava que meu primo, Mauro Lepera, que foi o fundador da loja, e eu devíamos ser comerciantes. Eu morava ao lado da casa do nonno. Por isso, quase todas as noites, conversávamos longamente. Muitas vezes, durante a conversa, ousava contrariá-lo, dizendo que não era bem aquilo que eu queria, que o comércio não estava entre os meus ideais. Então, ele perguntava ironicamente: “E quais são seus ideais?”

E que você respondia?
Nada. Eu não tinha coragem de dizer-lhe que gostaria de dedicar-me exclusivamente a escrever.

Como você conseguiu conciliar suas atividades de comerciante com seu trabalho no rádio?
Não foi nada fácil. O Grande Teatro de Aventuras era um programa diário; e o Grande Teatro A-7, um programa semanal (4). Assim, eu tinha de escrever um capítulo de seriado por dia e um radioteatro por semana. Isso me obrigava a escrever na loja, e eu ficava irritado quando entrava um freguês. Para me livrar o mais rápido possível do “intruso”, eu ia logo dizendo que não tinha a peça que ele queria.

Mas voltemos ao motivo da entrevista. Você disse que a ideia para o filme que o Ivan Cardoso desejava dirigir surgiu quando você viu um grosso volume com o script de O Escorpião Escarlate...
Isso mesmo. E o que fiz foi transformar esse script num argumento, que enviei ao Ivan. Alguns dias depois, o Ivan me telefonou, para dizer que gostara muito do argumento e que eu podia, baseado nele, escrever o roteiro do filme.

Há algum motivo especial para O Escorpião Escarlate, assim como O Segredo da Múmia e As Sete Vampiras, se passar na década de 1950?
Há: as décadas de 1940 e 1950 me marcaram muito. Assim, sempre que possível, a ação daquilo (conto, livro, roteiro de história em quadrinhos, roteiro cinematográfico etc.) que escrevo se passa nessas décadas. Além do mais, a ação de O Escorpião Escarlate tinha de se passar na década de 1940... ou na década de 1950. Porque o filme retrata a produção de um seriado radiofônico, e as décadas de 1940 e 1950 foram o período áureo dos seriados e das novelas de rádio.

E quem é ou que é o Escorpião Escarlate?
O Escorpião Escarlate é um bandido. Ele é um criminoso cruel, inescrupuloso e muito inteligente. E, para criá-lo, inspirei-me no sinistro e diabólico dr. Fu-Manchu, criado pelo escritor inglês Sax Rohmer.

Ele, o Escorpião Escarlate, é o protagonista da história?
Não. O protagonista é Hélio Monteiro Filho, autor de seriados de rádio. O Hélio também interpreta o personagem principal do seriado, o playboy Monte Grant, e seu alter ego, O Morcego, um justiceiro.

Para criar O Morcego, você se inspirou em algum personagem?
Num sábado de manhã, no final de 1941 ou começo de 1942, fui visitar o Alcyr Rossi. Ele morava numa casa de porão alto, na Rua Clemente Álvares, quase na esquina com a 12 de Outubro, no centro da Lapa. Lembro-me de que, após atravessarmos o portão de entrada, havia um corredor largo e, alguns metros adiante, do lado direito, uma escada de cimento que conduzia à porta principal da casa. Foi exatamente sob a abertura dessa escada que o Alcyr, como se fosse o Mandrake, fez um gesto mágico e retirou de dentro de uma cesta – seria mesmo uma cesta? Não lembro bem... Podia ser uma caixa – duas revistas: Detective número 3 e Mistérios número 11. Eram as primeiras revistas pulp que eu via; e o Alcyr as deu de presente para mim. E, naquele mesmo dia, à tarde, comecei a ler essas revistas. Ou melhor dizendo, comecei a ler uma das histórias, “Os Assassínios do Radium”, publicada na Mistérios. Seu personagem principal era um justiceiro misterioso e implacável que usava capa, tinha o rosto quase inteiramente coberto por um chapéu de feltro e de abas largas, agia em Nova York e sempre se confundia com a escuridão. Confesso que fiquei imediatamente fascinado por esse personagem. Depois, li outras aventuras dele nas revistas Contos Magazine e Policial em Revista; li também suas histórias em quadrinhos, em O Lobinho; ouvi suas aventuras no rádio; e assisti a seus seriados de Cinema. Esse personagem era O Sombra. Confesso que O Sombra me marcou bastante. Marcou-me tanto que, inspirado nele, criei O Morcego.

Você criou O Morcego no roteiro de O Escorpião Escarlate?
Não. Eu o criei em “Os Crimes do Radium”, um pasticho de “Os Assassínios do Radium”. Eu escrevi esse pasticho entre 1944 e 1946; e, até hoje, ele está inédito. Quando Aloysio Silva Araújo me convidou a escrever para o rádio, pensei em adaptar “Os Crimes do Radium” para um seriado, mas acabei não o fazendo.

Por que o Ivan Cardoso trocou O Morcego pelo Anjo, no filme?
Num depoimento que deu à revista Cinemin, o Ivan falou o seguinte: “Quando recebi o argumento, o detetive da história se chamava Morcego (...), mas não gostei. Achei que era bicho demais – Morcego & Escorpião – e me lembrei do lendário Anjo, do qual fui radiouvinte durante anos.” O Morcego foi trocado pelo Anjo porque o Ivan é de uma geração mais nova que a minha: nasceu nos anos 1950 e foi ouvinte de seriados como Aventuras do Anjo. Portanto, nada mais lógico que escolhesse o Anjo para ser o herói do filme, já que O Morcego, que é inspirado em O Sombra, não significava nada para ele.

Que você achou dessa troca?
Confesso que não gostei nem um pouco. Quando o Ivan me escreveu pedindo para reformular completamente meu roteiro – roteiro esse que havia concorrido num concurso da Embrafilme e tinha sido classificado –, trocando O Morcego pelo Anjo, percebi que ele não entendera o meu objetivo ao criar O Morcego.

E que objetivo era esse?
Homenagear os heróis mascarados das revistas pulp e das histórias em quadrinhos.

Pode citar alguns dos heróis que você homenageou com O Morcego?
Entre os heróis das revistas pulp que homenageei, além de O Sombra, posso citar: O Aranha, Detetive Fantasma e Morcego Negro. Quanto aos personagens dos quadrinhos que foram homenageados, destaco: O Fantasma, O Espírito, Drago, Meia-Noite, Batman, O Coringa, O Escudo, O Vingador, Titan, Dora, Loura Fantasma e Pantera Negra.

Você conheceu pessoalmente Álvaro Aguiar, o criador do Anjo?
O Anjo não é uma criação do Álvaro Aguiar. Seu criador foi Péricles Leal. As primeiras histórias do Anjo foram escritas pelo Péricles Leal. O Álvaro começou a escrevê-las alguns meses depois de o programa Aventuras do Anjo haver estreado na Rádio Nacional, do Rio de Janeiro. Mas, respondendo à sua pergunta, sim eu conheci Álvaro Aguiar. Na ensolarada tarde de 1º de dezembro de 1987, fui, junto com o Ivan, à casa do Álvaro, no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Ao conhecê-lo, lembrei-me imediatamente de que já o havia visto nos programas humorísticos da TV Globo. Ele era muito simpático e afável; e, durante as mais de duas horas em que gozamos de sua hospitalidade – eu me lembro até hoje dos gostosos pastéis que sua esposa nos serviu –, falou-nos de sua vida e de seu trabalho em Aventuras do Anjo, em que, além de escrever as histórias, interpretava o herói. Antes de irmos embora, deu-me de presente um script seu e alguns exemplares do gibi do Anjo.

Você ouvia o programa do Anjo?
Não, nunca ouvi. Mas esse programa, que estreou em 1948 e tinha o patrocínio do laboratório Sidney Ross, era muito ouvido em várias partes do Brasil, inclusive aqui na região de Ribeirão Preto. E O Grande Teatro de Aventuras foi criado justamente para concorrer com ele.

E o Grande Teatro de Aventuras tinha muita audiência?
Sim. Tanto que em Ribeirão conseguimos derrotar o programa do Anjo. Curiosamente, meu vilão, que gosta de torturar belas mocinhas, e o herói do Álvaro, um milionário que, por passatempo e ao lado de três amigos (Jarbas, Faísca e Metralha), combate o crime, enfrentaram-se no filme O Escorpião Escarlate. Foi uma pena o Álvaro não ter visto a fita pronta, já que faleceu um mês antes do início das filmagens.

Não posso terminar a entrevista, se não perguntar: que você achou do filme O Escorpião Escarlate?
Eu gostei do filme, e confesso que fiquei surpreso ao ver como o Ivan conseguiu recriar com extrema fidelidade os ambientes típicos dos antigos seriados cinematográficos.



NOTAS (escritas por Marco Aurélio Lucchetti):

(1) Entre o começo da década de 1970 e os primeiros anos da década de 1990, o crítico, escritor e jornalista Jaime Rodrigues (1941-1998) foi editor de algumas das principais editoras (Bruguera, Primor, Francisco Alves, Círculo do Livro e Globo, entre outras) brasileiras.

(2) Na década de 1830, o termo folhetim começou a designar uma seção específica dos jornais franceses, o rodapé, em que eram publicados romances em capítulos. Escritos por Eugène Sue (1804-1857), George Ohnet (1848-1918), Paul Féval (1817-1887), Ponson du Terrail (1829-1871) e, entre outros autores, Xavier de Montépin (1823-1902), esses romances eram repletos de incidentes dramáticos; tinham um grande número de personagens; e giravam em torno de temas como amores contrariados, orfandade, raptos, trocas de identidades e  vinganças.

(3) Nos anos 1940, havia inúmeras revistas (Carioca, Cigarra Magazine, Contos Magazine, O Cruzeiro, Eu Sei Tudo, Jornal das Moças e Vamos Ler!, entre outras) que publicavam contos, novelas, folhetins e romances de autores brasileiros e estrangeiros.

(4) O Grande Teatro A-7 era apresentado aos domingos, às dez horas da noite.



Esta entrevista foi realizada na casa de Rubens Francisco Lucchetti, em Jardinópolis, entre outubro de 2001 e junho de 2002.