Ano 4 - nº 14 - outubro/dezembro de 2012

R. F. LUCCHETTI, O PIONEIRO DO HORROR BRASILEIRO
Carlos Primati



Sob a luz fria da lógica – comumente tão falha e contestável, ao penetrar no terreno das artes –, seria razoável supor que um país como o Brasil, notável pela pluralidade religiosa, provesse solo fértil para toda sorte de ficção macabra. No entanto, contrariando essa equação de (im)precisão cirúrgica, demônios, exus, pombajiras e espíritos desencarnados não afloraram nas belas letras do maior país católico do mundo – e ao mesmo tempo, também, acolhedor dos mais variados cultos pagãos –, a ponto de estabelecer um subgênero literário com características próprias.
Isso não implica dizer, porém, que não tenhamos representantes dignos nesta área; de fato, podemos até estender o conceito popular de “milagre brasileiro”  ao sempre pouco considerado universo do Terror. O que não tem a oferecer em quantidade, o Brasil possui em qualidade: entre suas escassas contribuições ao cenário da ficção horrorífica, desponta o nome do santa-ritense Rubens Francisco Lucchetti, homem das letras e profissional de Cinema, responsável por roteiros de longas dirigidos por José Mojica Marins e Ivan Cardoso, obras de projeção internacional que, indiretamente, estabeleceram seu nome como o único autor brasileiro de relevância no gênero.



CINEMA: CALIDOSCÓPIO DAS ARTES

Fruto da soma de particularidades de diversas artes, o Cinema nasceu às portas do século XX para firmar-se como a mais abrangente manifestação cultural moderna. E, ao longo de sua primeira década de existência, o Cinema lutou em busca de linguagem própria, definindo parâmetros narrativos e dividindo-se em subgêneros – do melodrama romântico às comédias pastelão, do drama criminal ao faroeste, passando pelo trinômio horror, ficção científica e fantasia. Porém, os novos autores precisavam de material temático para abastecer a nova mídia e, assim, inevitavelmente, buscaram inspiração na Literatura.
A Sétima Arte flertou com temas horroríficos desde seus primórdios, com os curtas experimentais de Georges Méliès e as adaptações livres da obra de Edgar Allan Poe e dos clássicos imorredouros, como o seminal Frankenstein (1910), de Thomas A. Edison. Depois, diante do esgotamento do formato curto e a necessidade de temas complexos para criar longas-metragens mais ambiciosos, o Cinema definitivamente se apropriou da Literatura. Na América, os primeiros grandes clássicos de Horror das telas, como O Médico e o Monstro (1920) e O Fantasma da Ópera (1925), originaram-se de livros.
Quando da conquista do som, o Cinema revigorou-se e novamente recorreu aos livros para adaptar Drácula, Frankenstein e O Médico e o Monstro, agora com o requinte dos diálogos falados e os efeitos sonoros para criar atmosferas pavorosas.
É possível considerar o macabro como a manifestação artística do mais instintivo sentimento humano – o medo –, portanto inerente a qualquer povo ou cultura. Porém, sua transposição para as telas cinematográficas segue uma trajetória mais tortuosa, quiçá casual. Surgido na Alemanha na década de 1910 (e fortalecido após o final da Primeira Guerra Mundial), o filme de Horror imigrou para os EUA na pessoa de seus principais artesãos, que lá encontraram terreno fértil para prosperar – a começar pelas produções da Universal. A disseminação demoraria décadas para se manifestar noutros cenários, como o Brasil.
Não é fácil explicar/entender a “não-horrorificação” da cultura brasileira na primeira metade do século XX; porém, não é exagero apontar o Modernismo como um dos elementos inibidores de sua germinação. Hoje, só podemos lamentar a escassez de cineastas dispostos a abordar obras potencialmente de veia macabra, como Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo; e nada podemos fazer, além de supor como teria sido uma versão para o Cinema deste clássico gótico. Talvez houvesse o temor coletivo de se promover uma “europeização” do cinema brasileiro, na época em busca de identidade própria, inspirada na revolução modernista de Macunaíma e Paulicéia Desvairada. Alheio a isso, nos meados dos anos1940, o jovem Rubens Francisco Lucchetti encantava-se com o cinema americano, do horror sutil das produções de Val Lewton para a RKO às aventuras misteriosas de Sherlock Holmes na série da Universal. Frankenstein, o Lobisomem, a Múmia, Jack o Estripador... eram estes seus heróis nas telas de cinema.



UM ESTRANHO NUMA TERRA ESTRANHA

R. F. Lucchetti jamais escondeu se sentir “um estranho numa terra estranha”, uma mente de requintes europeus aprisionada num cenário de miséria cabocla. O luar do sertão, a simplicidade da vida caipira, a “estética da fome”... nada disso interessa ao escritor paulista, cuja mente divaga no fog londrino e cria intrigas detetivescas dignas dos colegas Edgar Wallace e Arthur Conan Doyle.
À semelhança de vários escritores do século XX que se dedicaram a escrever histórias com temas macabros, o estilo de Lucchetti deve muito à obra de Edgar Allan Poe, especialmente a concisão de seus contos. A clareza de sua narrativa e a capacidade para contar histórias lembram o trabalho dos americanos Richard Matheson e Robert Bloch, escritores consagrados e também profundamente influenciados por Poe. Assim, o destino do brasileiro acabou sendo semelhante ao dos colegas ianques, quando se tornou roteirista de Cinema.
O início da década de 1960 ficou marcado pela internacionalização do Horror nas telas, após o quase total desaparecimento do gênero em território americano, depois da Segunda Guerra Mundial. Revigorado pelas produções da Hammer, que resgataram os temas clássicos (desta vez em cores), o Horror agora vinha do México, da Itália, da França, do Japão – e do Brasil, por intermédio dum bicho-papão transgressor chamado Zé do Caixão, criado pelo paulista José Mojica Marins em 1963. Lucchetti, apaixonado pelo gênero, quis conhecer o cineasta; e daí nasceu uma prolífica parceria. Seu primeiro trabalho na nova mídia foi o roteiro do curta-metragem “Pesadelo Macabro”, dirigido por Mojica em 1967. Nele, o escritor pôde demonstrar a força de sua narrativa objetiva e sua capacidade inventiva, escrevendo uma cena – jamais filmada – na qual mortos se levantam do cemitério e atacam uma moça, antecipando a invasão dos zumbis de A Noite dos Mortos Vivos, realizado por George A. Romero no ano seguinte. A parceria entre Lucchetti e Mojica sem dúvida merece constar como a mais significativa do Horror brasileiro, e hoje não se pode dimensionar a carreira de Zé do Caixão sem contabilizar a influência do estilo de Lucchetti.



ZÉ DO CAIXÃO E A FILOSOFIA DA MASMORRA

“Vede os crentes de toda crença! Quem eles odeiam mais? Aquele que quebra suas tábuas de valores, o quebrador, o infrator – mas este é o criador.”
Friedrich W. Nietzsche, em Assim Falou Zaratustra


Antes da contribuição de R. F. Lucchetti, o comportamento de Zé do Caixão nas telas beirava o coronelismo. Se antes Zé era cético, na visão de Lucchetti ele se tornava sobrenatural. O tirano que, por meio duma maldade circense, apavorava um povoado atrasado, agora reinava num mundo próprio, um mundo estranho, regido pelas forças do Além (e de muito além do Além) e onde tudo era possível. Antes de Lucchetti, não havia ideologia, apenas uma “malvadeza exagerada”. O escritor aproximou as idéias insanas (e ainda cruas) de Zé do Caixão aos feitos de grandes facínoras, como Hitler e sua busca pela raça superior.
A primeira real contribuição do escritor para as telas de Cinema foram os roteiros dos três episódios que formam o longa  O Estranho Mundo de Zé do Caixão (1968), especialmente a história que fecha o filme, intitulada “Ideologia”. Nela, Mojica e Lucchetti criaram o prof. Oaxiac Odéz, versão requintada e erudita de seu colega mais famoso. Odéz reflete Zé do Caixão na ótica de Lucchetti: um vilão charmoso, engenhoso; sádico, mas educado; impiedoso, mas esclarecido; enfim; carismático, com maior apelo e grande possibilidade para  reaparecer nas telas – ele é inclusive personagem de dois roteiros para longas (roteiros esses escritos por Lucchetti) e jamais filmados: Sete Ventres para o Demônio (*) e Possuída por Satã. Até hoje, o internacional “Coffin Joe” é mais conhecido no exterior pela fita O Estranho Mundo de Zé do Caixão do que pelos filmes de Zé do Caixão propriamente ditos.
Outros filmes realizados pela dupla Lucchetti-Mojica denunciam um estilo de narrativa episódica, próprios da lavra dum contista, especialmente Ritual dos Sádicos e Finis Hominis, longas que costuram historietas independentes em meio a um tema central. Em comparação, A Estranha Hospedaria dos Prazeres e Inferno Carnal fracassaram nas bilheterias, ao tentar indevidamente “esticar” histórias curtas até o formato longa. Somando-se a isso a produção de histórias curtas para a televisão, temos em Lucchetti o homem responsável por lapidar as ideias de Mojica, capaz de torná-las mais universalmente digeríveis.
Quanto à questão autoral, Lucchetti sustenta que, ao roteirizar os filmes de Mojica, somente, materializou conceitos próprios da mente do criador de Zé do Caixão; porém, não deixa de ser provocante, por exemplo, como o “José Mojica Marins, diretor de Cinema” – transformado em personagem do filme Exorcismo Negro (1974) – pouco se parece com o verdadeiro Mojica. No filme, ele é um artista intelectual, estudioso de Ciências Ocultas, sempre às voltas com livros acadêmicos, rico, respeitado e falando um Português impecável (devidamente dublado por uma voz mais pomposa, é claro). Não seria este o Mojica idealizado por Lucchetti, e não necessariamente o imaginado pelo próprio diretor? Aos que desejam estudar o cinema de Zé do Caixão, este é o tipo de situação que confunde ao mesmo tempo que esclarece; mas que não deve ser ignorada.
Após experimentar o horror sádico de Zé do Caixão, o roteirista destilou a fórmula do Terrir  fanfarrão de Ivan Cardoso, para quem escreveu O Segredo da Múmia, As Sete Vampiras e O Escorpião Escarlate. Nestes, pôde mostrar outras facetas de sua personalidade, em histórias ingênuas e nostálgicas, derivadas dos seriados cinematográficos das matinês dos anos 1940, ao mesmo tempo em quem dava vazão ao tom satírico do diretor – mais interessado nas chanchadas do que no terror.
A capacidade de Lucchetti se fez presente também quando precisou adaptar suas ideias às restrições orçamentárias dos diretores – e ainda assim ser capaz de narrar uma história coerente –, como no roteiro inédito de Exorcismo Negro 2, no qual teve de “matar” quase todo o elenco de estrelas da primeira parte, pois Mojica só tinha dinheiro para pagar o cachê da bruxa Malvina (Wanda Kosmo) e da menina Betinha (interpretada por Merisol Marins, filha do cineasta).



SAGA INCOMPLETA

A análise das obras inéditas escritas por Lucchetti para as telas revelam facetas que poderiam levar os filmes de Horror brasileiros a níveis até hoje inimagináveis, caso tivessem saído do papel. Vale citar: Os Sapos (1971), filme que anteciparia uma produção americana abordando o mesmo tema (invasão de batráquios) e realizada um ano depois. A saga completa de Zé do Caixão também teria novos episódios, cada vez mais ambiciosos e apocalípticos: A Encarnação do Demônio, O Lamento dos Espíritos Errantes, O Sepulcro do Diabo e Alguém Deve Morrer Esta Noite – alguns devidamente roteirizados; porém, nenhum filmado.
Rubens Francisco Lucchetti é um vencedor, um brasileiro que pôde se dar ao luxo de ser escritor num país onde a leitura é um capricho. É um autor que se tornou pioneiro num gênero considerado “menor” e que talvez jamais fique livre do ranço do preconceito. Lucchetti – em parceria com Mojica e Ivan Cardoso – levou o horror para as telas e construiu uma reputação na Sétima Arte. Da mesma maneira, em colaboração com desenhistas como Nico Rosso, Jayme Cortez, Eugênio Colonnese, Rodolfo Zalla, Sérgio M. Lima e Julio Shimamoto, tornou-se mestre noutra mídia vítima de preconceito: a História em Quadrinhos, considerada por alguns como a “Nona Arte”. Quem sabe... um dia sua obra seja reconhecida também nesta seara; afinal, como a maioria dos  gênios, R. F. Lucchetti talvez esteja muito à frente de seu tempo.



NOTA (escrita por Marco Aurélio Lucchetti):
(*) O título correto desse roteiro é Sete Mulheres para um Sádico. Sete Ventres para o Demônio é, na verdade, o título de uma história de R. F. Lucchetti – história essa escrita no começo da década de 1960 e publicada em 1974 na coleção Trevo Negro, da editora carioca Cedibra.



Este texto foi escrito em Jundiaí, em abril de 2003.



Carlos Primati é jornalista e pesquisador de Cinema (especializou-se sobretudo em filmes de Horror). Fundou a Pandemonium Editora em 2002, lançando o livro Voivode: Estudos Sobre os Vampiros, no qual aborda, num artigo, a trajetória de Rubens Francisco Lucchetti como autor de contos de Suspense e de Horror. Pesquisou a obra de José Mojica Marins para o livro Maldito – A Vida e o Cinema de José Mojica Marins, O Zé do Caixão, de André Barcinski & Ivan Finotti. Co-produziu em 2002, em parceria com Paulo W. Duarte, a Coleção Zé do Caixão em DVD.