Ano 4 - nº 14 - outubro/dezembro de 2012

PAUSA PARA O CAFÉ
Rubens Francisco Lucchetti


Acho a Andréa Beltrão uma excelente atriz. E tive a felicidade de ela trabalhar em dois filmes roteirizados por mim: As Sete Vampiras, em que interpretou Maria, a sagaz e audaciosa assistente do detetive particular Raimundo Marlou; e O Escorpião Escarlate, no qual encarnou a estilista Glória Campos.
Quando criei a personagem Glória Campos, já a imaginei interpretada pela Andréa Beltrão. Penso que não havia outra atriz capaz de interpretá-la tão bem. Glória tem o rosto, o corpo e a alma da Andréa.

Admiro o Anselmo Duarte, pois ele não se vendeu para a televisão.

Musa absoluta dos filmes de Horror produzidos na década de 1960, a inglesa Barbara Steele consegue apenas com seus grandes olhos dominar toda a tela. Não precisa, ao contrário de inúmeras outras atrizes de sua época, mostrar-se nua ou seminua, para atrair a atenção masculina. Isso porque tem consciência de que seu bonito rosto possui um enorme poder de atração. Sabe que seus olhos penetrantes podem indicar frieza ou calor, desdém ou sutil convite. Sabe também que seus lábios carnudos marcam um dos sorrisos mais belos e cínicos de toda a história do Cinema. Enfim, Barbara Steele representa o que poderíamos denominar erotismo da inteligência.

Dono de uma dicção perfeita, Basil Rathbone era um ator shakespeariano tão brilhante quanto Laurence Olivier. Infelizmente, não teve a mesma sorte de Laurence Olivier e não estrelou nenhum grande filme.

Até 1958, todos achavam que o húngaro Bela Lugosi era a mais perfeita encarnação de Drácula no Cinema. Então, a Hammer produziu O Vampiro da Noite (Dracula; direção de Terence Fisher), com um ator praticamente desconhecido, Chistopher Lee. A partir daí, sempre que se fala de Drácula, logo vem à mente a imagem alta e sedutora de Christopher Lee.

Colé era um humorista nato. Não precisava dizer coisas divertidas nem fazer caretas, para provocar o riso nas pessoas, pois seu rosto e seu modo de falar já eram engraçados por natureza.

Não é necessário aparecer em muitos filmes, para um ator ou uma atriz imortalizar-se. Uma prova disso é Renée Falconetti, uma atriz de teatro que trabalhou num único filme, A Paixão de Joana d’ Arc (La Passion de Jeanne d’Arc, 1928; direção de Carl Dreyer), e tornou-se um mito do Cinema.

Igor, o fiel criado do prof. Expedito Vitus; Silas, o misterioso porteiro da boate Transilvânia Folias; e Hop-Frog, um dos membros da quadrilha do Escorpião Escarlate. Três personagens totalmente diferentes entre si. Três personagens magistralmente interpretados por Felipe Falcão, que nunca havia trabalhado como ator.

Frank Sinatra era um ator excelente e versátil, tendo trabalhado em musicais, dramas, faroestes cômicos, filmes policiais... No entanto, raramente alguém o cita como ator, sendo lembrado quase sempre apenas como cantor.

Como disse o ator Gregory Peck, “Alfred Hitchcock conhecia o lado negro da natureza humana e, filosofando ou procurando explorar o lado melancólico da vida, fazia graça de nossos piores impulsos e talvez de seus próprios, com suas narrativas irônicas sobre traição, intriga e crime”.

Em certas manhãs de muita névoa, você terá muita dificuldade em saber se são folhas ou pássaros que despencam dos galhos das velhas árvores...

Para criar um dos personagens principais de As Sete Vampiras, o detetive particular Raimundo Marlou, inspirei-me em duas das mais famosas figuras da literatura Hard-Boiled, Sam Spade e Philip Marlowe, e em seu melhor intérprete no Cinema, Humphrey Bogart.

John Wayne era bom ator, mas desperdiçou seu talento trabalhando em westerns.

Quando assisti ao filme O Magnífico (Le Magnifique, 1973), dirigido por Phillipe de Broca e estrelado por Jean-Paul Belmondo e Jacqueline Bisset, até parecia que estava me vendo retratado na tela, porque, tal qual o personagem principal do filme, um escritor de livros de bolso de Espionagem, tenho o hábito de imaginar pessoas conhecidas como heróis ou vilões de minhas histórias.

Com a fita A Maldição do Demônio (La Maschera del Demonio, 1960), o diretor italiano Mario Bava provou que os latinos têm talento e sensibilidade para fazer filmes de Horror.

Monique Evans provou, em O Escorpião Escarlate, que modelos podem ser excelentes atrizes: sua interpretação da sádica e diabólica Madame Ming é inesquecível.

Na minha opinião, o melhor desempenho da Nicole Puzzi como atriz foi em As Sete Vampiras, ao interpretar Sílvia Rossi, a mulher do botânico atacado por uma planta carnívora. E acho que, naquele ano, 1986, ela deveria ter ganho o prêmio de Melhor Atriz em nossos festivais de Cinema. Infelizmente, nenhum júri de nossos festivais teve essa mesma opinião.

Em novembro de 2001, recebi um telefonema do jornalista Eduardo Torelli. Conversamos durante alguns minutos; e ele explicou que estava ligando a fim de convidar-me para escrever um texto para “O Filme Que Mudou Minha Vida...”, uma seção nova da revista Set Especial Terror e Ficção. Aceitei o convite e escrevi um texto sobre Sangue de Pantera (Cat People, 1942), produzido por Val Lewton. E a razão que me levou a escrever sobre Sangue de Pantera é muito simples: quando vi esse filme pela primeira vez, em 1948, percebi o quanto eram banais as fitas de Horror que havia visto até então.

De todos os filmes roteirizados por mim, um dos que eu mais gosto é O Segredo da Múmia, pois o Ivan Cardoso foi bastante fiel ao meu roteiro.

Segundo as palavras do Ivan Cardoso, no número de setembro de 1986 da revista Playboy, Suzana Mattos, a grande revelação de As Sete Vampiras, foi descoberta por acaso: “Durante três meses, minha produção quase enlouqueceu, vasculhando arquivos, agências de modelos... à procura de uma loura para estrelar As Sete Vampiras. Pelo nosso estúdio passaram diversas atrizes... Acontece que somos expertos no assunto (o experto com ‘x’ quer dizer perito em mulher), e nenhuma delas era a Clarice que eu queria no filme... Foi aí que um amigo me disse: ‘O Dedé Santana tem a mulher que você procura.’ E, faltando apenas 48 horas para se iniciarem as filmagens, conheci essa mulher fantástica que é Suzana Mattos: a estrela do filme As Sete Vampiras!

Sempre achei a Suzana Mattos uma mistura de Jean Harlow e Marilyn Monroe.

Por volta de 1977, na época em que estava no auge de sua carreira de atriz, a holandesa Sylvia Kristel, numa entrevista, disse o seguinte: “Fiquei admirada, quando fui ao Japão e vi as criancinhas falando tão bem Japonês.” Essa declaração põe um fim na crença de que a burrice é uma exclusividade das louras, já que os cabelos de Sylvia Kristel não são louros.

Numa tarde de 1979, ao visitar, em companhia de minha mulher e de meu filho, o Museu Imperial, em Petrópolis, deparei-me com um homem cujo rosto era por demais familiar para mim. Confesso que fiquei surpreso, quando o vi. Nossos olhares se encontram por uma fração de segundo, e ele deve ter percebido meu espanto. Então, sorrindo, disse em Inglês: “Sou eu mesmo.” Era o lendário Vincent Price, intérprete de inúmeros filmes de Horror. Depois, já refeito da surpresa, tentei falar alguma coisa; mas ele havia desaparecido. Passados alguns dias, tomei conhecimento, por intermédio de uma notícia de jornal, de que Vincent Price visitara incognitamente o Brasil.

Nunca suportei os filmes de Western. Às vezes, até tento assistir a algum deles na televisão, em DVD. Mas não dá. As histórias são todas iguais; as interpretações, sofríveis ou medíocres.

Em sua longa carreira no Cinema, o ator Wilson Grey trabalhou em cerca de 170 filmes. Porém, interpretou sempre papéis secundários. O Segredo da Múmia foi a única fita em que ele encarnou um personagem principal: o prof. Expedito Vitus.

Em 1986, durante o Festival de Gramado, descobri que, além de notável comediante, Zezé Macedo era uma excelente poetisa. Certa tarde, quando tomávamos um lanche no Hotel Serrano, ela escreveu em duas folhas de caderno uma poesia, “Homenagem a Gramado”, e deu-a para mim. Guardo até hoje, com muito carinho, esse poema.

 
Rubens Francisco Lucchetti é ficcionista e roteirista de Cinema e Quadrinhos