Ano 4 - nº 14 - outubro/dezembro de 2012

R. F. LUCCHETTI, O MONSTRO DE MIL CABEÇAS
Paulo W. Duarte



“Eu envelheço como (e como) a língua que eu conheço.
Às vezes, mordo minha língua pra falar.
Eu me remendo, viro a pele do avesso;
Não chegue perto, se você não quer olhar.”
Paulo Duarte




Reza a lenda que o Segundo Trabalho de Héracles, tendo morto o Leão da Neméia, foi partir em busca da Hidra, um monstro com muitas cabeças.
Alguns diziam que tinha sete... outros, cinqüenta, quem sabe dez mil cabeças!
Uma delas era imortal.
Uma delas é imortal.



Quantas cabeças você tem? Quantas cabeças você pode usar para ousar... e arriscar o seu pescoço?
Quantas cabeças você pode destruir para que nasçam de dentro delas mais cabeças e uma torrente de universos, pensamentos, emoções, sensações e encarnações (nações de carne)?



Quem tem medo de abrir a cabeça?



Lucchetti não tem.



Eu conheci a Hidra. E nem de longe a destruiria, porque, senhores...
Ela é
Rubens Francisco Lucchetti.



Uma cabeça é Urbain Laplace, outra cabeça é Curtis T. Gardner, uma delas mira bem no meio de seus olhos e se chama Marjorie Brown, uma quer seduzi-lo e se apresenta como Mary Shelby, outra quer sua destruição e atende pelo nome de Floyd Manhattan...



Cabeças, cabeças, crânios carregando explosões nucleares ambulantes prontas para se chocarem com outros planetas.



O segredo da vida. O segredo do tempo. O segredo do medo.



O fato é que o monstro sagrado de todas as cabeças quer engolir, quer fazer a sua cabeça. Você morre, mas renasce melhor.
Se você tiver coragem, vai entender que muito mais coragem tem e teve ele, anjo negro, cujas asas perdidas apenas serviram para guiar vertiginosamente seu caminho ao fundo do fundo, ao centro do tudo.



Sabe Deus os mistérios que pairam sobre a nossa existência, o que vive na sombra, na escuridão, o que espreita, o que faz seu coração pular e bater mais forte, seus sentidos se aguçarem, seus pêlos da nuca ficarem em pé...
O medo é seu companheiro, a sombra do SOMBRA, um mistério insondável.



Deus é neste lado escuro da lua... seu confidente.



Deus, esta mulher, sussurra no ouvido de Lucchetti contos secretos.
E Lucchetti, como um astronautalma ancestral-visceral, vagando no meio do caos perfeito, no infinito, entende a solidão da alma humana como o maior de todos os medos e com o maior de todos os encantos. E trabalha em silêncio.



Silêncio, outro amigo do medo, fiel ao guardar seus segredos.
É no silêncio que os maiores gritos, crimes e castigos são cometidos.



Não é seguro andar sozinho por dentro do silêncio.
Mulheres fatais, mortas ou vivas, querem seu sexo e suas entranhas, o mais íntimo do seu íntimo. Você vendo a si mesmo fora do corpo.
Silêncio.
Cigarro, fumaça, luz na calçada, chuva grossa, o traço ROSSO. Lugares perdidos, esquecidos: ruas sem nomes, becos escuros. Sorrisos sem dentes. O traço ROSSO. Silêncio. Bordéis. Líquidos inflamáveis, desespero e loucuras entorpecentes. Personagens que querem se esquecer de si mesmas. O frio do outono. Silêncio. A faca. O tiro. A corda. O grito. A noite. O eclipse. O silêncio. Calafrio, frio na espinha, corrida sem olhar para trás. Coisas que não podem ser entendidas. Silêncio.
Silêncio e leia.
Não vá se perder por aí.



A busca pela razão não se faz necessária. Não é o campo onde encontraremos vestígios de vida, mas do que um dia se projetou como sendo.
Nem é, em milhões de letras embaralhadas, a busca pelo amor, um sinalcançável.



Lucchetti é rei da mentira. Nas torres mais altas da cidade da verdade mais crua, é ladrão da verdade, saltando os muros noturnos das sombras mais bonitas.
Do ponto e do pó que suga a criatura e por ela é sugado.
Da boca que morde a língua... do sangue que escorre do canto da boca depois de um beijo forçado, arrancado pela sede de um prazer instantâneo e imaginário.
Da sede de um pedaço de vida, mesmo que abstrato, vago-fog, photo-fantasma de uma tarde impressionista. Palavra usada, palavra guardada. Palavra-fantasma que assusta ao ser lida, pronunciada.



A palavra é a cura da palavra.
A palavra é a procura da cura.
A palavra é só a procura.
A palavra é só a palavra. É só. Sem cura.
Por isso, estão todas as palavras... acompanhadas.
Elas têm medo de serem uma palavra só, separada.



A palavra muda da sombra em blanc y noir.
Noir como a palavra escrita sobre a tela branca do livro.
O cheiro de papel, pergaminho, guardado por gerações junto ao Mar Morto.
Língua morta e desenterrada. Desterrada. Levanta-te e anda, sai do caixão da memória e roga a praga.



Na escuridão do silêncio, palavra é luz.
Luz que inunda a tela e a sala.
Cinema é preto no branco.
Livro é preto no branco.
Sangue é vermelho, seja de um preto ou seja de um branco.
Sangue é vermelho mesmo aos daltônicos olhos da besta... da fera que só enxerga o preto e o branco, mas enxerga o medo vermelho estampado em seu rosto.
Cada dia é uma página.
Livros e mais livros, páginas e mais páginas, noites sem dormir, dias mal dormidos, horas mortas, papéis amassados... os dedos sujos, juntos, quebrando-se como ossos – sem ócios do ofício.
A mente onde jamais nenhum homem esteve, mas alguns poucos se cruzam (além da porta, um olho que o engole e um aceno a Richard Matheson).



No meio do caos, do deserto estelar, nenhuma sinfonia, só a noite escura e eterna, total; só o medo da morte depois da morte... o medo do céu acima do céu... o medo de talvez não haver um inferno, de não existir nada além do além.
Tempestade cerebral. Um temporal atemporal.



Tempo, tempo, tempo, tempo, tempo, cavaleiro sem rosto e sem piedade.
Com o tempo marcando insistentemente o seu passar, o seu chegar, nas paredes da casa de Lucchetti.
Milhares de relógios lembrando-lhe a hora, a sua hora.
Milhares de relógios e ponteiros apontando para o agora.
Centenas de engrenagens funcionando, impassíveis na forma.
Inevitável o peso das horas; insuportável o peso do pêndulo, o carrasco atemporal, senhor dos destinos, cuja verdade é uma só.



Em uma linha única: presente, passado, futuro.
O ponto no fim da frase, da página, do livro, da vida.
O fim da linha. Depois de todas as linhas escritas.



Corta para o interior da Biblioteca de Lucchetti.



BIBLIOTECA – INTERIOR – NOITE
Mais uma madrugada; e um homem, debruçado sobre papéis e uma máquina de escrever, corre sem medo, sob o fio da navalha, que separa a linha fina entre os sonhos mais religiosos e os pesadelos mais primitivos.

Corta para

CAVERNA PRÉ-HISTÓRICA – INTERIOR – NOITE
Já há fogo.
No interior da caverna, em um baile primitivo de luzes e sombras, um ancestral desenha figuras na parede de pedra. Alguns dormem, outros se assombram com o barulho dos animais desconhecidos rastejando no escuro, no lado de fora. O homem não teme, não pára de desenhar, cumpre sua missão, a parte que é sua.

Corta para

BIBLIOTECA – INTERIOR – NOITE
Lucchetti se entrega ao seu ofício: acorda demônios, doma a fúria de espíritos seculares.

Corta para

QUARTO DE HOMEM – INTERIOR – NOITE
Um homem dorme, a janela aberta, a cortina dança ao sabor do vento que uiva e desperta as canções de lamentos dos filhos da noite. Em sono profundo, ele viaja por dimensões inomináveis; Lucchetti encontra sua presa e entra em seu sonho, seus medos e desejos. O que o homem sonha, Lucchetti escreve. Um alheio à sorte do outro, como quem psicografa a sombra, a sobra da vítima. Ao acordar, o homem não lembra.

Corta para

BIBLIOTECA – INTERIOR – MANHÃ
Sobre a escrivaninha, junto à máquina, um calhamaço... a prova, viva-escrita em sangue e tinta, de um sonho roubado na madrugada.



Abra o livro e estará abrindo uma cabeça...
Talvez a sua, talvez a minha, talvez a de alguém que nunca se conheça.
Agradeça ao monstro, dono de todas elas.
Gratidão e reverência a R. F. Lucchetti.

 

Este texto foi escrito em São Paulo, no outono de 2003

 

Paulo W. Duarte é bacharel em Comunicação Social pela Faculdade Anhembi-Morumbi, formado em Direção e Roteiro pelo Núcleo de Cinema da Universidade de São Paulo (CINUSP) e pós-graduado em Comunicação e Mercado pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. É produtor executivo e diretor de produtos especiais da Cinemagia, que já lançou as coleções Zé do Caixão, Mazzaropi, Stanley Kubrick e Walter Hugo Khouri em DVD. Foi produtor do Núcleo Guel Arraes da TV Globo. Trabalhou na Cult Filmes, sendo responsável pelo lançamento dos filmes da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo no mercado de vídeo. Atualmente, prepara-se para ser roteirista e diretor de Cinema