Ano 4 - nº 14 - outubro/dezembro de 2012

R. F. LUCCHETTI, O LOVECRAFT DE RIBEIRÃO PRETO
Ivan Cardoso



Rubens Francisco Lucchetti, mais conhecido como R. F. Lucchetti, é um caso único dentro da cultura brasileira. É um autor cosmopolita e universal – talvez seja o mais universal dos nossos escritores – que se dedica a escrever sobre temas considerados, em nosso país , estrangeiros ou malditos. Sua vasta obra é quase toda de textos dos gêneros Policial, Suspense e Horror. Suas histórias são povoadas por detetives particulares, lobisomens, monstros, cientistas malucos, mocinhas ingênuas em constante perigo, mulheres fatais, múmias, plantas carnívoras, seres deformados e, entre outras figuras, vampiros! 
R. F. Lucchetti, também conhecido como o Lovecraft de Ribeirão Preto, é o homem das mil e uma histórias. É o homem dos mil heterônimos, pois grande parte de sua fantástica produção está assinada com pseudônimos e heterônimos (Brian Stockler, Mary Shelby, Terence Gray, Theodore Field, Vincent Lugosi, Peter  L. Brady, Mark Donahue, Frank Luke, Isadora Highsmith, Christine Gray, Helena Barton, Constance Gray, Frank King e Erich Von Zagreb são alguns desses pseudônimos e heterônimos).
Lucchetti é o único escritor brasileiro que conhece, com profundidade e propriedade, toda a mítica que envolve e compõe o rico universo classe B das surpreendentes histórias Noir e de Horror, sendo injustamente marginalizado por ter passado as suas verdades em veículos que sofrem – por parte dos nossos intelectuais “esquerdofrênicos” – preconceitos antiquíssimos. Sua instigante obra, mesmo tendo se espalhado por dezenas de fotonovelas, centenas de histórias em quadrinhos (muitas delas desenhadas pelo lendário quadrinhista italiano Nico Rosso, com quem criou  A Cripta, uma revista que inovou os quadrinhos brasileiros de Horror),  um incalculável número de livros de bolso, um sem-número de histórias publicadas nas principais revistas pulp do nosso país, diversos seriados radiofônicos, vários scripts  para a televisão e quase trinta roteiros cinematográficos, permanece ignorada pela crítica, que nunca lhe deu atenção, num autêntico crime que lesa a nossa cultura.
Mas o Lucchetti não está nem um pouco preocupado com o que os críticos pensam a respeito de sua obra. O que lhe interessa é estar em seu gabinete de trabalho, criando histórias de Detetive & Mistério ou de Horror. Outra coisa que lhe interessa é sua monumental biblioteca, onde estão reunidos quase todos os livros policiais e gibis editados no Brasil e em Portugal.
O Lucchetti é também o homem dos mil segredos, e a cada momento descobrimos coisas novas a seu respeito. Por exemplo: foi só há poucos meses que descobri que ele e Nico  Rosso realizaram o primeiro graphic novel que se tem notícia, O Filho de Satã (1). Eu descobri isso lendo a orelha do livro Os Extraordinários (2). Eu desconhecia por completo esse trabalho do Lucchetti. Porém, não o culpo por não me ter informado. Culpo nossos críticos de Quadrinhos, que só sabem falar e escrever sobre  comics made in USA.
Para concluir, volto a dizer algo que já disse e escrevi várias vezes: há poucos escritores como R. F. Lucchetti. Seus disfarces e falsidades são inumeráveis. Na capa ou no prólogo de qualquer um de seus livros, ele já apresenta uma mistificação; e o público lê um nome que, na verdade, não existe... ou melhor, existe apenas na imaginação do seu criador. Isso porque Lucchetti só se sente bem no pseudônimo, na informação falsa.



NOTAS (escritas por Marco Aurélio Lucchetti):

(1) O Filho de Satã foi lançado em 1970, isto é, oito anos antes da publicação daquele que é considerado o primeiro graphic novel: Um Contrato com Deus (A Contract with God, no original), de Will Eisner.

(2) Nesse livro, publicado pela Opera Graphica Editora na primavera de 2003, R. F. Lucchetti reuniu e recontou alguns clássicos da chamada literatura  de entretenimento: Drácula, de Bram Stoker; As Minas do Rei Salomão, de H. Rider Haggard; Vinte Mil Léguas Submarinas, de Jules Verne; O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson; “Os Assassínios da Rua Morgue”, de Edgar Allan Poe; e “O Problema Final”, de sir Arthur Conan Doyle.



Este texto foi escrito no Rio de Janeiro, em janeiro de 2004.



Ivan Cardoso é cineasta. Dirigiu os filmes Nosferato no Brasil, Sentença de Deus, O Universo de Mojica Marins, Dr. Dyonélio, HO e O Escorpião Escarlate,  entre outros. Organizou o livro Ivampirismo: O Cinema em Pânico, no qual foram publicados os roteiros de dois de seus principais longas-metragens, O Segredo da Múmia e As Sete Vampiras. Tirou, desde os primeiros anos da década de 1970, mais de 45 mil fotos de pessoas (brasileiras e estrangeiras) ligadas ao Cinema; e algumas dessas fotos foram reunidas no livro De Godard a Zé do Caixão, editado em 2002 pela Fundação Nacional de Arte ( FUNARTE).