Ano 4 - nº 14 - outubro/dezembro de 2012

O ESCORPIÃO ESCARLATE – O FILME
Ivan Cardoso



Em 1987, durante o Festival de Cannes, recebi um convite do diretor de operações da Embrafilme, Ivan Ísola, para apresentar um projeto no concurso de roteiros que a empresa iria realizar.
Assim que voltei ao Brasil, comecei a desenvolver esseo projeto. Como Rubens Lucchetti mora em Ribeirão Preto, trabalhamos muito pelo telefone... e ainda não tínhamos decidido qual seria a nossa próxima fita. Até que uma noite,  Rubens me falou de um título, O Escorpião Escarlate, que me deixou maluco. Em seguida, a partir desse título, criamos um argumento em homenagem ao velhos seriados cinematográficos, que ainda pude assistir no programa do Capitão Furacão.
Quando recebi o argumento, o herói da história se chamava O Morcego, em homenagem ao Batman, de Bob Kane; mas não gostei. Achei que era bicho demais – Morcego & Escorpião – e lembrei-me do lendário Anjo, de cujas aventuras fui radiouvinte durante anos.
Foi uma luta fazer o Lucchetti abandonar  O Morcego; ele ficou uma onça... chegando a me escrever uma carta, indignado. O próximo passo foi comprar de Álvaro Aguiar os direitos autorais do Anjo.
 O Escorpião Escarlate, uma “aventura do Anjo”, conta a história de uma radiouvinte, a estilista Glória Campos, que, de tanto ouvir o seriado, termina misturando a fantasia com a realidade.
A Andréa Beltrão está maravilhosa, interpretando o papel de Glória Campos.
A Suzana Mattos, cresceu muito e arrasa no papel de Rita Mara, uma radioatriz.
A Monique Evans foi uma grande surpresa, porque é uma atriz de talento enorme e está inesquecível como a sádica Madame Ming.
Entre os homens, cabe destacar o desempenho de Cláudio Mamberti, Nuno Leal Maia, Hélio Ary, Bené Nunes, Wilson Grey e Colé.
Felipe Falcão está sensacional como Hop-Frog. Também sensacionais estão a Josi Campos, a estonteante Isadora Ribeiro e o “nojento” Tião Macalé.
O filme ainda tem as participações especiais de Ivon Curi, Ankito, Consuelo Leandro e Zezé Macedo.
O grande problema na formação do elenco foi a escolha do intérprete do Anjo. Faltavam uns dois meses para se iniciarem as filmagens, e ainda não havíamos encontrado um ator para interpretar o personagem. Foi o próprio Álvaro Aguiar quem sugeriu que Herson Capri daria um ótimo Anjo nas telas.
E o Herson nos provou ser um Anjo perfeito. Ele se dedicou de corpo e alma ao filme, aprendendo a lutar com um grande diretor de brigas, o italiano Giancarlo Bastione, que criou brigas iguaizinhas às dos antigos seriados.
O Escorpião Escarlate, uma brincadeira misturando a fantasia com a realidade, é, antes de tudo, um voto de fé na capacidade e na resistência do brasileiro em fazer Cinema.
Só lamento o Álvaro Aguiar não ter visto O Escorpião Escarlate pronto (infelizmente, ele faleceu um mês antes do início das filmagens), já que é o grande homenageado do filme.



Este texto foi escrito no Rio de Janeiro, em abril de 1993.



Ivan Cardoso é cineasta. Dirigiu os filmes Nosferato no Brasil, Sentença de Deus, O Universo de Mojica Marins, Dr. Dyonélio, HO e O Escorpião Escarlate, entre outros. Organizou  o livro Ivampirismo: O Cinema em Pânico, no qual foram publicados os roteiros de dois de seus principais longas-metragens, O Segredo da Múmia e As Sete Vampiras. Tirou, desde os primeiros anos da década de 1970, mais de 45 mil fotos de pessoas (brasileiras e estrangeiras) ligadas ao Cinema; e algumas dessas fotos foram reunidas no livro De Godard a Zé do Caixão, editado em 2002 pela Fundação Nacional de Arte (FUNARTE).