Ano 4 - nº 14 - outubro/dezembro de 2012

O ESCORPIÃO ESCARLATE – O ROTEIRO ORIGINAL
Rubens Francisco Lucchetti



Este roteiro homenageia os antigos seriados radiofônicos e todos os personagens mascarados da ficção; e é dedicado ao escritor Walter Brown Gibson (in memoriam), que, usando o pseudônimo de Maxwell Grant, criou as mais espantosas aventuras d’O Sombra.



SEQUÊNCIA 1 – ESTÚDIO DE MODA – INTERIOR – DIA
Glória dá os últimos retoques num modelo de vestido que acaba de desenhar. Paula aproxima-se, estica o pescoço sobre o ombro de Glória e aprova com entusiasmo.
PAULA – Que lindo!
Glória apanha a folha de papel e afasta-a, para que possa ver melhor o desenho.
GLÓRIA – Você acha?
PAULA – Como tudo que você faz. Às vezes, acho que está perdendo seu tempo. Devia ser mais ambiciosa e procurar um grande costureiro, que valorizasse seu trabalho. Aqui, jamais terá seu talento reconhecido.
Glória está absorvida em retocar o desenho.
PAULA – Está ouvindo o que estou dizendo, Glória?
GLÓRIA – Não é a primeira vez que me diz isso.
PAULA – E garanto que não vai ser a última. Você não se valoriza. (pausa) E o Leo, como vai?
Glória, absorvida no seu trabalho, dá respostas maquinais.
GLÓRIA – Acho que bem.
PAULA – Como “acho que bem”?
Glória dá de ombros.
GLÓRIA – É. Eu acho que ele vai bem. Pelo menos na última vez que o vi, pareceu-me bem.
PAULA – Você gosta dele, não gosta?
Glória, com o lápis atravessado na boca, torna a levar o desenho alguns centímetros à frente, para ver seu efeito. Fala, mastigando as palavras.
GLÓRIA – Leo é um bom rapaz.
Paula olha para o desenho. Glória tira o lápis da boca, coloca-o sobre a mesa e gira o corpo na direção da amiga.
GLÓRIA – E você, Paula? Está saindo com alguém?
PAULA (dando de ombros) – Eu nunca tive dificuldade em arranjar alguém. Você sabe disso.

SEQUÊNCIA 2 – ESCRITÓRIO DO DIRETOR DA RÁDIO – INTERIOR – DIA
Sentada na lateral da escrivaninha, Rita Mara tira longas baforadas do cigarro, enquanto Alfredo fala ao telefone. Toda a postura da mulher é estudada, o que lhe confere uma falsa personalidade. Alfredo termina de falar, coloca o fone no gancho, contorna a escrivaninha e passa a mão nos cabelos e no busto de Rita.
ALFREDO – Como está o meu bombonzinho, hoje?
RITA – Mais gostoso do que nunca.
As carícias de Alfredo tornam-se mais ousadas. Excitada pelas carícias, Rita ronrona e retorce-se toda.
ALFREDO – Então, vamos desembrulhá-lo.
Alfredo abre um dos botões da blusa de Rita.
RITA – Por que não deixa toda essa impulsividade para a noite, querido?
Batem à porta, e ouve-se a voz do contrarregra.
CONTRARREGRA (off) – Dona Rita... Seriado dentro de cinco minutos.
Rita desce da escrivaninha; e sua saia sobe acima das coxas, exibindo suas bonitas pernas e a liga prendendo a meia. Alfredo toma-a nos braços. Rita procura libertar-se delicadamente das mãos do homem.
RITA – Assim, você vai amassar minha roupa, querido.
ALFREDO – Que posso fazer, se você me deixa louco?!
Abotoando a blusa, Rita esmaga o cigarro no cinzeiro. Vai até uma mesinha e despeja água mineral num copo.
RITA – Aquela bacalhoada só serviu para me dar sede.
Rita bebe e volta-se para Alfredo, que está olhando pela janela panorâmica atrás da sua escrivaninha. Rita caminha até Alfredo.
RITA – Hummm... Que há de tão interessante lá embaixo?
Alfredo vira-se para ela, vai abraçá-la; mas Rita dá um passo para trás.
ALFREDO – Só gente correndo. Parecem formigas atrás de comida. O interessante mesmo está aqui, bem diante de mim.
Rita faz uma careta de quem está zangada.
RITA – Estou muito chateada também.
ALFREDO – E por que o meu bombonzinho está chateado?
Rita faz beicinho.
RITA – Estou chateadíssima com o autor do seriado.
ALFREDO – Com o Hélio? Que foi que ele lhe fez?
Rita faz charminho.
RITA – É a minha personagem. A Maggie. É uma personagem assim pequenininha. (faz com os dedos indicador e polegar gesto característico) Você poderia falar para ele dar uma aumentadinha no meu papel.
ALFREDO – Eu vou falar com o Hélio hoje mesmo.
Rita faz bico com os lábios. Alfredo aproxima-se e beija-os de leve. Batem à porta novamente, e ouve-se a voz do contrarregra.
CONTRARREGRA (off) – Dona Rita... Seriado dentro de dois minutos.

SEQUÊNCIA 3 – ESTÚDIO DE LOCUÇÃO DA RÁDIO – INTERIOR – DIA
Disc jockey de grande carisma apresenta o programa, sentado junto à mesa sobre a qual está um microfone. Na parte lateral do estúdio, um vidro panorâmico, através do qual se vê a técnica. Há um outro vidro panorâmico mostrando o estúdio de radioteatro. O disc jockey fala afetado e com eloquência.
TÉCNICA – ACORDE MUSICAL
DISC JOCKEY – E, neste esplêndido fim de tarde, quando a vida canta em cada pássaro que se recolhe ao seu ninho, chegamos ao final de mais um Encontro de Brotos. Mas não fiquem tristes. Amanhã, estaremos de volta. Um beijão na ponta do nariz de todos os “brotos” que nos acompanharam em mais esta jornada. Vocês moram no meu coração. Tchau-tchau.
TÉCNICA – GONGO DE PREFIXO
Disc jockey muda totalmente seu modo de ser. Locutor entra e toma assento diante do microfone.
DISC JOCKEY – Passo-lhe o bastão da sauna.
O locutor apenas olha para o disc jockey e faz um aceno.
LOCUTOR – PRA-7, “Rádio Mundo”, uma emissora das “Organizações Alfredo Máximo”, transmitindo em ondas longas e curtas, diretamente dos seus estúdios na Praça Mauá, bem no coração da Cidade Maravilhosa.
TÉCNICA – CORTINA MUSICAL
OBSERVAÇÃO: A cortina musical pode ser apenas algumas notas em arranjo de “Cidade Maravilhosa”.

SEQUÊNCIA 4 – SALA DO APARTAMENTO DE GLÓRIA – INTERIOR – NOITE
Glória, com a bolsa a tiracolo, abre a porta de entrada, entra e fecha a porta. A sala está iluminada por um abajur de pedestal a um canto. Ao entrar, Glória grita, olhando para a porta da cozinha.
GLÓRIA (gritando) – Mãe!... Cheguei!
De passagem para o quarto, Glória liga o rádio. Ela retorna do quarto sem a bolsa e descalça. Sua mãe entra, trazendo uma xícara de café.
MÃE – Acabei de coá-lo.
O rádio dá algumas estáticas, até que se ouve a voz do locutor.
LOCUTOR (off) – E, agora, passamos a transmitir diretamente dos nossos estúdios de radioteatro.
TÉCNICA – “UMA NOITE NO MONTE CALVO”, DE MUSSOURGSKY
Glória ajeita-se no sofá, ao lado do aparelho de rádio, e fica mexendo os dedos dos pés. Ela bebe um pouco do café que a mãe lhe trouxe.
MÃE – Seu pai tirou as passagens para o trem das nove horas.
GLÓRIA – Bom horário. Vai dar tempo de jantarmos sossegados.

SEQUÊNCIA 5 – ESTÚDIO DE RADIOTEATRO – INTERIOR – NOITE
Os atores (cinco ao todo: RITA MARA, HÉLIO MONTEIRO FILHO e mais três homens, cujos tipos físicos não devem corresponder com os personagens aos quais emprestam suas vozes) estão postados diante de microfones de pedestal, com os scripts nas mãos e olhando atentamente para o diretor, que também segura um script e observa o sonoplasta e o locutor, que estão no “aquário”. Mais afastado, junto à mesa de ruídos, o contrarregra examina atentamente seu script.
TÉCNICA – DEPOIS DE RODAR UM TRECHO DE “UMA NOITE NO MONTE CALVO”, DEIXA EM BACKGROUND (BG)
O sonoplasta faz sinal convencional ao locutor.
LOCUTOR – Num oferecimento das lâminas “Blue King”, vai ao ar mais um capítulo do eletrizante seriado de Hélio Monteiro Filho: O Escorpião Escarlate.
TÉCNICA – ELEVA E FUNDE O BG COM TEMA DE PUBLICIDADE
O sonoplasta faz novo sinal ao locutor.
LOCUTOR – A facilidade no barbear não depende somente da habilidade, mas da lâmina que se usa. Um barbeado rápido só se consegue com as legítimas lâminas “Blue King”.
TÉCNICA – CORTA TEMA DE PUBLICIDADE. VOLTA “UMA NOITE NO MONTE CALVO”, QUE DEPOIS FICA EM BG
O diretor aponta para Hélio, que empresta a voz para O Morcego.
Hélio fala no interior de um copo, para que a voz se torne cavernosa.

O MORCEGO (gargalhada sibilante) – EU SOU O MORCEGO!
Venho da escuridão e para a escuridão irei.
Ninguém sabe para onde, nem como irei.
Onde quer que haja crime, aí estou para agir como polícia e tribunal. Onde quer que haja coisas estranhas, aí estou para tornar claro o escuro. Ninguém sabe quem sou ou o que sou, mas todos sabem o que faço. Todos os que praticam o mal me temem, porque... EU SOU O MORCEGO! (gargalhada sibilante)
TÉCNICA – OS ÚLTIMOS ACORDES DA GARGALHADA DEVEM SER PROLONGADOS PELA CÂMARA DE ECO. SUBIR O TEMA MUSICAL AOS POUCOS, ATÉ ENCOBRIR A RISADA. O TEMA MUSICAL DEVE ENTÃO RETORNAR (NUMA PASSAGEM MAIS SUAVE) A BG
O diretor faz sinal ao narrador.
NARRADOR – O Morcego... misterioso personagem que auxilia as forças da lei e da ordem, é, na realidade, o jovem milionário Monte Grant. Mas sua identidade é desconhecida por todos, exceto a linda Maggie Raines, destemida repórter do Herald e namorada de Monte Grant. O comissário Watson é amigo íntimo de Grant, mas ignora que ele seja O Morcego.
TÉCNICA – ELEVA O BG E CORTA
Sonoplasta faz sinal ao narrador.
NARRADOR – Conforme “vimos” nos capítulos anteriores, Barclay morreu num misterioso acidente de avião. Lysand e Keever foram encontrados mortos dias depois. Um estranho elo une as três mortes: cada um dos homens tinha recebido um envelope amarelo contendo o desenho de um escorpião vermelho. E um cartão idêntico foi encontrado junto aos cadáveres.

SEQUÊNCIA 6 – SACRISTIA – INTERIOR – NOITE
Padre ouve atentamente o rádio.
Entra o sacristão.

SACRISTÃO – Seu padre...
O padre aponta para o rádio e pede silêncio.
PADRE – Psss...
SACRISTÃO – Mas é uma extrema-unção, seu padre!!!
PADRE – Fale para o moribundo aguentar só mais uns minutinhos!!!

SEQUÊNCIA 7 – ESTÚDIO DE RADIOTEATRO – INTERIOR – NOITE
A postura dos atores é a mesma da SEQÜÊNCIA 5.
Hélio Monteiro Filho, além de emprestar sua voz a O Morcego, empresta-a também ao personagem Monte Grant.
Daqui por diante os atores lêem o
script.
MONTE – Olá, Watson. Estive na chefatura e informaram que você estava aqui no bar.
GARÇOM – Que vai querer, sr. Grant?
MONTE – Um uísque. E você, Watson?
WATSON – Outra soda.
MONTE – Faz bem. Faz muito bem. Na sua idade, é prudente.
WATSON – Não me venha com suas estúpidas graçolas.
MONTE – Você está mesmo de mau humor, Watson. E isso envelhece a pessoa mais do que os anos.
CONTRARREGRA – RUÍDOS DE UMA GARRAFA SENDO ABERTA E LÍQUIDO SENDO DESPEJADO NUM COPO
GARÇOM (simultaneamente aos ruídos) – Sua soda, sr. Watson; e seu uísque, sr. Grant.
MONTE – Obrigado. (som de beber) Que aconteceu? É algo relacionado com a Maggie?
WATSON – Para o inferno a Maggie, o Escorpião Escarlate, a imprensa e todos os repórteres do mundo...!
MONTE – Você está mesmo irritado, Watson.
WATSON – E com razão! Sabe que o Chefe de Polícia mandou me chamar?
MONTE – Era a respeito da Maggie?...
WATSON – Claro! Mostrou-me as reportagens dessa maluca e perguntou-me se o que dizia ali era verdade... Eu não pude desmentir, pois eu mesmo dissera a ele que tomaria providências. Também não podia dizer que era verdade, porque não sei se o é...
MONTE – Que “sinuca”, hem, Watson? Então, que você disse?
WATSON – E que eu tinha para dizer? Falei que estava tomando providências e que mandara fazer investigações.
MONTE – E as providências estão dando resultados?
WATSON (desanimado) – Nenhuma, nenhuma, nenhuma! Para mim, essa sua amiga leu muito histórias em quadrinhos. Ficou com o miolo mole.
MONTE – Acredito que Maggie fantasiou um pouco. Mas ela não inventou nada: o Escorpião Escarlate é “o Napoleão do crime”.
WATSON – Um maluco. Um psicopata. É isso que ele é!
MONTE – Se fosse um maluco, não agiria com tanta determinação. Ele não age sozinho, tem uma organização.
WATSON – Você também?! Deixe as teorias para a polícia, Monte!
TÉCNICA – PASSAGEM MUSICAL
Rita Mara empresta sua voz à personagem Maggie.
MAGGIE (consigo mesma) – Todo o pessoal da redação já se foi. De qualquer forma, eu não queria perder a oportunidade de escrever mais um artigo contra os crimes do Escorpião Escarlate. Embora Monte seja totalmente contra, achando que estou correndo sério perigo...
STEVE (fala em segundo plano) – Ei, Maggie! Só está faltando a sua matéria, para que eu possa fechar a edição.
MAGGIE (um tom mais alto) – Estou terminando, Steve. Dentro de dois minutos, eu levo à sua sala. Vai tomando um cafezinho, enquanto isso.
STEVE (fala em segundo plano)O.k., garota.
CONTRARREGRA – BATIDAS EM MÁQUINA DE ESCREVER, ACOMPANHANDO AS PALAVRAS DE MAGGIE
MAGGIE (fala, enquanto escreve) – Um assassino astucioso, que vai muito além do delinquente comum, porque é um assassino científico, anda solto pelas ruas da cidade. Sua ousadia chega a estarrecer: ele avisa suas vítimas com antecedência, por meio do já terrorífico signo do Escorpião Escarlate. Só confiamos na astúcia de O Morcego, uma vez que a polícia vem mostrando uma inépcia total. (solta um longo suspiro) Agora é só assinar.
CONTRARREGRA – RUÍDO DE TIRAR PAPEL DA MÁQUINA DE ESCREVER
O diretor faz um sinal ao sonoplasta.
TÉCNICA – CORTINA MUSICAL
MAGGIE – Aqui está a matéria, Steve.
CONTRARREGRA – RUÍDO DE PAPÉIS
STEVE (após um breve silêncio) – Um artigo bem contundente, que vai deixar o comissário Watson bufando como um touro bravo. É também um artigo bastante perigoso. Você não tem medo, Maggie?

SEQUÊNCIA 8 – SALA DO APARTAMENTO DE GLÓRIA – INTERIOR – NOITE
Glória, reclinada no sofá, ouve o rádio. Ela termina de tomar o café e coloca a xícara vazia sobre uma mesinha ao lado do sofá. A câmera inicia um TRAVELLING DE AVANÇO muito lento em direção de Glória.
MAGGIE (off) – A função do jornalista é denunciar. É uma profissão perigosa por natureza. Quem a abraça não pode se deter diante de nada.
STEVE (off) – Muito bem, garota. Então, vamos mandar para o linotipista. Suas matérias são bem escritas, não necessitam de copidesque.
Glória continua na mesma posição, absorvida pelo que ouve. A câmera enquadra seu rosto em PRIMEIRÍSSIMO PLANO.
FUSÃO

SEQUÊNCIA 9 – REDAÇÃO DO JORNAL – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
A redação está em penumbra. Poucas luzes acesas (uma delas, bem forte, está sobre a mesa de Maggie).
Maggie e Steve (ele tem várias laudas na mão) estão saindo de uma sala com porta envidraçada. No vidro da porta, estão gravadas as palavras:
“STEVE FISHER – DIRETOR DE REDAÇÃO”.
STEVE – Quer esperar uns minutos? Eu lhe dou uma carona.
MAGGIE – Obrigada, Steve. Estou cansada e morrendo de sono. Eu pego um táxi.
STEVE (amuado) – Você está sempre arrumando uma desculpa “para me chutar a escanteio”.
Maggie olha para Steve com ternura. Aproxima-se dele. Acaricia-lhe o rosto com barba de um dia.
MAGGIE – Você é um bom colega e, antes de tudo, um bom amigo, Steve. Não vamos estragar esse relacionamento com algo que não iria dar certo.
Maggie beija-lhe carinhosamente a face e afasta-se em direção à sua mesa. Steve fica observando-a por algum tempo; depois, caminha para a porta que leva à oficina.

SEQUÊNCIA 10 – ESCONDERIJO DO ESCORPIÃO ESCARLATE – INTERIOR – NOITE
Postado diante de uma janela, o Escorpião Escarlate observa, com uma potente luneta, a janela do prédio do jornal.
OBSERVAÇÃO: O Escorpião Escarlate é uma figura sinistra. Veste-se com uma túnica negra que o cobre até os pés, e um capuz esconde inteiramente seu rosto. Os olhos, de um brilho maligno e penetrante, são vistos pelos únicos orifícios do capuz. No peito, o desenho de um escorpião vermelho.

SEQUÊNCIA 11 – REDAÇÃO DO JORNAL – INTERIOR – NOITE
Cena entrevista através da luneta.
Maggie (encarnada por Glória) está arrumando alguns papéis.


SEQUÊNCIA 12 – REDAÇÃO DO JORNAL – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
Maggie termina de guardar os papéis numa gaveta e apanha a bolsa pendurada no espaldar da cadeira. Maggie já está indo embora, quando o telefone toca. A moça pára e atende ao telefone.
MAGGIEAlô.
Pelo telefone vem o som de um sopro e uma voz cavernosa.
ESCORPIÃO  (off) – Maggie Raines?...
MAGGIE – Sim... Mas quem fala?
ESCORPIÃO (off) – Sua imprudência é espantosa. Ou você é muito corajosa, ou uma louca. Não se meta mais nos meus assuntos. Sua saúde corre perigo. O Escorpião Escarlate não dá uma segunda chance.
MAGGIE – Alô... Alô...
Ruído de linha cortada.
Maggie fica alguns segundos olhando para o fone em sua mão; depois, deposita-o no gancho.
GRANDE PLANO do rosto de Maggie denotando medo.

MAGGIE – O Escorpião Escarlate! Como ele podia saber que eu ainda estava na redação...? (fala, em seguida, com determinação) Mas, se ele pensa que ameaças me amedrontam, está enganado. Abracei esta causa e, agora, vou até o  fim... Seja o que Deus quiser!

SEQUÊNCIA 13 – APARTAMENTO DE HÉLIO – INTERIOR – NOITE
CENA DE SONHO
Hélio, de fraque e batuta em punho, rege o “Bolero”, de Ravel. Ele deve ser focalizado de modo que se veja apenas o fundo neutro da parede, dando idéia de que está realmente regendo uma orquestra. De repente, o disco range e fica repetindo o mesmo trecho. Hélio desliga a vitrola, joga a batuta num canto e dirige-se para onde se encontra o seu cão Brutus.
HÉLIO – Então, gostou?
Alguém aplaude. Hélio volta-se e vê Rita Mara. Ela está usando um exuberante vestido longo de cetim preto, que lhe modela o corpo curvilíneo. O busto é também realçado pelo tomara-que-caia, deixando seu colo inteiramente nu. Hélio caminha, deslumbrado, ao encontro da mulher. Ela começa a tirar as longas luvas pretas que lhe chegam à altura do cotovelo.
HÉLIO – Você estava aí, minha querida?
Rita termina de tirar as luvas e, numa atitude impulsiva, toma Hélio nos braços.
CORTE
A mesa está posta, com duas velas acesas. Toda a atmosfera deve ser de encanto e sonho. Hélio e Rita dançam ao som de música romântica. A música termina. Hélio conduz Rita até uma das cadeiras junto à mesa. Ela senta-se; e ele encaminha-se para outra cadeira, enquanto se inicia outra música de enlevo. Hélio despeja champanha numa taça e entrega a taça para Rita. Hélio e Rita fazem um brinde.
RITA – Tim-tim.
HÉLIO – Tim-tim.
Bebem.
HÉLIO – Um jantar muito especial exige também um ambiente especial, e isso só a música pode criar.
RITA – Você é tão romântico, Hélio. Não compreendo como pode criar essas histórias horríveis!
HÉLIO – Tudo não passa de um jogo, um brinquedo em que o espírito se entretém com imagens e sentimentos desinteressados.
Rita olha-o admirada, como quem não está entendendo nada.
RITA – Não sei se entendo o que quer dizer.
HÉLIO – E nem eu. Ouvi isso num filme e achei muito profundo e filosófico.
RITA – Para mim, é o presente que importa. Vivo o mais intensamente possível o presente.
HÉLIO – Você é existencialista. O existencialismo é um estilo de vida criado pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre.
RITA – E o presente é este momento... e neste momento estou morrendo de fome.
HÉLIO – Ah, desculpe. Mamãe costuma dizer que eu “falo pelos cotovelos”... (acha graça e ri) Como se alguém fosse capaz de falar pelos cotovelos. Não sei porque dizem essas coisas.
RITA – Então, por que não comemos?

SEQUÊNCIA 14 – ESCONDERIJO DO ESCORPIÃO ESCARLATE – INTERIOR – DIA
O nicho encrustrado na parede de pedra faz as vezes de um palco, no centro do qual, sentado num trono carmesim, o Escorpião Escarlate lê um jornal.
Madame Ming e mais três asseclas mantêm-se impassíveis, aguardando as ordens do chefe encapuzado. Os asseclas usam terno e chapéu. Madame Ming tem feições orientais e veste um vestido justo e lustroso, com uma abertura numa das laterais. O vestido escuro e o preto dos cabelos realçam a brancura da tez da mulher, tornando-a uma visão sensual. Com seus longos dedos, Madame Ming acaricia um gato preto junto ao colo.

ESCORPIÃO – Então, minha advertência de nada adiantou? Eu avisei essa repórter de que o Escorpião Escarlate nunca dá uma segunda chance.
O Escorpião dobra cuidadosamente o jornal. Ergue-se e desce lentamente três degraus de pedra. Depois, aproxima-se de Madame Ming e estende-lhe o jornal. A mulher se curva respeitosamente e apanha o jornal.
ESCORPIÃO – Arquive. Será uma agradável lembrança de alguém que ousou me desafiar.
Madame Ming afasta-se silenciosamente, como se deslizasse sobre o chão de pedra. O Escorpião dirige-se aos três homens.
ESCORPIÃO – De um certo modo, admiro a ousadia dessa repórter.
CORTE
Para Madame Ming, atrás de uma coluna, ouvindo o Escorpião.
ESCORPIÃO – Ela faria uma carreira brilhante, se não estivesse do lado errado. Infelizmente, está. Já sabem o que devem fazer.
Os asseclas do Escorpião se dirigem para a porta em forma de arco, sobre a qual está desenhado um escorpião vermelho. Madame Ming sorri diabolicamente.
MING – Madame Ming saberá o que fazer, quando essa repórter lhe cair nas mãos. Não é, Satã?
O gato solta um longo miado, enquanto os longos dedos de longas unhas vermelhas da mulher o acariciam.

SEQUÊNCIA 15 – BECO DO ESCONDERIJO DO ESCORPIÃO ESCARLATE – EXTERIOR – DIA
CÂMERA ALTA – TOMADA OBLÍQUA
Embora seja dia, o beco é sombrio, com uma aparência úmida e tétrica. Os três asseclas (de terno e chapéu) do Escorpião entram num carro preto que parte logo em seguida.

SEQUÊNCIA 16 – SALA DO COMISSÁRIO WATSON – INTERIOR – DIA
PLANO DE DETALHE de um punho fechado esmurrando jornal aberto sobre a mesa. O jornal tem  a seguinte manchete:

O ESCORPIÃO ESCARLATE CONTINUA AGINDO IMPUNEMENTE
Texto de: Maggie Raines


WATSON (off) – Essa mulher quer ver a minha caveira!
ZOOM DE RECUO (enquanto Watson começa a falar) até PLANO GERAL.
WATSON – Mas juro por todos os demônios do inferno que verei a dela primeiro!
Um guarda abre a porta e entra.
GUARDA – Comissário Watson, o Chefe de Polícia quer vê-lo imediatamente!
Watson olha, com expressão de choro, para a câmera.
WATSON – Eu mato aquela desgraçada! Ah, se mato!

SEQUÊNCIA 17 – PLANO GERAL DE NOVA YORK – EXTERIOR – DIA
Câmera dando uma PANORÂMICA sobre a cidade de Nova York.
NARRADOR (off) – Um fato estranho tem por cenário um lugar qualquer de Nova York...
ZOOM para um ponto qualquer da cidade.
FUSÃO

SEQUÊNCIA 18 – SANTUÁRIO DE O MORCEGO – INTERIOR – DIA
Escuridão total.
O MORCEGO – (gargalhada sibilante, prolongada, até terminar)
SILÊNCIO
A escuridão é substituída por uma luz azulada, que aparece no centro de um quarto de paredes negras. Um esplendor quase sobrenatural cai sobre a polida superfície de uma mesa situada sob o círculo de luz de uma lâmpada azul.
NARRADOR (off) – Esse acontecimento extraordinário só podia ocorrer num lugar: o santuário de O Morcego. Das sombras, fracamente iluminadas por reflexos azulados, surge uma figura negra de chapelão. Duas mãos aparecem sob o esplendor azulado. Mãos longas e de dedos pontiagudos, que combinam delicadeza com agilidade. No indicador da mão esquerda, uma grande pedra de tom avermelhado e forma oval emite estranhos reflexos que cortam o azul. As mãos brancas exibem o jornal com a manchete sobre o Escorpião.
O MORCEGO – (gargalhada sibilante, prolongada através de câmara de eco)
Acompanhada pela gargalhada de O Morcego, a luz azulada se esvanece aos poucos, até a escuridão total.

SILÊNCIO

SEQUÊNCIA 19 – SALA DO APARTAMENTO DE GLÓRIA – INTERIOR – NOITE
Glória está na mesma posição no sofá, ouvindo rádio. Levanta-se e apanha a xícara de sobre a mesinha. Vêm do rádio os acordes de encerramento do seriado.
LOCUTOR (off) – Assim, foi ao ar mais um capítulo do eletrizante seriado O Escorpião Escarlate, de Hélio Monteiro Filho, num oferecimento das lâminas “Blue King”.

SEQUÊNCIA 20 – COZINHA DO APARTAMENTO DE GLÓRIA – INTERIOR – NOITE
Glória e o pai estão sentados à mesa, enquanto a mãe serve o jantar. Do rádio, na sala, vem o som de uma ária de ópera, cantada por Guido Falconi.
PAI – Isso sim que é música, não essas baboseiras apresentadas na tal Parada Musical.
GLÓRIA – Por que baboseiras? Tem de existir músicas para todos os gostos.
PAI (com deboche) – Tem de existir inclusive novelas?
A mãe senta-se à mesa e serve-se de comida.
GLÓRIA (arrogante) – Sim, tem...
MÃE – Tratem de comer. O trem não espera ninguém.
PAI – Sua mãe não nega que é mineira. É dessas que chega à estação de madrugada...
GLÓRIA – ...dorme e perde o trem. Ô pai, o senhor não tem nenhuma comparação mais original?
O pai não está prestando atenção ao que Glória fala e, usando o garfo como se fosse uma batuta, acompanha os acordes do canto.

SEQUÊNCIA 21 – RECANTO DE SALA – INTERIOR – NOITE
A voz de Guido Falconi (ele canta a ária “La Donna È Mobile”, da ópera Rigoletto, de Giuseppe Verdi) sai de um rádio sobre um móvel. Entra em CAMPO uma mão que desliga o rádio.

SEQUÊNCIA 22 – COPA – INTERIOR – NOITE
Um casal e duas crianças jantam. Sobre um móvel, o rádio ligado no programa de Guido Falconi.
HOMEM – Mariazianha, desliga o rádio, antes que a gente acabe tendo uma congestão.

SEQUÊNCIA 23 – PORTARIA DO PRÉDIO DE GLÓRIA – INTERIOR – NOITE
Sobre a mesa da portaria um rádio transistor, que está ligado no programa de Guido Falconi. Macário entra ofegante e vai direto para o rádio.
MACÁRIO – Pra mim, esse cara tá com dor de barriga e não sabe onde é a privada!
Enquanto fala, Macário muda de estação e sintoniza uma que está tocando um samba. Depois, apanha a vassoura, abraça-a e começa a dançar.

SEQUÊNCIA 24 – ESTÚDIO DA RÁDIO – INTERIOR – NOITE
Guido Falconi canta a ária “La Donna È Mobile”.
TRUCAGEM

Guido Falconi canta no centro, com vários receptores de rádio girando em torno dele. Um a um, os rádios vão sendo desligados e desaparecendo. No final, Guido Falconi está cantando sozinho.

SEQUÊNCIA 25 – ESTÚDIO DE LOCUÇÃO DA RÁDIO – INTERIOR – NOITE
TÉCNICA – “LA TRAVIATA”, DE VERDI, EM BG
LOCUTOR – Tivemos na insuperável interpretação do “Grande” Falconi a ária “La Donna È Mobile”, da ópera Rigoletto, de Giuseppe Verdi. (pausa) Assim, chegamos ao final de mais esta audição do Jantar Musicado, que é para pessoas de bom gosto como você.
TÉCNICA – ELEVA O BG E CORTA
LOCUTOR – E nossa emissora passa a integrar a rede de radiodifusão, para a apresentação da Hora do Brasil.

SEQUÊNCIA 26 – APARTAMENTO DE HÉLIO – INTERIOR – NOITE
A câmera abre sobre pôster sexy de Rita Maria (ela deve lembrar Rita Hayworth em Gilda) preso à parede e começa a detalhar o apartamento, que é uma bagunça geral, com livros, jornais e revistas espalhados por todos os cantos. Tudo muito atravancado, com móveis entulhados de objetos estranhos. Hélio, sentado à sua escrivaninha, não menos atravancada, acomoda melhor os óculos sobre o nariz, põe uma folha de papel na máquina de escrever. Tudo denota que ele vai escrever imediatamente. Mas não. Hélio se encontra num momento de crise de inspiração. Fica encarando o papel em branco. Bate os dedos na lateral da máquina. Brinca com as mãos. Bate nas bochechas. Limpa as unhas. Coça a cabeça. Levanta-se e anda nervosamente de um lado para o outro. Brutus acompanha, com o olhar, o “passeio” de seu dono, movendo a cabeça de um lado para o outro, como se fosse um espectador de um jogo de tênis. Hélio para e abaixa-se junto ao cachorro.
HÉLIO – Brutus, amigão, estou numa “sinuca de bico”. Minha cabeça está mais oca do que um coco. Não tenho a mínima ideia do que colocar no próximo capítulo. Já fiz tudo que você possa imaginar: encolhi gente, serrei pessoas, enterrei pessoas vivas de cabeça para baixo. Comparados com o Escorpião Escarlate, os torturadores da Inquisição seriam aprendizes. Mas, agora, estou embananado. Entrei em parafuso. Fundi os miolos.
Brutus lambe-lhe a mão.
Hélio volta a sentar-se. Encara o papel, enquanto passa a mão pelo queixo. Pensa. Com o polegar e o indicador, fica comprimindo o lábio inferior.
Hélio continua a encarar a folha de papel.

A câmera principia um TRAVELLING DE AVANÇO em direção à folha de papel, até que o branco do papel toma conta de todo o CAMPO da câmera.
CENA DE SONHO
O apartamento enche-se de personagens: O Morcego, Rita Mara, Escorpião Escarlate, comissário Watson, Hop-Frog e Madame Ming.
RITA – Você não pode nos abandonar!
O MORCEGO – Eu sou seu alter ego.
ESCORPIÃO – E eu, tudo aquilo que reprime. Sou sua própria frustração. Você precisa de mim como uma válvula de escape para seus recalques e seu sadismo.
MING – E eu sou sua heroína. Quantas vezes sonhou comigo, depois de ler minhas histórias nos gibis? Vai negar isso? Seria hipócrita a esse ponto?
HOP-FROG – E eu, Hop-Frog, represento tudo aquilo que o assombrou na sua infância. Lembra quando leu a minha história na Policial em Revista? Ficou sem dormir aquela noite.
Como sempre, o comissário Watson mostra-se muito desesperado.
WATSON – E eu? Que sou para você?
ESCORPIÃO (fazendo blague) – Você é o “elementar, meu caro Watson”.
HÉLIO – Vocês não passam de meros personagens de papel, que tomam vida por meio das vozes dos atores. Vocês não existem!
Monte se desprende de O Morcego (Monte Grant é a própria imagem de Hélio e deve ser mostrado sem a roupa de O Morcego).
O Morcego fica estático como uma estátua.
MONTE – Olhe bem para mim e veja se eu sou, por acaso, um personagem de papel.
HÉLIO – Você e os outros só existem na minha imaginação, não passam de um reflexo da minha imaginação. Tudo não passa de um jogo, um brinquedo em que o espírito se entretém com imagens e sentimentos desinteressados.
Rita aproxima-se de Hélio e – com um gesto displicente, mas de grande sensualidade – joga o cabelo para trás.
RITA – Eu deixei de ser sua musa inspiradora?
MONTE – Vamos, dê um beijo nele!
RITA – Detesto plateia e palpiteiros. Sei muito bem o meu ofício.
HÉLIO – Não ligue para eles. Eu já disse: eles não existem. Se existe alguém de verdade aqui, é você.
ESCORPIÃO – Afinal, que pretende fazer de nós?
HÉLIO – Ainda não sei. Estou pensando. Tecnicamente, continuam vivos, porque ainda me preocupo com vocês.
MING – Já é alguma coisa.
Monte desaparece, voltando a entrar no corpo de O Morcego.
HOP-FROG – Fui criado há mais de cem anos por Edgar Allan Poe e praticamente passei todo um século adormecido.
HÉLIO – É tudo uma maluquice. Devo estar louco. Minha mãe sempre diz que eu sou meio destrambelhado.
Rita começa a fazer massagem nos ombros de Hélio.
RITA – Vamos, querido, relaxe.
Hélio fecha os olhos e relaxa.
ESCORPIÃO – Só espero que dê resultado, ativando-lhe a imaginação; caso contrário, iremos todos para o espaço.
WATSON – Iremos para onde vão todos os personagens... depois que acaba uma novela ou o escritor termina um romance.
O MORCEGO – Todos nós, personagens, viveremos, enquanto existirem gravações dos seriados ou exemplares dos livros. E ressuscitaremos toda vez que alguém ouvir as gravações ou ler os livros.
HOP-FROG – Isso quer dizer que deverei permanecer mais um século adormecido... até que alguém resolva usar-me como personagem ou ler o conto em que apareço?
Madame Ming aproxima-se de O Morcego e fala com um sorriso de triunfo nos lábios vermelhos.
MING – De todos nós... sou a única imortal! Minhas histórias são lidas diariamente por milhões de pessoas em todo o mundo!
Rita volta-se e pede silêncio, pondo o dedo indicador em riste sobre os lábios. Ela prossegue com a massagem. Hélio cai em sono profundo. Os seis personagens afastam-se silenciosamente e desaparecem.
A câmera principia um
TRAVELLING DE AVANÇO até a face de Hélio.
FUSÃO


SEQUÊNCIA 27 – REDAÇÃO DO JORNAL – INTERIOR – DIA
Maggie é encarnada por Rita Mara.
As mesas estão todas ocupadas por jornalistas e redatores, que trabalham febrilmente em suas máquinas de escrever ou falam ao telefone. Maggie lê na última edição do jornal o seu artigo sobre o Escorpião Escarlate. O telefone toca. Maggie atende.

MAGGIE – Alô. Sim, é Maggie. Como? Ele quer me ver? Vou imediatamente.
Maggie repõe o fone no gancho. Levanta-se e apanha sua bolsa, pendurada no espaldar da cadeira. Ao passar diante da mesa vizinha à sua, faz uma parada.
MAGGIE – Bill, vou até a Central de Polícia. O comissário Watson quer me ver.
BILL – Dê-lhe um beijinho na careca por mim.
MAGGIE (ri) – Sem graça!

SEQUÊNCIA 28 – EDIFÍCIO DO JORNAL – EXTERIOR – DIA
Maggie é encarnada por Rita Mara.
Maggie sai do prédio e vê um carro estacionado ao meio-fio. O motorista espicha o pescoço, fazendo sua cabeça surgir à janela do carro, e pergunta.

MOTORISTA – Táxi, senhorita?
Maggie entra no carro.
MAGGIE – Central de Polícia!

SEQUÊNCIA 29 – CARRO DOS ASSECLAS DO ESCORPIÃO ESCARLATE – INTERIOR – DIA
Maggie é encarnada por Rita Mara.
Mesmo antes de Maggie ter sentado no banco, dois homens (eles usam terno e chapéu) entram no carro. Maggie fica entre ambos. A surpresa faz Maggie dar um grito, enquanto o carro parte em relativa velocidade. Um dos homens segura um revólver.

BANDIDO 1 – Seja uma boa menina!
MAGGIE – Uma cilada!
BANDIDO 2 (ri) – Adivinhou. O Escorpião Escarlate quer vê-la.
MAGGIE – Que é que o Escorpião quer de mim?
BANDIDO 2 – Isso é ele quem vai dizer.
Maggie está enfurecida e chora de raiva. Depois, relaxa e encosta-se no banco, começando logo a enxugar as lágrimas.
MOTORISTA – Mulher idiota! Por que não fica em casa cozinhando e lavando roupas? Por que se mete em coisas que não entende?
BANDIDO 1 – Minha vontade é encher essa carinha bonita de socos, até arrebentá-la! Mas o chefe pediu para levá-la intacta.
O Bandido 2 chega até junto de Maggie e fala, com a boca quase encostada à dela. Enojada, Maggie vira a cabeça para o lado.
BANDIDO 2 – Isso seria um desperdício. Eu teria coisas melhores para fazer com você, garota...

SEQUÊNCIA 30 – REDAÇÃO DO JORNAL – INTERIOR – DIA
Monte Grant entra e dirige-se para a mesa de Maggie. Ao vê-la vazia, volta-se na direção de Bill, que vem ao seu encontro.
BILL – Olá, Grant. Maggie não está. Foi à Central de Polícia, atendendo a um chamado do comissário Watson.
MONTE – Aconteceu alguma coisa?
BILL – Acho que não. O comissário telefonou para cá, há cerca de uma hora, e pediu que Maggie fosse lá falar com ele.
Monte agradece a informação e caminha em direção aos elevadores.
MONTE (consigo mesmo) – O velho Watson está novamente pegando no pé da pequena... Vamos socorrê-la.

SEQUÊNCIA 31 – SALA DO COMISSÁRIO WATSON – INTERIOR – DIA
Monte Grant entra no gabinete do comissário Watson, que está sentado à sua mesa de trabalho.
MONTEMaggie já foi embora?
WATSON – Quem? Maggie, a maluca? Maggie, a bisbilhoteira?
MONTEA jornalista.
WATSON – Não a vejo desde anteontem, graças a Deus!
MONTEIsso é verdade, Watson?
WATSON – Claro que é verdade! Por que não haveria de ser?
MONTEEntão, a coisa é feia.
WATSONPor quê? Afinal, que está acontecendo, Grant?
MONTEVocê não a chamou, Watson?
WATSON – Quando?
MONTEHá pouco mais de uma hora...
WATSON – Não chamei ninguém. Muito menos essa louca.
MONTE Pois isso é que é mau. Ela recebeu um telefonema no Herald. Apresentaram-se como sendo você. Pediram-lhe que viesse até aqui. Maggie saiu e não voltou mais ao jornal.
WATSON – Que está acontecendo?
MONTE – Sequestro!
WATSON – Sequestro?! Quem iria querer seqüestrá-la?
MONTE – O Escorpião Escarlate!

SEQUÊNCIA 32 – APARTAMENTO DE HÉLIO – INTERIOR – NOITE
Hélio desperta, assustado. Brutus está olhando-o intrigado.
HÉLIO O Escorpião Escarlate!
Só então Hélio cai em si. Olha para o cachorro.
HÉLIO Está vendo, amigão? Está vendo como sofre um autor de seriado? Bem que mamãe não cansa de dizer que eu devia ter me formado em Medicina. “Médico é a profissão que dá mais dinheiro”, diz mamãe. “Porque todo mundo, um dia, fica doente.” Essa é a máxima verdade, meu caro Brutus. Se tivesse ouvido mamãe, eu não estaria agora nesta situação deprimente.
Resignadamente, Hélio volta sua atenção para a folha de papel na máquina de escrever.
HÉLIO – Alguns sonhos se confundem com a realidade. E minha realidade, neste momento, é escrever o próximo capítulo de O Escorpião Escarlate.
Com apenas dois dedos, Hélio começa a datilografar velozmente. Brutus caminha até um canto e deita.
CORTE
Para a folha de papel.
Os tipos vão imprimindo letra por letra:


O ESCORPIÃO ESCARLATE
Capítulo 113


Ao terminar de datilografar,
FUSÃO

TÉCNICA – RUÍDO DE CARRO EM ESTRADA EM BG

SEQUÊNCIA 33 – ESTRADA DE RODAGEM AO LADO DA VIA FÉRREA – EXTERIOR – NOITE
O carro dos três asseclas do Escorpião Escarlate corre ao longo de estrada empoeirada, desolada e que acompanha o leito de uma via férrea.

SEQUÊNCIA 34 –  CARRO DOS ASSECLAS DO ESCORPIÃO ESCARLATE – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Rita Mara.
Maggie está no banco de trás do carro, entre dois bandidos.

MAGGIE – Para onde estão me levando?
BANDIDO 1 – Calma, beleza. Você logo ficará sabendo.
BANDIDO 2 – Uma pena desperdiçar uma carinha e um corpinho como o seu. Mas você foi longe demais, e o Escorpião Escarlate avisou que nunca dá uma segunda oportunidade. E ele sempre cumpre aquilo que fala.
MOTORISTA – Aquilo que ele fala é palavra de rei. E palavra de rei nunca volta atrás.
MAGGIE – Ele é um louco, e seu fim está próximo!
MOTORISTA – Se o fim de alguém está próximo, é o seu, queridinha!

SEQUÊNCIA 35 – ESTRADA DE RODAGEM AO LADO DA VIA FÉRREA – EXTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Rita Mara.
O carro dos asseclas do Escorpião Escarlate corre ao longo da estrada desolada que ladeia a via férrea. Num trecho em que a via férrea fica totalmente a descoberto e iluminada por uma lâmpada (no alto de um poste de ferro) que derrama uma luz velada sobre a paisagem, o carro para. Maggie é retirada de seu interior. Ela se debate, procurando escapar das mãos dos dois bandidos que a seguram. O motorista amarra-lhe as mãos às costas e, depois, amordaça-a. Maggie aproveita para morder-lhe a mão.

MOTORISTA – Ai, sua pestinha!  Só por isso, vai ganhar um aperto maior na mordaça.
Enquanto o motorista prende-lhe a mordaça, Maggie funga e esperneia. O homem abaixa-se. Nova luta para conseguir unir as duas pernas de Maggie que, a todo custo, quer acertar um pontapé no bandido. Só depois de muito trabalho, os tornozelos da repórter são unidos e amarrados juntos. Maggie é carregada para o leito da via férrea e amarrada a um dormente. O pescoço de Maggie fica exatamente sobre o trilho.
MOTORISTA – Não precisa ficar impaciente. (consulta o relógio) Se o trem não estiver atrasado, não terá de permanecer mais do que cinco minutos nessa posição tão incômoda.
BANDIDO 1 – Ei, Carl, vamos embora! Nada mais temos que fazer aqui!
O motorista caminha na direção do carro, onde seus comparsas o esperam. A meio caminho, faz uma parada, volta-se para Maggie e dá tchauzinho com a mão.
MOTORISTA – Adeuzinho, beleza!
O homem entra no carro, que parte velozmente e levanta uma nuvem de pó.
CORTE
Para Maggie, que geme, com os olhos esbugalhados, tentando inutilmente se soltar.

SEQUÊNCIA 36 – CARRO DE O MORCEGO – INTERIOR – NOITE
O Morcego dirige um cupê negro em grande velocidade, enquanto olha para uma luz piscando no painel.
O MORCEGO (consigo mesmo) – Pelo rastreador que coloquei no carro daqueles miseráveis, tudo indica que trouxeram Maggie para estes lados.

SEQUÊNCIA 37 – VIA FÉRREA – EXTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Rita Mara.
PLANO GERAL de trem vindo em sentido contrário ao carro de O Morcego.

CORTE
Para Maggie, gemendo e tentando soltar-se.

SEQUÊNCIA 38 – ESTRADA DE RODAGEM AO LADO DA VIA FÉRREA – EXTERIOR – NOITE
Carro de O Morcego correndo ao longo da estrada.

SEQUÊNCIA 39 – VIA FÉRREA – EXTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Rita Mara.
Maggie, de olhos arregalados, ouvindo o apito do trem que se aproxima.


SEQUÊNCIA 40 – ESTRADA DE RODAGEM AO LADO DA VIA FÉRREA – EXTERIOR – NOITE
Carro de O Morcego correndo ao longo da estrada.

SEQUÊNCIA 41 – CARRO DE O MORCEGO – INTERIOR – NOITE
O Morcego dirige o cupê, atento à estrada de ferro. Ao longe, o apito do trem. Quando chega ao trecho em que a via férrea fica a descoberto, O Morcego vê Maggie (encarnada por Rita Mara e iluminada pela luz esmaecida do poste) amarrada na linha.
O Morcego freia o carro e salta rapidamente do veículo.


SEQUÊNCIA 42 – VIA FÉRREA – EXTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Rita Mara.
O Morcego corre até onde Maggie está amarrada e procura desamarrá-la.

CORTE
Para o jato de luz do farol potente do trem, que está próximo. Meio desesperado, O Morcego procura libertar Maggie das cordas que a prendem ao dormente.
O trem já é visto, apitando e aproximando-se.
No último instante, O Morcego liberta Maggie das cordas e puxa violentamente o seu corpo. O trem, com seu farol potente, vem de encontro à câmera, que se desloca numa rápida PANORÂMICA.
CÂMERA FIXA
Vagões passando em alta velocidade.
O Morcego liberta Maggie da mordaça.

O MORCEGO – Tudo está bem agora, Maggie.
Maggie abraça O Morcego, chorando de emoção.
MAGGIE – Fiquei com tanto medo...
Maggie ergue a cabeça para O Morcego. Sua face está lívida e molhada de lágrimas. Maggie oferece os lábios para O Morcego.
ZOOM DE RECUO
O Morcego e Maggie se beijam, sentados no chão.
TRUCAGEM
A cena desaparece, surgindo, em seu lugar, em PLANO DE DETALHE, o carro da máquina de escrever.

SEQUÊNCIA 43 – APARTAMENTO DE HÉLIO – INTERIOR – NOITE
Hélio, com o cotovelo apoiado na escrivaninha, olha desanimado para Brutus, que entorta ligeiramente a cabeça para ele.
HÉLIO – A cena até que está boa, mas muito parecida com uma que eu vi num seriado de cinema. E não irá faltar quem vai dizer que eu não tenho imaginação.
Brutus late.
HÉLIO – Eu sei, eu sei, amigão. Essa é a maneira que você tem para protestar. Mas deixa pra lá... Os cães ladram, enquanto a caravana passa.
Brutus late.
HÉLIO – Desculpe, não foi minha intenção ofendê-lo. É apenas uma maneira de dizer.
Hélio põe nova folha de papel na máquina e bate o título do seriado e o número do capítulo.
Depois, para. E fica um longo tempo olhando para a folha de papel. De repente, dá um estalo com os dedos e exclama, passando a mão pela cabeça do cachorro.

HÉLIO – Já sei! É  isso aí, Brutus!
E, em seguida, começa a datilografar velozmente.
CORTE
Para a folha de papel já com os dizeres:

O ESCORPIÃO ESCARLATE
Capítulo 113


Em seguida, começa a formar-se nova frase, letra por letra.
TÉCNICA – RUÍDO DE CARRO EM ESTRADA EM BG

SEQUÊNCIA 44 – CARRO DOS ASSECLAS DO ESCORPIÃO ESCARLATE – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Rita Mara.
Maggie está no banco de trás do carro, entre dois bandidos.

MAGGIE – Para onde estão me levando?
BANDIDO 2 – Calma, beleza!

SEQUÊNCIA 45 – ATALHO DA ESTRADA DE RODAGEM – EXTERIOR – NOITE
O carro entra em um atalho com árvores de ambos os lados.

SEQUÊNCIA 46 – GALPÃO – EXTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Rita Mara.
CÂMERA FIXA

O carro vem em direção a um galpão focalizado do lado esquerdo da câmera. O carro para diante da câmera, de modo que o farol esquerdo fique de frente e aceso por alguns segundos. Depois, o farol se apaga.
CORTE
Para a imagem do carro parado diante do galpão.
Dois bandidos saem do carro, levando Maggie. O que dirigia adianta-se e abre a porta do galpão. Todos entram.


SEQUÊNCIA 47 – GALPÃO – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Rita Mara.
O galpão está entulhado de caixas empilhadas. Tudo indica que se trata de um depósito.
Maggie é conduzida até uma porta lateral.


SEQUÊNCIA 48 – ESCRITÓRIO ENVIDRAÇADO DO GALPÃO – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Rita Mara.
O escritório é pequeno, com um vidro que serve para ver parte do depósito.
Madame Ming, trajando um vestido (de preferência, vermelho brilhante) muito justo, acaricia o gato junto ao colo. Ela recebe Maggie com um sorriso cínico.

MING – Ah, então, vou ter o prazer de cuidar pessoalmente da “grande jornalista”... da “destemida jornalista” Maggie Raines?!
Madame Ming volta-se para os homens e fala duro.
MING – Levem-na, rapazes! Eu vou depois.
A seguir, abranda novamente a voz, enquanto acaricia o gato.
MING – Primeiro, vou ter de dar leitinho ao Satã.
Maggie é levada através de uma porta no fundo do escritório. Madame Ming coloca o gato sobre um móvel. Despeja um pouco de leite num pires. O gato solta um longo miado e arrepia-se todo, quando a mulher alisa-lhe o pelo ao longo do corpo; depois, começa a lamber o leite.
MING – Fique aqui, queridinho. A “mamãe” tem de fazer um pequeno servicinho que irá lhe dar muito... “muito prazer”.
As palavras finais são ditas em êxtase.
Madame Ming apanha um par de luvas vermelhas de cano longo, dobradas sobre o espaldar de uma cadeira. No assento da cadeira, está uma bolsa também de cor vermelha. A seguir, a mulher caminha, com seus passos curtos, para a porta dos fundos. A câmera corrige para o gato, que está lambendo tranquilamente o leite.


SEQUÊNCIA 49 – SERRARIA DO GALPÃO – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Rita Mara.
A serraria não é grande e serve para fazer caixões. Sorrindo, Madame Ming caminha para um dos lados, onde os homens estão terminando de amarrar Maggie sobre uma mesa de serra circular. Vagarosamente, Madame Ming começa a calçar as luvas.
Maggie tem cada um dos tornozelos atado numa extremidade da mesa, o que a obriga a ficar de pernas abertas. Seus pulsos também estão atados na mesa. O corpo de Maggie forma um
“Y”. Madame Ming aproxima-se da mesa e, com um sorriso diabólico, pergunta.
MING – Está confortável, queridinha?
Ao mesmo tempo, faz um gesto desaprovador. Apanha um pequeno travesseiro e põe sob a cabeça de Maggie.
MING – Assim, está melhor!
Sorri com cinismo.
MING – Agora, vai dar até para você ver a serra...
Madame Ming, terminando de calçar as luvas, caminha até uma chave elétrica e liga-a. A serra circular começa a girar. A mulher apanha um pedaço de madeira e, olhando para Maggie, corta-o em dois com a serra.
MING – Muito eficiente, não é, queridinha?
Madame Ming aproxima-se novamente da mesa, onde existe apenas uma alavanca. E, sempre sorrindo e olhando para Maggie, apóia o dedo indicador e enluvado na alavanca.
MING – Um pequeno puxãozinho aqui e...
Madame Ming puxa a alavanca; e a serra começa a avançar lentamente em direção a Maggie, que geme e se retorce toda.
CORTE
Para a serra, do ponto de vista de Maggie.

SEQUÊNCIA 50 – CARRO DE O MORCEGO – INTERIOR – NOITE
O Morcego dirige seu cupê em grande velocidade, enquanto olha para uma luz piscando no painel.
O MORCEGO (consigo mesmo) – Pelo rastreador que coloquei no carro daqueles miseráveis, tudo indica que trouxeram Maggie para estes lados.

SEQUÊNCIA 51 – SERRARIA DO GALPÃO – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Rita Mara.
A câmera abre sobre a serra circular – um pouco mais próxima de Maggie – e faz uma PANORÂMICA sobre o corpo da repórter. Maggie está ofegante, com o busto subindo e descendo. Os olhos, arregalados pelo terror, fixam-se na serra, que se aproxima inexoravelmente. Madame Ming, sempre com um sorriso cínico, acerca-se da cabeceira da mesa.

MING – Eu tenho estômago muito fraco, queridinha. Certas coisas não gosto de presenciar... Tiram-me o apetite, sabe? (volta-se para os homens, que estão perfilados) Vamos embora, rapazes! Não há mais nada para fazer aqui!

SEQUÊNCIA 52 – ATALHO DA ESTRADA DE RODAGEM – EXTERIOR – NOITE
O cupê de O Morcego entra no atalho.
Os potentes faróis iluminam a estreita estrada ladeada por árvores e, após o cupê percorrer uma pequena distância, iluminam o galpão e o carro dos asseclas do Escorpião Escarlate estacionado diante dele.


SEQUÊNCIA 53 – ESCRITÓRIO ENVIDRAÇADO DO GALPÃO – INTERIOR – NOITE
Madame Ming apanha o gato de sobre o móvel, vendo-se, através do vidro, os três bandidos caminhando em direção à porta do galpão. A porta se abre abruptamente, e O Morcego entra empunhando uma automática 45.
Os bandidos são pegos desprevenidos.
Madame Ming tira um revólver da bolsa e caminha sorrateiramente na direção da porta do escritório, levando o gato consigo. Ela abre lentamente a porta e – através da fresta – observa O Morcego.


SEQUÊNCIA 54 – GALPÃO – INTERIOR – NOITE
O Morcego aproxima-se dos bandidos.
O MORCEGO – Onde está Maggie? Sei que vocês a trouxeram para cá.

SEQUÊNCIA 55 – SERRARIA DO GALPÃO – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Rita Mara.
A serra já começa a cortar o vestido de Maggie, que geme e se debate.


SEQUÊNCIA 56 – ESCRITÓRIO ENVIDRAÇADO DO GALPÃO – INTERIOR – NOITE
Quando O Morcego já se encontra mais próximo dos três bandidos, Madame Ming abre mais a porta e atira contra ele.

SEQUÊNCIA 57 – GALPÃO – INTERIOR – NOITE
O tiro não atinge o alvo, mas serve para distrair momentaneamente O Morcego. Aproveitando-se disso, os três bandidos atiram-se sobre ele; e inicia-se uma briga.
A luta se desenrola no meio das caixas que despencam, mas nenhum dos chapéus cai da cabeça dos bandidos.
Madame Ming aproveita para fugir, levando consigo a bolsa e o gato.


SEQUÊNCIA 58 – SERRARIA DO GALPÃO – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Rita Mara.
A serra já cortou boa parte do vestido de Maggie e aproxima-se do vértice de suas pernas. Maggie geme e se contorce, sem conseguir se libertar das amarras.


SEQUÊNCIA 59 – GALPÃO – INTERIOR – NOITE
A luta continua renhida, muito embora os chapéus se mantenham intactos na cabeça dos contendores.
O Morcego é atirado contra uma pilha de caixas de papelão, que desmorona. Aproveitando a oportunidade, os três bandidos correm em direção à saída.


SEQUÊNCIA 60 – SERRARIA DO GALPÃO – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Rita Mara.
A serra está quase atingindo o corpo de Maggie.

SEQUÊNCIA 61 – GALPÃO – EXTERIOR – NOITE
Os três bandidos entram no carro, onde já os aguarda Madame Ming.

SEQUÊNCIA 62 – CARRO DOS ASSECLAS DO ESCORPIÃO ESCARLATE – INTERIOR – NOITE
Os bandidos tomam rapidamente assento no carro, que parte velozmente.
MING – A esta hora, a tal jornalista já se dividiu em duas. Quanto a O Morcego...  cuidaremos dele depois.

SEQUÊNCIA 63 – SERRARIA DO GALPÃO – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Rita Mara.
A serra está prestes a atingir o corpo de Maggie.
MAGGIE – (gemidos e choro)

SEQUÊNCIA 64 – GALPÃO – INTERIOR – NOITE
O Morcego apanha sua automática, caída no chão, e corre para a porta do escritório.

SEQUÊNCIA 65 – ESCRITÓRIO ENVIDRAÇADO DO GALPÃO – INTERIOR – NOITE
O Morcego entra no escritório.

SEQUÊNCIA 66 – SERRARIA DO GALPÃO – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Rita Mara.
Detalhe da serra bem próxima do corpo de Maggie.

MAGGIE (off)(gemidos e choro)

SEQUÊNCIA 67 – ESCRITÓRIO ENVIDRAÇADO DO GALPÃO – INTERIOR – NOITE
No escritório, O Morcego ouve o ruído da serra. Ele olha para a porta dos fundos. Corre até ela e abre-a.

SEQUÊNCIA 68 – SERRARIA DO GALPÃO – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Rita Mara.
Parado junto à porta, O Morcego vê Maggie amarrada à mesa da serra, que está a alguns milímetros do corpo da moça. Com sua automática 45, O Morcego atira contra a chave elétrica, que explode como um espetáculo pirotécnico.
O Morcego corre e liberta Maggie das amarras. Chorando, a repórter joga-se nos braços do seu salvador. O perigo e a iminência da morte mexeram com os nervos de Maggie, que se mostra excitada.

MAGGIE – Beije-me, querido.
O vestido rasgado facilita Maggie cruzar as pernas em torno do corpo de O Morcego.
O telefone toca.
HÉLIO (off) – Uma boa cena...
TRUCAGEM
A cena começa a ser “amassada”. O telefone continua tocando.

SEQUÊNCIA 69 – APARTAMENTO DE HÉLIO – INTERIOR – NOITE
Hélio amassando a lauda que tirou da máquina de escrever. O telefone continua tocando.
HÉLIO – ...mas que certamente a censura não deixaria ir ao ar.
Hélio atira a lauda amassada numa pirâmide de outras laudas amassadas. Depois, com muito custo e com o auxílio de Brutus, consegue achar o telefone e leva-o até sua escrivaninha. Atende à ligação.
HÉLIO – Alô... (pausa) Boa noite, “seu” Máximo! Não, não está atrapalhando nada. Alguma novidade?

SEQUÊNCIA 70 – QUARTO DE HOTEL – INTERIOR – NOITE
Quarto modesto de hotel. Persiana fechando a janela, através da qual escoa luz avermelhada de anúncio luminoso apagando e acendendo. Alfredo, sentado na cama, fala ao telefone. Rita Mara, coberta com o lençol, está ao seu lado, fumando. Sobre a mesinha de cabeceira, uma garrafa e copos com bebida.
ALFREDO (eufórico) – Estou aqui com a Rita Mara. Ela quer dar uma palavrinha com você.

SEQUÊNCIA 71 – APARTAMENTO DE HÉLIO – INTERIOR – NOITE
Hélio ao telefone. Quer falar, mas a emoção é muito grande e não consegue emitir som algum. Sua expressão é a de quem está engasgado.
ALFREDO (off) – Alô, Hélio! Você está me ouvindo?
Com muito custo, Hélio consegue proferir algumas palavras, meio engasgado.
HÉLIO – S-sim... “seu” Máximo... es... estou...
Hélio está olhando para o pôster de Rita Mara na parede.
ALFREDO (off) – Então, fala com a Rita.
TRUCAGEM
O CAMPO VISUAL DIVIDE-SE EM DOIS QUADROS
PRIMEIROS PLANOS de Rita e Hélio – um diante do outro – falando ao telefone. Rita, ao falar, usa todo o seu charme e sensualidade.
RITA – Alô, Helinho, querido... você está bem?
Hélio, todo confuso e desconcertado.
RITA – Sabe, Helinho... eu estou zangadinha com você.
HÉLIO – Zan-zangadinha?! Por quê?
RITA – Sabe o que é...? É o meu papel. Até parece que você não gosta de mim!
HÉLIO – O-o seu papel?!
RITA – Ele é tão pequenininho... Promete que vai alongá-lo, para sua Ritinha? Promete, Helinho?
HÉLIO – Eu... eu prometo.
RITA (dengosa) – Um beijão bem gostoso... hum!
Rita faz beicinho com os lábios e encosta-os nos de Hélio.
Hélio cai para trás.

TRUCAGEM
O CAMPO VISUAL ABRE-SE E RITA DESAPARECE
Hélio está desmaiado no chão. Brutus fareja e lambe o telefone.

SEQUÊNCIA 72 – QUARTO DE HOTEL – INTERIOR – NOITE
Alfredo ao telefone.
ALFREDO – Hélio! Alô, Hélio!
Pelo telefone, vem o som dos latidos de Brutus. Alfredo olha intrigado para o telefone, dá de ombros, coloca o fone no gancho e vira-se para Rita Mara ao seu lado.
ALFREDO – Resolvi o seu problema. Agora, você tem de resolver o meu, bombonzinho.
RITA – Você merece, querido.
Rita Mara oferece os lábios. A princípio, Alfredo beija-os delicadamente; depois, com violência, enquanto abraça o corpo seminu da mulher.

SEQUÊNCIA 73 – CORREDOR DOS ESCRITÓRIOS DA “BLUE KING” – INTERIOR – DIA
Câmera abre nas costas de moça trajando saia preta e justa, suéter, meia e sapatos envernizados e de salto alto. A moça caminha requebrando-se sensualmente. Por fim, para diante de uma porta com os dizeres: “SALA DE REUNIÃO”.
A moça abre a porta.

SEQUÊNCIA 74 – SALA DE REUNIÃO DA “BLUE KING” – INTERIOR – DIA
A moça entra na sala.
Em torno de uma grande mesa, exageradamente polida, estão sentados vários executivos, todos do sexo masculino. Com expressão de lobos famintos e movimentos uniformes, eles acompanham a entrada da jovem até ela tomar assento ao lado do diretor na cabeceira da mesa. A moça coloca, diante de si, um bloco de anotações. Todos continuam olhando-a, como que magnetizados. Ela sorri angelicamente.

CORTE
Para a moça cruzando as pernas. O diretor esfrega lentamente o tornozelo na perna da jovem, que corresponde ao gesto, esfregando-se nele também.
CORTE
O diretor pigarreia, e todos voltam sua atenção para ele.
DIRETOR – Convoquei esta reunião para levar ao conhecimento dos senhores o quanto esse singelo programa, o seriado O Escorpião Escarlate, tem sido benéfico à nossa empresa.
O diretor volta-se e faz sinal para um rapaz empertigado ao lado de um cavalete. Como um autômato, o rapaz ergue o pano que oculta o gráfico de vendas. O gráfico mostra uma extraordinária ascensão nas vendas, provocando exclamação (a uma só voz) dos presentes.
TODOS – OHHH!
DIRETOR – A princípio, eu mesmo era um tanto cético quanto aos resultados positivos de um seriado radiofônico. Não imaginava como ele poderia influir no consumo de lâminas de barbear, uma vez que seus ouvintes são normalmente crianças e jovens ainda imberbes. O fato é que a maioria dos homens está abandonando a tradicional navalha, trocando-a por nossas lâminas. E como isso tem sido possível? Muito simples, senhores: distribuímos distintivos de O Morcego, que é o herói do seriado. Para ganhar o distintivo, é necessário o envio de três embalagens das nossas lâminas. E qual o pai que se negaria a comprá-las para agradar seu filhinho? (fala com eloquência) “E uma vez ‘Blue King’...
O diretor rege a resposta em coro.
TODOS – “Sempre ‘Blue King’.”
EMPRESÁRIO 1 – Um estratagema genial!
EMPRESÁRIO 2 – Mas a quem devemos tudo isso? Quem é o grande gênio, por trás do seriado?
O diretor volta-se uma vez mais para o rapaz ao lado do cavalete e faz-lhe um novo sinal. O rapaz afasta-se solenemente até uma porta lateral. Abre a porta e introduz Alfredo Máximo na sala.
DIRETOR – Aqui está ele: Alfredo M-Á-X-I-M-O!
Todos os presentes se levantam e saúdam Alfredo com uma salva de palmas. A moça vai até ele e beija-o demoradamente nos lábios.

SEQUÊNCIA 75 – APARTAMENTO DE HÉLIO – INTERIOR – DIA
PANORÂMICA através do atravancado apartamento (mostrar, entre outras coisas, o pôster de Rita Mara e a pirâmide de laudas amassadas), partindo da janela iluminada de sol. Em seguida, fixar a imagem em Hélio dormindo com a cabeça sobre a máquina de escrever.
Brutus grunhe e lambe o rosto de Hélio.
Hélio desperta. Por um momento, a claridade ofusca-lhe a visão. Depois, ele alisa carinhosamente a cabeça do cachorro.

HÉLIO – Brutus, amigão, estou mesmo numa “camisa de onze varas”... Não consegui imaginar nada! Mas vamos cuidar do estômago. Quem sabe, com estômago cheio, eu consiga raciocinar melhor.
Hélio levanta-se e afasta-se, seguido por Brutus.

SEQUÊNCIA 76 – ESTÚDIO DE MODA – INTERIOR – DIA
Glória come um sanduíche e lê a Revista do Rádio. Sobre sua mesa de trabalho, um guardanapo aberto com outro sanduíche e uma garrafa de refrigerante.
Paula entra e exclama eufórica.
PAULA – Menina, não te conto nada!
Glória deixa a revista aberta sobre a mesa e ergue os olhos para Paula.
GLÓRIA – Ora, não conte!
Paula pega uma cadeira e vai sentar-se junto a Glória.
Glória indica o sanduíche sobre a mesa.

GLÓRIA – Quer? Pode pegar, porque eu vou comer apenas este.
Paula comendo com os olhos o sanduíche.
PAULA – Esqueceu que eu preciso manter a linha? Senão... “babau” emprego.
Glória bebe um pouco do refrigerante pelo gargalo da garrafa.
PAULA – Ontem, eu saí com o Lulu de Almeida...
Glória arregala os olhos e fala com a boca cheia, segurando, com a ponta dos dedos, o pão na boca.
GLÓRIA – O multimilionário que deu em cima daquela atriz americana, a Elaine Stewart, quando ela esteve aqui?
PAULA – Esse mesmo! Ele tem um Lincoln azul piscina, importado, que é a coisa mais linda. Fomos até a Barra. Era meia-noite, e estávamos tomando banho de mar... peladinhos.
Glória dá uma nova dentada no sanduíche. Paula olha meio desconsolada para o sanduíche de Glória, depois do euforismo em relatar seu encontro.
GLÓRIA – Não quer mesmo? Está uma gostosura!
PAULA – Não! (volta o entusiasmo anterior) Depois, com os nossos corpos molhados, deitamos na praia e fizemos amor. Eu olhava para o céu estrelado, sentia-me flutuar no espaço... Uma noite maravilhosa!
Paula fecha os olhos, rememorando a cena.
GLÓRIA – Suas costas que o digam.
PAULA – Quê?!
GLÓRIA – Suas costas! Garanto que estão como um ralador de queijo.
PAULA – Elementar, minha cara.
Paula apanha o sanduíche que está sobre a mesa.
PAULA – Pro inferno o regime! A noite de ontem me deu muita fome!
Glória bebe mais um pouco do refrigerante pelo gargalo da garrafa. Paula apanha a revista. Olha a matéria que Glória lia. É sobre Hélio Monteiro Filho.
PAULA – Hummm... Este que é o tal autor do seriado? Nada mau. Bom, pelo menos agora sei porque você gosta tanto desse seriado!

SEQUÊNCIA 77 – SAGUÃO DO PRÉDIO DE GLÓRIA – INTERIOR – NOITE
Rina limpa o vidro da porta. Macário chega por trás dela.
MACÁRIO – Olá, lindeza.
Rina olha – por cima do ombro – para Macário.
RINA – Eu, hem? Não se enxerga, não?!
MACÁRIO – Você me deixa maluco!
RINA – Que intimidades são essas?! Sou uma mulher de respeito!
MACÁRIO – Que posso fazer, se você mexe com os meus hormônios?
RINA (irritada) – Se eu contar pro meu marido que o senhor anda me fazendo propostas indecorosas, ele vem aqui e acaba de quebrar os poucos dentes que lhe restam!
Macário fica na defensiva, com seu amor-próprio ofendido.
MACÁRIO – Que há? Pensa que eu não sei? Você trabalhava no 502 e vivia dando em cima do motorista, convidando-o para dar um “pissirico” na Vista Chinesa!
Rina, fazendo pose e dando de ombros, apanha o balde com água e vai embora. Macário coça a cabeça, enquanto observa Rina afastando-se.
MACÁRIO – Eu ainda vou “papá” essa ossada! Ah, se vou!
GLÓRIA (off) – O senhor quer “papá”, “seu” Macário?
Macário volta-se e vê Glória, que está com a bolsa a tiracolo e o exemplar da Revista do Rádio na mão.
GLÓRIA (com malícia) – Não acha que já está meio grandinho?
Macário fica sem graça, sem saber o que falar.
MACÁRIO – Olá, menina Glória...
Glória olha para Rina, que vai ao fundo. Depois, encara, com expressão de malícia, Macário.
GLÓRIA – “Seu” Macário, “seu” Macário...
Por sua vez, Macário faz uma expressão marota.
MACÁRIO – A carne é fraca, menina Glória. Esta maldita carne é fraca!
GLÓRIA – Em compensação, o marido de dona Rina é um “baita” de um massa...
Glória aproxima-se mais de Macário e arregala os olhos.
GLÓRIA – E é faixa pretíssima, “seu” Macário.
Glória se afasta, deixando Macário pensativo.
MACÁRIO – Por Barrabás! Onde quero me meter!

SEQUÊNCIA 78 – SALA DO APARTAMENTO DE GLÓRIA – INTERIOR – NOITE
Glória entra no apartamento e fecha a porta. Liga o rádio, deixa a Revista do Rádio sobre a mesinha e vai para o quarto.

SEQUÊNCIA 79 – QUARTO DO APARTAMENTO DE GLÓRIA – INTERIOR – NOITE
Glória pendura a bolsa no trinco da porta do quarto e senta na banquetinha para tirar o sapato. Olha-se no espelho da penteadeira. Aproxima o rosto do espelho, abaixa as pálpebras e examina os olhos. Levanta-se, tira a saia, joga-a sobre a cadeira. Depois, faz o mesmo com a blusa e o sutiã, ficando somente de calcinha.
Da sala vem o som de uma música jovem.
O telefone toca na sala.

SEQUÊNCIA 80 – SALA DO APARTAMENTO DE GLÓRIA – INTERIOR – NOITE
O rádio continua a transmitir a mesma música da sequência anterior. Glória entra e atende ao telefone.
GLÓRIA – Alô.
Imediatamente a expressão de Glória muda para desânimo.
GLÓRIA – Ah, é você, Leo? Acabei de chegar e estou moída de cansaço. Que você quer?
LEO (off) – Estou no barzinho, perto da sua casa. Não dá para você descer?
GLÓRIA – Agora? Nem por decreto papal!
LEO (off) – Por que não, Glória?
Glória suspira e olha para o teto, com expressão de impaciência.
GLÓRIA (agressiva) – Acho que você está cansado de saber o porquê!
LEO (off) (aborrecido) – Você nem parece uma mulher...
Glória corta e retruca irritada.
GLÓRIA – Moça!
LEO (off) – Pois é, nem parece uma moça de dezoito anos.
GLÓRIA – E como você acha que deve se parecer uma moça de dezoito anos?
LEO (off) – Acho que não se parece em nada com você.
GLÓRIA – Vamos deixar de papo furado, Leo! Vou desligar!
LEO (off) (irônico) – E ir ouvir seu programinha...
GLÓRIA – Acertou na mosca, sabichão!
Leo perde a paciência e explode.
LEO (off) – Sabe de uma coisa? (imperativo) Já estou cheio! Entendeu? Cheio!!! Você tem de escolher entre mim e esse... esse tal de Morcego!
GLÓRIA (cínica) – Tá escolhido!
Com uma expressão cômica, Glória põe delicadamente o fone no gancho e dá alguns passos de dança, acompanhando a música do rádio.

SEQUÊNCIA 81 – ESCRITÓRIO DO DIRETOR DA RÁDIO – INTERIOR – NOITE
Guido Falconi chega e para diante da porta aberta. Ao invés de entrar, bate na madeira da porta. Alfredo Máximo, sentado atrás de sua escrivaninha, finge estar lendo alguns papéis e demora um pouco para erguer a cabeça. Sem perder a dignidade e a fleuma, Guido aguarda, com os braços caídos ao longo do corpo. Só depois de algum tempo é que Alfredo ergue a cabeça e simula surpresa, com um sorriso hipócrita.
ALFREDO – Não fique parado aí, homem! Você sabe que a porta da minha sala está sempre aberta para os grandes artistas!
Guido ignora o palavrório e entra.
ALFREDO – Sente-se, Guido.
Guido senta-se. Alfredo levanta-se e, por um momento, olha através da janela panorâmica.
ALFREDO – “Questa città è uno regalo di Dio.”
Alfredo volta-se e olha todo risonho para Guido, que se mantém sério, aguardando. Transmitindo certo euforismo falso, Alfredo junta os dedos da mão direita, balançando-os, num típico gesto italiano.
ALFREDO – “Il bello canto...” ehhh, Guido?!
Alfredo volta a sentar na cadeira. Guido continua encarando-o, calado e sério.
Alfredo começa a falar, com algum rodeio.

ALFREDO – Mas vamos aos fatos. Bem, Guido, a firma patrocinadora do programa que precede o seu quer mais cinco minutos. Em vista disso, o seu programa passará a ter cinco minutos a menos...

SEQUÊNCIA 82 – RUA COM BANCA DE JORNAL – EXTERIOR – DIA
Glória se aproxima, dirigindo lambreta. Estaciona o veículo ao meio-fio, salta e vai até a banca de jornal. Sorri para o jornaleiro.
GLÓRIA – Bom-dia, “seu” Gennaro. Alguma novidade para mim, hoje?
JORNALEIRO – “Buono giorno, signorina” Glória. A Revista do Rádio, a “signorina” já levou?
GLÓRIA – Levei ontem.
JORNALEIRO – Chegou a Radiolândia.
Enquanto fala, o jornaleiro apanha a revista.
A manchete de um dos jornais expostos chama atenção de Glória:


CRIME MISTERIOSO NA GÁVEA

Glória pega um exemplar do jornal.
GLÓRIA – Vou levar o jornal também, “seu” Gennaro.
Glória tira o dinheiro da bolsa a tiracolo, paga o jornaleiro e apanha a revista.
GLÓRIA – Até amanhã, “seu” Gennaro.
JORNALEIRO – Até amanhã, “signorina” Glória e dirija com cuidado.
Glória põe a revista e o jornal no chão da lambreta e dá tchauzinho para o jornaleiro.

SEQUÊNCIA 83 – ESTÚDIO DE MODA – INTERIOR – DIA
Na sua mesa de trabalho, Glória lê, com expressão intrigada, o jornal. Paula chega e se debruça sobre o ombro de Glória.
PAULA – Ué, agora você deu também para ler esse tipo de jornal que...
Glória apanha o vidro de tinta nanquim e volta-se para Paula.
GLÓRIA – Se você disser que “espremendo sai sangue”, eu jogo esta tinta na sua cara!
Paula faz um gesto de defesa, em tom de brincadeira.
PAULA – É exatamente o que eu ia dizer.
Glória volta sua atenção para a notícia do jornal.
GLÓRIA – É uma coisa estranha, Paula. Muito estranha mesmo.
Paula olha para o jornal.
PAULA – Que é estranho?
GLÓRIA –  Esse crime. Ele tem todas as características de um crime cometido pelo Escorpião Escarlate!
PAULA – Agora, eu é quem devia jogar tinta na sua cara!
GLÓRIA – Mas é verdade! O Escorpião Escarlate cometeu um crime igualzinho a esse, num dos capítulos do seriado.
PAULA – Deixe pra lá! Isso é problema da polícia. O seu problema é terminar o modelo do meu vestido. Lembre-se de que ele irá participar do desfile da próxima terça-feira.
Glória, ainda um tanto intrigada, dobra o jornal e o coloca sobre a mesa. Abre a gaveta e apanha um desenho.
GLÓRIA – Pois saiba que já terminei!
Paula admira o desenho.
PAULA – Simplesmente maravilhoso! Você será uma grande modista.
GLÓRIA – Serei?! Mas que desaforo!
Paula abraça a amiga.
PAULA – É lógico que você já é, Glória! Agora, tenho de me aprontar. Vai haver um desfile especialmente para a filha de um político; e, como sempre, estou atrasada.
Paula sai. Glória apanha novamente o jornal. Abre-o e fica contemplando, com expressão intrigada, a manchete.

SEQUÊNCIA 84 – SALÃO DE DESFILE – INTERIOR – DIA
Na luxuosa sala, ao som de uma orquestra ao vivo, ocorre um desfile de moda, comandado por uma vendedora que exibe o tempo todo um sorriso profissional. Vários modelos são exibidos.
Apenas duas pessoas assistem ao desfile: um jovem casal que ocupa as primeiras poltronas da plateia.

VENDEDORA – Paula veste um “tailleur” de gabardine, próprio para meia-estação.
Paula entra e exibe-se, não deixando de dar olhadas significativas para o rapaz. Este comenta com a jovem sentada ao seu lado.
AYRTON – Muito bonito. Ótimo para nossa lua de mel.
A moça olha para ele com ternura.
MOÇA – Se você gostou, querido...
Em seguida, olha na direção da vendedora.
MOÇA – Pode separar esse também.

SEQUÊNCIA 85 – ESTÚDIO DE MODA – INTERIOR – DIA
Paula entra toda eufórica e abraça Glória.
PAULA – Fizemos sucesso!
GLÓRIA – O sucesso deve ser mais do seu charme do que dos meus modelos.
PAULA – Pois é: o seu modelo... mais o meu charme... e aqui está o resultado!
Paula lê o cartão de visitas que traz na mão.
PAULA – “Ayrton Cardona”. Sabe quem é?
GLÓRIA – Não tenho a mínima idéia.
PAULA – Nada mais, nada menos que o galã do desfile! Mas o principal, minha amiga, é o que está escrito no verso.
Enquanto fala, Paula entrega o cartão para Glória, que lê as palavras no verso.
GLÓRIA – “Espero-a depois do expediente. Preciso conversar com você.” (volta-se para Paula) E como foi que ele lhe deu o cartão? Não estava com a noiva?
PAULA – E daí? Que tem demais?
GLÓRIA – Então, como é que você fez?
PAULA (sorri) – Muito simples... Postei-me na frente da porta do sanitário masculino e esperei. É tiro e queda!
Glória fica encarando Paula como se não acreditasse no que ouvia.
GLÓRIA – Mas o cara não veio com a noiva? E não veio aqui para ajudar a noiva a escolher o enxoval?
PAULA – Eles sempre respeitam a virgindade das noivas. Você pensa que eu estou aqui pra quê? Só pra ajudar o “seu” Samuel a vender mais vestidos? Eu tenho ambição, minha amiga. Quero viajar pela Europa. Conhecer o mundo, divertir-me. Quero participar da vida. Quero fazer coisas.
GLÓRIA – Mas tudo isso custa dinheiro...
PAULA – E que pensa que eu estou fazendo? Estou em busca de dinheiro!
GLÓRIA – E o amor?
PAULA – O amor só existe na fase do namoro. Depois que se come arroz e feijão juntos, por uma semana, “babau” amor. Casamento requer algumas concessões e renúncias, e eu não estou disposta a isso. Casamento é uma chatice. Por isso, jamais me casarei!

SEQUÊNCIA 86 – ESCRITÓRIO DO DIRETOR DA RÁDIO – INTERIOR – DIA
Alfredo folheia algumas laudas do script que Hélio acaba de entregar-lhe. Hélio, por sua vez, observa a reação de Alfredo. Rita Mara entra e, ao ver Hélio, saúda-o efusivamente.
RITA – Ora, viva! Olha quem está aí!
Hélio fica meio sem jeito, quando Rita lhe beija o rosto e o marca de batom.
RITA – Espero que tenha atendido ao meu pedido.
ALFREDO – E como! Nestes capítulos só dá você!
Rita apanha o script das mãos de Alfredo. Corre impacientemente os olhos pelas laudas. Depois, eufórica, abraça Hélio e dá-lhe outro beijo, marcando-lhe a outra face.
RITA – Você é um amor, Helinho. E tem uma imaginação fértil. Pobrezinho... (com malícia) O que a Ritinha pode fazer para compensá-lo?
Alfredo pigarreia. Rita volta-se para ele e faz um gesto com a mão.
RITA – Olha quem está com ciúmes!
ALFREDO – Parabéns, Hélio! Com estes capítulos, você alcançou o clímax do seriado!
RITA – E irão transformar-me numa verdadeira radioatriz, como a Ismênia dos Santos! Puxa, mal posso acreditar!
Rita pendura-se, toda dengosa, no pescoço de Alfredo.
RITA – O Helinho bem que merece um bom jantar e uma esticada no “Night and Day”, onde está sendo apresentado um show com mulheres lindíssimas! Tenho certeza de que ele vai adorar.
ALFREDO – Mulher é sempre um prato saudável.
Rita volta-se para Hélio.
RITA – Você não tem nenhum caso?
HÉLIO – Caso?!
RITA – É. Caso. Mulher! Não tem nenhuma mulher na sua vida?
HÉLIO – Tenho a mamãe... a vovó...
RITA – Não é dessas que eu falo, queridinho. Mulher! Dá pra entender?
Hélio fica meio sem graça.
TRUCAGEM
HÉLIO – Lógico que tenho! Você é a mulher da minha vida! O meu grande amor!
Hélio atira-se nos braços de Rita Mara. Beija-lhe os lábios e é correspondido.
CORTE
ALFREDO – Deixe de chatear o rapaz, Rita. Combinado, Hélio. Amanhã, jantar no “Copacabana Palace” e  uma noitada no “Night and Day”, do meu amigo Carlos Machado.

SEQUÊNCIA 87 – RUA DESERTA – EXTERIOR – NOITE
CÂMERA BAIXA
Carro (em grande velocidade) faz freada brusca. A porta do lado contrário ao do motorista é aberta. Um corpo é atirado do interior do carro, sem que se identifique por quem. O corpo rola e fica em PRIMEIRO PLANO, quase junto à câmera. Em seguida, o carro arranca em grande velocidade. A câmera corrige até enquadrar o rosto do cadáver, que está com os olhos arregalados, quase saltando das órbitas, e a língua para fora.

TRUCAGEM
A cena acima como fundo. Jornal vem girando do infinito e para em PRIMEIRO PLANO, com a foto do cadáver “enquadrada” da própria cena e a manchete:

OUTRO CRIME MISTERIOSO
DESTA VEZ NO LEBLON


SEQUÊNCIA 88 – SAGUÃO DA DELEGACIA DE POLÍCIA – INTERIOR – DIA

Glória entra, trazendo um jornal dobrado na mão e sua bolsa a tiracolo. Um investigador, que conversa num canto com um repórter, vem atendê-la.
GLÓRIA – Quero falar com o delegado. É assunto importante.
INVESTIGADOR – Um momento.
O investigador afasta-se, bate três vezes numa porta, abre-a e entra.
Glória olha para o repórter, que, por sua vez, também olha para ela com algum interesse. O investigador surge na porta.

INVESTIGADOR – Pode entrar.
O investigador mantém a porta aberta.

SEQUÊNCIA 89 – SALA DO DELEGADO – INTERIOR – DIA
Glória entra. O investigador fecha a porta. O delegado indica uma cadeira a Glória. Glória senta-se.
DELEGADO – A senhorita quer falar comigo? De que se trata?
Em meio a alguns papéis e livros empilhados sobre a escrivaninha, Glória vê um jornal dobrado.
GLÓRIA – Pelo jeito, o senhor já sabe do motivo que me trouxe até aqui.
DELEGADO – Já sei do que se trata?! E se trata do quê?
Glória apanha o jornal que está em cima da escrivaninha, desdobra-o e coloca-o aberto diante do delegado.
GLÓRIA – É sobre isto!
O delegado baixa os olhos para a manchete:

OUTRO CRIME MISTERIOSO
DESTA VEZ NO LEBLON


O delegado encara Glória.
DELEGADO – Qual o seu nome?
GLÓRIA – Glória Campos.
DELEGADO – Quer dizer que você sabe algo a respeito desse crime?
GLÓRIA – Não só desse, como também daquele que aconteceu na Gávea.
DELEGADO – Então, fale. Sou...
GLÓRIA – Pelo amor de Deus, não vá dizer que é “todo ouvidos”!
O delegado não entende e fala.
DELEGADO – Muito bem, diga o que sabe a respeito desses dois crimes.
GLÓRIA – Sei quem os cometeu.
O delegado inclina o corpo para a frente, mostrando-se interessado.
DELEGADO – Sabe?! E quem foi?
GLÓRIA – O Escorpião Escarlate!
O delegado leva um choque e ergue o corpo da cadeira.
DELEGADO – QUEM???!!!
GLÓRIA (com naturalidade) – O Escorpião Escarlate.
DELEGADO – Escorpião Escarlate? Que diabo é isso? Você quer dizer que há um escorpião por aí matando gente?
Glória ri, achando graça.
GLÓRIA – Não! O Escorpião Escarlate é inimigo de O Morcego. Ele é um bandido. Alguém o está imitando.
O delegado olha-a, incrédulo.
DELEGADO – Não acredito! Juro que não acredito!
GLÓRIA (acha graça) – O senhor falou igual à minha amiga Paula.
DELEGADO – O Escorpião Escarlate? O inimigo do Morcego?
GLÓRIA – É.
O delegado põe as duas mãos na cabeça, num acesso de fúria.
DELEGADO – Por que essas coisas acontecem sempre comigo? Foi difícil livrar-me do Pacheco, que via um vampiro em cada esquina! Agora, aparece uma Glória com um Escorpião Escarlate que é inimigo do Morcego! Assim não dá! Não há cristão que aguente!
O delegado começa a jogar os papéis para o ar. Assustada, Glória se levanta e fica acuada num canto.
O delegado sobe na mesa e começa a rasgar a própria roupa, enquanto grita.

DELEGADO – Vampiros! Escorpião Escarlate! Morcego! Está todo mundo doido!!!
O investigador entra correndo e retira Glória da sala.

SEQUÊNCIA 90 – SAGUÃO DA DELEGACIA DE POLÍCIA – INTERIOR – DIA
Assustado, o investigador interroga Glória.
INVESTIGADOR – Que você falou para o delegado?
GLÓRIA (com simplicidade) – Que foi o Escorpião Escarlate quem cometeu esses crimes que ocorreram na Gávea e no Leblon.
Da sala do delegado vem o maior barulho, como se a mesma estivesse sendo demolida. O investigador fica meio sem saber se conversa com Glória ou se vai acudir o delegado. Por fim, decide ir acudir o delegado.
Indignada e resmungando, Glória deixa a delegacia.


SEQUÊNCIA 91 – PRÉDIO DA DELEGACIA DE POLÍCIA – EXTERIOR – DIA
Glória dirige-se para sua lambreta, estacionada um pouco além da delegacia. O repórter vem logo atrás.
REPÓRTER – Ei, moça...
Glória para e olha o repórter.
GLÓRIA – Que é? Vai levar-me presa?
REPÓRTER – Meu nome é Carlos Spaca, mais conhecido como o “farejador da notícia”. Sou repórter policial. Você disse que o autor desses crimes é um tal de Escorpião Escarlate?
GLÓRIA – É lógico que é!
O repórter segura o braço de Glória.
REPÓRTER – Vamos até aquele bar ali. Enquanto toma um refrigerante, você me conta tudo o que sabe. Está certo?

SEQUÊNCIA 92 – ESTÚDIO DE MODA – INTERIOR – DIA
Um tanto amuada, Glória conversa com Paula.
GLÓRIA – Eu sempre soube que um dia tudo ia terminar; mas, agora, que aconteceu, estou chateada.
PAULA – Pensei que fosse isso que você queria.
GLÓRIA – Você também está contra mim, Paula? Não chega o Leo? Agora, você também?
PAULA – Sinto muito. Eu sei como deve estar se sentindo.
Glória encara Paula com expressão de desolação.
GLÓRIA – Na verdade, não sei se estou chateada porque o Leo me deixou ou se porque hoje é sábado e não tem o meu programa...
Paula faz expressão de censura e vai responder, quando o telefone toca. Glória atende.
GLÓRIA – “Casa Slipper”, Departamento de Criação. Sim, é a Glória quem fala. Ah, como vai, Carlos? Devo sair à uma e meia. Está bem. Tchau.
Glória coloca o fone no gancho e volta-se para Paula, que tem no rosto uma expressão de incredulidade.
GLÓRIA – Estávamos falando de que mesmo?
Paula aponta para o telefone e pergunta incrédula.
PAULA – Eu... Eu ouvi bem?
GLÓRIA – Quê?
PAULA – Isso que falou ao telefone?
Glória responde com simplicidade.
GLÓRIA – O Carlos? Ele me convidou para almoçar depois do expediente.
Paula ainda mantém a mesma expressão de incredulidade.
PAULA – O Carlos?! Um homem?!
Glória ri, achando graça da dedução de Paula.
GLÓRIA – Não é nada do que você está pensando. O Carlos é um repórter que estava na delegacia e fez uma entrevista comigo. Telefonou convidando-me para almoçar com ele, a fim de mostrar-me a entrevista...
Paula, ainda confusa, faz um gesto com a mão.
PAULA – Espera aí! Mais você fala, menos eu entendo. Delegacia? Entrevista?  De que está falando? Que entrevista é essa?
GLÓRIA – Esta manhã, ao comprar o jornal, tomei conhecimento de mais um crime misterioso. Então, fui até a delegacia de homicídios. Mas o delegado é um cara completamente pirado. Ficou histérico de repente: subiu na mesa e começou a fazer striptease. O Carlos estava lá. Viu tudo e fez uma entrevista comigo. Que  mais você quer saber?
PAULA – Mais nada. E até adivinho o que você disse ao tal delegado, que pra mim não era pirado... Mas ficou.

SEQUÊNCIA 93 – HALL DO “NIGHT AND DAY” – INTERIOR – NOITE
Um grande painel no hall do “Night and Day”, com fotos sensuais da corista Brigitte e os dizeres:

CARLOS MACHADO APRESENTA O ESPETÁCULO
EVOCAÇÕES DE PARIS
COM A SENSUAL E PROVOCANTE BRIGITTE


Alfredo, Rita Mara e Hélio entram. Carlos Machado conversa com um grupo de pessoas e, ao ver o trio, vai ao seu encontro, sorrindo alegremente. Dá um grande abraço em Alfredo.
MACHADO – Até que enfim, o grande homem de rádio, Alfredo Máximo, resolveu dar-me a honra de sua visita!
ALFREDO – Você sabe como a minha vida é atribulada, Carlos. Quero apresentar-lhe Rita Mara, minha melhor radioatriz.
Carlos Machado beija respeitosamente a mão de Rita.
MACHADO – Além de radioatriz, você poderia ser uma séria concorrente da Virgínia Lane. Nunca pensou em trabalhar no teatro de revista?
RITA – Pensei, sim. Até gostaria de...
Alfredo interrompe o que Rita está dizendo, para apresentar Hélio.
ALFREDO – E este é o escritor Hélio Monteiro Filho, autor do seriado de maior audiência do rádio brasileiro.
MACHADO (admirado) – Não vai me dizer que é o autor de O Escorpião Escarlate?
ALFREDO – Em carne e osso.
Carlos aperta carinhosamente a mão de Hélio.
MACHADO – Então, você é o autor de O Escorpião Escarlate? (volta-se para Rita) E você deve ser a Maggie... Minha filha Djenane é “gamada” nesse seriado e ela adora o seu papel, Rita.
HÉLIO – Eu também já pensei em escrever um show, uma revista...
A voz de Hélio é encoberta pela de Carlos Machado.
MACHADO – Vocês serão meus convidados de honra.
Carlos Machado conduz o trio na direção de uma porta que leva ao interior do “Night and Day”. Chegam à porta. Carlos Machado fala com o maître.
MACHADO – Clímaco, quero que dê aos meus amigos o camarote de honra. Eles são meus convidados. (volta-se para Alfredo) Deixo-os em boas mãos. Clímaco os atenderá pessoalmente. Agora, vocês me dêem licença, porque preciso tomar algumas providências.
Carlos Machado se afasta, indo cumprimentar um casal, recém-chegado. O maître  leva o trio para o interior da boate.

SEQUÊNCIA 94 – “NIGHT AND DAY” – INTERIOR – NOITE
Alfredo, Rita Mara e Hélio estão instalados num camarote que lhes possibilita uma ótima visão do palco. O maître traz champanha e começa a despejá-lo nas taças.
HÉLIO – Não, obrigado. Eu não bebo.
ALFREDO – É champanhe francês legítimo, Hélio! Vai rejeitá-lo?
RITA – Mas bebe alguma coisa, não?
HÉLIO – Naturalmente.
RITA – Uísque?
HÉLIO – Guaraná. Se eu beber álcool, sou capaz de começar a dançar nu em cima da mesa.
RITA – Que gracinha. Mas deixa comigo. (volta-se para o maitrê) Traga uma cuba-libre pra ele.
HÉLIO – Cuba-libre? A responsabilidade será toda sua, se eu der um vexame.
As luzes diminuem. Abre-se a cortina do palco. O foco de luz vai buscar Carlos Machado, que entra sob uma salva de palmas. Não se vê nada do cenário.
MACHADO – Tenho a satisfação de apresentar, vinda diretamente do “Tabarin”, de Paris, Brigitte, com toda a sensualidade e malícia da mulher francesa. Tenho a certeza de que ela encantará a todos aqui presentes. Quanto às damas, não fiquem enciumadas... Logo mais serão recompensadas, uma vez que Brigitte é apenas um aperitivo...
A plateia ri e aplaude.
CORTE
Rita esfrega a perna na perna de Hélio.
CORTE
Hélio olha para Rita, que dá um sorriso cheio de cumplicidade.
O
maître traz a bebida de Hélio.
MACHADO – Com vocês, diretamente do “Tabarin”, de Paris... Brigitte e as mais lindas coristas deste planeta!
Sob uma nova salva de palmas, Carlos Machado deixa o palco. A luz segue-o e se extingue.
ESCURECIMENTO
Depois de um pequeno lapso de tempo, o palco ilumina-se e mostra um cenário evocando Paris. Com os acordes de uma música francesa saltitante, entram as coristas, que começam um balé.
Após um rápido balé, as coristas se afastam e ficam um pouco ao fundo do palco, voltando-se para um ponto dos bastidores. Depois, num movimento sincronizado, todas erguem o braço na mesma direção. A música se torna pesada, de suspense. Brigitte surge toda coquete, girando uma sombrinha na mão enluvada e vestindo uma saia leve e armada, uma blusa decotada e meias rendadas. Ela começa uma dança cheia de encanto e sensualidade; e , enquanto dança, vai se desfazendo, uma a uma, de suas roupas, no que é imitada pelas coristas, que continuam imóveis e só se movimentam para tirarem, também, suas poucas vestes. As peças de roupa de Brigitte são atiradas à plateia, e geralmente o alvo é masculino. As acompanhantes dos homens recebem esse gesto de cara
“amarrada”.
ALFREDO – Vocês me dão licença, acho que abusei do chope no jantar...
Alfredo sai. Rita olha para Hélio, que já sorveu mais da metade do drinque.
RITA – Sabe que você é um cara fechado?
HÉLIO – Já me falaram. Mas é o meu jeito. Cada um é como é.
RITA – Lá na rádio, você nem “dá bola” pra gente. Mal acaba o seriado, e você já dá no pé.
HÉLIO – É que eu tenho de escrever o seriado também. Um capítulo por dia, não se esqueça.
CORTE
Rita apalpa as coxas de Hélio. Suas mãos sobem...
CORTE
RITA (cheia de malícia) – Poderíamos ser bons amigos. Eu gosto do seu jeitão.
A bebida começa a fazer efeito, e Hélio torna-se mais ousado.
HÉLIO – Só bons amigos? Nada mais?
RITA – Poderíamos ser até mais um pouco do que bons amigos.
HÉLIO – E o Máximo?
RITA – Ora, o Máximo é o diretor da rádio.
O striptease atinge seu clímax.
RITA – Talvez, no momento, você esteja mais interessado no que está acontecendo no palco...
Brigitte está olhando na direção deles.
RITA (achando graça) – Parece que a Brigitte se encantou com...
Nesse instante, Brigitte solta um grito de terror e desmaia. As luzes se acendem. Confusão geral. Carlos Machado volta ao palco e pede calma. Brigitte é levada para os bastidores, e a orquestra começa um número musical.

SEQUÊNCIAA 95 – BASTIDORES DO “NIGHT AND DAY” – INTERIOR – NOITE
Brigitte está deitada num sofá, sendo atendida por um médico. Um grupo de bailarinas corre para o palco. Carlos Machado dá algumas ordens. Em seguida, vai conversar com o médico. Depois, procura dispersar os curiosos. Alfredo, Rita e Hélio entram nos bastidores. Alfredo adianta-se e interpela Carlos Machado.
ALFREDO – Que aconteceu, Carlos?
MACHADO – Ainda não sabemos. Parece que alguma coisa assustou Brigitte.
Eles se aproximam do sofá, onde Brigitte começa a recobrar os sentidos.
MACHADO – Que aconteceu, minha filha?
Auxiliada pelo médico, Brigitte senta no sofá. Depois, olha para Hélio e exclama, aliviada.
BRIGITTE – Graças a Deus, você está vivo!
Encabulado, Hélio apalpa-se.
HÉLIO – Teoricamente estou vivo.
BRIGITTE – Eu vi um vulto encapuzado sair de trás da cortina do seu camarote. Ele tinha uma faca enorme na mão. Acho que o meu grito o assustou.
OBSERVAÇÃO: A cena descrita por Brigitte pode ou não ser ilustrada por um FLASHBACK. A escolha é do diretor.

SEQUÊNCIA 96 – ROTATIVA – INTERIOR
Rotativa funcionando, imprimindo jornais que já saem dobrados. Uma mão entra em CAMPO e retira um jornal com a seguinte notícia:

O ESCORPIÃO ESCARLATE É O AUTOR DOS MISTERIOSOS ASSASSINATOS!
Ontem à noite, o novelista Hélio Monteiro Filho quase se torna uma nova vítima do seu próprio personagem, o Escorpião Escarlate, quando assistia ao show do “Night and Day”. A desenhista de modas Glória Campos tentou prevenir a polícia, mas não foi levada a sério.
Reportagem de: Carlos Spaca

Acompanhando a notícia, foto de Glória pegando meia página, mais a foto de Hélio e um desenho reconstituindo a figura do Escorpião Escarlate.

SEQUÊNCIA 97 – ESTÚDIO DE MODA – INTERIOR – DIA
Tremenda confusão, com uma multidão de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas (alguns estão trepados sobre mesas, armários, janelas etc.) enfrentando-se, numa verdadeira batalha corpo a corpo, todos querendo entrevistar Glória ao mesmo tempo.
Num canto, Paula observa tudo, boquiaberta.

PAULA – Não acredito!
Próximo de Paula, Carlos Spaca fala ao microfone.
CARLOS – Quem lhes fala é Carlos Spaca, o “farejador da notícia”, falando ao vivo da “Casa Slipper”, onde trabalha a desenhista de modas Glória Campos, a jovem que denunciou o Escorpião Escarlate como o autor dos bárbaros crimes que têm abalado a população da nossa cidade. Como os prezados ouvintes estão lembrados, o Escorpião Escarlate é o terrível bandido do seriado escrito por Hélio Monteiro Filho e transmitido pela nossa emissora...

SEQUÊNCIA 98 – ESCRITÓRIO DO DIRETOR DA “BLUE KING” – INTERIOR – DIA
Escritório luxuoso. Pelas paredes fotos da indústria e um quadro a óleo do presidente, com seu respectivo nome impresso numa chapinha dourada: RALPH CLIFFORD FANNING.
Sentado atrás de sua imensa escrivaninha, o diretor ouve rádio, tendo diante de si um exemplar do jornal com a foto de Glória.
RÁDIO – Ontem, Hélio Monteiro Filho foi quase vítima desse assassino, quando assistia ao show de Brigitte no “Night and Day”, o que vem corroborar a denúncia de Glória Campos, uma vez que o crime quase perpetrado se assemelha a um imaginado por Hélio em seu seriado radiofônico, O Escorpião Escarlate.
O diretor desliga o rádio, no momento em que a secretária fala pelo interfone.

SECRETÁRIA (off) – Sr. Jandway... Sua ligação. É o sr. Alfredo Máximo, na linha privativa.
O diretor aperta um botão e apanha o fone do gancho. Sua voz troveja, depois de uma gostosa gargalhada.
DIRETOR – Alô, Máximo! Você é o gênio do marketing! Só um cérebro privilegiado como o seu poderia imaginar algo semelhante! Você é um novo Orson Welles! Conseguiu, como ele, com A Guerra dos Mundos, criar uma psicose coletiva com O Escorpião Escarlate. Genial! Genial! Acabei de falar com a nossa matriz, em Nova York. Os homens querem conhecê-lo. E eu quero conhecer essa garota (baixa os olhos para o jornal), a Glória. E, a partir de hoje, aumente o seriado até A Hora do Brasil e rife o “talharim”.

SEQUÊNCIA 99 – ESCRITÓRIO DO DIRETOR DA RÁDIO – INTERIOR – DIA
Alfredo repõe o fone no gancho e fica passando os dedos pelo queixo, com expressão intrigada. Encara a câmera.
ALFREDO – Marketing?! Que diabo é isso?

SEQUÊNCIA 100 – ESCRITÓRIO DO DIRETOR DA “CASA SLIPPER” – INTERIOR – DIA
Glória está sentada junto à escrivaninha, enquanto Samuel anda pela sala de lá para cá, terrivelmente irritado.
SAMUEL – Uma coisa horrorosa! A senhora virou...
Samuel fala e faz um gesto característico com a mão.
SAMUEL – ...meu estabelecimento de pernas para o ar.
Samuel passa a mão pelos poucos cabelos que lhe restam.
SAMUEL – Contratei-a para desenhar modelos, não para se envolver com o submundo do crime.
Glória, que acompanha, com a cabeça, o “passeio” do homem, começa a sentir dores no pescoço.
SAMUEL – A senhora enlameou a grife “Slipper”. Um trabalho que a mamãe e eu...
Samuel ergue a cabeça para um quadro que está pendurado na parede e que mostra a foto de uma senhora austera.
SAMUEL – ...levamos anos e anos para criar e impor. Hoje... (dramático) Oh! Hoje, esse trabalho está jogado na sarjeta!
GLÓRIA – Sr. Samuel! O senhor chama o fato de ajudarmos nossos semelhantes de “jogado na sarjeta”? Não sabe que se tratam de vidas humanas?
Samuel pára de andar e encara Glória de frente.
SAMUEL – Dona Glória, eu não tenho um hospital. Tenho, ou melhor, tinha uma casa de modas.
O homem debruça-se sobre um móvel e soluça, enquanto estica o braço e, com o indicador, aponta para a porta. Glória não espera um só segundo. Levanta-se e, com passos decididos, sai, batendo a porta com violência. O quadro da mulher cai. Samuel corre pegá-lo.
SAMUEL – Mamãe!

SEQUÊNCIA 101 – ESTÚDIO DE MODA – INTERIOR – DIA
Glória está apanhando seus objetos pessoais e guardando-os na bolsa. Paula entra, caminha até Glória e esfrega a mão nas costas da amiga, num gesto de carinho e solidariedade.
PAULA – Sinto muito, Glória. Acho que fizeram uma “bruta” injustiça com você.
Glória retribui o gesto carinhoso, batendo a mão na da amiga.
GLÓRIA – Deixa pra lá, Paula.
PAULA – Deus...
Paula interrompe o que ia dizer, ao ver Glória apanhar o vidro de tinta nanquim.
GLÓRIA – Se você vai me dizer que “Deus fecha uma porta, mas abre um portão”...
PAULA – Já sei, você me atiraria tinta na cara!
O telefone toca. Glória continua revisando a gaveta, sem fazer o mínimo caso da insistência com que o telefone toca. Paula aponta para o aparelho, com um meneio de cabeça.
PAULA – Não vai atender?
GLÓRIA – Eu não trabalho mais na casa, não se lembra?
Paula atende.
PAULA – “Casa Slipper”, Departamento de Criação... (pausa) Um momento...
Paula volta-se para Glória, que está acabando de correr o zíper da bolsa.
PAULA – É pra você, Glória.
GLÓRIA – Eu já disse que não trabalho mais na casa!
PAULA – Pelo jeito, é assunto pessoal. É melhor atender.
Glória apanha, com má vontade, o fone da mão de Paula. Atende com displicência.
GLÓRIA – Sim, é a Glória Campos quem fala.
Glória muda de atitude, torna-se vivamente interessada.
GLÓRIA – Pois não... A que horas? Sim, estarei aí, sem falta! Até logo, sr. Máximo.
Glória põe o fone no gancho e apanha o vidro de tinta nanquim, dando-o para Paula.
GLÓRIA – É a sua vez de atirar tinta na minha cara.
PAULA – Quem foi que ligou? Quem é esse “seu” Máximo?
Glória dá alguns passos de dança, abraçando a amiga.
GLÓRIA – Nada mais, nada menos que o diretor da “Rádio Mundo”. Ele quer falar comigo.
Glória deixa a amiga e dá mais alguns rodopios. Paula vai atrás dela.
GLÓRIA – E sabe que rádio é essa?
PAULA – “Rádio Mundo”, você disse...
GLÓRIA – Ela é... nada mais, nada menos... que a rádio do seriado O Escorpião Escarlate!
PAULA (admirada) – Não acredito!

SEQUÊNCIA 102 – ESCRITÓRIO DO DIRETOR DA RÁDIO – INTERIOR – DIA
Guido Falconi está sentado diante da escrivaninha de Alfredo. Por sua vez, Alfredo procura as palavras para poder falar com o cantor, que se mantém, como sempre, em sua postura impassível e quase arrogante.
ALFREDO – Bem, Guido...
Alfredo faz uma parada, como se lhe faltasse coragem para prosseguir.
ALFREDO – As coisas nem sempre são como a gente gostaria que fossem...
Guido continua encarando, com expressão séria, Alfredo.
ALFREDO – Você sabe, seu programa está sem patrocínio há dois meses; e a “Blue King” resolveu esticar o seriado para meia hora...
Sem uma palavra, Guido se levanta e toma postura de cantor lírico. Depois, emite um som agudo. O vidro da janela panorâmica estilhaça-se todo.

SEQUÊNCIA 103 –  SALA DE GUIDO FALCONI NA RÁDIO – INTERIOR – DIA
Guido recolhe suas coisas, colocando-as numa caixa de papelão. Veste o sobretudo e, sobraçando a caixa, caminha para a porta; mas volta-se e caminha até um canto onde está sua fotografia em tamanho natural e recortada num papelão grosso. Sob a foto, num retângulo, os dizeres: “GUIDO FALCONI ARTISTA EXCLUSIVO DA FÁBRICA DE MASSAS ‘MACCHERONI DALLA CAROPITA’.”
Guido sai, carregando a caixa e o cartaz.

SEQUÊNCIA 104 – CORREDOR DA RÁDIO – INTERIOR – DIA
Guido cruza com Glória e vê quando ela entra no escritório de Alfredo. Com passos lentos, Guido caminha na direção dos elevadores, por onde Hélio está acabando de chegar. Ao se cruzarem, Hélio cumprimenta Guido, que nem sequer se digna a olhá-lo. Hélio para e, intrigado, observa Guido entrando no elevador; depois, dá de ombros e prossegue em direção à sala de Alfredo.

SEQUÊNCIA 105 – ESCRITÓRIO DO DIRETOR DA RÁDIO – INTERIOR – DIA
Hélio entra na sala, onde já se encontra Glória.
ALFREDO – Está é a nossa mais nova contratada: Glória Campos. Glória, este é o Hélio Monteiro Filho.
Glória, com os olhos brilhando de excitação, aperta efusivamente a mão de Hélio e fala deslumbrada.
GLÓRIA – É um prazer conhecê-lo pessoalmente, Hélio. Sou uma fã incondicional do seu trabalho, a ponto de imaginá-lo como Monte Grant e O Morcego.
HÉLIO – O mesmo digo eu. Li muito a seu respeito nos últimos dias.
Hélio se curva um pouco para Glória e fala num tom de brincadeira, como se fosse uma confidência.
HÉLIO – Na verdade, O Morcego é o meu alter ego... Mas... por favor, não espalhe, hem?
Glória ri gostosamente. Está extremamente feliz.
GLÓRIA – Vou adorar trabalhar com você, Hélio. Sinto-me como uma atriz que fosse contratada para trabalhar em Hollywood.
HÉLIO – Eu sei como é.
ALFREDO – Bem, meus jovens. Temos muito que conversar...
Glória e Hélio trocam olhares significativos e nem ouvem o que Alfredo diz.
GLÓRIA (pensa) – Exatamente como eu imaginava que deveria ser o homem dos meus sonhos. Good-bye, Leo.
HÉLIO (pensa) – É muito mais interessante do que a Rita Mara, que tem só exuberância. Acho que é amor à primeira vista! Esta é a mulher da minha vida, além da mamãe e da vovó...
A voz de Alfredo volta a ser ouvida por Hélio e Glória.
ALFREDO – Creio que vocês dois juntos podem fazer muita coisa.
A voz de Alfredo é encoberta mais uma vez pelos pensamentos de Hélio e Glória.
HÉLIO (pensa) – Muito mesmo. Que tal um filho? (reprime seu próprio pensamento) Como posso estar desrespeitando a garota que mais me impressionou até hoje?
GLÓRIA (pensa) – Com ele eu faria até um filho! (ri para si mesma) Se a Paula pudesse saber deste meu pensamento... certamente soltaria um dos seus “não acredito”.
A voz de Alfredo volta a ser ouvida novamente por Hélio e Glória.
ALFREDO – A Glória será a apresentadora do Clube do Morcego, um novo programa a ser patrocinado pela “Blue King”. Ele irá ao ar imediatamente após o seriado, respondendo às cartas dos ouvintes e promovendo sorteios de brindes.
Glória arregala os olhos, incrédula, e leva a mão esquerda à boca.
GLÓRIA – Mal posso esperar! E quando eu começo?
ALFREDO – O Escorpião Escarlate está nos seus últimos capítulos. Será no próximo seriado.
Alfredo volta-se para Hélio e pergunta.
ALFREDO – Você já tem o título dele, Hélio? Precisamos começar a anunciá-lo.
HÉLIO – O Morcego Contra o Tarântula Negra.
ALFREDO – Ótimo! Uma bela jogada de marque...
Alfredo interrompe o que está dizendo, apanha um pedaço de papel e lê.
ALFREDO – De marketing.
Hélio e Glória se olham, com expressão de quem não entendeu alguma coisa.

SEQUÊNCIA 106 – APARTAMENTO DE HÉLIO – INTERIOR – NOITE
A câmera abre sobre o pôster de Rita Mara, que começa a cair para um lado.
CORTE
Para Hélio terminando de tirar o pôster de Rita e substituindo-o pela foto de Glória (a mesma foto do jornal). Brutus está sentado numa cadeira, olhando. No final, Hélio volta-se para o cachorro.
HÉLIO – Brutus, amigão, eis a dona do meu coração.
E aponta para a foto de Glória. O cachorro entorta a cabeça.
HÉLIO – Talvez você deva estar pensando aí com os seus pelos que eu sou um cara volúvel.
Hélio aproxima-se de Brutus e começa a alisar-lhe a cabeça.
HÉLIO – Mas não. Ela é a mulher dos meus sonhos! Chama-se Glória e deve vir aqui amanhã para tratarmos da criação do Clube do Morcego.
ILUMINAÇÃO DE SONHO
RITA (off) – Então, está me trocando por outra?
Hélio volta-se e vê Rita (ela está vestida com uma roupa igual à do pôster) vindo do fundo.
HÉLIO – Você deve compreender, Rita. Com Glória é diferente. Você é apenas o fruto da minha imaginação. Uma Rita diferente da que é na realidade. Pensa que eu não sei do seu romance com o sr. Alfredo Máximo? Meu amor por você era puramente platônico. Com a Glória... é diferente. É amor mesmo.
RITA – Como pode estar tão seguro, se acabou de conhecê-la?
HÉLIO – Essas coisas a gente sabe logo que acontecem.
RITA – Adeus, Hélio. Vou sentir sua falta. Tchau.
Rita caminha em direção à porta e sua imagem desvanece-se.
A ILUMINAÇÃO TORNA-SE NATURAL
HÉLIO – Estou me sentindo leve como uma pluma. Aquele Martini para comemorar a contratação da Glória está começando a fazer efeito. Acho que vou subir na mesa e dançar nu.
Brutus cobre os olhos com as duas patas.

SEQUÊNCIA 107 – SALA DO APARTAMENTO DE GLÓRIA – INTERIOR – NOITE
Glória fala ao telefone.
GLÓRIA  – Você nem imagina a minha felicidade, Paula!

SEQÜÊNCIA 108 – QUARTO DO APARTAMENTO DE PAULA – INTERIOR – NOITE
Na cama, deitada nua, ao lado de Ayrton Cardona, Paula fala ao telefone. Em nenhum momento, Ayrton para com as mãos. Paula procura esquivar-se, dando-lhe tapinhas nas mãos; entretanto, esses tapinhas são próprios de quem está gostando das carícias.
PAULA – Que aconteceu lá na rádio? Conseguiu o emprego?
TRUCAGEM
O CAMPO visual divide-se em dois quadros.


SEQUÊNCIA 107A
GLÓRIA – Consegui. Mas não é sobre isso que eu quero falar.

SEQUÊNCIA 108A
PAULA – Não é...?!

SEQUÊNCIA 107A
GLÓRIA – Se fosse só isso, você acha que eu estaria tão eufórica?

SEQUÊNCIA 108A
Ayrton beija o lóbulo da orelha de Paula.
PAULA – Que aconteceu?...
Excitada com as carícias de Ayrton, Paula fica toda arrepiada e solta alguns gemidos eróticos.

SEQUÊNCIA 107A
Glória olha admirada para o receptor do telefone, como se quisesse ver através dele. E pergunta, admirada.
GLÓRIA – Tem alguém aí com você?

SEQUÊNCIA 108A
Ayrton está sobre Paula. O telefone escapa da mão da moça. Ela pega-o de novo e ri, contorcendo-se toda.
PAULA – Tenha modos... (encontra certa dificuldade para falar com Glória) Tem. Já lhe falei dele. É o Ayrton...

SEQUÊNCIA 107A
Glória grita chocada.
GLÓRIA – PAULA!!! O seu telefone fica na mesinha de cabeceira! Vocês... estão...

SEQUÊNCIA 108A
PAULA – Na cama...
Paula procura desvencilhar-se do abraço e das mãos de Ayrton, para poder continuar a falar.
PAULA – Mas que há de tão importante, além de ter conseguido o emprego?

SEQUÊNCIA 107A
Glória readquire o entusiasmo inicial.
GLÓRIA – Conheci uma criatura incrível!

SEQÜÊNCIA 108A
Ayrton, sentado de lado na cama, acende um cigarro.
Paula respira aliviada.

PAULA – Ainda bem... Só assim você pode esquecer a sua paranoia por esse tal Morcego... Quem é ele?

SEQUÊNCIA 107A
GLÓRIA – Hélio. O criador de O Morcego...

SEQÜÊNCIA 108A
Paula está olhando para Ayrton. Sua expressão é a de quem acaba de receber um choque.
PAULA – Não acredito!
Paula se refaz e pergunta.
PAULA – E qual vai ser a sua função na rádio? Ainda não me disse.

SEQUÊNCIA 107A
GLÓRIA – Vou ser a redatora e apresentadora do Clube do Morcego!

SEQUÊNCIA 108A
Paula olha para a câmera, com expressão de assombro.
PAULA – Não acredito! Não acredito!

SEQUÊNCIA 109 – ESTÚDIO DE RADIOTEATRO – INTERIOR – NOITE
Os atores (nove ao todo: RITA MARA, HÉLIO MONTEIRO FILHO e mais seis radioatores e uma radioatriz) estão postados diante de microfones de pedestal, com os scripts nas mãos e olhando atentamente para o diretor, que também segura um script e observa o sonoplasta e o locutor, que estão no “aquário”. Mais afastado, junto à mesa de ruídos, o contrarregra examina atentamente seu script.
RITA – Não vá sumir depois do programa, como é seu costume. Preciso falar com você, Helinho.
Hélio concorda, sem desviar a atenção do diretor.

SEQUÊNCIA 110 – ESTÚDIO DE LOCUÇÃO DA RÁDIO – INTERIOR – NOITE
Locutor atento ao sonoplasta.
TÉCNICA – DEPOIS DE RODAR UM TRECHO DE “UMA NOITE NO MONTE CALVO”, DEIXA EM BG
O sonoplasta faz um sinal convencional ao locutor.
LOCUTOR – E passamos a apresentar o Capítulo 113 do eletrizante seriado de Hélio Monteiro Filho: O Escorpião Escarlate.
TÉCNICA – ELEVA E FUNDE O BG COM TEMA DE PUBLICIDADE
A câmera começa uma tomada a partir do microfone do locutor, seguindo o fio até o seu final.
FUSÃO

SEQUÊNCIA 111 – PRÉDIO DA RÁDIO – EXTERIOR – NOITE
Tomada do prédio, até a torre de transmissão no alto do edifício.
LOCUTOR (off) – A facilidade no barbear não depende somente da habilidade, mas da lâmina que se usa. Um barbeado rápido e perfeito só se consegue com as legítimas lâminas “Blue King”.
TÉCNICA – “UMA NOITE NO MONTE CALVO” EM BG
FUSÃO

SEQUÊNCIA 112 – CIDADE – EXTERIOR – NOITE
PANORÂMICA sobre os edifícios da cidade.
O MORCEGO (off) (gargalhada sibilante) – EU SOU O MORCEGO!
Venho da escuridão e para a escuridão irei.
Ninguém sabe para onde, nem como irei.
FUSÃO

SEQUÊNCIA 113 – PRÉDIO DO APARTAMENTO DE GLÓRIA – EXTERIOR – NOITE
A câmera desce pela fachada do prédio de Glória e detém-se numa das janelas do quarto andar. ZOOM em direção à janela.
O MORCEGO (off) – Onde quer que haja crime, aí estou para agir como polícia e tribunal.
FUSÃO

SEQUÊNCIA 114 – QUARTO DO APARTAMENTO DE GLÓRIA – INTERIOR – NOITE
TRAVELLING DE AVANÇO, através do quarto em penumbra, em direção à porta aberta.
O MORCEGO (off) – Onde quer que haja coisas estranhas, aí...

SEQUÊNCIA 115 – CORREDOR DO APARTAMENTO DE GLÓRIA – INTERIOR – NOITE
TRAVELLING DE AVANÇO, através do corredor na penumbra, em direção à sala, de onde passa a vir o som a partir de agora.
O MORCEGO (off) – ...estou para tornar claro o escuro.

SEQUÊNCIA 116 – SALA DO APARTAMENTO DE GLÓRIA – INTERIOR – NOITE
O MORCEGO (off) – Ninguém sabe quem...
PANORÂMICA até o rádio. Continua sem corte.
O MORCEGO (off) – ...sou ou o que sou, mas...
PANORÂMICA (sem corte) até Glória, que, reclinada no sofá e segurando um copo de leite, ouve rádio. Glória termina de beber o leite e, sem se mexer, leva o braço direito para trás e coloca o copo sobre a mesinha ao lado do sofá. Depois, relaxa e fecha os olhos.
O MORCEGO (off) – ...todos sabem o...
Uma espessa névoa começa a encobrir o cenário.

SEQUÊNCIA 117 – FUNDO NEUTRO
A face do Morcego surge meio encoberta pela névoa.
O MORCEGO – ...que faço. Todos os que praticam o mal me temem, porque... EU SOU O MORCEGO! (gargalhada sibilante)
A névoa aumenta e encobre totalmente a face de O Morcego, enquanto sua risada continua a ressoar, tétrica.
TÉCNICA – ELEVA O TEMA “UMA NOITE NO MONTE CALVO” (QUE ESTEVE EM BG), ENQUANTO PERMANECE A GARGALHADA DE O MORCEGO. POR FIM, A MÚSICA ENCOBRE A GARGALHADA

SEQUÊNCIA 118 – ESTRADA DE RODAGEM AO LADO DA VIA FÉRREA – EXTERIOR – NOITE
O carro dos asseclas do Escorpião Escarlate corre ao longo de estrada empoeirada que acompanha o leito de uma via férrea.

SEQUÊNCIA 119 – ESTRADA DE FERRO – EXTERIOR – NOITE
CÂMERA FIXA ao lado da estrada de ferro. Trem vindo ao longe. O potente farol da locomotiva ilumina o leito da estrada. A câmera corrige e focaliza o carro dos asseclas do Escorpião Escarlate chegando ao cruzamento. O carro para. O comboio passa em grande velocidade, com a locomotiva soltando fumaça que forma desenhos estranhos, sob a fraca iluminação de uma lâmpada no alto de um poste.

SEQUÊNCIAA 120 – CARRO DOS ASSECLAS DO ESCORPIÃO ESCARLATE – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
O carro dos três asseclas (de terno e chapéu) do Escorpião Escarlate leva Maggie sentada no banco de trás. Ela está entre dois bandidos.
MAGGIE – Para onde estão me levando?
BANDIDO 1 – Não se impaciente, beleza. Estamos quase chegando.
BANDIDO 2 – Mais impaciente do que você deve estar a Madame Ming.
O Bandido 2 solta uma gargalhada e passa a mão na coxa de Maggie, por sobre o vestido. Maggie atraca-se com o bandido, mas é puxada violentamente. O carro se põe em movimento (a princípio, devagar, para passar sobre os trilhos; depois, começa a ganhar velocidade). Alguns relâmpagos distantes, no céu escuro.
MAGGIE – Deixe-me em paz!
BANDIDO 2 – Você devia ter feito exatamente isso com o chefe. Devia tê-lo deixado em paz. Mas não! Quis dar uma de machona! Agora, minha queridinha... (segura o queixo de Maggie, obrigando-a a encará-lo) ...aguente as consequências. O Escorpião até lhe deu uma segunda chance, lembra-se?
MAGGIE – O Morcego sabe!
BANDIDO 1 (interrompe Maggie, com uma risada) – Que O Morcego poderá fazer? Ele tem, por acaso, uma bola de cristal, para saber aonde a estamos levando?
MAGGIE – Ele tem seus métodos! Esperem e verão!
O Bandido 3, que está dirigindo, volta a cabeça para trás .
BANDIDO 3 – Madame Ming bem que poderia, antes de “trabalhar” esse corpinho, deixar a gente se divertir um pouco com ele.
O Bandido 3 fala e solta uma risada, mostrando uma carreira de dentes que parecem de aço e um dente de ouro, que reflete um relâmpago.

SEQUÊNCIA 121 – ESTRADA DE RODAGEM – EXTERIOR – NOITE
PLANO GERAL da estrada, com o carro dos asseclas do Escorpião Escarlate em grande velocidade e levantando nuvem de poeira. Ao longo da estrada, grandes galpões, com luzes (fracas) acesas sobre suas portas. No céu escuro, alguns relâmpagos, anunciando chuva.

SEQUÊNCIA 122 – PORTARIA DO PRÉDIO DE MAGGIE – INTERIOR – DIA
Monte Grant aproxima-se da portaria onde se encontra Mike (encarnado por Macário), o porteiro, que o atende, solícito.
Simultaneamente à entrada de Monte Grant, ouve-se a voz do narrador.

NARRADOR (off) – Mas voltemos algumas horas atrás. Preocupado, por não haver encontrado Maggie na redação do jornal, Monte Grant vai ao edifício em que ela mora...
MIKE – Boa-tarde, sr. Grant.
MONTE – Boa-tarde, Mike. Você viu a srta. Maggie? No jornal, informaram-me que ela não foi trabalhar hoje.
MIKE – Eu a vi logo após o almoço. Ela até pegou uma correspondência que havia chegado minutos antes.
Mike fica pensativo. Monte percebe e pergunta, apoiando as mãos sobre a mesa e inclinando um pouco o corpo para a frente.
MONTE – Que foi, Mike?
MIKE – Quando a srta. Maggie abriu o envelope, pareceu-me que teve um choque.
MONTE – Um choque? Como era o envelope?
MIKE – Comprido e amarelo.
MONTE – Obrigado, Mike. Você ajudou muito.
Monte sai correndo. Mike coça a cabeça, sua expressão é a de quem não entendeu alguma coisa.
MIKE – Ajudei?! Ajudei em quê?

SEQUÊNCIA 123 – SANTUÁRIO DE O MORCEGO – INTERIOR – DIA
TÉCNICA – TEMA SINISTRO EM BG
Depois de uma pausa de escuridão total, ouve-se a voz do narrador.
NARRADOR (off) – A escuridão total é substituída por uma luz azulada, que aparece no centro de um quarto de paredes negras. Um esplendor quase sobrenatural cai sobre a polida superfície de uma mesa situada sob o círculo de uma lâmpada azul. Duas mãos aparecem sob o esplendor azulado. Mãos longas e de dedos pontiagudos, que combinam delicadeza e agilidade. No indicador da mão esquerda, uma grande pedra de tom avermelhado e forma oval emite reflexos. Um microfone desliza sobre a mesa, quando a mão se estende para apanhá-lo. A seguir, o microfone inclina-se um pouco para alguém poder falar. Então, uma silhueta negra destaca-se das trevas para a luz azulada.
OBSERVAÇÃO: a narração é ilustrada com as imagens (imaginadas por Glória).
O MORCEGO – Chamando Brubaker. Chamando Brubaker.
Após uma pausa, ouve-se um ligeiro estalo; e uma voz responde.
VOZ – Brubaker dando relatório. (pausa) Seguindo instruções, verifiquei antecedentes de Hop-Frog. Confirmo que ele trabalha para o Escorpião Escarlate.
O MORCEGO – Necessito que Hop-Frog seja libertado no início da noite. Facilite a fuga. Use esquema de emergência.
VOZ – Entendido. Plano em andamento. Brubaker desligando.
NARRADOR (off) – O microfone retorna ao seu lugar. A luz extingue-se lentamente, até a escuridão tornar-se novamente total. A gargalhada de O Morcego ressoa no aposento, como um fantasma invisível, até desvanecer-se.
TÉCNICA – ELEVA O BG ATÉ ENCOBRIR A GARGALHADA DE O MORCEGO

SEQUÊNCIA 124 – RUA DESERTA – EXTERIOR – NOITE
PLANO GERAL de rua comercial totalmente deserta. O calçamento de paralelepípedo está molhado por uma fina garoa.
TRAVELLING DE AVANÇO na direção da tampa de esgoto no meio de um cruzamento de duas ruas até PLANO DE DETALHE.
Após um pequeno intervalo, a tampa de esgoto é removida quase silenciosamente. Então, surge, através da abertura, uma cara deformada, com um olho descarnado.
TRAVELLING DE RECUO até voltar a PLANO GERAL da rua.
Aos poucos, a imagem grotesca de Hop-Frog emerge do buraco. O homúnculo fica por um momento parado. Olha para um lado e para o outro. Coloca a tampa no lugar e, aos pulos, como um sapo, dirige-se para um sedã preto estacionado na rua transversal.

CORTE
Através das janelas abertas do carro, entra em FOCO a chave na ignição, ficando desfocada a imagem de Hop-Frog aproximando-se com seu andar que se assemelha ao de um sapo. Hop-Frog chega até o carro e entra pela porta do lado do motorista. Balança a cabeça disforme e emite um som que deve ser uma risada, enquanto se ajeita diante do volante. Dá a partida. O carro arranca, chiando os pneus.
CÂMERA FIXA fazendo correção para o carro desaparecendo em grande velocidade ao longo da rua deserta e molhada pela fina garoa.
Em cima da imagem,

O MORCEGO (off)(gargalhada sibilante)
Gargalhada é encoberta por
TÉCNICA – PASSAGEM MUSICAL SINISTRA
ÍRIS se fechar sobre o carro, ao longe.
ESCURECIMENTO

SEQUÊNCIA 125 – SALA DO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – INTERIOR – NOITE
ESCURECIMENTO
ÍRIS abre
Maggie é encarnada por Glória.

NARRADOR (off) – Enquanto O Morcego se movimenta para socorrer Maggie, vamos nós, antes dele, acompanhar os acontecimentos com a destemida repórter do Herald.
MAGGIE (off) – O... onde... estou?
O Bandido 3 está sorrindo e mostrando os dentes de aço.
BANDIDO 3 – Você está nos domínios de Madame Ming, a rainha dos engenhos infernais. Ela conhece sua profissão como poucos. Aprendeu muito como aluna emérita de Adolf Eichmann, o carrasco nazista.
O Bandido 3 tenta abraçar Maggie, mas ela lhe dá um safanão. Os outros dois asseclas dão risadas cínicas e debochadas.
BANDIDO 2 – Logo essa valentia de loba defendendo seus filhotes irá pro brejo! Estou certo disso!
BANDIDO 3 – Você me deixa louco, garota! Eu não resisto a uma carinha de anjo...
E, num movimento inesperado e rápido, o Bandido 3 toma Maggie à força e beija-lhe a boca. Maggie debate-se desesperadamente, tentando escapar dos braços do bandido. Por fim, acerta uma joelhada no baixo ventre do homem, que solta um grito e enverga-se, enquanto os outros dois bandidos dão risadas cínicas.
Maggie, com expressão de nojo, limpa várias vezes os lábios com as costas da mão.

MAGGIE (com ódio) – Maldito!
BANDIDO 1 – Vamos, Carl! Madame Ming não gostaria de saber...
BANDIDO 3 – Vá para o inferno!
O Bandido 3 afasta-se, andando todo torto. Os outros dois seguem-no.
BANDIDO 3 (voltando-se na direção de Maggie) – Adeuzinho, beleza; e só posso desejar-lhe uma feliz estada.
Os três asseclas saem, e a porta é trancada com estrondo.
Maggie fica sozinha na sala, que não é muito grande e não tem nenhuma janela. Na sala há apenas uma cadeira e uma tela (a cadeira está voltada para a tela, que está fixa numa das paredes).


SEQUÊNCIA 126 – ESCONDERIJO DO ESCORPIÃO ESCARLATE – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
Sentado diante de um receptor de imagens, o Escorpião Escarlate observa Maggie no interior da sala. Maggie deixa-se cair na cadeira e soluça. O Escorpião fala, sem que se veja nenhum microfone. E, tão logo começa a falar, Maggie olha para ele, através da tela.
ESCORPIÃO – Então, a destemida repórter está fraquejando? Onde está aquela mulher arrogante e destemida?

SEQUÊNCIA 127 – SALA DO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
Maggie, sentada, vê o Escorpião Escarlate através da tela.
MAGGIE – Que quer de mim?
O Escorpião sorri.
ESCORPIÃO – Que pergunta mais tola! Que eu posso querer de você?
MAGGIE – Suas ameaças, sejam quais forem, não me intimidam.
O Escorpião Escarlate torna-se sério. Sua expressão é dura e ameaçadora.
ESCORPIÃO – Você vai voltar para o seu jornal e escrever uma nota desmentindo tudo o que tem dito nos seus artigos.
MAGGIE – E se eu não lhe obedecer?
ESCORPIÃO – Se não me obedecer, terei de eliminá-la. E Madame Ming o fará sem hesitação, usando métodos poucos ortodoxos. Para mim, você não é uma mulher bonita. É apenas um empecilho. Escolha.

SEQUÊNCIA 128 – SALA DE MADAME MING – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
Enquanto acaricia o gato junto ao colo, Madame Ming observa, através de uma tela, o Escorpião Escarlate conversando com Maggie.
MING – O Escorpião está fraquejando. E isso é mau, Satã. Ele nunca agiu assim com ninguém.
MAGGIE – Não farei nada disso! Porque, antes que você encoste um dedo em mim, terá de enfrentar O Morcego!
O Escorpião Escarlate assume uma atitude benevolente.
ESCORPIÃO – Conhecia duas qualidades em você, Maggie Raines: beleza e destemor. Agora, estou conhecendo mais uma: ingenuidade. Você está nos domínios de Madame Ming, um local secreto, conhecido somente por poucas pessoas e todas de inteira confiança. Por isso, não conte com seu arremedo de herói.
MING (com ódio) – Maldito! Mil vezes maldito! Que está esperando para me entregar essa vagabunda? Vou deixar esse corpinho mais furado que ralador de queijo!
O gato olha para Madame Ming e mostra as longas e afiadas garras.

SEQUÊNCIA 129 – SALA DO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
Maggie, sentada na cadeira, vê o Escorpião Escarlate através da tela.
MAGGIE – Suas ameaças não me dizem nada. Tenho certeza de que, neste momento, O Morcego...
ESCORPIÃO (irritado) – Muito bem, mocinha! Sua teimosia é irritante. Mas aprendi a cultivar a paciência. Muito embora nunca tenha dado uma segunda chance a ninguém, estou abrindo uma exceção a você: sua vida em troca de uma nota de desmentido no seu jornal. Só isso!
MAGGIE – Eu jamais faria uma coisa dessas! O dito está dito! E tudo o que eu disse é verdade. Você é um bandido desalmado, e tudo farei para destruí-lo!
ESCORPIÃO – Você não está em situação de agir desse modo. Escolha: sua vida em troca de uma simples nota dizendo que tudo não passou de um delírio da sua imaginação. Reflita sobre essa proposta.
A imagem do Escorpião Escarlate desaparece. No seu lugar surge o desenho de um escorpião vermelho.
CÂMERA ALTA
Maggie permanece sentada, olhando para a tela.

SEQUÊNCIA 130 – ESTRADA DE RODAGEM COM ENTRONCAMENTO FERROVIÁRIO E ESTAÇÃOZINHA – EXTERIOR – NOITE
O cupê de O Morcego se aproxima de um entrocamento ferroviário. A estrada faz uma curva e fica paralela à via férrea. Uma chuva fina cai persistentemente.

SEQUÊNCIA 131 – CARRO DE O MORCEGO – INTERIOR – NOITE
O limpador de para-brisas trabalha com um ruído monótono. Logo adiante do entroncamento, O Morcego olha para um pequeno aparelho adaptado ao painel de seu carro.
CORTE
DETALHE do detector no painel. O seu ruído, bip-bip, é acompanhado por uma lâmpada vermelha que apaga e acende.
CORTE
O carro de O Morcego atravessa a linha férrea, por onde, instantes mais tarde, começa a passar uma longa composição de vagões de carga.
O MORCEGO – Pelo rastreador que Brubaker colocou no carro de Hop-Frog, tudo indica que ele não está longe daqui. Encontrando-o, encontro também Maggie.

SEQUÊNCIA 132 – SALA DO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
Maggie está nervosa, andando de um lado para o outro. Para e olha para a tela com o escorpião vermelho.
MAGGIE (pensa) – Em algum ponto deste quarto, deve haver uma câmera oculta. Certamente, o Escorpião Escarlate deve estar me observando.

SEQUÊNCIA 133 – ESCONDERIJO DO ESCORPIÃO ESCARLATE  – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
O Escorpião Escarlate, através do receptor de imagens, observa Maggie andando nervosamente pela sala.
ESCORPIÃO – Seus nervos devem estar em frangalhos. Quero me divertir mais um pouco, antes de entregá-la para Madame Ming. Vamos ver qual vai ser sua reação.
O Escorpião Escarlate puxa uma pequena alavanca no painel de comando.

SEQUÊNCIA 134 – SALA DO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
Um ruído  indefinido, vindo de uma das paredes, chama a atenção de Maggie. Parada no centro do quarto, Maggie vê parte da parede abrir-se e surgir um túnel.
MAGGIE – Uma passagem secreta. O Escorpião Escarlate deve ter algum plano em mente.
Um tanto indecisa, Maggie aproxima-se da abertura do túnel.

SEQUÊNCIA 135 – TÚNEL DO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
O túnel de pedra, iluminado por archotes presos às paredes por suportes imitando braços humanos, começa a ser trilhado cautelosamente por Maggie.

SEQUÊNCIA 136 – ESCONDERIJO DO ESCORPIÃO ESCARLATE – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
O Escorpião observa Maggie através do receptor de imagens.
ESCORPIÃO – Espanta-me a coragem dessa garota! Tenho de reconhecer: é destemida e impulsiva. Pena que seu fim esteja próximo... E tudo por culpa dela mesma.

SEQUÊNCIA 137 – SALA DE MADAME MING – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
Impaciente, Madame Ming, com Satã no colo, caminha de um lado para o outro e, de vez em quando, dirige o olhar para a tela, que mostra Maggie no interior do túnel. Em dado momento, Madame Ming para diante da tela, como se compreendesse  o que está acontecendo.

MING – Ah, Satã, agora compreendo o plano do Escorpião Escarlate; ele quer brincar um pouco de gato e rato... Isso você entende bem, não, meu querido? Ele quer prolongar a agonia dessa estúpida repórter que ousou desafiar o maior gênio do crime, o único rival de Fu-Manchu!
Madame Ming aproxima-se da tela e começa a acariciar a imagem de Maggie.
MING – Isso, queridinha! Continue andando e logo você cairá na ratoeira!
Madame Ming ri sinistramente, enquanto acaricia a imagem de Maggie.
MING – Aí, nada a salvará!

SEQUÊNCIA 138 – ESTRADA DE ACESSO AO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – EXTERIOR – NOITE
O carro de O Morcego chega a uma estrada estreita, mas bem pavimentada. Enveredando  por ela, o veículo sobe uma encosta sem árvores.

SEQUÊNCIA 139 – CARRO DE O MORCEGO – INTERIOR – NOITE
O Morcego avista a colina distante.
A lua havia surgido no horizonte; e, agora, o luar delineia os contornos da colina. E, à distância, O Morcego vê a silhueta do Palácio dos Suplícios.
A velha construção é a única habitação daquela região solitária.
CORTE
Para o detector emitindo um
bip-bip mais forte, enquanto a lâmpada vermelha apaga e acende com mais intensidade.
O MORCEGO – (gargalhada sibilante)

SEQUÊNCIA 140 – ESTRADA DE ACESSO AO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – EXTERIOR – NOITE
PANORÂMICA pelas copas das árvores até PLANO GERAL da colina com o Palácio dos Suplícios, enquanto ressoa a gargalhada de O Morcego.

SEQUÊNCIA 141 – SALA DO APARTAMENTO DE GLÓRIA – INTERIOR – NOITE
GRANDE PLANO  de Glória. Muito aflita, ela morde o dedo indicador.
GLÓRIA – Tenho certeza de que O Morcego salvará Maggie, castigará essa miserável da Madame Ming e desmascarará o Escorpião Escarlate!
A câmera faz correção até o aparelho de rádio.
NARRADOR (off) – A destemida Maggie continua a caminhar pelo longo túnel iluminado pelas chamas dos archotes. Sem saber, ela aproxima-se inexoravelmente do triste destino que a aguarda.
TÉCNICA – TEMA SINISTRO EM BG
MING (off) – Isso, queridinha! A cada passo, você está mais próxima de cair nas minhas garras! (riso sádico)
ESCORPIÃO (off) – Dei-lhe uma segunda chance, Maggie Raines! Não a aceitou. Agora, meu plano é irreversível, sem nenhuma chance de O Morcego salvá-la!
CORTE
Glória atinge o auge da aflição.
GLÓRIA – Meu Deus! Que será que esse miserável pensa fazer com a Maggie? E O Morcego? E O Morcego... que não aparece?!

SEQUÊNCIA 142 – TÚNEL DO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
Com muita cautela, Maggie continua caminhando pelo túnel fantasticamente iluminado pelos archotes. A repórter chega a um trecho em que os archotes rareiam, e sua sombra alongada e distorcida é refletida contra a parede de pedra.  Continua a caminhar e chega à frente de uma pesada porta. Para e examina a porta. Não encontra nenhum trinco ou fechadura.

SEQUÊNCIA 143 – SALA DE MADAME MING – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
GRANDE PLANO de Satã no colo de Madame Ming. A câmera corrige e enquadra a tela mostrando Maggie parada junto à porta. A mão de Madame Ming entra no CAMPO da imagem e alisa a tela.
CORTE
Enquadrando Madame Ming (ela segurando o gato e acariciando a imagem de Maggie).
MING – Que o Escorpião está esperando que não abre essa maldita porta e deixa essa mulherzinha cair de uma vez nas minhas garras?!
Enquanto Madame Ming fala, a câmera faz uma PANORÂMICA CIRCULAR em torno da mulher até enquadrar, ao fundo, os três asseclas de terno e chapéu e Hop-Frog, que está entrando. O gato rosna, arrepiando-se todo.
CORTE
Madame Ming volta-se e sorri, alisando o gato.
MING – Que isso, Satã? Não está conhecendo mais nosso velho amigo Hop-Frog?
Com seu caminhar característico, Hop-Frog aproxima-se.
MING – Você ficou tanto tempo na “sombra” que Satã o estranhou. Qual foi o milagre que fez você escapar?
HOP-FROG – Tenho meus métodos...
A atenção de Hop-Frog está voltada para a imagem de Maggie. Em seguida, Hop-Frog esfrega as mãos e faz um arremedo de sorriso, enquanto emite um grunhido.
HOP-FROG – Humm...

SEQUÊNCIA 144 – ESCONDERIJO DO ESCORPIÃO ESCALARTE – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
O Escorpião Escarlate tem sua atenção presa na imagem de Maggie diante da porta. A mão direita do bandido movimenta uma alavanca no painel de comando, e a porta abre-se lentamente.
ESCORPIÃO – Lamento...  Sinceramente que eu lamento. Mas foi você que pediu. O resto agora é com Madame Ming.

SEQUÊNCIA 145 – SALA DE MADAME MING – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
Madame Ming acaricia o gato, enquanto observa Maggie entrar na Sala de Torturas. Ao lado de Madame Ming, Hop-Frog mantém seu olhar bestial preso na tela, como se estivesse hipnotizado.
MING – É pena! Você é linda... e corajosa. Mas nada se pode fazer. Vamos, rapazes!
Madame Ming põe, carinhosamente, a mão livre no ombro de Hop-Frog.

SEQUÊNCIA 146 – ESCONDERIJO DO ESCORPIÃO ESCARLATE – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
Através do receptor de imagens, o Escorpião Escarlate observa Maggie no interior da Sala de Torturas. Maggiea olha os vários instrumentos de tortura sobre uma mesa tosca. Preso à parede, por poderosas correntes, está um homem com o dorso nu. Foi torturado, e sua cabeça pende-lhe para o peito. Maggie recua horrorizada. Mas, refazendo-se, aproxima-se e constata que ele ainda está vivo.
O homem geme, como se estivesse sofrendo muito, esforça-se e ergue a cabeça. Os olhos, que estão machucados, abrem-se um pouco.

TORTURADO – Água... água...
Maggie olha em volta e vê uma lata com água e uma concha. Enche a concha com água e ajuda o homem a beber, erguendo-lhe a cabeça.
TORTURADO – Deus... lhe pague...
Maggie tenta livrar o homem das correntes, mas não consegue.
MAGGIE – Perdoe-me... mas não tenho condição de soltá-lo. Sinto muito.
ESCORPIÃO – Tenho de reconhecer. É uma mulher valente. Uma pena que seja tão teimosa.
Nesse momento, por uma outra porta, entram os três bandidos, seguidos por Madame Ming (ela está com o gato no colo) e Hop-Frog. Ao ver Hop-Frog, o Escorpião Escarlate leva um choque.
ESCORPIÃO – HOP-FROG!!! Mas ele estava preso!

SEQUÊNCIA 147 – PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – EXTERIOR – NOITE
O cupê de O Morcego chega ao topo da colina e faz uma ligeira parada. Depois, envereda por um atalho de terra e para num recanto escuro e protegido por árvores frondosas. O vulto negro emerge do interior do veículo e sorrateiramente desliza para a frente da mansão. Olhos penetrantes vasculham o local. Além da mansão, outro edifício é visível ao luar. É a garagem. Conservando-se nas sombras, O Morcego vai até a garagem, força a porta e consegue abri-la.

SEQUÊNCIA 148 – GARAGEM DO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS  – INTERIOR – NOITE
No interior da garagem, O Morcego acende uma lanterna. O facho de luz percorre os três carros ali estacionados. Um deles é o que serviu para a fuga de Hop-Frog.
O Morcego dirige-se para a traseira do carro, abaixa-se e retira do canto do para-choque um pequeno instrumento negro: o detector que serviu para seu rastreamento.


SEQÜÊNCIA 149 – SALA DE TORTURAS DO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
Maggie luta desesperadamente com os três bandidos. Mas logo é agarrada e dominada por Hop-Frog, que, embora sendo um ser atarracado, é dono de uma força descomunal. Agarrando Maggie pela cintura, ele a arrasta na direção de um dos aparelhos de tortura.
MING – Você veio ao lugar certo, queridinha.
A tela numa das paredes se ilumina e aparece nela a imagem do Escorpião Escarlate. Todos voltam sua atenção para a tela, inclusive Hop-Frog, que segura Maggie apenas com um braço, como quem segura uma manequim de loja. Maggie esperneia muito.
ESCORPIÃO – A fuga de Hop-Frog deve ter sido um estratagema usado por O Morcego para descobrir este lugar.
MING – Se O Morcego teve essa infeliz ideia, terá as nossas boas-vindas.
Madame Ming dirige-se aos três bandidos.
MING – Quero que vasculhem as redondezas! Esta vai ser uma noite memorável.
MAGGIE – Desista! O Morcego tem o dom de se tornar invisível à noite. Vocês nunca o pegarão!
MING – Ainda continua arrogante! Vamos ver para onde irá toda essa arrogância dentro em pouco.
MAGGIE (com desdém) – Você não passa de uma reles! Suas ameaças não me metem medo!
Sem poder controlar seu ódio, Madame Ming dá um violento tapa na face de Maggie; e o gato rosna com os pelos eriçados, querendo saltar sobre a repórter.
Madame Ming procura controlar-se, embora seu busto ainda mostre o contrário, numa respiração descompassada.
MING – Calma, Satã! A mocinha aí é fanfarrona!
Madame Satã se volta para Hop-Frog, seus olhos brilham quase num êxtase incontido.
MING – Amarre-a!
Como se estivesse levantando um fardo de algodão, Hop-Frog coloca o corpo frágil de  Maggie sobre uma mesa. Em seguida, prende-lhe, com fortes correias fixas na mesa, os tornozelos e os pulsos.
MING – Não imagina com que ansiedade aguardei este momento!
Madame Ming aproxima sua face à de Maggie e, num esgar sádico, move lentamente os lábios, mostrando os dentes e a língua, que mais parece um tentáculo.
MING – E guardei um “brinquedinho” para algo muito especial. E esse algo muito especial...
CORTE
GRANDE PLANO das faces de Madame Ming e de Maggie.
A face de Madame Ming transforma-se numa máscara de ódio. Os olhos cintilam, e os lábios tremem.

MING – ...é você!
CORTE
PLANO GERAL mostrando pela primeira vez o engenho onde Maggie se encontra: acima da mesa, uma prancha com toda sua superfície tomada por lâminas afiadas e pontiagudas.
Madame Ming reassume sua pose impassível, acaricia o gato junto ao colo e comenta, referindo-se à prancha mortífera.

MING – Sabe que você irá ter uma visão magnífica? Poucos têm este privilégio que você terá: a de ver a morte chegar, passo a passo, centímetro por centímetro.
A mulher puxa uma alavanca.
CORTE
Com um ruído contínuo, a prancha começa a descer.
CORTE
MING – Sabe que esse engenho foi imaginado por mim?
Madame Ming fala e acaricia o pelo do gato.
MING – Sei que não é o mais original, mas foi o que escolhi para você. Só lamento que você tenha uma só vida.
Hop-Frog se aproxima, depois de examinar o homem acorrentado.
HOP-FROG – O “gajo” morreu, Madame Ming.
MING – Uma pena. Pensei em divertir-me um pouco mais com ele.
MAGGIE – Você é uma sádica! Tenho pena de você.
Madame Ming sorri cínica.
MING – Eu a perdoo. Tudo é tolerável... vindo de uma moribunda.
Hop-Frog olha para o alto e fixa a prancha. As pontas afiadas reluzem e faíscam à iluminação.
HOP-FROG – Dentro em pouco, esse corpinho vai ficar tão furado como chuveiro. Só que, em vez de água, vai verter sangue!
Ao mesmo tempo em que fala, o bandido rasga as vestes de Maggie, deixando-a seminua.
HOP-FROG – Fica melhor assim!

SEQUÊNCIA 150 – PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – EXTERIOR – NOITE
TÉCNICA – TEMA DE MISTÉRIO ELEVANDO E VOLTANDO A BG, PONTUANDO A NARRAÇÃO
NARRADOR (off) – Iluminada pelo luar, uma figura solitária olha a velha mansão de muros pardacentos. Coberto com um manto negro, aquela aparição, que se assemelha a uma mancha e quase se confunde com as sombras projetadas pelo luar, observa atentamente. Parece uma alma do outro mundo que vem assombrar o reduto de morte de Madame Ming, como se encarnasse todos aqueles que ali pereceram sob a fúria assassina da diabólica mulher e a crueldade do Escorpião Escarlate.
Depois de algum tempo observando a mansão, a estranha figura esgueira-se pelas sombras. Sua vestimenta negra confunde-se com a escuridão. Todo o terreno molhado reflete o luar.
Ao atravessar um trecho mais escuro, a figura de preto desaparece por completo, reaparecendo mais adiante sob a claridade difusa de um bico de luz pendente por sobre uma porta.
OBSERVAÇÃO: A narração deve ser ilustrada com as imagens da SEQUÊNCIA 150.

SEQUÊNCIA 151 – PÁTIO DOS FUNDOS DO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – EXTERIOR – NOITE
BANDIDO 2 – Lá está ele, Carl!
A exclamação excitada do bandido vem uma fração de segundo antes de seu comparsa disparar a arma. Esse pequeno erro é fatal para ele, porque dá tempo a O Morcego de se refugiar num vão da parede e desviar-se da bala, que se perde no vazio. Em seguida, a automática 45 empunhada por O Morcego cospe chamas alaranjadas, e o bandido que havia advertido Carl torna-se um alvo fácil. O homem recebe o impacto no peito. É jogado violentamente para trás, dá um rodopio e vai estatelar-se numa poça de água.
Enquanto isso, Carl, desesperado, começa a atirar na direção de onde haviam partido as línguas de fogo. Porém, nada acontece. Sentindo-se desprotegido, o bandido corre na direção de um quartinho de madeira, atrás do qual está um bosque iluminado pelo luar.

BANDIDO 1 – Que aconteceu, Carl?
De arma em punho, o Bandido 1 – atraído pelos disparos, ele havia dobrado a esquina oeste da mansão – olha para Carl, que continua a correr na direção do quartinho e nem sequer responde à pergunta.
BANDIDO 1 – Ei, Carl...
A frase é dita no instante em que o Bandido 1 vê o companheiro morto. Tomado por um pânico incontrolável e rodopiando sobre si mesmo, o bandido grita em busca do inimigo oculto.
BANDIDO 1 – Onde você está? Por que não aparece?
A resposta é uma gargalhada fantasmagórica, vinda de lugar indeterminado.
O MORCEGO (off)(risada)
Completamente fora de si, o bandido atira a esmo.
BANDIDO 1 – Vamos, apareça!
CORTE
Uma mão enluvada tira o calço de uma pilha de tambores. Imediatamente, os tambores começam a rolar pelo terreno em declive. Sem tempo para fugir, o bandido é apanhado em cheio, enquanto a gargalhada continua a ressoar pelo pátio.

SEQUÊNCIA 152 – SALA DE TORTURAS DO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – INTERIOR – NOITE
A prancha com as afiadas e pontiagudas lâminas se encontra a pouco mais de meio metro do corpo de Maggie.
MING – Hop-Frog, vá ver o que está acontecendo lá fora!
Hop-Frog se afasta, dando ainda um último olhar na direção de Maggie; e sua boca se abre num arremedo de sorriso.
Madame Ming se inclina sobre Maggie, mas tem o cuidado de ficar fora do alcance das lâminas. Depois, fazendo trejeitos com a boca e com os olhos brilhando, fala.
MING – Satã e eu apreciaríamos muito ficar até o fim! É um espetáculo encantador! É excitante vermos as pontas das lâminas entrando muito lentamente na carne macia, perfurando-a... É uma pena, Maggie... mas tenho de ir! Adeus!
Madame Ming sai.
CORTE
Maggie geme e contorce-se, procurando livrar-se das amarras, enquanto o engenho da morte desce... com o seu ruído contínuo.

SEQUÊNCIA 153 – QUARTINHO DE MADEIRA DO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – INTERIOR – NOITE
O quartinho é um depósito de entulhos. Uma ratazana aparece sobre uma caixa, ergue seu longo focinho e fareja o ar. Depois, volta rapidamente para seu esconderijo, ao perceber a chegada intempestiva de Carl, que se aproxima da única janela do cômodo e olha para fora.

SEQUÊNCIA 154 – PÁTIO DOS FUNDOS DO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – EXTERIOR – NOITE
O pátio, visto (através de um dos vidros empoeirados da janela do quartinho) por Carl, está mergulhado numa escuridão total.
Aos poucos, a escuridão cede lugar a uma tênue claridade que vai avançando (mostrar nuvens correndo e desobstruindo a lua).
O luar, muito brilhante, projeta no pátio a sombra do velho e espectral edifício pardacento.
Uma sombra começa a avançar em direção ao quartinho. Há algo de peculiar nessa sombra: ela parece flutuar sobre o solo.
Entra em CAMPO, em PLANO DE DETALHE, a mão de Carl, empunhando uma pistola e quebrando, com o cano da arma, um dos vidros da janela.

CARL (off) – Ah! Aí está você!
Ao mesmo tempo em que fala, Carl dispara a arma na direção da sombra.
CARL (off) – Enfim, eu o peguei, maldito!
As balas não produzem efeito algum sobre aquela sombra que continua avançando, enquanto se ouve uma risada vinda de lugar indeterminado.
O MORCEGO (off)(risada)
CONTRACAMPO
A face de Carl vista através do vidro quebrado da janela. Sua boca com dentes de aço se abre numa expressão de pânico e perplexidade.
CORTE
PLANO DE DETALHE da mão enluvada de O Morcego empunhando a automática 45.
TRUCAGEM
Chama alaranjada abrangendo todo o CAMPO da imagem.
TÉCNICA – EXPLOSÃO
CORTE
A face de Carl sendo atingida pelo projétil no meio da testa, com a boca escancarada e o dente de ouro emitindo um reflexo, ao mesmo tempo em que se amplia a risada fantasmagórica de O Morcego.
TÉCNICA – TEMA TÉTRICO ENCOBRE A RISADA E PERMANECE EM BG
NARRADOR (off) – Tudo não passou de um estratagema de O Morcego. Ele pendurou sua capa num fio condutor de eletricidade ligeiramente inclinado, fazendo com que a capa começasse a deslizar lentamente. A sombra projetada pela lua deu uma falsa realidade a Carl, que, ao disparar sua arma, revelou sua localização (estava junto à janela do quartinho). E, pela segunda vez naquela noite, a 45 de O Morcego cuspiu chamas alaranjadas, condutoras de morte.
OBSERVAÇÃO: A narração deve ser ilustrada com imagens explicativas de O Morcego montando a armadilha.
TÉCNICA – DIMINUIR TEMA, QUE É ENCOBERTO PELA RISADA DE O MORCEGO
O MORCEGO (off)(risada prolongada)
TÉCNICA – RISADA PROLONGADA POR CÂMARA DE ECO, ATÉ DESVANECER
TRUCAGEM
A TELA DIVIDE-SE EM QUATRO QUADROS

PRIMEIRO QUADRO
SEQUÊNCIA 155 – SALA DE TORTURAS DO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
A prancha continua a descer em direção a Maggie, que, desesperada, tenta libertar-se das amarras.

SEGUNDO QUADRO
SEQUÊNCIA 156 – GARAGEM DO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – INTERIOR – NOITE
Madame Ming, carregando seu gato, entra num dos veículos ali estacionados. O motor é ligado, e o carro desliza em direção à saída.

SEQUÊNCIA 157 – PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – EXTERIOR – NOITE
O veículo de Madame Ming deixa a garagem e envereda pela estrada da colina.

TERCEIRO QUADRO
SEQUÊNCIA 158 – PÁTIO DOS FUNDOS DO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – EXTERIOR – NOITE
O Morcego, uma sombra vaga, move-se sorrateiramente e dirige-se até o fundo do pátio, onde se ergue um telheiro de zinco sustentado por vigas de madeira. O local está cheio de entulho (tijolos, telhas etc); num canto, há um transformador e, próximo dele, um latão de óleo cru.
O Morcego esconde-se atrás de uma pilha de tijolos e espera.
CORTE
Uma porta da velha mansão abre-se; e uma luz tênue, vinda do interior da casa, recorta a silhueta disforme de Hop-Frog.
CORTE
Silenciosamente, O Morcego caminha no meio das sombras, chega ao transformador e coloca-o em funcionamento. Depois, corre até o latão de óleo cru e entorna-o.

TRAVELLING DE RECUO acompanhando a mancha de óleo deslizando pelo piso do pátio.

QUARTO QUADRO
SEQUÊNCIA 159 – PÁTIO DOS FUNDOS DO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – EXTERIOR – NOITE
PLANO MÉDIO da porta da mansão abrindo-se. A luz vaga vinda do interior da casa recorta a silhueta disforme de Hop-Frog. Quando começa a andar lentamente pelo pátio, com uma pistola em riste, o bandido tem sua figura atarracada delineada pelo luar.
Ao encontrar os dois companheiros mortos, a expressão de Hop-Frog é de ferocidade. Ele olha para os lados, em busca do inimigo oculto. Então, ouve o ruído do transformador sendo ligado. Dá um salto para trás, olha na direção do transformador e dispara duas vezes.
Nesse instante, sua atenção se volta para a estranha mancha escura que corre pelo pátio e vem em sua direção.

TRUCAGEM
O QUARTO QUADRO ABRE-SE E ABRANGE TODO O CAMPO VISUAL

SEQUÊNCIA 160 – PÁTIO DOS FUNDOS DO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – EXTERIOR – NOITE
O pescoço de Hop-Frog é enlaçado por uma corda fina; e seu corpo é arrastado, escorrega no óleo, perde o equilíbrio e cai sobre o transformador. Sua cabeça, presa sob a correia que gira sobre duas polias, faz seu corpo girar acima do solo como se fosse um eixo desgovernado, ao mesmo tempo em que se ouve a risada sibilante de O Morcego.
O MORCEGO (off)(risada)

SEQUÊNCIA 161 – SALA DE TORTURAS DO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
As pontas das lâminas se encontram a poucos centímetros do corpo de Maggie. A moça geme desesperada.

SEQUÊNCIA 162 – PÁTIO DOS FUNDOS DO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – EXTERIOR – NOITE
O Morcego sai de trás de uma pilha de tijolos.

SEQUÊNCIA 163 – SALA DE TORTURAS DO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
A prancha com as lâminas pontiagudas está cada vez mais próxima do corpo de Maggie. A moça chora desesperada.

SEQUÊNCIA 164 – PÁTIO DOS FUNDOS DO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – EXTERIOR – NOITE
O Morcego entra pela porta por onde Hop-Frog saiu.

SEQUÊNCIA 165 – SALA DE TORTURAS DO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
A prancha com as lâminas pontiagudas está a menos de um centímetro do corpo de Maggie. A moça chora desesperada e clama por socorro.

SEQUÊNCIA 166 – CORREDOR DO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – INTERIOR – NOITE
O Morcego, correndo ao longo do corredor, ouve o ruído contínuo do engenho da morte.

SEQUÊNCIA 167 – SALA DE TORTURAS DO PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
PLANO DE DETALHE da alavanca de controle da prancha. Ao fundo, O Morcego precipitando-se pela porta.
O MORCEGO – Maggie!!!
O Morcego corre e puxa a alavanca, detendo as pontas das lâminas, que já estão quase encostando no corpo de Maggie. A moça não resiste ao pavor e desmaia.

SEQUÊNCIA 168 – PALÁCIO DOS SUPLÍCIOS – EXTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
Sentado num latão de lixo, um gato observa, de olhos parados, o pátio, que está mergulhado em silêncio e iluminado pelo clarão da lua, e vê O Morcego carregando o corpo inerte de Maggie.

SEQUÊNCIA 169 – CORREDOR DA RÁDIO – INTERIOR – NOITE
Rita pega Hélio pelo braço e empurra-o para dentro de uma sala.

SEQUÊNCIA 170 – SALA DE GUIDO FALCONI NA RÁDIO – INTERIOR – NOITE
Rita fecha a porta com o pé, enquanto beija e acaricia a nuca de Hélio.
RITA (meiga) – Sempre o achei um cara bacana e interessante, mas você nunca se dignou sequer falar comigo.
HÉLIO – Encaro o meu trabalho profissionalmente e não gosto de misturar as coisas.
RITA (explode) –  Droga! Não se trata de misturar as coisas (volta ao tom anterior) Que impede você, autor e ator do seriado, e eu, a estrela, de sermos...?
Rita esfrega seu nariz no de Hélio.
HÉLIO – Isso não daria certo, Rita. Antes... talvez, desse.
RITA – “Antes”?! Antes de quê?
Hélio procura desconversar.
HÉLIO – Sei lá...
RITA – Fiquei sabendo da criação do Clube do Morcego...
Rita começa a desabotoar a blusa. Seus lindos seios sobem e descem, numa respiração ofegante.
RITA – E eu gostaria de ser a apresentadora...
Rita continua tentando Hélio com suas carícias e provocações.
HÉLIO – Isso você tem de discutir com o Máximo. Afinal, ele é o diretor da rádio. Só a ele cabe designar quem vai ser a apresentadora do programa.
Hélio está embaraçado, ante a insistência de Rita e as carícias cada vez mais ousadas da mulher.
RITA – Mas, como autor do seriado, você pode opinar, meu bem.
HÉLIO – Olha, Rita, é melhor você se entender com o Máximo. Agora, se me der licença, eu tenho de ir.
Hélio se desvencilha dos braços de Rita e sai, deixando a porta apenas encostada. Rita fica parada no meio da sala, com o olhar destilando ódio e batendo a ponta do sapato (os sapatos devem ser de verniz e de salto alto) no chão.
RITA (com raiva) – Nesse toco tem mel. Pensa que eu não percebia os olhares que esse paspalho me dava? Eu é que nunca lhe dei “bola”; e, agora, está tirando o corpo fora! Por quê?
O contrarregra entra, trazendo uma cadeira; mas faz menção de voltar, ao ver Rita.
CONTRARREGRA – Ah, desculpe-me, dona Rita.
RITA – Pode entrar.
O contrarregra entra e fica segurando a cadeira, enquanto fala.
CONTRARREGRA – Eu não sabia que a senhora estava aqui. Esta era a sala do sr. Falconi. Eu tenho de arrumá-la para a nova contratada.
Rita estranha e dá um passo em direção ao contrarregra, que coloca a cadeira no chão.
RITA – Nova contratada?! Que nova contratada?
CONTRARREGRA – A senhora ainda não sabe? Glória Campos, aquela moça que está nos jornais!
RITA – E ela vai ter uma sala para ela?
CONTRARREGRA – Aqui vai ser o escritório do Clube do Morcego, que será apresentado pela Glória.
Rita explode.
RITA – Ninguém faz Rita Mara de palhaço!
Enquanto fala, Rita sai intempestivamente da sala.
O contrarregra senta na cadeira e, sem compreender o que está acontecendo, coça a cabeça.

CONTRARREGRA – Será que falei demais?

SEQUÊNCIA 171 – ESCRITÓRIO DO DIRETOR DA RÁDIO – EXTERIOR – DIA
Rita entra como um furacão no escritório de Alfredo, que se levanta assustado e vai recebê-la de braços abertos.
ALFREDO – Meu bombonzinho...
RITA (irritada) – Que bombonzinho... coisa nenhuma!
Rita empurra Alfredo, que cai sentado numa poltrona. Rita fica em pé, com as mãos na cintura, diante de Alfredo.
RITA – Você anda me “tungando” por trás, não é?
Alfredo ergue-se, enquanto pergunta.
ALFREDO – Eu traindo o meu bombonzinho?!
Rita empurra Alfredo novamente para a poltrona.
RITA – Senta aí! (destilando ódio) Quem é essa tal de Glória que você teve a ousadia de contratar e que aquele babaca do Hélio parece ter apoiado?
ALFREDO – Eu explico, bombonzinho...
Enquanto fala, Alfredo se levanta. Rita torna a empurrá-lo para a poltrona.
RITA – Senta aí!
ALFREDO – Glória Campos é a garota que conseguiu uma publicidade extra para O Escorpião Escarlate, e o patrocinador quer que ela apresente o Clube do Morcego.
RITA – E você concordou como um cachorrinho? Não foi?
ALFREDO – Mas que eu podia fazer, bombonzinho? Os homens mandam...
RITA – Bombonzinho é a vovozinha; e, de hoje em diante, mande a sua mulher dormir com você!
Rita sai bufando e bate a porta violentamente.
Alfredo começa a levantar-se; mas se lembra de alguma coisa, acomoda-se novamente na poltrona, encara a câmera e fala quase chorando.

ALFREDO – Mas que maldade... mandar a minha mulher dormir comigo...

SEQUÊNCIA 172 – APARTAMENTO DE HÉLIO – INTERIOR – DIA
Hélio anda de um lado para o outro, procurando ajeitar o melhor possível a bagunça do apartamento.
A campainha toca. Hélio corre abrir a porta. É Glória, esbanjando charme e parecendo recém-saída do banho (o vestido que ela está usando tem um decote quadrado, que lhe realça o colo).

HÉLIO – Você veio?
GLÓRIA – Mas eu disse que viria.
Glória entra, e Hélio fecha a porta. Glória está olhando tudo com muita curiosidade.
GLÓRIA – Então, é aqui que mora o homem que eu tanto admiro e de quem tenho até um álbum de recortes?!
Hélio põe as duas mãos na face e olha admirado para Glória.
HÉLIO – Verdade?!
GLÓRIA – Verdade...
HÉLIO – Então, venha ver isto.
Hélio leva Glória até onde estão penduradas algumas fotos (recortadas de jornais e revistas) dela.
Glória fica admirada e olha, com profunda ternura, para Hélio.

GLÓRIA – Oh! Hélio!
HÉLIO – Como vê, foi só conhecê-la e também comecei a minha coleção. Só que o meu álbum é nas paredes... Quero enchê-las com fotografias suas. (enquanto fala, faz um gesto abrangente; depois, pergunta) Bem... Que achou?
Glória olha para todo o apartamento.
CORTE
PANORÂMICA do ponto de vista de Glória, detalhando todo o apartamento.
CORTE
Glória fica meio indecisa.
GLÓRIA – Achei-o... meio atravancado. Sabe... já fui decoradora.
HÉLIO – Que coincidência! É o meu hobby.
Glória sorri com condescendência, enquanto Hélio emenda num tom catedrático.
HÉLIO – O segredo da decoração é não parecer que foi decorado.
GLÓRIA – Partindo desse princípio, você fez um excelente trabalho.
Hélio fica meio sem jeito.
HÉLIO – Mas falta um toque feminino.
Os dois olhares se encontram. Glória parece compreender o sentido das palavras de Hélio. Glória e Hélio ficam por algum tempo se olhando, sérios. De repente, Hélio segura a mão de Glória.
HÉLIO – Venha, quero apresentar-lhe o meu amigão. Ele é meio encabulado e sempre se esconde, quando chega alguém que não conhece.
Hélio conduz Glória até um canto, onde Brutus está deitado com a cabeça espichada para a frente.
HÉLIO – Este é Brutus, o meu amigão. Ei, Brutus, cumprimente a Glória.
Brutus levanta-se e dá a pata direita para Glória, que a segura.
GLÓRIA – Oi, Brutus.
Hélio vai até uma prateleira, pega alguma coisa e volta.
HÉLIO – Isto é um presente para você.
Glória pega o objeto que Hélio está lhe entregando: uma pedra.
GLÓRIA – Mas é uma pedra!
HÉLIO – Faz vinte anos que a estou guardando e queria dá-la a alguém a quem eu muito estimasse.
Glória, desconcertada, ri e guarda a pedra na bolsa.
HÉLIO - Por que você não põe a bolsa ali?
Hélio indica a cadeira junto à escrivaninha.
Glória pendura a bolsa pela alça no espaldar da cadeira, enquanto Hélio vai até uma prateleira e, do meio de uma bagunça de livros e uma pilha de revistas, retira, com todo o cuidado, uma caixa de vidro com miniaturas de trapézios. Com o mesmo cuidado, ele leva a caixa até a escrivaninha, também toda atravancada de papéis, livros, jornais, óculos, uma velha máquina de escrever Remington etc. Hélio empurra toda a bagunça para um lado, para poder fazer espaço e colocar ali a caixa de vidro. Glória aproxima-se e olha curiosa a caixa.

GLÓRIA – Que é isso, Hélio?
HÉLIO – São as pulgas amestradas da Oceânia.
GLÓRIA – Pulgas amestradas da Oceânia?!
HÉLIO – Olhe, aquela ali é a Phyllis; aquela outra é a Oona... e aquele, o Max... e onde está o Chandu? Esse cara vive se escondendo, para ver se pega a Phyllis em flagrante com o Max. Chandu é ciumento como ele só.
Glória ri divertida, enquanto se debruça sobre a caixa de vidro e passa o braço em torno do pescoço de Hélio.
HÉLIO – Você sabia que, quando os lobos uivam para a lua, os pintassilgos voam para o noroeste?
Glória continua rindo divertida.
HÉLIO – Sempre que eu fico eufórico, começo a falar coisas... A minha mãe sempre diz que, com esse meu jeito, eu nunca conseguirei arrumar namorada. Você acha que ela tem razão?
Passado aquele instante, Hélio olha para Glória, que continua com o braço em torno do pescoço dele. Pouco a pouco, os lábios de Hélio e de Glória vão se aproximando. Por fim, acontece o beijo.
CORTE
Brutus, sentado, observa. E, ao ver Hélio e Glória se beijando, cobre os olhos com as patas.
CORTE
Depois do beijo, Glória olha para Hélio com grande ternura.
GLÓRIA – Você significa muito para mim. Não posso perdê-lo, agora que o encontrei.
HÉLIO – Você também é a mulher que sempre desejei ter ao meu lado, Glória.
O telefone toca e quebra o clima de encantamento existente entre Hélio e Glória. Como sempre acontece, Hélio demora alguns segundos para encontrar o telefone entre uma pilha de jornais e livros. Atende ao telefonema, sentado no chão.
HÉLIO – Alô. É ele mesmo. De onde? Ela também está. Lógico que podem vir. Tchau.
Hélio desliga e levanta-se. Glória está parada, olhando-o.
GLÓRIA – Você disse ela também está aqui. Referia-se a mim? Quem era?
HÉLIO – Era da revista O Cruzeiro.
GLÓRIA (assustada)O Cruzeiro?! E que eles querem?
HÉLIO – A nossa foto para a capa. Já  estão vindo para cá.
GLÓRIA (em pânico) – Mas eu preciso me arrumar! Não vê que eu não vim preparada?
Hélio olha para Glória com ternura.
HÉLIO – Arrumar-se?! Você está maravilhosa!
Glória não se convence. Afobada, olha para os lados.
GLÓRIA – Não tem um lugar onde eu possa ajeitar ao menos o cabelo?
HÉLIO – O banheiro serve?
GLÓRIA – Tem espelho?
HÉLIO – Um bem pequeno... onde só cabe a minha cara. É ele que eu uso, quando faço a barba.
Hélio aponta para uma porta no corredor.
HÉLIO – É ali.
Enquanto Glória vai ao banheiro, Hélio pega a caixa de vidro e coloca-a novamente sobre a prateleira. Então, ouve-se um pequeno tumulto, misturado com guinchos de animal e gritos de Glória. Hélio põe a mão na testa.
HÉLIO – Meu Deus! Esqueci de avisar a Glória de que o Ping Pong estava no banheiro!
Glória volta correndo, com as vestes rasgadas e molhadas. Atira-se  assustada  nos braços de Hélio. Enquanto fala, ela aponta para a porta do banheiro.
GLÓRIA – Um... um bicho...
HÉLIO – Ah, desculpe-me! Esqueci de avisá-la de que Ping Pong, o chipanzé do meu amigo Otacílio, estava lá. O Otacílio foi para Hong Kong, e o Ping Pong ficou comigo. Como o pobrezinho sente muito calor, deixo-o sempre na banheira cheia d’água.
Glória olha desanimada para o seu vestido rasgado e molhado, enquanto segura uns fiapos de pano para esconder os seios.
GLÓRIA – E o meu vestido?! Como vou fazer agora?
Glória olha para a cortina da janela.
GLÓRIA – Acho que já sei!
HÉLIO – A cortina?!
GLÓRIA – Não se esqueça de que até um dia desses eu era modista!

SEQUÊNCIA 173 – BANCA DE JORNAL – EXTERIOR – DIA
Paula se aproxima de banca de jornal com a revista O Cruzeiro exposta. Na capa, a foto de Glória (com a cortina enrolada à altura do busto) abraçada a Hélio e a legenda:

REPORTAGEM COMPLETA SOBRE
OS CRIMES DO ESCORPIÃO ESCARLATE


Paula volta-se e encara a câmera.
PAULA – Não acredito!

SEQUÊNCIA 174 – PRÉDIO DE GLÓRIA – EXTERIOR – DIA
TRAVELLING DE AVANÇO através da alameda que conduz à entrada do prédio de Glória.
AÇÃO CONTÍNUA

SEQUÊNCIA 175 – SAGUÃO DO PRÉDIO DE GLÓRIA – INTERIOR – DIA
TRAVELLING DE AVANÇO até Macário, que cuida de uma planta. Ele se ergue e encara a câmera. A princípio, cheio de admiração; depois, seus olhos tornam-se sem vida.
VOZ (off) – Quero a duplicata da chave do apartamento dessa moça chamada Glória Campos.
Em transe hipnótico, Macário vai até uma porta do saguão, abre-a, entra num pequeno aposento e retorna com uma chave.
VOZ (off) – Leve-me até o apartamento.
Macário faz menção de dirigir-se aos elevadores.
VOZ (off) – Nada de elevador! Vamos pela escada!
TRAVELLING DE AVANÇO nas costas de Macário. Ele se dirige para uma porta onde está escrito: “ESCADA”.
AÇÃO CONTÍNUA

SEQUÊNCIA 176 – ESCADA DO PRÉDIO DE GLÓRIA – INTERIOR – DIA
TRAVELLING DE AVANÇO nas costas de Macário. Ele sobe lentamente os degraus da escada.
AÇÃO CONTÍNUA

SEQUÊNCIA 177 – CORREDOR DO PRÉDIO DE GLÓRIA – INTERIOR
TRAVELLING DE AVANÇO nas costas de Macário. Ele caminha pelo corredor e para junto à porta do apartamento de Glória. Depois, abre a porta e entra no apartamento.
AÇÃO CONTÍNUA
PANORÂMICA EM SEMICÍRCULO até Macário olhando (seu olhar está parado, sem vida) para a câmera.
VOZ (off) – Agora, feche a porta. Volte ao saguão, coloque a chave no lugar de sempre e esqueça tudo o que acabou de fazer.
Macário empurra a porta, que toma todo o CAMPO visual da imagem.

SEQUÊNCIA 178 – PRÉDIO DE GLÓRIA – EXTERIOR – DIA
Hélio para o carro ao meio-fio, em frente ao prédio. Glória salta, contorna a frente do carro e debruça-se sobre a janela do lado do motorista.
GLÓRIA – Então, fica combinado: às oito e quinze?
HÉLIO – Eu saio da rádio e venho direto para apanhá-la, a fim de comemorarmos juntos o término do seriado.
GLÓRIA – Combinado.
CORTE
Hélio e Glória se beijam demoradamente.
Glória se afasta do carro. Hélio a chama.

HÉLIO – Glória! Sabe quem é o Escorpião Escarlate? É...
Glória vem correndo, com os punhos fechados.
GLÓRIA – Se  você falar, eu te mato!
Antes que Glória possa chegar até o carro, Hélio dá partida. O carro arranca, fazendo os pneus chiarem. Parada no meio da calçada, Glória fica observando o carro afastar-se.

SEQUÊNCIA 179 – SAGUÃO DO PRÉDIO DE GLÓRIA – EXTERIOR – DIA
Glória entra no saguão e cumprimenta Macário alegremente.
GLÓRIA – Olá, “seu” Macário. Linda tarde, não?
O homem não responde. Glória estranha, para e volta-se para Macário. Ele parece não vê-la. Seus olhos estão opacos.
GLÓRIA – Andou bebendo de novo, hem, “seu” Macário?
Glória caminha em direção aos elevadores.

SEQUÊNCIA 180 – SALA DO APARTAMENTO DE GLÓRIA – INTERIOR – DIA
Glória abre a porta e entra. Vai direto para o quarto.

SEQUÊNCIA 181 – QUARTO DO APARTAMENTO DE GLÓRIA – INTERIOR – DIA
Glória joga a bolsa sobre a cama e senta-se na banquetinha diante da penteadeira. Tira os sapatos, as meias e levanta-se.
CORTE
Através do espelho da penteadeira, vê-se Glória de corpo inteiro. Glória tira o vestido, ficando de combinação. Depois, volta para a sala.

SEQUÊNCIA 182 – SALA DO APARTAMENTO DE GLÓRIA – INTERIOR – DIA
Glória abre um móvel e apanha uma garrafa de Martini e um copo.
GLÓRIA – Estou muito excitada. Mas não é para menos... com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. Um Martini vai me fazer bem.
Glória enche meio copo com a bebida. Deixa a garrafa sobre o móvel, liga o rádio e senta-se no sofá. Após algumas estáticas, o rádio passa a transmitir uma música jovem.
GLÓRIA – A vida é maravilhosa.
Glória encara o copo, num brinde.
GLÓRIA – O mundo é dos que sonham, e toda lenda é uma verdade.
Glória bebe. Depois, ergue o copo e fica admirando, com olhar vago, a bebida no seu interior, enquanto rememora os acontecimentos dos últimos dias. Beberica vagarosamente.
OBSERVAÇÃO: a critério do diretor, a rememoração desses acontecimentos pode ser ou não mostrada em rápidos flashbacks.
Glória dá um longo suspiro e põe o copo, que ainda tem um pouco de bebida no fundo, sobre a mesinha. Depois, levanta-se e dirige-se para o corredor.

SEQUÊNCIA 183 – BANHEIRO DO APARTAMENTO DE GLÓRIA – INTERIOR – DIA
Glória liga a ducha e põe a touca plástica na cabeça.
CORTE
Para as pernas de Glória. A combinação e a calcinha caem no chão. Com a ponta do dedão do pé, Glória as atira para um canto.
Glória entra no boxe e fecha a cortina (a cortina do boxe deve ser de plástico transparente, para poder delinear a silhueta nua de Glória).
Da sala vem o som da música jovem.
Depois de algum tempo, Glória fecha a torneira da ducha. Seu corpo vai de encontro ao plástico, aderindo a ele, por estar molhado. Glória puxa a cortina.

CONTRACAMPO
De costas para a câmera, Glória apanha um roupão dependurado no cabide atrás da porta do banheiro e veste-o sobre o corpo molhado.
CAMPO
Glória amarra na cintura o cinto do roupão. Em seguida, tira a touca da cabeça e pendura-a no cabide em que estava pendurado o roupão.

SEQUÊNCIA 184 – SALA DO APARTAMENTO DE GLÓRIA – INTERIOR – NOITE
Sentada no sofá e vestida com o roupão, Glória beberica o restante do Martini. Do rádio vem o som de uma música tétrica.
TÉCNICA – TEMA TÉTRICO, QUE PERMANECE DEPOIS EM BG
LOCUTOR (off) – E, agora, passamos a apresentar o último capítulo do eletrizante seriado de Hélio Monteiro Filho: O Escorpião Escarlate.
TÉCNICA – ELEVA O TEMA TÉTRICO, QUE DEPOIS VOLTA A BG
Glória acomoda-se melhor no sofá, espichando as pernas, fazendo com que parte do seu roupão se abra, mostrando sua perna até a coxa.
NARRADOR (off) – Conforme “vimos” nos últimos capítulos, O Morcego salvou Maggie de morrer na câmara de torturas de Madame Ming e dizimou quase toda a quadrilha do Escorpião Escarlate.
Durante a narração: TRAVELLING DE AVANÇO para o aparelho de rádio.
FUSÃO

SEQUÊNCIA 185 – ESCONDERIJO DO ESCORPIÃO ESCARLATE – INTERIOR – NOITE
O Escorpião Escarlate, sentado  no seu trono incrustado no nicho, ouve rádio.
NARRADOR (off) – E, dessa forma, O Morcego derrotou os planos do Escorpião Escarlate.
ESCORPIÃO – O Morcego está enganado, se imagina que me derrotou. O Escorpião Escarlate é dono de mil e uma artimanhas; e, até agora, O Morcego conheceu apenas uma delas.
O Escorpião desce do trono e caminha até Madame Ming, que está com o gato preto no colo.
ESCORPIÃO – Eu sei o que devo fazer.
MING – Está pensando naquela repórter...
O Escorpião olha para Madame Ming e sorri.
ESCORPIÃO – Adivinhou. Agora, trata-se da vingança do Escorpião Escarlate.
O Escorpião sai. Enquanto acaricia o gato, Madame Ming dá alguns passos e para junto a um biombo onde está desenhado um escorpião vermelho.
MING – Será o fim do Escorpião Escarlate, meu caro Satã; e todo o império criado por ele será meu. Eu assumirei tudo. Eu, Madame Ming!
E a mulher gargalha sinistramente.

SEQUÊNCIA 186 – BECO DO ESCONDERIJO DO ESCORPIÃO ESCARLATE – EXTERIOR – NOITE
A gargalhada de Madame Ming confunde-se com o vento passando entre as árvores.
O Escorpião Escarlate entra num carro negro e senta-se à direção. O carro parte imediatamente e perde-se na neblina.


SEQUÊNCIA 187 – QUARTO DO APARTAMENTO DE MAGGIE – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
A câmera abre sobre janela aberta, com o vento agitando a cortina levemente. PANORÂMICA até enquadrar Maggie dormindo. Um ruído, vindo da sala, desperta Maggie, que se senta na cama e olha para a porta aberta do quarto. O ruído se repete.

MAGGIE – Quem está aí?
Intrigada, Maggie acende a luz do abajur sobre a mesinha de cabeceira. Novamente o ruído. Dessa vez, mais forte. Maggie levanta-se. Está vestindo uma camisola azul clara. A fina transparência do tecido contra a luz do abajur revela toda a sua silhueta.
MAGGIE – É  você, Monte?
Antes que Maggie possa dar um passo, o Escorpião Escarlate surge à porta, empunhando um revólver. Maggie leva a mão à boca, contendo um grito. Ela dá um passo para trás.
MAGGIE (horror) – O Escorpião Escarlate!! Que você quer?
ESCORPIÃO – Essa é uma pergunta bastante ingênua, partindo de você. Você me ocasionou muitas dores de cabeça. E eu lhe avisei que o Escorpião Escarlate nunca dá uma segunda chance. Mas você a teve e não soube aproveitá-la. Agora, chegou o momento do nosso ajuste de contas!
Agindo rapidamente, Maggie salta para o lado, numa tentativa de chegar à porta. Mas é agarrada pelo Escorpião Escarlate. O facínora tira um lenço do bolso e coloca-o junto à boca e o nariz da repórter. Maggie se debate, até que as forças começam a faltar-lhe. Por fim, Maggie fica totalmente imóvel; e seu frágil corpo é amparado pelos braços do Escorpião Escarlate.

SEQUÊNCIA 188 – SALA DO APARTAMENTO DE MAGGIE – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
O Escorpião Escarlate atravessa a sala, carregando o corpo inerte de Maggie.


SEQUÊNCIA 189 – CORREDOR DO PRÉDIO DE MAGGIE – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
O Escorpião Escarlate caminha até o fim do corredor, com o corpo de Maggie nos braços.


SEQUÊNCIA 190 – ESCADA DO PRÉDIO DE MAGGIE – INTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória.
O Escorpião Escarlate sobe os degraus, carregando o corpo inerte de Maggie. Ao alcançar o topo da escada, encontra uma porta de ferro. Deposita o corpo da repórter no chão e tira um vidrinho do interior da sua túnica. Abre o vidrinho e joga o conteúdo na fechadura, que, soltando uma fumaça clara, se derrete com um pequeno chiado.
O Escorpião abre a porta, apanha novamente o corpo de Maggie e sai para o terraço do prédio.


SEQUÊNCIA 191 – TERRAÇO DO PRÉDIO DE MAGGIE –  EXTERIOR – NOITE
Maggie é encarnada por Glória
No terraço do prédio, venta muito. Maggie desperta e começa a lutar desesperadamente para desvencilhar-se das potentes mãos que a agarram.

ESCORPIÃO – Lamento que tenha voltado a si. A quantidade de clorofórmio não foi suficiente para fazê-la dormir até a eternidade.
Maggie se debate, enquanto o bandido se aproxima do parapeito do edifício e ameaça atirá-la para baixo.
Quando o Escorpião Escarlate está prestes a atirar Maggie, eis que, através da porta, surge a figura espectral de O Morcego.
O MORCEGO – Finalmente nos encontramos Escorpião Escarlate!
O Escorpião volta-se, sustentando Maggie que, aproveitando um segundo de hesitação do bandido consegue escapar e corre na direção de O Morcego.
ESCORPIÃO – Sim, chegou o momento de vingar-me. Você atrapalhou meus planos, destruiu minha quadrilha, fez-me sofrer durante meses e meses. Mas, agora, chegou o momento do ajuste de contas.
O Morcego procura aproximar-se do Escorpião, com os braços distendidos e as mãos  crispadas, prontas para o ataque. Apavorada, Maggie apóia-se à porta de ferro, com suas vestes e o  cabelo esvoaçando ao vento. A capa de O Morcego e a túnica do Escorpião Escarlate também flutuam ao vento.
O MORCEGO – Escorpião Escarlate... Gênio do crime! Esta batalha será entre nós dois, seus asseclas estão presos ou mortos.
ESCORPIÃO – Maldito!
Quando os dois contendores já estão perigosamente próximos um do outro, o Escorpião, com um gesto inesperado, tira uma longa corda do interior da túnica, gira-a no ar e laça o corpo de O Morcego, que é puxado violentamente para a borda do prédio.
Maggie solta um grito cheio de horror, quando vê O Morcego sendo arrastado e quase despencar no vazio. Mas O Morcego consegue evitar a queda, agarrando-se na corda. Então, é a sua vez de puxá-la, apoiando-se no parapeito para manter-se equilibrado. O Escorpião, que não esperava por aquele rápido contra-ataque, voa sobre o parapeito e, com um grito horrendo, projeta-se no espaço.

Maggie corre e atira-se no nos braços de O Morcego, que a abraça.
MAGGIE – Meu herói!
O Morcego e Maggie se beijam.

SEQUÊNCIA 192 – SALA DO APARTAMENTO DE GLÓRIA – INTERIOR – NOITE
Uma mão enluvada desliga o rádio.
CORTE
Glória, no sofá, abre os olhos e, assustada, pergunta.
GLÓRIA Quem... Quem é você?
CONTRACAMPO
O estranho encapuzado aproxima-se do sofá onde Glória está sentada. Glória se levanta e recua, assustada.
ESTRANHO Você é muito esperta, Glória. Atrapalhou muito a minha vida; mas, agora, chegou a hora do ajuste de contas!
Glória, encurralada entre a parede e o estranho, não tem como fugir. Numa tentativa desesperada, ela se abaixa e procura correr em direção à porta. Mas é facilmente subjugada pelo estranho. Os dois lutam. É uma contenda desigual. Com um soco do encapuzado, Glória perde o equilíbrio, cai e fica inerte.
ESTRANHO – Assim,  as coisas ficam mais fáceis.
O estranho abaixa-se e apanha o corpo inanimado de Glória. Em seguida, caminha para a porta.

SEQUÊNCIA 193 – CORREDOR DO PRÉDIO  DE GLÓRIA – INTERIOR – NOITE
O estranho caminha pelo corredor, com o corpo inerte de Glória nos braços. Dirige-se para a escada.

SEQUÊNCIA 194 – ESCADA DO PRÉDIO DE GLÓRIA – INTERIOR – NOITE
O estranho carrega o corpo inerte de Glória e começa a subir os degraus da escada. Ao chegar ao topo da escada, abre o trinco da porta de ferro e sai para o terraço.

SEQUÊNCIA 195 – TERRAÇO DO PRÉDIO DE GLÓRIA – EXTERIOR – NOITE
O estranho, com o corpo inerte de Glória nos braços, caminha em direção à borda do prédio. Nesse instante, reanimada pelo vento forte, Glória volta a si e começa a espernear, tentando livrar-se dos braços do seu captor.
ESTRANHO – Uma pena que tenha voltado a si. É muito triste ver a morte chegar... E aqui não existe nenhum Morcego para salvá-la.
O estranho, com Glória nos braços, está mais próximo da borda do prédio.
ESTRANHO – Primeiro, você; depois, cuidarei daquele escritorzinho mixuruca.
Fazendo um esforço supremo, Glória consegue libertar-se, arranha os olhos de seu algoz e arranca-lhe o capuz . O estranho abaixa-se e esconde o rosto, urrando de dor. Glória corre em direção à porta de ferro, que está aberta.
CORTE
Glória vira a cabeça para trás e vê.
CORTE
Do ponto de vista de Glória: o estranho (o rosto dele está oculto pelas sombras) vindo correndo em seu encalço.


SEQUÊNCIA 196 – ESCADA DO PRÉDIO DE GLÓRIA – INTERIOR – NOITE
Antes que o estranho a alcance, Glória chega às escadas e consegue fechar a porta de ferro, que abrange todo o CAMPO da imagem.

SEQUÊNCIA 197 – ESCADA DO PRÉDIO DE GLÓRIA – INTERIOR – NOITE
Glória desce rapidamente os degraus da escada.

SEQUÊNCIA 198 – SALA DO APARTAMENTO DE GLÓRIA – INTERIOR – NOITE
Glória entra rapidamente no apartamernto e fecha (com a chave) a porta. Respira aliviada e senta-se no sofá. Apanha o copo de Martini, que está em cima da mesinha e bebe o restante da bebida. Nesse exato momento, mexem no trinco da porta. Glória olha, aterrorizada, para a porta.
CORTE
Para o trinco girando de um lado para o outro.
CORTE
O copo cai da mão de Glória e espatifa-se no chão.
O ruído do copo espatifando-se parece despertar Glória. Ela se sente meio tonta. Levanta-se e aproxima-se tropegamente da porta. O medo continua a dominá-la. Pancadas contra a porta se sucedem com insistência.

GLÓRIA (com voz sumida) – Quem é ? Quem está aí ?
HÉLIO (off) – Sou eu, o Hélio.
Glória abre a porta e, chorando, atira-se nos braços de Hélio.
GLÓRIA – Foi horrível !
HÉLIO – (assustado) –  Que aconteceu ? Você está toda trêmula ...
Glória e Hélio entram. Hélio fecha a porta. Olha em torno, como quem busca uma resposta para o comportamento estranho de Glória. Apenas vê o copo quebrado e a garrafa de Martini sobre o móvel.
HÉLIO – Vamos, querida, conte o que aconteceu. Por que está assim, tão apavorada?
GLÓRIA – Dê-me um copo d’água .
Hélio sai; e Glória acomoda-se no sofá, cruzando os braços sobre o peito, como se sentisse frio. Hélio volta e dá-lhe de beber.
HÉLIO – Coloquei um pouco de açúcar. Mamãe sempre diz que não há coisa melhor para quando se está nervoso do que água com açúcar.
Glória bebe e entrega o copo para Hélio.
GLÓRIA – Abrace-me, querido. Quero sentir-me protegida.
Hélio não sabe o que fazer com o copo, passa-o de uma mão para outra, enquanto também procura abraçar Glória. A moça acaba por tomar-lhe o copo e joga-o por sobre o sofá. Glória abraça Hélio.
HÉLIO – Até que seria uma boa, se você ficasse sempre nervosa.
GLÓRIA – Você está brincando porque não foi com você.
HÉLIO – Bem, agora, quer contar o que de tão horrível aconteceu?
GLÓRIA – Fui atacada pelo Escorpião Escarlate. Ele não estava com sua roupa tradicional, mas foi ele. Sei que era ele. Foi o assassino que está cometendo crimes iguais aos cometidos pelo Escorpião.
HÉLIO (sorri) – Ah, Glória, Glória...  Você deve ter bebido uma dose a mais de Martini, dormido e sonhado!
Hélio bate na coxa desnuda de Glória e sorri.
HÉLIO – Agora, vai trocar de roupa... Ou melhor, vestir-se. Já  esqueceu que havíamos combinado de ir jantar fora?

SEQUÊNCIA 199 – RUA CENTRAL MOVIMENTADA – EXTERIOR – NOITE
Hélio estaciona o carro. Ele e Glória descem do veículo. Hélio dá o braço a Glória; e os dois começam a caminhar pela rua, cruzando com pessoas rindo felizes.
HÉLIO – É um restaurante bem aconchegante... Sei que você vai gostar.
De repente, Glória faz uma parada e encara Hélio.
GLÓRIA – Afinal, quem era o Escorpião Escarlate? Acabei ficando sem saber.
Hélio e Glória continuam a caminhar, aproximando-se de um trecho pouco iluminado da rua.
HÉLIO – O Escorpião Escarlate era...
Eles cruzam com um homem, cujas feições estão ocultas pelas sombras.
Hélio cumprimenta-o. Ao vê-lo, Glória assusta-se e cutuca o braço de Hélio, falando-lhe junto ao ouvido.

GLÓRIA – É ele! É o homem que tentou me matar!
HÉLIO – Ora, meu bem, eu o conheço. É um sujeito encantador, incapaz de fazer mal a uma pulga.
O casal continua a caminhar, enquanto o homem vem em direção à câmera e ergue a cabeça. Nesse instante, suas feições são iluminadas.
Guido Falconi encara a câmera e sorri de modo significativo.