Ano 4 - nº 14 - outubro/dezembro de 2012

O DENOMINADOR (IN)COMUM DO CINEMA
Bernardo Vorobow



Se o Cinema é a Sétima Arte – por codificar as artes anteriores e por anunciar  as outras que viriam a seguir, como os Quadrinhos –, Rubens Francisco Lucchetti é um dos (últimos) sétimos artesões mais inquietos ainda em atuação no Brasil. Isso porque seu campo principal de lavor é (aparentemente) a Literatura, mas cujo solo solitário e fértil estende-se por outras terras da comunicação (sim, de massa).
Homem de Cinema, ele dedicou-se também ao rádio [Grande Teatro de Aventuras e Grande Teatro A-7 (PRA-7 Rádio Clube, Ribeirão Preto, 1956-1958)] e à televisão [Quem Foi? (TV Tupi, Ribeirão Preto, 1961), Além, Muito Além do Além (TV Bandeirantes, São Paulo, 1967-1968) e O Estranho Mundo de Zé do Caixão (TV Tupi, São Paulo, 1968)].
Paralelamente à devoção apaixonada, o que parece mover Lucchetti em sua incursão pelas narrativas visuais – dizia o pintor Paul Klee: “a arte não reproduz o visível, ela torna visível” – é um espírito crítico intuitivo. Não satisfeito com o abundante “fazer”, ele escreveu textos quase metalinguísticos, publicados em jornais e revistas, dos quais podemos citar como exemplo a história em quadrinhos “Como se Faz uma Estória de Terror”.
Outro exemplo são os diários que ele acalenta há anos e permanecem inéditos, com reflexões e anotações variadas. Seu livro Carlitos o Mito Através da Imagem (1987) não deixa de seguir Ezra Pound na esfera crítica: às variações iconográficas desenhadas por ele, coligiu citações de Otto Maria Carpeaux, Alberto Cavalcanti, Jean Cocteau, Georges Sadoul, Carlos Heitor Cony, Eisenstein, Blaise Cendrars, Buster Keaton, Max Linder, André Gide, Fernand Léger, Jean Mitry, Maiakóvski, Luigi Chiarini, entre outros. E há outros índices de tal ímpeto.
Outro empenho crítico foi a atividade cineblubística, que contribuiu para a (in)formação de plateias do interior de São Paulo. Entre os eventos e as mostras de filmes que realizou, constam: Semana Chapliniana (1960), Festival Introdução ao Cinema Francês (1960), Festival do Cinema de Animação (Museu de Arte Moderna de São Paulo, 1962), Festival Sherlock Holmes (1965), I Festival Internacional do Cinema de Animação (VIII Bienal de São Paulo, 1965).
Duas palestras no Centro Médico de Ribeirão Preto iriam mudar completamente o curso da vida de Lucchetti. A primeira delas, proferida por Paulo Emílio Sales Gomes (na época, conservador da Cinemateca Brasileira), aconteceu em 28 de agosto de 1959 e lançou a pedra fundamental do Clube de Cinema de Ribeirão Preto, que teve Lucchetti como um de seus principais animadores. A segunda, tendo como conferencista Carlos Vieira, professor universitário e diretor do Centro dos Cineclubes do Estado de São Paulo, ocorreu em 25 de junho de 1960, quando foram exibidos alguns filmes de Arte, entre os quais três do canadense Norman McLaren, um dos mais famosos e respeitados realizadores de filmes experimentais de Animação.
A descoberta dos filmes de McLaren levou Lucchetti a querer fazer filmes como as abstrações pintadas diretamente sobre a película e as animações quadro a quadro. Então, Lucchetti se uniu a Bassano Vaccarini (artista plástico, cenógrafo e um dos fundadores do TBC); e juntos fundaram o Centro Experimental de Cinema (CEC), ligado à Escola de Artes Plásticas de Ribeirão Preto. Lucchetti e Vaccarini atuaram de modo independente, sem qualquer subsídio oficial.
As dificuldades financeiras eram cobertas pela loja de autopeças de Lucchetti, levada à falência pelo capital investido nos filmes. Usavam um laboratório no Panamá, o que acarretava longa espera na volta do material 16 mm revelado.
O trabalho da dupla foi destaque num encarte especial da revista lisboeta Filme (número 42, setembro de 1962) e na Primeira Exposição Documental de Cinema de Animação de Lisboa.
Entre 1960 e 1962, Lucchetti e Vaccarini realizaram quatorze filmes experimentais de Animação: Abstrações – Estudos 1, 2, 3 e 4 (1960), Fantasmagorias (1960, inacabado), Estudo 5 (1960-1961), Cosmos (1961), Tourbillon (1961), A Sombra (1961, inacabado), Vôo Cósmico (1961), Rinocerontes (1961), Viagem à Lua (1962), Catedralle (1962), Arabescos (1962), Variações Sobre um Tema de Miró (1962), Painel Abstrato (1962) e  Planificação (1962, inacabado).
A experiência com a animação abstrata precedeu a experiência que talvez tenha marcado de modo mais evidente a obra de Lucchetti. A partir de 1967, ele começou a se lançar nos roteiros de filmes de Horror. Na lista extensa, aparecem Trilogia de Terror (1968, episódio “Pesadelo Macabro”; direção de José Mojica Marins), O Estranho Mundo de Zé do Caixão (1968, direção de José Mojica Marins), Ritual dos Sádicos (1969, liberado pela Censura Federal em 1983 e rebatizado com o título de O Despertar da Besta; direção José Mojica Marins), Finis Hominis (1971, direção de José Mojica Marins), Exorcismo Negro (1974, direção de José Mojica Marins), Inferno Carnal (1976, direção de José Mojica Marins), Delírios de um Anormal (1978, direção de José Mojica Marins), O Segredo da Múmia (1982, direção de Ivan Cardoso), As Sete Vampiras (1986, direção de Ivan Cardoso) e, entre outros, O Escorpião Escarlate (1989, direção de Ivan Cardoso), além de inúmeros roteiros escritos para Mojica e jamais filmados.
Nessa mesma época de efervescência de roteiros, Lucchetti criou várias publicações, sempre conjugando palavras e imagens. Foram revistas policiais pulp como Série Negra (1969) e Mistérios (1970); revistas de histórias em quadrinhos como A Cripta (1968-1969), O Estranho Mundo de Zé do Caixão (1969) e Fantastykon Panorama do Irreal (1972); e livros em quadrinhos como O Filho de Satã (1970), Carne Fresca para a Mesa (1970) e Os Vampiros Não Praticam o Sexo (1970). De 1968 a 1971, escreveu roteiros de fotonovelas para revistas femininas. E, em 1970, organizou o catálogo da seção brasileira do Congresso Internacional de História em Quadrinhos (Museu de Arte de São Paulo).
Um ano antes de José Mojica Marins lançar o Zé do Caixão em À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964) – Lucchetti viria a colaborar com Mojica na definição  do perfil deste personagem a partir do filme O Estranho Mundo de Zé do Caixão –, a Editora Outubro lançava Noite Diabólica, antologia de contos de Lucchetti, considerado “o primeiro livro de Terror escrito no Brasil” (Rudolf Piper, O Grande Livro do Terror!, São Paulo, Argos, 1978, p. 38).
O próprio Lucchetti comenta a gênese do livro (e não deixa de ser curioso, se pensarmos que o livro foi editado mais ou menos na mesma época em que Mojica gestava Zé do Caixão): “As minhas primeiras histórias em quadrinhos não foram escritas como tal. Eu desconhecia inteiramente a técnica da roteirização. Assim, imaginei-as como argumentos e mandei-as, num dia qualquer de 1962, para a Editora Outubro (alguns anos depois, ela passaria a se chamar Editora Taika), a fim de serem apreciadas pelos seus diretores. Esperava que, caso aprovados, os argumentos fossem adaptados por Hélio Porto, então o principal roteirista da editora, e quadrinizados por Nico Rosso, a quem eu considerava um dos mestres dos Quadrinhos (...). Fiquei aguardando ansioso por uma resposta, enquanto ia comprando todos os meses a revista Seleções de Terror, na qual eram publicadas as histórias em quadrinhos do Drácula, valorizadas pelos desenhos do Nico. Sonhava encontrar num dos números, como complemento, uma das minhas histórias. Passaram-se os meses. Nem carta, nem história quadrinizada. A frustração começou a apoderar-se de mim. Em outubro de 1963, quando já estava quase conformado, fui surpreendido com o primeiro pocket book da Série de Terror da coleção Super Bolso, da Editora Outubro. Nesse pequeno volume de 149 páginas, intitulado Noite Diabólica, estavam publicados dezoito argumentos e uma poesia que eu havia enviado à editora. Na quarta capa, os editores prometiam: ‘Nesta coleção desfilarão os maiores nomes da literatura de Terror e Mistério.’ Eu achava que aqueles histórias não eram indicadas para figurar num livro que dava início a uma coleção que prometia tanto. Eram apenas argumentos. Mais tarde, fiquei sabendo que Hélio Porto gostara tanto dos meus textos que resolvera publicá-los como eu os havia escrito. Entretanto, se eu não ficara satisfeito com a forma com que esses textos foram aproveitados, fui recompensado com a capa e as ilustrações do livro. Elas foram feitas por um mestre na arte do Desenho: Jayme Cortez, que era um dos diretores da Outubro” (No Reino do Terror de R. F. Lucchetti, Vinhedo, Opera Graphica, 2001, pp. 11-12).
Em 1966, logo após mudar-se para São Paulo, Lucchetti tornou-se um prolífico roteirista de histórias em quadrinhos de Horror.



O FEITO SUSPENSE 

A revista Suspense, cujos contos eram selecionados por Alfred Hitchcock, publicou em um de seus números, o 67, a história “Em Pleno Espetáculo”, escrita por Lucchetti. Foi um feito inédito para um escritor brasileiro; e Lucchetti, que, na época, estava com aproximadamente trinta anos, viu-se abençoado pelo mestre do Cinema e dos gêneros de Mistério e Horror que tanto cultuava. Talvez como ninguém nos domínios da indústria dos mass media, Hitchcock soube explorar os mecanismos de medo e desejo, da tensão entre ausência e presença (ou entre mostrar e esconder), que geram o suspense e fizeram do gênero um modelo protomatriz das emoções em multimídia.
Podemos ler nesse feito uma súmula não só da sina de  Lucchetti com relação à falta de reconhecimento por sua obra (um exemplo disso é a ingratidão de Ribeirão Preto, a cidade adotada, que até na hora de um documentário-homenagem se furtou a retribuir com pouco o muito que Lucchetti lhe deu, perdendo – ou furtando? – o projeto original que os produtores enviaram à Secretaria Municipal da Cultura; curiosamente, Carlos Reichenbach escreveu após ver o filme: “Tenho a impressão de que Adriano vai pagar (mais uma vez) o preço da exuberância de seu talento.”). O feito Suspense também concentra a imantação que o Cinema exerceu sobre os outros modos de comunicação cultivados por Lucchetti.



LUCCHETTI, UM ESCRITOR VISUAL

Uma das virtudes de Lucchetti é seu desprendimento (outra é a paciência). A renúncia a uma vida confortável levou-o ao caminho dos sonhos que só podem ser compartilhados no ambiente escuro e coletivo da projeção de cinema. Ou, em última análise, acalentados no mais recôndito da própria imaginação, aquela que se recusa – como enunciou Giotto – a se deixar registrar, por acreditar que não vale a pena sua apresentação após sua concepção (para que trazer ao mundo real, se a coisa já existe no mundo da imaginação?).
Uma escrita que lida com substantivos e com a transubstanciação de inefáveis sentimentos em vocábulos quase palpáveis acaba mexendo com forças estranhas ou sobrenaturais [Lucchetti gosta de colecionar casos reais incríveis acontecidos com ele e que competem (em “além da realidade”) com suas ficções]. E, quando estas penetram a rotina da circulação  das mercadorias ditas culturais, é natural que ocorra um curto-circuito... e que esses modos de narrar sejam alijados por serem incompatíveis com as demandas “modernas” e sejam deslocados para as franjas da memória irremediável.
Se o homem é a medida de todas as coisas (numa visão pós-renascentista e pré-panteísta), o Cinema para o homem Lucchetti é o denominador comum de suas experiências, a tábula rasa e o plano de voo (além de campo de pouso) de seus projetos. O Cinema parece coagular as ambições mais caras de Lucchetti, agenciando os dotes da Literatura e dos Quadrinhos, justamente por colocá-los em movimento e por materializar a palavra (ou as idéias) em imagem.
Lucchetti é um escritor – ou ficcionista, como ele mesmo prefere se autodenominar, em um de seus múltiplos autorretratos e auto-heterônimos em raios X – visual. E o Cinema é o canal privilegiado que ele parece ter escolhido (mesmo que involuntariamente) para tornar o imaginário em representável.

 

Este texto foi escrito em São Paulo, em fevereiro de 2003

 

Bernardo Vorobow (1946-2009) foi programador cultural. Criou e dirigiu o setor de Cinema do Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo e o departamento de programação da Cinemateca Brasileira. Foi programador de filmes do Museu de Arte Contemporânea (MAC) de São Paulo e diretor técnico e de programação da Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC). Realizou os filmes Depois da Lua (Obrigado, Chacrinha), Minha Escola (censurado e inacabado), O Discurso e Cinema Paulista – Ovo de Codorna. Com Carlos Adriano, escreveu o livro Peter Kubelka: A Essência do Cinema e organizou Cinepoética, uma antologia de textos sobre o cineasta Julio Bressane. É co-produtor e co-roteirista do documentário-homenagem O Papa da Pulp: R. F. Lucchetti – Faces e Disfarces