Ano 4 - nº 14 - outubro/dezembro de 2012

RUBENS – O CAVALEIRO OCULTO
Luiz Maranhão Filho



É possível que o nosso encontro tenha acontecido muito antes de uma aproximação real. Para usar um termo jurídico, de uma de minhas profissões, um encontro inter vivos, o que, de fato, aconteceu em 1995, em Ribeirão Preto. É que, na juventude, uma das minhas leituras preferidas era o chamado gênero de Mistério, nas chamadas revistas policiais da época – X-9, Detective, Mistérios e tantas outras. Soube depois que o nosso personagem escrevia para elas, sob pseudônimos estrangeiros. Por isso, fica difícil identificar quais dos heterônimos que chegaram até as minhas leituras de adolescente. Mas há um ponto em comum. É que ambos ingressamos no rádio ainda muito jovens e praticando o mesmo mister: adaptar contos policiais para pequenas histórias seriadas que começaram a ser classificadas como novelas.
Meu genitor, o veterano e saudoso radialista Luiz Maranhão, fora o introdutor do teatro pelo rádio no Nordeste – em uma pesquisa para a Rede Globo, Mauro Borja Lopes (Borjalo) apontou-o como o verdadeiro pioneiro do teatro seriado. Por falta de especialistas na época, meu pai acolheu uma primeira “radiofonização” de minha lavra em 1947. Foi a história Uma Família Sinistra, assinada por Murray Leinster (*). Quem sabe se Rubens não se escondeu por trás do nome do norte-americano?
O fato é que, consolidado o modelo do rádio com função artística e cultural e com funcionamento permanente, seus executores e planejadores começaram a definir os formatos que deveriam conduzir os rumos da programação. Os musicais tomaram a sua cara, explorando o gênero popular, o erudito e a personalização dos intérpretes. Os cantores se fizeram estrelas de primeira grandeza. A notícia, as transmissões esportivas e os debates também ganharam espaço. Para a face de arte do rádio, ficou o teatro pelo microfone como grande atração. Emissoras de norte a sul do Brasil acolheram o espetáculo completo, em três atos, de preferência aos sábados e domingos; e o repertório foi o que de melhor havia na época – os clássicos do teatro declamado, à frente William Shakespeare e suas tragédias (Hamlet, Otelo, Macbeth, Romeu e Julieta, entre outras). Houve casos em que emissoras se consagraram com esses horários. Plácido Ferreira fez espetáculos no rádio carioca durante mais de um decênio. O pernambucano Manoel Durães, na Rádio Record de São Paulo, repetiu o sucesso. Pelo Brasil inteiro, há exemplos disso. Rubens entrou no gênero, em Ribeirão Preto, como fiel adaptador, a convite do inesquecível Aloysio Silva Araújo.
Nasceu um mercado de aquisições e trocas de textos entre as emissoras, onde se inseriram alguns paulistas de destaque como Gastão Pereira da Silva, Otávio Augusto Vampré, Oduvaldo Viana, Amaral Gurgel e alguns cariocas como Hélio do Soveral, Lourival Marques, Hélio Tys, Raimundo Lopes e Eurico Silva, da Rádio Nacional. Rubens não entrou nesse intercâmbio, ocultado em sua modéstia e refugiado em algumas editoras que lhe garantiam o anonimato.
Mas houve um fato que precisa ficar marcado na memória do rádio: a multinacional Colgate-Palmolive trouxe dos Estados Unidos um novo formato que incorporou no rádio a figura do herói. Primeiro, foi com O Vingador, que era uma adaptação do Zorro (The Lone Ranger, no original), criado por Fran Striker. Depois, veio Tarzan (a imorredoura criação do escritor Edgar Rice Burroughs), o homem das selvas; e, assim, espalharam-se pelo país inúmeros seres extraordinários a serviço da lei e da ordem. Um deles cresceu na audiência, devido sobretudo ao alcance das potentes ondas da Rádio Nacional. O interior paulista por pouco não foi vítima da força do ANJO, um jovem da alta-roda que se travestia de personagem investigador para defender os mais fracos.
Rubens Francisco Lucchetti salvou os paulistas, ao criar o detetive Reginaldo Varela, que combatia o ESCORPIÃO ESCARLATE, um vilão revivido na década de 1990 em um filme dirigido por Ivan Cardoso. Esse personagem foi procurado por diversos pontos do Brasil. Mas se tornou um CAVALEIRO OCULTO, guardado preciosamente em Ribeirão Preto pelo seu criador, R. F. Lucchetti, um nome que se prestava a ser heterônimo do próprio autor. Isso acontecia há cerca de meio século atrás.
Um dia, porém, eu haveria de encontrar o Escorpião, seu criador e seu passado. Foi uma feliz coincidência. Depois de mais cinco décadas no rádio, migrando do formato comercial para o acadêmico, através da Universidade Federal de Pernambuco, possuidor de uma graduação e um Mestrado em Direito, fui forçado, ao ingressar no magistério da Comunicação Social, ensinando Jornalismo e Radialismo, a obter um Doutorado em Artes, na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), a partir do ano de 1993. Foi numa sala da ECA, durante aula de um mestre do Cinema, o francês Jean-Claude Bernadet, que mantive o primeiro contato com um jovem colega, Marco Aurélio Lucchetti, filho de Rubens. De tanto comentar sobre rádio e Cinema, conseguimos uma identificação de propósitos. Foi aí que me surgiu o CAVALEIRO OCULTO, de quem tentarei, modestamente, traçar um perfil muito subjetivo, por conta da amizade que se formou daí por diante. Foram encontros em Ribeirão Preto e depois em Jardinópolis, sempre ocorridos pela minha vontade/curiosidade de descobrir mais e mais a respeito do rádio paulista.
Hoje, vejo Rubens, apenas três anos mais velho do que eu, ainda com todo o vigor da criação. Poderia ter ocupado um lugar mais visível, devido à sua iniciação envolvendo nomes do quilate de um Octávio Gabus Mendes. Poderia ter sido descoberto por um empresário de ampla visão da importância do rádio. Preferiu, porém, recolher-se ao seu interior paulista e produzir sem parar para a indústria editorial – criou, em parceria com o desenhista Nico Rosso, várias revistas de quadrinhos (A Cripta, O Estranho Mundo de Zé do Caixão, Fantastykon e tantas outras) que inovaram os gibis brasileiros de Terror; editou revistas de contos policiais; escreveu mais de mil livros dos mais variados assuntos – e para o Cinema, já que é o grande roteirista dos cineastas José Mojica Marins e Ivan Cardoso.
Nesta primeira década do século 21, vejo Rubens em plena forma, e, com sua visão de mestre, pronto para dar continuidade aos seriados de rádio. Vejo o cineasta capaz de roteirizar um romance como Os Ratos, de Dyonélio Machado – infelizmente, o roteiro (escrito por volta de 1980) está até hoje à espera de alguém que o transforme em filme. Vejo Rubens disposto a ingressar no teatro, com a peça Três Personagens em Busca de uma Intérprete, que esperamos realizar juntos, numa parceria de amigos fiéis e dedicados.



NOTA (escrita por Marco Aurélio Lucchetti):
(*) Murray Leinster é o nome com o qual o escritor norte-americano William Fitzgerald Jenkins (1896-1975) assinou a maioria de suas histórias, sobretudo as de Ficção Científica.



Este texto foi escrito em Olinda, em outubro de 2003.



Luiz Maranhão Filho é mestre em Direito pela Universidade Federal de Pernambucano e doutor em Artes pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. É jornalista profissional, tendo trabalhado nos jornais Diário de Pernambuco e Diário Carioca. Radialista desde 1947, trabalhou nas rádios Clube, Tamandaré, Jornal do Commercio (todas três de Recife) e Borborema (de Campina Grande, Paraíba). Fez televisão em Recife e Salvador. Foi gerente da Norton Publicidade no Nordeste. É autor de peças teatrais premiadas. Escreveu os livros Memória do Rádio (Prêmio Roquette Pinto de 1986), Rádio em Todas as Ondas, No Tempo do Reclame e Legislação e Comunicação, entre outros. Atualmente, é o presidente do Instituto Histórico de Olinda.