Ano 4 - nº 14 - outubro/dezembro de 2012

AS SETE VAMPIRAS
Edmar Pereira



Uma noite chuvosa, uma planta carnívora vinda da África, um botânico e sua neurótica viúva que – como terapia – vai montar um espetáculo de balé, a lembrança dos anos 50 e sua bem-humorada recriação, os enquadramentos de câmera à moda dos filmes B, as citações de Hitchcock, o resgate das chanchadas da Atlântida, muita mulher bonita e pelada, um tempero de música pop. Quer dizer, é uma salada e tanto de Cinema. Quem curte e é íntimo terá um prazer adicional neste segundo longa-metragem de Ivan Cardoso. Quem não souber de nada provavelmente vai curtir também, porque As Sete Vampiras é principalmente um filme realizado com muito bom humor.
Nem tudo dá muito certo, como havia acontecido no primeiro filme de Cardoso, O Segredo da Múmia. Mas o que se salva é suficiente para uma boa sessão de cinema. O roteiro de Rubens Francisco Lucchetti, especialista em histórias em quadrinhos de Mistério e de Horror, roteirista dos filmes de José Mojica Marins, é um incessante fluxo de idéias, de lembranças e de deliciosos clichês. Se tem falhas, é justamente pelo excesso, é demais para um único filme.
Ivan Cardoso se atrapalha às vezes com tanto material e não tem como dar fluência às várias histórias paralelas. Algumas idéias acabam prejudicadas por falta de tempo e de atenção – deslizes que não ameaçam O Segredo da Múmia. As Sete Vampiras não consegue manter um ritmo uniforme e ágil durante toda sua complicada trama. Mas em certos momentos isolados chega a ser contagiante em seu humor e na ternura das lembranças cinematográficas do seu diretor. Como resistir à planta carnívora; à recriação da Chanchada e ao emprego de alguns de seu ícones, como Zezé Macedo, Ivon Curi, Wilson Grey, Colé e Bené Nunes; às variadas citações não apenas de determinados filmes mas de uma época do Cinema e de uma maneira de filmar? Se o filme é desigual, não há oscilações na qualidade da inteligente fotografia de Carlos Egberto, assumidamente um pastiche dos filmes da Universal dos anos 30. E a direção de arte, assinada por Óscar Ramos, é um trabalho preciso e precioso. Ramos não se limita simplesmente à reconstituição de uma época; ele acrescenta a isso um tempero da mais refinada ironia, a ponto de ser responsável, na escolha de um móvel, de um colorido, de um gravura ou vestido, por alguns dos mais engraçados momentos do filme.
Paralelamente ao lançamento de As Sete Vampiras em São Paulo, Lucchetti está lançando uma revista em quadrinhos que traz a história completa do filme. O gibi tem ainda fotos da fita e uma entrevista com o diretor Ivan Cardoso.



Esta crítica foi transcrita do Jornal da Tarde (São Paulo, 11 de dezembro de 1986)