Ano 4 - nº 14 - outubro/dezembro de 2012

ASILO SINISTRO
Rubens Francisco Lucchetti



Em 1942, Charles Koerner, recentemente nomeado chefe de produção da RKO Radio Pictures, decidiu competir com a Universal no gênero de Horror. Então, contratou o russo Val Lewton (ele era sobrinho da célebre atriz Alla Nazimova), que, durante cerca de oito anos, trabalhara nos estúdios de David O. Selznick (1), e encarregou-o de produzir uma série de filmes – de baixo custo (2) e com aproximadamente 75 minutos de duração – destinada aos programas duplos dos grandes circuitos de cinemas dominados pela empresa.



“Eles podem pensar que vou fazer o tipo usual de filme de  Horror, que obtém renda imediata, provoca risos e é esquecido depressa. Mas resolvi enganá-los. Podem combater-me o tempo todo; entretanto, vou realizar o tipo de filme de Suspense que aprecio.”
Val Lewton




Ao invés das surradas histórias de vampiros, lobisomens e monstros criados por cientistas querendo ser Deus, Val Lewton optou por narrativas relacionadas com algum medo ou superstição universal, sempre procurando obter a expressão cinematográfica do terror por meio da sugestão e pelo uso de elipses – em seus filmes, o horror é muito mais sugerido do que mostrado, mediante o uso de luzes e  sombras (para isso, contou, na maioria de suas fitas, com o talento de um notável diretor de fotografia, Nicholas Musuraca) e o uso dramático de sons, silêncios e ecos. As histórias que levou às telas são dramatizações da psicologia do medo. E os nove filmes de Horror que produziu na RKO formam, como bem disse o crítico Carlos Fonseca no opúsculo Val Lewton (Rio de Janeiro, INC, 1969, p. 5), “a mais extraordinária coleção de horror da história do Cinema”, o que o torna o Edgar Allan Poe do Cinema.
De acordo com o roteirista DeWitt Bodeen (3), “Val Lewton supervisionava cada detalhe da produção de seus filmes. Desenhistas de cena, encarregados do vestuário e da maquiagem, todos aprendiam que a rotina não satisfazia o produtor. Lewton exigia (...) o melhor (...) de cada departamento”. E o extremo cuidado que Val Lewton dedicava à produção de seus filmes pode ser comprovado quando se assiste, por exemplo à ultima fita de Horror que produziu na RKO: Asilo Sinistro (Bedlam), cujas filmagens foram realizadas entre 18 de julho e 17 de agosto de 1945 [a estréia ocorreu nos cinemas norte-americanos em abril de 1946 (4)]
Roteirizado por Val Lewton (5) e Mark Robson (6), que se inspiraram em “The Madhouse” (7), uma gravura do pintor e gravador inglês William Hogarth (1697-1764), Asilo Sinistro tem como cenário Londres e mostra como os loucos eram tratados no asilo de St. Mary’s Bethlehem, nos primeiros anos da segunda metade do século 18. Naquela época, a loucura era considerada um flagelo divino; e os que sofriam desse mal eram desprezados, ridicularizados, maltratados, torturados e atirados em manicômios imundos e escuros. É nesse ambiente asfixiante que, ao lado da figura do supervisor do hospício, o sádico e ambicioso Sims (magnificamente interpretado por Boris Karloff, que um ano antes, em O Túmulo Vazio/The Body Snatcher, filme também produzido por Val Lewton e baseado numa história de Robert Louis Stevenson, havia encarnado soberbamente um cruel e cínico ladrão de túmulos), aparecem: o rico e obeso lord Mortimer, um pobre de espírito e hipócrita que acha que o dinheiro pode comprar tudo; Nell Bowen, uma jovem e bela atriz que acaba sendo internada em St. Mary’s, por haver afrontado Sims, humilhado publicamente lord Mortimer (até então, ele era seu mecenas) e ter sugerido que os loucos tivessem um tratamento menos desumano no asilo; e o quaker William Hannay, uma das poucas pessoas dispostas a ajudar Nell a sair do hospício. Com esses quatro personagens principais, desenvolve-se o drama, numa atmosfera cada vez mais tensa e sombria.
Asilo Sinistro impressiona pela sua linguagem cinematográfica extremamente apurada. Cada cena do filme parece um quadro. É uma fita de imagens.
Abre um parêntese.
Na minha opinião, as imagens são o mais importante numa fita (devo lembrar que são as imagens que permanecem na mente do espectador, após o término do filme). Não canso de repetir: o Cinema é a arte da expressão pela imagem. O Cinema é essencialmente a arte de criar belas imagens. No entanto, poucos cineastas compreenderam isso. Um deles foi o russo Sergei Eisenstein (1898-1948), pois cada cena de Alexandre Nevski (1938), por exemplo, é um quadro. Certa vez, lembrando-me justamente de Alexandre Nevski, falei para um pretenso diretor: “O verdadeiro cineasta deve criar cada cena de seu filme como se fosse um quadro.” O sujeito, então, olhou-me espantado, como se eu tivesse acabado de dizer um despautério. Também eu não poderia esperar outra reação, já que ele só assistia – e certamente deve ainda assistir – a filmes como Rocky, Rambo, O Exterminador do Futuro... É um fanático por atores com expressão de bobo e dicção parecida com a de um ser mecânico.
Agora, completando meu pensamento: no Cinema, não importa muito o que vai ser contado, e sim a forma como isso vai ser contado.
Fecha o parêntese.
Dentre as cenas que impressionam em Asilo Sinistro, podem ser destacadas:
1 – A de Sims mostrando para Nell o interior de St. Mary’s Bethlehem, que mais parece uma câmara de horrores (8);
2 – A do alienado que, personificando a Razão, durante um espetáculo criado por Sims para divertir lord Mortimer e seus convidados (um desses convidados é Nell), termina morrendo por asfixia, já que seu corpo foi todo pintado com tinta dourada [no filme 007 Contra Goldfinger (Goldfinger, 1964; direção de Guy Hamilton), há uma cena semelhante: como castigo por haver se envolvido com James Bond, Jill Masterson, a secretária do vilão Auric Goldfinger morre com o corpo inteiro pintado de dourado];
3 – A de Hannay visitando às escondidas o hospício, para ver Nell (em determinado momento, no clímax da cena, os dementes tentam agarrá-lo, colocando as mãos para fora de suas celas);
4 – A dos doidos julgando Sims, que, desesperado, se defende, falando: “Eu nunca pretendi magoá-los. Nunca pretendi acorrentar ninguém, torturar ninguém. (...) Já lhes disse porque fiz isso. Porque precisava (...). Eu tinha medo. (...) Tinha medo deste grande mundo, do grande mundo dos homens (...), da pouca riqueza que obtive. O que este mundo acha... eu também acho. O que eles fazem... eu também faço. O que eu sei de nada vale! Tive que aceitar, curvar-me, reduzir-me à nulidade, para evitar ter que ouvir o mundo rir-se de mim (...);
5 – A de Sims sendo emparedado vivo, depois de ter sido ferido (mortalmente?) por um dos loucos. Ao ver essa cena, lembrei-me imediatamente do final de um dos contos mais famosos de Edgar Allan Poe (1809-1849), “O Barril de Amontillado” (“The Cask of Amontillado”, 1846), em que Fortunato é emparedado vivo na adega de seu rival, Montresor.
Asilo Sinistro impressiona não só pela sua linguagem cinematográfica extremamente apurada; mas também por seus diálogos amargos, irônicos e cultos. E, na maior parte desses diálogos, os personagens revelam seu desprezo pelos loucos e os desafortunados, como pode ser comprovado por essa conversa de Nell com Hannay, quando a atriz conhece o quaker, na frente do hospício:

Hannay: Vi quando bateu em Sims. Não devia ter feito isso.
Nell: Crê que eu tenha medo dele? Acha que possa me prejudicar?
Hannay: Não temo pela senhorita. É pelos que estão internados aí que eu receio. Sims vai fazê-los pagar caro aquele golpe.
Nell: E quem lhe deu licença para me chamar a atenção? Nem sequer eu conheço o senhor.
(o empregado de Nell informa-a de que Hannay é um quaker)
Hannay: Meu nome é William Hannay. Sou da Sociedade de Amigos.
Nell: Já ouvi falar. Sempre dão a outra face.
Hannay: Ser quaker não é apenas voltar a outra face e tratar a todos como iguais. É sentir piedade pelos que estão lá dentro. Como a senhorita.
Nell: Acha que bati nele porque senti pena dos alienados?
Hannay: Vi isso em seu rosto.
Nell: Pena? Não conheço tal sentimento, senhor. Bati em um homem porque tive vontade. Porque ele é uma coisa feia num mundo bonito.
Hannay: Quanta coisa feia neste mundo bonito! Tem que mudar!
Nell: Senhor quaker, quando vim ao mundo, não usava veludo.
Hannay: Já imaginava. E, embora haja gente como a senhorita, que enfrenta o cansaço de uma vida dura com espírito e inteligência, há milhares que não podem.
Nell: Não sinto piedade deles! Que façam como eu!
Hannay: E os internados? Será que poderão se cuidar?
Nell: Não sinto pena deles tampouco! São animais sem alma!
Hannay: Isso não é verdade.
Nell: Acha que não? Pois vá a Vauxhall hoje, às oito horas da noite, e irá ver-me rindo desses loucos que julga que eu lamento.
Hannay: Não conseguirá rir desses pobres infelizes. Não creio. Tenho visto grandes damas que tinham corações de pedra e, entretanto...
Nell: O meu é de pederneira, senhor. Às vezes, solta faíscas, mas não chega a se aquecer. Não tenho tempo para demonstrar amor e fraternidade pelos meus semelhantes.

Asilo Sinistro impressiona ainda pelos seus planos invulgares; pela perfeição dos cenários, que, tal qual acontecera nas demais fitas produzidas por Val Lewton na RKO, foram de outros filmes [o asilo, por exemplo, era a igreja de Os Sinos de Santa Maria (The Bells of St. Mary, 1945; direção de Leo McCarey)]; pela intercalação de gravuras de Hogarth com as seqüências, comentando-as ou funcionando como símbolos; pela interpretação magistral de Anna Lee, no papel de Nell, uma mulher de mente sã que, de repente, tem de conviver com pessoas insanas; pela atuação de Elizabeth Russell (9), que interpretou a sobrinha de Sims, uma jovem vulgar, sem cultura, amante da bebida e que se torna a nova protegida de lord Mortimer; pela fotografia expressionista de Nicholas Musuraca; pela música estritamente funcional de Roy Webb...
Apesar de ter sido pouco apreciado pelos chefões da RKO, Asilo Sinistro é a prova cabal de que, para fazer um bom filme, não é necessário muito dinheiro, e sim muita imaginação e uma equipe de pessoas talentosas.



NOTAS:

(1) Nos estúdios de David O. Selznick, Val Lewton era editor de roteiros.

(2) Cada um desses filmes deveria ter um custo máximo de 150 mil dólares. Asilo Sinistro foi a única fita em que esse custo foi elevado para 350 mil dólares.

(3) DeWitt Bodeen foi o autor do roteiro de Sangue de Pantera (Cat People, 1942; direção de Jacques Tourneur), o filme que deu início à série de fitas de Horror produzidas por Val Lewton na RKO.

(4) De acordo com algumas fontes, Asilo Sinistro estreou nos cinemas dos Estados Unidos em 10 de maio de 1946. Porém, acredito que o filme tenha estreado em abril de 1946, como afirma o pesquisador Joel E. Siegel (ver o livro Val Lewton: The Reality of Terror, Londres, Secker & Warburg/British Film Institute, 1972, pp. 81 e 160).

(5) Val Lewton assinou o roteiro de Asilo Sinistro com o pseudônimo de Carlos Keith.

(6) Mark Robson participou da equipe de produção de sete dos nove filmes de Horror que Val Lewton produziu na RKO. Em três [Sangue de Pantera, A Morta-Viva (I Walked with a Zombie, 1943; direção de Jacques Tourneur) e O Homem-Leopardo (The Leopard Man, 1943; direção de Jacques Tourneur)], como montador; e, em quatro [A Sétima Vítima (The Seventh Victim, 1943), O Fantasma dos Mares (The Ghost Ship, 1943), A Ilha dos Mortos (Isle of the Dead, 1945) e Asilo Sinistro], como diretor.

(7) Essa gravura, a oitava de uma série intitulada The Rake’s Progress (A Carreira do Libertino, numa tradução literal), foi feita em 1735 e pertence atualmente ao acervo do Soane’s Museum, de Londres.

(8) Inicialmente, Val Lewton deu a Asilo Sinistro o título de Chamber of Horrors, ou seja, Câmara de Horrores. Depois, decidiu intitulá-lo A Tale of Bedlam; e, por fim, Bedlam.
Uma informação adicional: Bedlam é uma abreviação de Bethlehem.


(9) Elizabeth Russel, que Joel E. Siegel chamou de “a atriz quintessencial de Val Lewton” (Val Lewton: The Reality of Terror, p. 103), já havia desempenhado um papel curto e marcante em Sangue de Pantera: o de uma mulher-pantera.



Asilo Sinistro (Bedlam, 1946, 79')
Produção: Val Lewton
Direção: Mark Robson
Roteiro: Carlos Keith (pseudônimo de Val Lewton) & Mark Robson
Fotografia: Nicholas Musuraca
Direção de Arte: Albert S. D’Agostino & Walter E. Keller
Música: Roy Webb
Elenco: Boris Karloff, Anna Lee, Billy House, Richard Fraser, Glenn Vernon, Ian Wolfe, Jason Robards Sr., Leland Hodgson, Joan Newton, Elizabeth Russell, Robert Clarke, Skelton Knaggs, Donna Lee, Frankie Dee



Este texto foi transcrito do livro (inédito) Os Filmes de Val Lewton, de Rubens Francisco Lucchetti



Rubens Francisco Lucchetti é ficcionista e roteirista de Cinema e Quadrinhos